Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 74 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 5

Enquanto a noite durar

Em 1937 morreu, aos vinte e seis anos, Noel Rosa.

Esse músico da noite do Rio de Janeiro, que em vida só conheceu a praia por fotografias, escreveu e cantou sambas nos bares da cidade que os canta até hoje.

Num desses bares um amigo o encontrou, na noturna hora das dez da manhã.

Noel cantarolava uma canção recém-parida.

Na mesa havia duas garrafas. Uma de cerveja e outra de cachaça.

O amigo sabia que a tuberculose estava matando Noel Rosa. Noel adivinhou a preocupação em seu rosto, e sentiu-se obrigado a dar uma lição sobre as propriedades nutritivas da cerveja. Apontando a garrafa, sentenciou:

– Isso aqui alimenta mais que um prato de boa comida.

O amigo, não muito convencido, apontou a garrafa de aguardente:

– E isso aqui?

E Noel explicou:

– É que não tem a menor graça comer sem ter uma coisinha para acompanhar.

 

5

 

Cantando, amaldiçoo

Em 1932, Noel Rosa gravou o samba Quem dá mais?, abreviada história de um país que tinha sido posto em leilão:

Quanto é que vai ganhar o leiloeiro

que é também brasileiro

e em três lotes vendeu o Brasil inteiro?