Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 13 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 22

Talvez se tratasse de algo mais que isso. Talvez houvesse algo mais nesse ritual das ondas. Afinal, aqueles primitivos acreditavam que a água, mãe de todas as vidas, era sagrada, mas não se ajoelhavam nem se inclinavam diante de sua divindade. Sobre o mar caminhavam, em comunhão com sua energia.

Três semanas mais tarde, Cook foi apunhalado por aqueles caminhantes da água. O generoso navegante, que havia dado a Austrália de presente à coroa britânica, ficou na vontade de dar o Havaí.

 

22

 

A mudança de um reino

Neste dia de janeiro de 1808, chegaram à costa do Brasil, sem pão e sem água, os extenuados navios que dois meses antes haviam partido de Lisboa.

Napoleão pisoteava o mapa da Europa, e já estava atravessando a fronteira de Portugal quando se desatou a correria: a corte portuguesa, obrigada a mudar de domicílio, marchava rumo ao trópico.

A rainha Maria encabeçou a mudança. E atrás dela foram o príncipe e os duques, condes, viscondes, marqueses e barões, com as perucas e as roupas faustosas que mais tarde foram herdadas pelo carnaval do Rio de Janeiro. E atrás, amontoados no desespero, vinham sacerdotes e chefes militares, cortesãs, costureiras, médicos, juízes, tabeliães, barbeiros, escrivães, sapateiros, jardineiros...

A rainha Maria não andava lá muito boa da cabeça, para não dizer que estava louca de pedra, mas foi ela que pronunciou a única frase lúcida que se ouviu no meio daquele manicômio:

– Não corram tanto, que vai parecer que estamos fugindo!