Os filhos dos dias
Capítulo 19
Nem a morte o salvou. Continuou sendo espionado. Já não pelo FBI, mas pelos seus colegas, os homens da ciência, que cortaram seu cérebro em duzentos e quarenta pedacinhos e analisaram um por um, à procura da explicação de seu gênio.
Não encontraram nada.
Einstein bem que tinha avisado:
– A única coisa de anormal que tenho é a minha curiosidade.
19
Os filhos das nuvens
Em 1987, o reino do Marrocos terminou a construção do muro que atravessa o deserto do Saara, de norte a sul, em terras que não lhe pertencem.
Esse é o muro mais extenso do mundo, superado apenas pela antiga muralha da China. Ao longo do muro, milhares de soldados marroquinos fecham a passagem dos saaráuis rumo à sua pátria usurpada.
Várias vezes, todas em vão, as Nações Unidas confirmaram o direito de autodeterminação do povo saaráui e apoiaram um plebiscito: que a população do Saara ocidental decida seu destino.
Mas o reino do Marrocos se negou e continua se negando. Essa negativa equivale a uma confissão. Negando o direito ao voto, o Marrocos confessa que roubou um país.
Há quarenta anos, os saaráuis esperam. Estão condenados à pena de angústia perpétua e de perpétua nostalgia. Eles se chamam filhos das nuvens, porque perseguem desde sempre a chuva. Também perseguem a justiça, mais esquiva que a água no deserto.