Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 201 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 8

No ano de 1633, mais dia, menos dias, nasceu Gregório de Matos, o poeta que melhor sabia debochar do Brasil colonial.

Em 1969, em plena ditadura militar, o comandante da sexta região denunciou seus poemas, que dormiam o sono dos justos fazia três séculos na biblioteca da Secretaria de Cultura da cidade de São Salvador da Bahia, como sendo subversivos, e os atirou na fogueira.

Em 1984, num país vizinho, a ditadura militar do Paraguai proibiu uma peça que ia estrear no teatro Arlequín, por se tratar de um panfleto contra a ordem, a disciplina, o soldado e a lei. Fazia vinte e quatro séculos que a peça, As troianas, havia sido escrita por Eurípides.

 

8

 

A arte dos neurônios

Em 1906, Santiago Ramón y Cajal recebeu o prêmio Nobel de Medicina.

Ele quis ser pintor.

Seu pai não deixou, e ele não teve outro remédio a não ser se transformar no cientista espanhol mais importante de todos os tempos.

Se vingou desenhando o que descobria. Suas paisagens do cérebro competiam com Miró, com Klee:

– O jardim da neurologia oferece emoções artísticas incomparáveis – costumava dizer.

Ele desfrutava explorando os mistérios do sistema nervoso, e mais ainda desfrutava desenhando-os.

E mais ainda, ainda mais, desfrutava dizendo a viva voz o que pensava, sabendo que isso iria lhe produzir mais inimigos que amigos.

Às vezes, perguntava, surpreso: