Os filhos dos dias
Capítulo 21
Nunca entendeu por que havia preços diferentes. Todos viajavam da mesma forma, os que pagavam mais e os que pagavam menos: apertados uns contra os outros, mordendo pó, sacudidos pelo incessante sacolejar.
Nunca entendeu, até que num dia de inverno a carroça encalhou no barro. E então o manda-chuva ordenou:
– Os da primeira classe, que fiquem onde estão!
– Os de segunda, que desçam!
– E os de terceira, que empurrem!
21
O mundo encolhe
Hoje é o dia das línguas maternas.
A cada duas semanas, morre um idioma.
O mundo diminui quando perde seus humanos dizeres, da mesma forma que encolhe quando perde a diversidade de suas plantas e bichos.
Em 1974, morreu Ângela Loij, uma das últimas indígenas onas da Terra do Fogo, lá no fim do mundo; e a última que falava a sua língua.
Ângela cantava sozinha, cantava para ninguém, nessa língua que ninguém mais lembrava:
Vou andando pelas pegadas
daqueles que já se foram.
Estou perdida.
Nos tempos idos, os onas adoravam vários deuses. O deus supremo se chamava Pemaulk.
Pemaulk significa palavra.