Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 30 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 21

Nunca entendeu por que havia preços diferentes. Todos viajavam da mesma forma, os que pagavam mais e os que pagavam menos: apertados uns contra os outros, mordendo pó, sacudidos pelo incessante sacolejar.

Nunca entendeu, até que num dia de inverno a carroça encalhou no barro. E então o manda-chuva ordenou:

– Os da primeira classe, que fiquem onde estão!

– Os de segunda, que desçam!

– E os de terceira, que empurrem!

 

21

 

O mundo encolhe

Hoje é o dia das línguas maternas.

A cada duas semanas, morre um idioma.

O mundo diminui quando perde seus humanos dizeres, da mesma forma que encolhe quando perde a diversidade de suas plantas e bichos.

Em 1974, morreu Ângela Loij, uma das últimas indígenas onas da Terra do Fogo, lá no fim do mundo; e a última que falava a sua língua.

Ângela cantava sozinha, cantava para ninguém, nessa língua que ninguém mais lembrava:

Vou andando pelas pegadas

daqueles que já se foram.

Estou perdida.

Nos tempos idos, os onas adoravam vários deuses. O deus supremo se chamava Pemaulk.

Pemaulk significa palavra.