Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 48 de 214

Páginas do PDF

Os filhos dos dias

Capítulo 23

Dia da Água

De água somos.

Da água brotou a vida. Os rios são o sangue que nutre a terra, e são feitas de água as células que nos pensam, as lágrimas que nos choram e a memória que nos recorda.

A memória nos conta que os desertos de hoje foram os bosques de ontem, e que o mundo seco foi mundo molhado, naqueles remotos tempos em que a água e a terra eram de ninguém e eram de todos.

Quem ficou com a água? O macaco que tinha o garrote. O macaco desarmado morreu de uma garrotada. Se não me engano, assim começava o filme 2001, Uma odisseia no espaço.

Algum tempo depois, no ano de 2009, uma nave espacial descobriu que existe água na Lua. A notícia apressou os planos de conquista.

Pobre Lua.

 

23

 

Por que massacramos os índios

No ano de 1982 o general Efraín Ríos Montt derrubou outro general, através de rasteira certeira, e se proclamou presidente da Guatemala.

Um ano e meio depois, o presidente, pastor da Igreja do Verbo, com sede na Califórnia, se atribuiu a vitória na guerra santa que exterminou quatrocentas e quarenta comunidades indígenas.

De acordo com o que ele disse, essa façanha não teria sido possível sem a ajuda do Espírito Santo, que dirigia seus serviços de inteligência. Outro importante colaborador, seu assessor espiritual Francisco Bianchi, explicou a um correspondente do The New York Times: