Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 157 de 214

Páginas do PDF

Os filhos dos dias

Capítulo 27

Paleontólogo desde a infância, era ainda menino quando, lá por 1865, armou seu primeiro gigante pré-histórico num povoado da província de Buenos Aires. Num dia como hoje emergiu carregado de ossos, do fundo de uma cova profunda, e na rua foi colocando mandíbulas, vértebras, cadeiras...

– É um monstro da época mesozoica – explicou aos vizinhos. – Muito antigo. Vocês nem imaginam.

E às suas costas dona Valentina, a açougueira, não conseguiu segurar o riso:

– Mas meu filho... São ossos de raposa!

E eram.

Isso não o desanimou.

Ao longo de sua vida reuniu sessenta mil ossos de nove mil animais extintos, reais ou imaginários, e escreveu dezenove mil páginas que valeram a ele a medalha de ouro e o diploma de honra da Exposição Universal de Paris.

 

27

 

Pompas fúnebres

Durante as onze presidências de Antonio López de Santa Anna, o México perdeu metade do seu território e o presidente perdeu uma perna.

Meio México foi almoçado pelo vizinho do norte, após algumas batalhas e a troco de quinze milhões de dólares, e a perna, caída em combate, foi enterrada no dia de hoje de 1842, com honras militares, no cemitério Santa Paula.

O presidente, chamado de Herói, Águia, Benemérito, Guerreiro Imortal, Pai da Pátria, Alteza Sereníssima, Napoleão do Oeste e César Mexicano, vivia numa mansão em Xalapa que mais parecia um palácio de Versalhes.

O presidente havia trazido de Paris todos os móveis e os enfeites e os enfeitinhos. No dormitório tinha um enorme espelho, curvilíneo, que melhorava quem se contemplava nele. Cada manhã, ao despertar, ele parava na frente do espelho mágico que devolvia a imagem de um cavalheiro alto e elegante. E honesto.