Corações na Atlântida
Capítulo 9
Deus, o que eles haviam feito com sua mãe?
Don Biderman saiu do canto a frente dela, ele havia encontrado um atalho.
Os outros estavam atrás dele. Agora o pau do Sr. Biderman estava ereto do
jeito que o de Bobby icava de manhã antes de ele sair da cama e ir ao banheiro. Só que o pau do Sr.
Biderman era enorme, parecia um kraken, um trí ide, um monstro, e
Bobby achou que havia entendido o sangue nas pernas de sua mãe. Ele
não queria, mas achou que entendia.
Deixe-a em paz! Ele tentou gritar para o Sr. Biderman. Deixe-a em paz, já não fez o bastante?
O olho rubro no gibão amarelo do Sr. Biderman subitamente se abriu mais ainda. . e deslizou para um lado. Bobby estava invisível, seu corpo estava um mundo abaixo do redemoinho do pião. . mas o olho rubro o viu. O olho
rubro via tudo.
– Matem a porca, bebam o sangue. – O Sr. Biderman disse uma grossa,
quase irreconhecível voz, e começou a avançar.
– Matem a porca, bebam o sangue. – Bill Cushman e Curtis Dean se
juntaram ao coro.
Levante-se, mãe! Corra! Não deixe que a peguem!
Ela tentou. Mas mesmo quando ela tentou icar de pé, Biderman saltou na
direção dela. Os outros seguiram, se aproximando, e quando suas mãos
começaram a rasgar os restos de suas roupas de seu corpo, Bobby pensou:
Eu quero sair daqui, eu quero voltar para o pião do meu próprio mundo, faça com que pare e gire para o outro lado para que eu possa voltar para o pião do meu próprio quarto em meu próprio mundo. .
Exceto que não era um pião, e mesmo quando as imagens do sonho
começaram a se estilhaçar e escurecer, Bobby soube disso. Não era um
pião, mas uma torre, um eixo ereto pela qual toda a existência se movia e girava. Então ela desapareceu e por um momento houve um
misericordioso vazio. Quando ele abriu os olhos, seu quarto estava cheio da
luz do sol, luz do sol do verão em uma manhã de Quinta-Feira no último Junho da Presidência de Eisenhower.
9
Quinta-Feira Feia.
Uma coisa você podia dizer sobre Ted Brautigan: ele sabia como cozinhar.
O café-da-manhã que ele colocou na frente de Bobby, ovos mexidos,
torradas, bacon crocante, era muito melhor do que qualquer coisa que sua
mãe já havia feito para o café-da-manhã (a especialidade dela eram
grandes panquecas sem gosto que ambos afogavam no xarope da Tia Jenima), e tão bom quanto qualquer coisa que você poderia pedir no Café
Colony ou em Harwich. O único problema era que Bobby não estava com
apetite. Ele não conseguia lembrar os detalhes de seu sonho, mas ele sabia
que havia sido um pesadelo, e que ele havia chorado em algum ponto dele
(quando acordara, seu travesseiro estava úmido). Ainda assim, o sonho
não era a única razão pela qual ele se sentia triste e deprimido nesta manhã; sonhos, a inal de contas, não eram reais. A fuga de Ted, isso sim seria. E seria para sempre.
– Você vai embora depois que for ao Canto do Bolso? – Bobby perguntou
enquanto Ted se sentava com ele com seu próprio prato de ovos e bacon. –
Você vai, não vai?
– Sim, será mais seguro. – Ele começou a comer, mas lentamente e sem
aparente satisfação. Então ele estava se sentindo mal também. Bobby icou
feliz. – Eu direi à sua mãe que meu irmão em Illinois está doente. É tudo que ela precisa saber.
– Você vai tomar o Grande Cão Cinzento?
Ted sorriu brevemente.
– O trem provavelmente. Eu faço mais o tipo afortunado, lembra.
– Qual trem?
– É melhor se você não souber dos detalhes, Bobby. Não pode contar o que
não sabe. Ou ser forçado a contar.
Bobby pensou nisso brevemente, e então perguntou:
– Você vai se lembrar de mandar os cartões postais?
Ted pegou um pedaço de bacon, e então o posou novamente.
– Cartões postais, montes de cartões postais. Eu prometo. Agora, vamos
parar de falar sobre isso.
– Sobre o que deveríamos falar, então?
Ted pensou sobre isso, então sorriu. Seu sorriso era doce e aberto; quando ele sorriu, Bobby pôde ver o que devia ter sido os seus vinte anos, e sua força.
– Livros, é claro. – Ted disse. – Vamos falar sobre livros.
***
Aquele seria um dia quente e sufocante, isso icou claro lá pelas nove
horas.
Bobby ajudou com os pratos, secando e guardando, e então sentaram na
sala de estar, onde o ventilador de Ted fez seu melhor para circular o já cansado ar, e eles falaram sobre livros. . ou melhor, Ted falou sobre livros.
E nesta manhã, sem a distração da luta entre Albini e Haywood, Bobby
ouviu famintamente. Ele não entendeu tudo o que Ted dizia, mas ele
entendeu o su iciente para perceber que os livros faziam seu próprio
mundo, e que a Biblioteca Pública de Harwich não era um. A biblioteca não
era nada, mas um portal para aquele mundo.
Ted falou de William Golding e o que ele chamava de “fantasia distópica”, então seguiram para A Máquina do Tempo de H.G. Wells, sugerindo uma ligação entre os Morlocks e os Eloi e Jack e Ralph na ilha de Golding; ele falou sobre o que ele chamava de “únicas desculpas da literatura”, o que ele disse que signi icava explorar perguntas sobre inocência e experiência,
bem e o mal. Próximo ao im desta palestra improvisada, ele mencionou
uma novela chamada O Exorcista, que lidava com ambas estas questões (“no contexto popular”), e então parou abruptamente. Ele balançou a
cabeça para clarear.
– O que houve? – Bobby tomou um gole do refresco. Ele ainda não gostava
muito dele, mas era a única bebida leve na geladeira. Além disso, estava gelado.
– No que eu estava pensando? – Ted passou a mão sobre sua testa, como se subitamente houvesse desenvolvido uma dor de cabeça. – Esse livro
ainda não foi escrito.
– O que quer dizer?
– Nada. Estou falando bobagens. Por que não vai passear um pouco?
Esticar as pernas? Eu acho que vou me deitar um pouco. Não dormi muito
bem na noite passada.
– Tudo bem. – Bobby achou que um pouco de ar fresco, mesmo sendo um
ar fresco quente, poderia fazer bem a ele. E embora fosse interessante
escutar Ted falar, ele começou a se perguntar se as paredes do
apartamento estavam se fechando nele. Era lembrar de que Ted estava
para zarpar, Bobby supôs. Agora aí estava uma triste e pequena rima para
você: se lembrar de que ele estava para zarpar.
Por um momento, enquanto ele voltar ao seu quarto para pegar sua luva
de beisebol, o chaveiro do Canto do Bolso passou por sua cabeça, ele iria dar para Carol para que ela soubesse que eles estavam irmes. Então ele
se lembrou de Harry Doolin, Richie O’Meara e Willie Shearman. Eles
estavam lá fora em algum lugar, com certeza estavam, e se eles o pegassem
sozinho, eles provavelmente o arrebentariam. Pela primeira vez em dois ou
três dias, Bobby achou-se desejando que Sully estivesse ali.
Sully era uma criança como ele, mas ele era durão. Doolin e seus amigos poderiam bater nele, mas Sully-John os faria pagar pelo privilégio. Mas S-J
estava no acampamento, e era assim que a coisa era.
Bobby nunca pensou em icar, ele não podia se esconder durante todo o
verão de tipos como Willie Shearman, isso seria loucura, mas enquanto ele
saia ele lembrou a si mesmo de que deveria ter cuidado, teria que estar com um olho na rua e o outro atrás da cabeça. Enquanto ele pudesse vê-los
se aproximarem, não haveria problema.
Com os rapazes do St. Gabe em sua cabeça, Bobby saiu do 149 sem
qualquer pensamento sobre o chaveiro, sua lembrancinha especial do
submundo. Ele ainda estava no armário do banheiro, próximo ao copo de
vidro, exatamente onde ele havia deixado na noite anterior.
***
Ele caminhou por toda Harwich, ao que pareceu, da Broad Street até o
Parque Commonwealth (não havia rapazes do St. Gabe no Campo C hoje; o
time da Legião Americana estava lá, treinando rebatidas e espantando
moscas sob o sol quente), do parque à praça, da praça à estação
ferroviária. Enquanto estava na recente banca em um quiosque sob a passarela da ferrovia, olhando para os livros de capa mole (Sr. Burton, o dono do lugar, deixaria você olhar por um tempo, contanto que você não
tocasse no que ele chamava de “mercadorria”, o apito da cidade foi
acionado, assustando ambos.
– Santa mãe de Deus, mas o que foi isso? – o Sr. Burton perguntou
indignado.
Ele havia deixado cair pacotes de chiclete por todo o chão, e agora se ajoelhava para catá-los, seu avental cinzento pendendo. – Não é nem onze
e meia ainda!
– É cedo mesmo. – Bobby concordou, e deixou a banca logo depois. Ver as
novidades havia perdido seu encanto para ele. Ele andou pela a Avenida
River, parando na padaria Tip-Top para comprar metade de um pão de ontem (dois centavos) e para perguntar a Georgie Sullivan como S-J estava.
– Ele está bem. – disse o irmão mais velho de S-J. – Recebemos um cartão
postal na Terça-Feira, ele diz que está com saudade da família e que quer
vir para casa.
Recebemos um na Quarta-Feira onde ele diz que está aprendendo a nadar.
O desta manhã dizia que ele está tendo o melhor momento de sua vida. –
ele riu, um grande garoto irlandês com grandes braços e ombros
irlandeses. – Pode ser que ele queira icar pra sempre, mas mamãe
sentiria saudades dele se ele ficasse por lá. Você vai alimentar alguns patos
com um pouco disso?
– É, como sempre.
– Não deixe que mordam seus dedos. Aqueles malditos patos do rio
carregam doenças. Eles. .
Na praça da cidade, o relógio do Prédio Municipal começou a badalar como
se fosse meio-dia, embora ainda faltasse um quarto de hora para isso.
– O que está acontecendo hoje? – Georgie perguntou. – Primeiro o apito soa
cedo, agora o maldito relógio está desregulado.
– Talvez seja o calor. – Bobby disse.
Georgie olhou para ele sem acreditar muito.
– Bem. . é uma explicação tão boa quanto qualquer outra.
É, Bobby pensou, saindo. E uma bem mais segura do que outras.
***
Bobby desceu a Avenida River, mastigando seu pão enquanto andava.
Quando achou um banco próximo ao Rio Housatonic, a maior parte do pão
já havia desaparecido pela sua garganta. Os patos vieram rebolando avidamente dos arbustos e Bobby começou a espalhar as migalhas para
eles, sempre impressionado com o jeito voraz com que corriam para as
migalhas e com o jeito com que jogavam as cabeças para trás para comê-
las.
Depois de um tempo ele começou a icar sonolento. Ele observou o rio,
para as redes de luzes brilhantes re letidas na super ície, e icou ainda mais sonolento. Ele havia dormido na noite passada, mas o sono não havia
sido agradável. Ele começou a cochilar com as mãos cheias de migalhas de
pão. Os patos haviam terminado com o que havia na grama e começavam a
se aproxima dele, grasnando em baixas e ruminantes notas. O relógio da
praça badalou duas horas quando era na verdade doze e vinte, fazendo as
pessoas no centro balançarem a cabeça e perguntarem uns aos outros, o
que diabos estava acontecendo. O cochilo de Bobby aumentou seu grau, e
quando uma sobra caiu sobre ele, ele não a viu nem a sentiu.
– Ei. Garoto.
A voz era quieta e intensa. Bobby sentou-se com um sobressalto, suas
mãos se abrindo e espalhando o restante do pão. As cobras começaram a
se movimentar dentro de sua barriga novamente. Não era Willie
Shearman, ou Richie O’Meara, ou Harry Doolin o acordando, ele sabia
disso, mas Bobby quase desejou que fosse um deles. Até mesmo todos os
três. Uma sova não era o pior que lhe poderia acontecer. Não, não era o pior. Caramba, mas por que ele tinha que ter caído no sono?
– Garoto.
Devagar e fazendo barulho ao fazê-lo, Bobby se virou. O casaco do homem seria amarelo e em algum lugar nele haveria um olho, um olho rubro que
espreitava.
Mas o homem que estava lá de pé vestia um terno de verão, salientado por uma barriguinha que começava a se tornar um barrigão, e Bobby então
percebeu que ele não era um deles, a inal. Não havia coceira atrás dos olhos, nem manchas negras em seu campo de visão. . mas a coisa mais
importante era que essa não era uma criatura ingindo ser uma pessoa; era uma pessoa.
– O que é? – Bobby perguntou, sua voz era baixa e enfadonha. Ele ainda não conseguia acreditar que havia caído no sono, que havia apagado
daquele jeito. – O que você quer?
– Te dou duas pratas se me deixar te chupar. – o homem de terno disse.
Ele pôs a mão no bolso do terno e tirou a carteira. – Podemos ir atrás daquela árvore lá atrás.
Ninguém nos verá. E você vai gostar.
– Não. – Bobby disse, se levantando. Ele não tinha total certeza do que o homem de terno estava falando, mas ele tinha uma boa idéia. Os patos
recuaram, mas o pão era muito tentador para resistir, e eles voltaram,
brincando e dançando ao redor dos tênis de Bobby. – Eu tenho que ir para
casa agora. Minha mãe. .
O homem se aproximou, ainda segurando a carteira. Era como se ele
houvesse decidido dar tudo para Bobby, que esquecesse as duas pratas.
– Você não tem que fazer em mim, eu faço em você. Vamos, o que diz?
Aumento para três dólares. – a voz do homem tremia agora, subindo e
descendo uma escala, em um momento parecia rir, no outro quase chorar.
– Você pode ir ao cinema por um mês com três dólares.
– Não, realmente, eu. .
– Você vai gostar, todos os meus garotos gostam. – ele avançou para Bobby
e subitamente Bobby pensou em Ted segurando-o pelos ombros, Ted
colocando as mãos atrás do seu pescoço, Ted o aproximando, até que estivessem quase pertos o su iciente para se beijarem. Mas isso não era
igual. . e ao mesmo tempo era. De algum modo era.
Sem pensar no que fazia, Bobby se abaixou e pegou um dos patos. Ele o ergueu em um grasnado surpreso enquanto agitava o bico, asas e as patas,
ele teve um vislumbre de um olho negro como pérola, e então o jogou
contra o homem de terno. O
homem gritou e ergueu as mãos para proteger o rosto, deixando a carteira
cair.
Bobby correu.
***
Ele atravessava a praça, voltando para casa, quando viu um cartaz preso a
um poste telefônico do lado de fora de uma loja de doces. Ele andou até ele
e o leu em silêncio, aterrorizado. Ele não conseguia lembrar-se do sonho da
noite anterior, mas algo como isto estivera nele. Ele tinha certeza.
VOCÊ VIU BRAUTIGAN!
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Lar da FAMÍLIA SAGAMORE!
Este não é um bom dia, Bobby pensou, vendo sua mão arrancar o cartaz do
poste telefônico. Além dele, pendendo em uma lâmpada da marquise do
Cinema Harwich, ele viu um io azul de pipa. Este não é um bom dia mesmo. Eu nunca deveria ter saído do apartamento. Na verdade, eu
deveria ter ficado na cama.
HOusitonic 5-8337, que nem o cartaz sobre Phil, o Corgi Galês. . exceto que
se houvesse um posto de achados e perdidos HOusitonic em Harwich,
Bobby nunca havia ouvido falar dela. Alguns números havia no posto de
Harwich. Outros em Commonwealth. Mas HOusitonic? Não. Não lá, nem
mesmo em Bridgeport.
Ele amassou o cartaz em o jogou na lixeira no canto que dizia MANTENHA
NOSSA CIDADE LIMPA E VERDE, mas do outro lado da rua ele achou outro
exatamente igual. Mais adiante ele achou um terceiro perto de uma caixa
de correio na esquina. Ele os rasgou também. Os homens maus ou estavam
se aproximando, ou estavam desesperados. Talvez ambos. Ted não poderia
sair o dia todo, Bobby teria que contar a ele. E ele teria que estar pronto para correr. Ele contaria isso também.
Bobby cortou caminho pelo parque, quase tropeçando na pressa para
chegar em casa, e ele mal ouviu o pequeno, grito arfante que veio de sua esquerda enquanto ele passava pelos campos de beisebol:
– Bobby. .
Ele parou e olhou através da alameda de árvores para onde Carol o havia
levado no dia anterior quando ele começou a chorar. E quando o grito veio
novamente, ele percebeu que era ela.
– Bobby se é você, por favor, me ajude. .
Ele virou no caminho de cimento e foi até o pequeno bosque. O que ele viu
lá o fez largar a luva de beisebol no chão. Era um modelo Alvin Dark, aquela luva, e mais tarde ela havia desaparecido. Alguém viera até ali e a roubara, ele supôs, mas e daí?
Enquanto o dia prosseguia, sua luva de beisebol era a menor de suas
preocupações.
Carol estava sentada na mesma árvore em que ela o havia confortado. Seus
joelhos estavam juntos do peito. Seu rosto estava cinza. Círculos negros
circundavam seus olhos, a fazendo parecer um guaxinim. Um ilete de
sangue saia de uma de suas narinas. Seu braço esquerdo jazia em seu
diafragma, esticando sua camisa contra as pequenas saliências que se
tornariam seios em um ou dois anos. Ela segurava o cotovelo daquele
braço em uma mão.
Ela vestia shorts e uma blusa feminina de mangas longas e babados, o tipo
de coisa que penetrava em sua cabeça. Mais tarde, Bobby iria pôr a maior
parte da culpa naquela estúpida blusa dela. Ela devia estar usando-a para
se proteger de queimaduras do sol; era a única razão em que ele podia
pensar sobre usar mangas longas em um dia tão quente. Ela que havia
escolhido, ou havia sido a Sra. Gerber que a forçara a usá-la?
Isso importava? Sim, Bobby pensaria quando haveria tempo. Importava,
pode apostar que importava.
Mas por agora, a blusa de mangas compridas era uma coisa periférica. A
única coisa que ele notou no primeiro instante foi a parte superior do
braço esquerdo de Carol.
Parecia que havia não um, mas dois ombros.
– Bobby. – Ela disse, olhando para eles, com olhos brilhantes e ofuscados.
– Eles me machucaram.
Ela estava em choque, é claro. Ele mesmo estava em choque, funcionando
apenas por instinto. Ele tentou pegá-la, mas ela gritou de dor, meu Deus, que som.
– Eu vou correr e arranjar ajuda. – ele disse, repousando suas costas. –
Fique aqui e tente não se mover.
Ela balança a cabeça, com cuidado para não sacudir o braço. Seus olhos
azuis estavam quase negros de dor e terror.
– Não, Bobby, não, não me deixe aqui, e se eles voltarem? E se voltarem e
me machucarem mais? – Partes do que aconteceu naquela longa e quente Quinta-Feira estiveram perdidas para ele, perdidas em um choque de
ondas, mas esta parte sempre esteve clara: Carol olhando para ele e
dizendo E se voltarem e me machucarem mais?
– Mas. . Carol. .
– Eu posso andar. Se você me ajudar, eu posso andar.
Bobby tentou passar um braço ao redor da cintura dela, esperando que ela
não gritasse novamente. Isso seria ruim.
Carol lentamente se ergueu, usando o tronco da árvore para servir de
apoio. Seu braço esquerdo se moveu enquanto o fazia. Aquele grotesco
ombro duplo inchou e flexionou. Ela gemeu, mas não gritou, graças a Deus.
– É melhor parar. – Bobby disse.
– Não, eu quero sair daqui. Ajude-me. Oh, Deus, como dói.
Assim que ela se levantou de vez, pareceu melhorar. Eles saíram da
alameda lentamente, lado a lado, com uma solenidade de um casal que
estaria para se casar.
Além das sombras das árvores, o dia pareceu ainda mais quente do que
antes, e tão brilhante que poderia cegar. Bobby olhou em volta e não viu ninguém. Em algum lugar, dentro do parque, um bando de garotos
(provavelmente os Pardais ou os Pintarroxos do Clube Sterling) estava
cantando uma canção, mas a área dos campos de beisebol estava deserta:
sem crianças, sem mães levando seus bebês em carrinhos, nem havia sinal
do O icial Raymer, o policial local que às vezes te comprava um sorvete ou um pacote de amendoins se estivesse de bom humor. Todos estavam em
suas casas, se escondendo do calor.
Ainda movendo-se lentamente, Bobby com o braço em volta da cintura de
Carol, andaram pelo caminho que saia da esquina da Commonwealth com a
Broad. A ladeira da Broad Street estava tão deserta quanto o parque; o
pavimento cintilava como o ar sobre um incinerador. Não havia um único
pedestre ou carro à vista.
Eles subiram na calçada e Bobby estava para perguntar se ela conseguiria atravessar a rua quando Carol disse em voz alta e sussurrante:
– Oh, Bobby, estou desmaiando.
Ele olhou para ela alarmado e viu seus olhos rolarem e icarem totalmente
brancos. Ela balançou para frente e para trás como uma árvore que
houvesse sido cortada quase totalmente. Bobby inclinou-se, movendo-se
sem pensar, pegando-a pela cintura e costas enquanto seus joelhos cediam.
Ele estivera bem ao lado dela e conseguiu fazê-lo sem machucar seu braço
esquerdo mais do que já estava; também, mesmo desmaiada, Carol
manteve sua mão direita sobre seu cotovelo esquerdo, segurando o braço
quase firmemente.
Carol Gerber era da altura de Bobby, talvez um pouco mais alta, e próxima
de seu peso. Ele deveria ser incapaz de mesmo cambalear com ela em seus
braços pela Broad Street, mas as pessoas em choque são capazes de
incríveis explosões de força.
Bobby a carregou, sem cambalear; sob aquele queimante sol de Junho ele
correu.
Ninguém o parou, ninguém o perguntou o que havia de errado com aquela
garotinha, ninguém ofereceu ajuda. Ele podia ouvir carros na Avenida Asher, mas esta parte do mundo pareceu assustadora como Midwich, onde
todos haviam caído no sono de uma vez.
Levar Carol até a mãe dela nunca passou por sua cabeça. O apartamento
dos Gerber era lá em cima da ladeira, mas esse não era o motivo. Ted era
tudo em que Bobby podia pensar. Ele tinha que levá-la a Ted. Ted saberia
o que fazer.
Sua força sobrenatural começou a desaparecer enquanto ele escalava os
degraus da varanda de seu prédio. Ele cambaleou, e o grotesco ombro
duplo de Carol bateu na grade. Ela enrijeceu em seus braços e chorou,
seus olhos semicerrados agora se abrindo.
– Quase lá. – ele disse a ela em um sussurro que não soou muito parecido
com sua própria voz. – Quase lá, desculpe por bater seu ombro, mas
estamos quase. .
A porta se abriu e Ted saiu. Ele estava vestindo uma calça cinza e uma camisa sem mangas. Suspensórios desciam até os joelhos em laços. Ele
pareceu surpreso e preocupado, mas não assustado.
Bobby conseguiu subir o último degrau e então balançou para trás. Por um
terrível momento ele achou que iria desabar, talvez rachar a cabeça na
calçada de cimento. Então Ted o segurou e o deixou firme.
– Dê ela para mim.
– Passe para o outro lado dela primeiro. – Bobby ofegou. Seus braços
tremiam como cordas de violão e seus ombros pareciam estar em chamas.
– Esse é o lado machucado.
Ted aproximou e icou próximo a Bobby. Carol olhava para ambos, seu
cabelo loiro pendendo sob os pulsos de Bobby.
– Eles me machucaram. – ela sussurrou para Ted. – Willie. . Eu pedi para que ele os fizesse parar, mas ele não fez nada.
– Não fale. – Ted disse. – Você vai ficar bem.
Ele a tomou de Bobby do modo mais gentil que pôde, mas não puderam
evitar que o braço esquerdo dela balançasse um pouco. O ombro duplo
moveu-se sob a blusa branca. Carol gemeu, e começou a chorar. Sangue
fresco saia de sua narina direita, uma gota vermelha e brilhante caiu em sua pele. Bobby teve um clarão momentâneo de seu sonho da noite
passada: o olho. O olho rubro.
– Segure a porta para mim, Bobby.
Bobby a segurou aberta. Ted carregou Carol pela entrada até o
apartamento dos Gar ield. Ao mesmo tempo, Liz Gar ield descia os degraus
de ferro que levavam à parada de Harwich de Nova York, New Haven, e a
Ferrovia Hartford até a Main Street, onde havia um táxi esperando. Ela
caminhou com uma ponderação vaga de um inválido crônico. Uma mala
pendia em cada mão. Aconteceu que o Sr. Burton, proprietário da banca no
quiosque, estava na entrada dela, fumando um cigarro. Ele assistiu Liz
descer os degraus, afastar o véu de seu pequeno chapéu, e tocar
levemente seu rosto com um lencinho. Ela fez uma careta a cada toque. Ela
estava usando maquiagem, um monte dela, mas a maquiagem não ajudava.
A maquiagem apenas chamava mais atenção pelo que havia acontecido a
ela. O véu estava melhor, embora ele apenas cobrisse a parte superior de
seu rosto, e então ela o abaixou novamente. Ela se aproximou do primeiro
dos três táxis vagos, e o motorista saiu para ajudá-la com as malas.
Burton icou pensando em quem havia feito aquilo com ela. Ele esperou
que quem quer que houvesse sido, que neste momento estivesse
recebendo uma massagem craniana de algum policial parrudo com um cassetete grosso. Uma pessoa que izera algo como aquilo em uma mulher
não mereceria menos. Uma pessoa que faria algo como aquilo para uma
mulher não deveria ficar a solta. Essa era a opinião de Burton.
***
Bobby achou que Ted colocaria Carol no sofá, mas ele não o fez. Havia uma
cadeira reta na sala de estar e foi nela onde ele sentou, segurando-a no colo. Ele a segurou do mesmo modo que o Papai Noel fazia com as crianças,
na loja de departamentos do Grant, que vinham para pedir para sentar
com ele no trono.
– Onde mais você está machucada? Além do ombro?
– Eles me bateram no estômago. E do lado.
– Qual lado?
– O direito.
Ted gentilmente levantou sua blusa naquele lado. Bobby soltou o ar sob
seu lábio inferior quando viu o hematoma que corriam diagonalmente
pelas suas costelas.
Ele reconheceu o formato de um bastão de beisebol no mesmo instante. Ele
sabia a quem pertencia aquele bastão: Harry Doolin, o marginal
espinhento que se via como Robin Hood em alguma louca fantasia de sua
imaginação. Ele, Richie O’Meara e Willie Shearman haviam encontrado-a no
parque, e Harry havia trabalhado nela com seu bastão, enquanto Richie e
Willie a seguravam. Todos os três riam e a chamavam de Bebê Gerber.
Talvez houvesse sido isso que havia começado a piada e então a coisa
icara fora de controle. Não havia sido exatamente isso que acontecera em O Senhor das Moscas? As coisas ficaram um pouco fora de controle?
Ted tocou a cintura de Carol; seus dedos retorcidos se espalharam e então lentamente deslizaram até seu lado. Ele fez isso com a cabeça inclinada, como se estivesse ouvindo ao invés de tocando. Talvez estivesse. Carol
arfou quando ele alcançou o hematoma.
– Dói? – ele perguntou.
– Um pouco. Não tanto como meu om-ombro. Eles quebraram meu braço,
não quebraram?
– Não, eu acho que não. – Ted respondeu.
– Eu o ouvi estalar. E eles também. Foi aí que fugiram.
– Tenho certeza de que ouviu. Sim, de fato.
Lágrimas escorriam sobre suas bochechas e seu rosto ainda estava
acinzentado, mas Carol parecia mais calma agora. Ted segurou a blusa dela
até sua axila e olhou para o hematoma. Ele sabe o que isso signi ica tanto quanto eu, Bobby pensou.
– Quantos havia lá, Carol?
Três. Bobby pensou.
– Tr-três.
– Três garotos?
Ela assentiu.
– Três garotos contra uma garotinha. Eles devem ter icado com medo de
você.
Eles devem ter achado que você era uma leoa. Você é uma leoa, Carol?
– Eu queria ser. – Carol disse. Ela tentou sorri. – Eu queria ter podido rugir
e fazê-los fugir. Eles me m-m-machucaram.
– Eu sei que sim. Eu sei. – Sua mão deslizou pelo lado dela e ele a colocou em forma de concha no hematoma de suas costelas. – Respire.
O hematoma inchou contra a mão de Ted; Bobby podia ver a forma
púrpura entre seus dedos manchados de nicotina.
– Isso dói?
Ela balançou a cabeça.
– Não dói respirar?
– Não.
– E quando suas costelas vão contra minha mão?
– Nada. Só belisca. O que dói é. . – ela olhou rapidamente para a terrível forma de seu ombro duplo, e então olhou para o outro lado.
– Eu sei. Pobre Carol. Pobre querida. Vamos chegar nessa parte. Aonde
mais eles te bateram. No estômago, você disse?
– Sim.
Ted subiu a blusa na frente. Havia outro hematoma, mas este não pareceu
tão fundo ou violento. Ele passou a mão nele gentilmente, primeiro acima do umbigo e então abaixo dele. Ela disse que não havia dor como em seus
ombros, que sua barriga estava apenas dolorida como suas costelas.
– Eles não te bateram nas costas?
– N-não.
– E na sua cabeça e pescoço?
– Não, só do meu lado e meu estômago, então eles me bateram no ombro e
então aconteceu o estalo, eles o ouviram e fugiram. Eu achava que Willie Shearman era legal. – ela deu a Ted um olhar lastimável.
– Vire a cabeça para mim, Carol. . bom. . agora do outro lado. Não dói quando você vira?
– Não.
– E tem certeza de que nunca bateram em sua cabeça.
– Não. Digo, sim. Tenho certeza.
– Garota sortuda.
Bobby icou imaginando como diabos Ted poderia achar que Carol era
sortuda.
O braço dela não parecia só estar quebrado; parecia estar destruído pela metade. De repente ele pensou em galinha assada. O jantar de Domingo, e o som que a coxa de galinha fazia quando você a quebrava. Seu estômago
deu um nó. Por um momento achou que iria vomitar seu café-da-manhã e
seu pão de ontem que havia sido seu almoço.
Não, ele disse a si mesmo. Agora não, você não pode. Ted já tem problemas demais sem te adicionar na lista.
– Bobby? – a voz de Ted era clara e a iada. Ele soou como um cara com mais soluções do que problemas, e ele estava aliviado por isso. – Você está
bem?
– Sim. – e ele achou que era verdade. Seu estômago começara a se
aquietar.
– Bom. Você fez bem em trazê-la para cá. Pode me ajudar mais um pouco?
– Sim.
– Eu preciso de uma tesoura. Pode me achar uma?
Bobby foi até o quarto de sua mãe, abriu a gaveta mais alta de seu guarda-
roupa, e tirou a cesta de costura dela. Dentro dela havia uma tesoura de tamanho médio. Ele correu de volta para a sala de estar e a mostrou para
Ted.
– Esta serve?
– É ótima. – ele disse, a pegando. – Eu vou cortar sua blusa, Carol. Me
desculpe, mas eu tenho que olhar o seu ombro e eu não quero te machucar mais do que posso te ajudar.
– Tudo bem. – ela disse, e novamente tentou sorrir. Bobby estava um
pouco admirado com a bravura dela; se o ombro dele estivesse parecido com aquilo ele provavelmente estaria se debatendo como uma ovelha
presa no arame farpado.
– Você pode usar uma das camisetas de Bobby. Não pode, Bobby?
– Claro, eu não me importo com alguns piolhos.
– Engraçadinho. – Carol disse.
Trabalhando cuidadosamente, Ted cortou a blusa nas costas e na frente.
Com isso feito ele puxou os dois pedaços como uma casca de ovo. Ele tomou
muito cuidado do lado esquerdo, mas Carol soltou um grito quando os
dedos de Ted roçaram em seu ombro. Bobby pulou e seu coração, que já
estava tranqüilo, começou uma nova corrida.
– Me desculpe. – Ted murmurou. Minha nossa. Olhe para isto.
O ombro de Carol estava feio, mas não tão ruim quanto Bobby havia
temido, talvez algumas coisas fossem enquanto você as encara. O segundo
ombro estava maior do que o normal, e a pele estava tão esticada que
Bobby não entendeu como ela não rasgou. A pele também havia adquirido
uma peculiar coloração lilás.
– É muito ruim? – Carol perguntou. Ela olhava para a outra direção, através
da sala. Seu rosto tinha aquele faminto olhar de uma criança da UNICEF.
Enquanto Bobby observava, ela nunca olhou novamente para seu ombro
ferido depois daquele pequeno susto. – Eu vou icar no hospital o verão
todo, não é?
– Eu não acho que você vai para um hospital.
Carol olhou para o rosto de Ted, admirada.
– Não está quebrado, criança, apenas deslocado. Alguém te acertou no
ombro. .
– Harry Doolin. .
– . .forte o bastante para arrancar o osso superior de seu braço esquerdo de seu encaixe. Eu posso colocá-lo de volta, eu acho. Você agüenta um ou dois momentos de dor se souber que as coisas vão melhorar depois?
– Sim. – ela disse de uma vez. – Conserte, Sr. Brautigan. Por favor, conserte.
Bobby olhou para ele um pouco intrigado.
– Você realmente pode fazer isso?
– Sim. Dê-me seu cinto?
– Hein?
– Seu cinto. Dê ele para mim.
Bobby tirou um cinto, um quase novo que ele havia ganhado no Natal, das
calças e o entregou a Ted, que o pegou sem nem tirar os olhos de Carol.
– Qual é o seu último nome, docinho?
– Gerber. Eles me chamaram de Bebê Gerber, mas eu não sou um bebê.
– Tenho certeza de que não é. E é aqui onde você vai prová-lo. – ele icou de pé, a colocou na cadeira, então se ajoelhou perante ela como um cara em algum ilme antigo, pronto para pedir alguém em casamento. Ele
enrolou o cinto de Bobby duas vezes em suas grandes mãos, então a
cutucou na mão boa até que ela soltasse o cotovelo e fechasse a mão por sobre a fivela. – Ótimo. Agora o coloque na boca.
– Colocar o cinto de Bobby na minha boca. – o olhar de Ted nunca a deixou.
Ele começou a afagar o braço bom dela, do cotovelo ao punho. Seus dedos
percorrendo o antebraço. . parando. . subindo e então descendo de volta
até o cotovelo. . percorrendo novamente seu antebraço. É como se ele a estivesse hipnotizando, Bobby pensou, mas não havia nada de “como” sobre
isso; Ted estava a hipnotizando. Suas pupilas começaram a fazer aquela
coisa esquisita novamente, crescendo e diminuindo. .
crescendo e diminuindo. . crescendo e diminuindo. Seus movimentos e os
movimentos dos dedos estavam exatamente no mesmo ritmo. Carol olhou para seu rosto, seus lábios entreabertos.
– Ted. . seus olhos. .
– Sim, sim. – ele soou impaciente, não muito interessado no que seus olhos
faziam. – A dor sobe, Carol, você sabia disso?
– Não. .
Os olhos dela estavam nos dele. Seus dedos estavam no braço dela,
subindo e descendo. Subindo. . e descendo. As pupilas dele como uma vaga
batida de coração.
Bobby conseguia ver Carol relaxando na cadeira. Ela ainda segurava o
cinto, e quando Ted parou de alisá-la longo o bastante para tocar as costas
da mão dela, ela a levantou até o rosto sem protestar.
– Oh, sim. – ele disse. – A dor sobe de sua origem até o cérebro. Quando eu
colocar seu ombro de volta ao encaixe, vai haver muita dor, mas você vai pegar a maior parte dela na sua boca enquanto ela sobe ao seu cérebro.
Você vai mordê-lo com os dentes e segurá-la contra o cinto de Bobby, para
que apenas um pouco dela possa entrar na sua cabeça, que é onde as
coisas mais doem. Você me entende, Carol?
– Sim. . – sua voz crescia distante. Ela parecia muito pequena sentada lá naquela cadeira reta, vestindo apenas os shorts e os tênis. As pupilas dos olhos de Ted, Bobby percebeu, estavam fixos novamente.
– Ponha o cinto na boca.
Ela o colocou entre os lábios.
– Morda quando doer.
– Quando doer.
– Apanhe a dor.
– Eu a apanharei.
Ted deu uma última alisada com seu grande dedo indicador do cotovelo dela até o pulso, então olhou para Bobby.
– Deseje-me sorte. – ele disse.
– Sorte. – Bobby respondeu ansioso.
Distante, sonhando, Carol Gerber disse: Bobby jogou um pato em um
homem.
– Ele jogou? – Ted perguntou. Muito, muito gentilmente ele fechou a mão esquerda ao redor do pulso esquerdo de Carol.
– Bobby achou que era um homem mau.
Ted olhou para Bobby.
– Não esse tipo de homem mau. – Bobby disse. – Apenas. . oh, esquece.
– Não importa. – Ted disse. – Eles estão muito próximos. O relógio da
cidade, o apito. .
– Eu ouvi. – Bobby disse severamente.
– Eu não vou esperar sua mãe voltar hoje a noite, eu não me atrevo. Eu vou
gastar o dia no cinema, parque, ou qualquer outro lugar. Se tudo isso
falhar, existem albergues em Bridgeport. Carol, está pronta?
– Pronta.
– Quando a dor subir, o que você fará?
– Vou apanhá-la. Mordê-la no cinto de Bobby.
– Boa menina. Dez segundos e você estará se sentindo bem melhor.
Ted inspirou profundamente. Então, então ergueu a mão direita acima do
calombo lilás no ombro de Carol.
– Aí vem a dor, querida. Seja corajosa.
Não foram dez segundos; nem mesmo cinco. Para Bobby pareceu acontecer em um instante. O centro da mão direita de Ted pressionou
diretamente contra o calombo que esticava a pele de Carol. Ao mesmo
tempo ele puxou bruscamente o pulso. A mandíbula de Carol lexionou
enquanto ela mordia o cinto de Bobby. Bobby ouviu um breve som de
rangido, como aquele que seu pescoço fazia às vezes quando estava rígido
e ele o movimentava para os lados. E então o calombo no ombro de Carol havia desaparecido.
– Bingo! – Ted vibrou. – Parece bom! Carol?
Ela abriu a boca. O cinto de Bobby soltou-se dela e caiu em seu colo. Bobby viu uma linha de pequenos furos gravados no couro; ela quase havia o
atravessado.
– Não dói mais. – ela disse admirada. Ela pôs a mão direita aonde a pele agora adquiria uma coloração roxa escura, tocou o hematoma, e fez uma
careta.
– Isso vai icar assim por mais ou menos uma semana. – Ted a avisou. – E
você não deve jogar ou levantar com esse braço por pelo menos duas
semanas. – Se o fizer, pode deslocá-lo novamente.
– Eu tomarei cuidado. – Agora Carol olhava para o braço. Ela continuava a
tocar cuidadosamente o machucado com os dedos, testando.
– Quanta dor conseguiu apanhar? – Ted perguntou, e embora seu rosto
estivesse sério, Bobby achou que pôde captar um pequeno sorriso em sua
voz.
– A maior parte dela. – ela disse. – Nem doeu muito pra falar a verdade. –
Entretanto, no momento em que essas palavras foram proferidas, ela caiu
de volta na cadeira. Seus olhos estavam abertos, mas desfocados. Carol
havia desmaiado pela segunda vez.
***
Ted disse a Bobby para trazer uma roupa molhada e trazer para ele.
– Água fria. – ele disse. – Torça ela, mas não demais.
Bobby correu até o banheiro, pegou uma toalha de rosto acima da
banheira, e a molhou com água fria. A metade inferior da janela do
banheiro estava fosca, mas se ele tivesse olhado pela metade superior,
teria visto sua mãe descer do táxi. Bobby não olhou; ele estava
concentrado em sua tarefa. Ele nunca pensou no chaveiro verde,
tampouco, embora estivesse ali no armário da direita em frente a ele.
Quando Bobby voltou à sala de estar, Ted estava sentado na cadeira reta com Carol no colo novamente. Bobby percebeu como icaram bronzeados
os braços dela em comparação ao resto de sua pele, que era de um puro e
macio branco (exceto onde estavam os hematomas). Ela parece estar
usando meias de náilon nos braços, ele pensou, um pouco impressionado.
Seus olhos começaram a clarear e eles seguiram Bobby quando ele
avançou para ela, mas Carol não parecia exatamente boa, seu cabelo
estava bagunçado, seu rosto totalmente suado, e havia uma linha seca de
sangue entre a narina e o canto da boca.
Ted pegou a toalha e começou a passar em suas bochechas e testa. Bobby
ajoelhou-se icando do lado da cadeira, Carol sentou um pouco, levantando
seu rosto agradecido contra o frio e o molhado. Ted limpou o sangue sob seu nariz, então pôs a toalha na mesinha ao lado. Ele tirou os cabelos suados de Carol de seu cenho. Quando alguns deles voltaram, ele moveu a
mão para tirá-los de lá novamente.
Mas antes que ele pudesse fazê-lo, a porta da varanda abriu. Sons de
passos cruzaram a entrada. A mão na úmida testa de Carol congelou. Os
olhos de Bobby encontraram os de Ted e um único pensamento passou
entre ele, uma telepatia forte que consistia em uma única palavra: Eles.
– Não. – Carol disse. Não eles, Bobby, é a sua m. .
A porta do apartamento abriu e Liz apareceu com a chave em uma mão e
seu chapéu, aquele com o véu, na outra. Atrás dela, e além da entrada, a porta para todo o mundo quente lá fora ainda estava aberta. Dos lados do
tapete de boas vindas da varanda estavam duas malas, onde o taxista as
havia colocado.
– Bobby, quantas vezes eu preciso te dizer para fechar esta maldita. .
Ela chegou até aí, então parou. Nos anos seguintes Bobby se lembraria deste momento de novo e de novo, vendo mais e mais do que sua mãe havia visto quando voltara de sua desastrosa viagem à Providence: seu
ilho de joelhos ao lado de uma cadeira onde um velho, de quem nunca
havia gostado ou realmente con iado, estava sentado com uma garotinha
no colo. A garotinha parecia entorpecida. Seu cabelo se juntava em alguns
montes suados. Sua blusa estava rasgada, repousava em pedaços no chão,
e mesmo com os olhos inchados quase fechados, Liz teria visto os
machucados de Carol: um no ombro, e outro no estômago.
E Carol, Bobby e Ted Brautigan a olharam com aquela mesma
incredulidade congelada? Os dois olhos negros (o olho direito de Liz não era nada senão um brilho profundo em uma massa inchada de carne
descolorida); o lábio inferior, que estava inchado e cortado em dois
lugares, cujas feridas apareciam como um velho batom horroroso; no nariz,
agora torto, havia surgido um gancho horrível, fazendo-a quase parecer
com a Bruxa Hazel da turma do Pernalonga.
Silêncio, um momento de considerável silêncio em uma tarde de verão. Em algum lugar, um carro engasgou. Em algum lugar uma criança gritou
“Vamos, galera! E
atrás deles na Colony Street veio o som que Bobby relacionaria com mais força à sua infância e àquela Quinta-Feira em particular: os latidos de
Bowser penetrando mais fundo no século vinte: uou-uou, uou-uou-uou.
Jack a pegou, Bobby pensou, Jack Merridew e seus amigos.
– Caramba, o que aconteceu? – ele perguntou, quebrando o silêncio. Ele
não queria saber; mas ele tinha que saber. Ele correu até ela, começando a
chorar por medo, e também por tristeza; o rosto dela, seu pobre rosto. Ela
não parecia com sua mãe, a inal. Ela parecia com uma velha que não
pertencia à Broad Street, mas ao submundo, onde as pessoas bebiam
vinhos em garrafas dentro de sacos de papel e não tinham sobrenomes. –
O que ele fez? O que aquele desgraçado fez com você?
Ela não prestou atenção, não pareceu nem mesmo ouvi-lo. Mas ela o
segurou, segurou seus ombros fortes o bastante para que ele sentisse seus
dedos cravando em sua carne, forte o bastante para doer. Ela o segurou e
então o colocou de lado sem um olhar sequer.
– Solte-a, seu sujo. – ela disse em uma voz baixa, mas áspera. – Solte-a, agora mesmo.
– Sra. Gar ield, por favor, não entenda mal. – Ted ergueu Carol de seu colo,
com cuidado mesmo agora, para manter suas mãos longe do ombro
machucado, e então se levantou. Ele sacudiu as pernas da calça, um
pequeno gesto nervoso que combinava totalmente com Ted. – Ela estava
machucada, entende. Bobby a achou.
– DESGRAÇADO! – Liz gritou. À sua direita estava uma mesa com um vaso nele. Ela pegou o vaso e o jogou nele. Ted abaixou, mas não rápido o
su iciente para evitá-lo; o fundo do vaso acertou o topo de sua cabeça, saltou como uma pedra jogada rapidamente na super ície de um lago,
acertou a parede e se estraçalhou.
Carol gritou.
– Mãe, não! – Bobby gritou. – Ele não fez nada de mau! Ele não fez nada de mau!
Liz não percebeu.
– Como se atreve a tocá-la? Você também esteve tocando meu filho assim?
Esteve, não esteve? Você não liga para o sabor deles, contanto que sejam jovens!
Ted deu um passo na direção dela. Os suspensórios soltos voavam para
frente e para trás ao lado de suas pernas. Bobby conseguia ver lores de sangue no escasso cabelo no topo de sua cabeça aonde o vaso tinha se
chocado.
– Sra. Garfield, eu lhe asseguro. .
– Assegure isso, seu tarado desgraçado ! – Com o vaso destruído e sem mais nada em cima da mesinha, ela pegou a própria mesinha e a lançou. Ela
acertou Ted no peito e o fez cambalear para trás; ele teria desabado se não
fosse pela cadeira reta. Ted caiu nela, olhando para ela com os olhos
abertos e incrédulos. Sua boca tremia.
– Ele estava te ajudando? – Liz perguntou. Sua face era de um branco
mortal. Os machucados permaneciam nela como marcas de nascença. –
Você ensinou meu filho a te ajudar?
– Mãe, ele não a machucou! – Bobby berrou. Ele a pegou pelo pulso. – Ele
não a machucou, ele. .
Ela o pegou como o vaso, como a mesa, e mais tarde ele pensaria que ela havia icado tão forte como ele, carregando Carol pela ladeira desde o
parque. Ela o jogou através da sala. Bobby bateu na parede. Sua cabeça foi
jogada para trás e acertou o relógio, derrubando-o no chão e o parando
para sempre. Pontos negros surgiram em sua visão, fazendo-o pensar
breve e confusamente (eles estão se aproximando, os cartazes agora têm o
nome dele) sobre os homens maus. Então ele deslizou para o chão. Ele
tentou parar a queda, mas seus joelhos não conseguiram se firmar.
Liz olhou para ele, sem parecer ter muito interesse, e então olhou de volta
para Ted, que sentava na cadeira reta com a mesa no colo e as pernas apontadas para seu rosto. Sangue saia de uma de suas bochechas agora, e
seu cabelo estava mais vermelho do que branco. Ele tentou falar e, ao invés
disso, o que saiu foi uma seca e falha tosse de um velho fumante.
– Homem sujo. Sujo, homem sujo. Por dois centavos eu abaixaria suas
calças e arrancaria seu troço fora. – ela se virou e olhou para seu confuso
ilho novamente, e a expressão que Bobby viu no único olho que ele
conseguia ver, o desprezo, a acusação, o fez chorar ainda mais. Ela não disse você também, mas ele viu nos olhos dela. Então ela se voltou para Ted.
– Sabe de uma coisa? Você vai para cadeia. – ela apontou um dedo para ele, e mesmo através de suas lágrimas Bobby viu que a unha que havia
estado lá quando ela havia viajado no Merc do Sr. Biderman havia
desaparecido; havia um vergão sangrento em seu lugar. Sua voz estava
lesada, parecendo se espalhar de algum modo ao passar por seu lábio
inferior desproporcional. – Eu vou chamar a policial agora. Se for esperto vai icar sentando enquanto o faço. Apenas ique calado e sentado. – Sua
voz estava crescendo. Suas mãos, arranhadas e inchada nas juntas, como
também quebrada nas unhas, se enrolaram em um punho que ela usou
para sacudir para ele. – Se você fugir, eu vou correr atrás e lhe cravar minha mais longa faca de cozinha. Veja se eu não faço.
Eu vou fazer bem no meio da rua para todos verem, e eu vou começar pela
parte de você que parece lhe dar. . aos seus meninos. . tanto problema.
Então ique sentado, Brattigan. Se você quiser continuar vivo para ir para a cadeia, fique parado.
O telefone estava na mesinha do sofá. Ela foi até ele. Ted icou sentado com
a mesinha em seu colo e o sangue escorrendo de sua bochecha. Bobby
ainda estava caído próximo ao relógio, o que sua mãe havia ganhado
trocando selos. Pela janela na brisa do ventilador de Ted, veio o lamento de
Bowser: uou-uou-uou.
– Você não sabe o que aconteceu aqui, Sra. Gar ield. O que aconteceu a você foi horrível e você tem toda minha simpatia. . mas o que aconteceu a você não é o que aconteceu a Carol.
– Cale a boca. – ela não estava ouvindo, nem mesmo olhou em sua direção.
Carol correu para Liz, e então parou. Seus olhos aumentaram em sua pele pálida.
Sua boca estava aberta.
– Eles tiraram seu vestido? – era um meio sussurro, meio gemido. Liz
parou de discar e lentamente olhou para ela. – Por que eles tiraram seu vestido?
Liz pareceu pensar em como responder. Ela pareceu pensar muito.
– Fique calada. – ela disse finalmente. – Apenas fique calada, ta?
– Por que eles te perseguiram? Quem estava batendo? – a voz de Carol
tornou-se desnivelada. – Quem estava batendo?
– Cale a boca! – Liz largou o telefone e levou as mãos aos ouvidos. Bobby olhou para ela com crescente horror.
Carol virou-se para ele. Lágrimas frescas escorriam por suas bochechas.
Havia conhecimento em seus olhos, conhecimento. Do tipo, Bobby pensou, que ele sentiu enquanto o Sr. McQuown havia tentado enganá-lo.
– Eles a perseguiram. – Carol disse. – Quando ela tentou fugir, eles a perseguiram e a obrigaram a voltar.
Bobby sabia. Eles a haviam perseguido pelo corredor do hotel. Ele havia
visto.
Ele não conseguia se lembrar onde, mas ele havia.
– Faça-os parar! Faça com que eu pare de ver! – Carol gritou . – Ela está batendo neles, mas ela não pode fugir! Ela está batendo neles, mas não pode
fugir!
Ted tirou a mesa do colo e lutou para ficar de pé. Seus olhos ardiam.
– Abrace-a, Carol! Abrace-a bem! Isso fará a coisa parar!
Carol jogou o braço bom ao redor da mãe de Bobby. Liz recuou um passo,
quase caindo quando um de seus sapatos enganchou na perna do sofá. Ela
icou de pé, mas o telefone caiu no tapete ao lado de um dos tênis largados de Bobby, provocando um zumbido alto.
Por um momento as coisas icaram assim, era como se estivessem
brincando de Estátua, e o telefone acabasse de gritar estátua! Foi Carol quem se moveu primeiro, soltando a cintura de Liz Gar ield e recuando.
Seus cabelos molhados estavam grudados em seus olhos. Ted avançou
para ela e a alcançou para pôr uma mão em seu ombro.
– Não toque nela. – Liz disse, mas ela falou mecanicamente, sem força. O
que quer que houvesse lampejado dentro dela ante a visão de uma criança no colo de Ted Brautigan havia sumido um pouco, ao menos
provisoriamente. Ela parecia exausta.
– Não obstante. – Ted deixou a mão cair. – Você tem razão. – ele disse.
Liz respirou fundo, segurou, e então expirou. Ela olhou para Bobby, e então
virou a cara. Bobby desejou com todo coração que ela viesse até ele, ajudá-
lo um pouco, ajudá-lo a se levantar, só isso, mas ela se virou para Carol.
Bobby se levantou sozinho.
– O que aconteceu aqui? – Liz perguntou a Carol.
Embora ela ainda estivesse chorando e suas palavras saíssem com
di iculdade enquanto ela lutava por ar. Carol contou a Bobby sobre os três
garotos grandes que a haviam achado no parque, e como no começo
pareceu apenas mais uma de suas brincadeiras, um pouco mais malvada
do que a maioria, mas ainda assim uma brincadeira. Então Harry havia
começado a bater nela enquanto os outros a seguravam.
O som do estalo em seu ombro os assustara e os izera fugir. Ela contou como Bobby a havia achado cinco ou dez minutos depois, ela não sabia
exatamente porque a dor era tão forte, e a havia carregado até aqui. E
como Ted havia consertado seu braço, depois de dar o cinto de Bobby para
ela apanhar a dor. Ela se inclinou, pegou o cinto, e mostrou a Liz as pequenas marcas de uma mordida em uma mistura de orgulho e
vergonha. – Eu não a apanhei toda, mas apanhei muito.
Liz apenas de uma olhada rápida ao cinto antes de se virar para Ted.
– Por que você rasgou a blusa dela, chefe?
– Não está rasgada! – Bobby protestou. Ele subitamente icou furioso com
ela. – Ele a cortou para que pudesse olhar para o ombro e consertá-lo sem
machucá-la! Eu trouxe a tesoura para ele, pelo amor de Deus! Por que você é tão estúpida, mãe? Por que não consegue ver. .
Ela oscilou sem se virar, pegando Bobby completamente de surpresa. As
costas de sua mão se conectaram com o lado de seu rosto; seu dedo
indicador atingiu seus olhos, mandando uma onda de dor para dentro de
sua cabeça. Suas lágrimas pararam como se a bomba que as controlasse
houvesse diminuído subitamente.
– Não me chame de estúpida, Bobby-O. – ela disse. – Nem mesmo em seus
sonhos mais adoráveis.
Carol olhava com medo para o nariz de gancho que havia voltado de táxi usando as roupas da Sra. Gar ield. A Sra. Gar ield que havia corrido e
lutado quando não podia correr mais. Mas no im eles haviam conseguido
dela o que queriam.
– Você não deveria bater em Bobby. – Carol disse. – Ele não é como esses
homens.
– Ele é o seu namorado? – ela riu. – É? Bom para você! Mas eu vou te contar um segredo, docinho, ele é igual ao pai, e seu pai, e o resto de deles.
Vá para o banheiro. Eu vou te limpar e achar algo para você vestir. Cristo, que bagunça!
Carol olhou para ela um momento mais, então se virou e foi ao banheiro.
Suas costas nuas pareciam pequenas e vulneráveis. E brancas. Tão
brancas no contraste de seus braços bronzeados.
– Carol. – Ted a chamou. – Está melhor agora? – Bobby não achou que ele
estivesse falando de seu braço. Não desta vez.
– Sim. – ela disse sem se virar. – Mas eu ainda posso ouvi-la, ao longe. Ela
está gritando.
– Quem está gritando? – Liz perguntou. Carol não respondeu a ela. Ela foi
ao banheiro e fechou a porta. Liz olhou para ela por um momento, para se certi icar de que Carol não iria deslocar o braço novamente, então se virou
para Ted. – Quem está gritando?
Ted apenas olhou para ela cautelosamente, como se esperasse outro
ataque de mísseis balísticos a qualquer instante.
Liz começou a sorrir. Era o sorriso que Bobby conheceu: seu sorriso eu-
estou-perdendo-a-paciência. Era possível que ainda havia mais para se
perder? Com seus olhos escuros, nariz quebrado, lábio ferido, o sorriso a fez parecer horrorosa: não sua mãe, mas alguma lunática.
– Mas que Bom Samaritano você é, não? Quantas apalpadas você deu
enquanto a consertava? Ela não tem muito, mas aposto que você checou o
quanto conseguiria, não é? Nunca perde uma oportunidade, certo? Vamos,
admita para a mamãe.
Bobby olhou para ela com crescente desespero. Carol havia lhe contado
tudo, toda a verdade, e não havia feito diferença alguma. Nenhuma
diferença! Deus!
– Há um adulto perigoso neste quarto. – Ted disse. – Mas não sou eu.
Ela pareceu primeiro não compreender, pareceu incrédula, e então furiosa.
– Como se atreve? Como se atreve?
– Ele não fez nada! – Bobby gritou. – Não ouviu o que Carol disse? Não. .
– Cale a sua boca. – ela disse sem olhar para ele. Ela apenas via Ted. – Os
tiras icarão muito interessados em você, eu acho. Don ligou de Hartford na
Sexta-Feira, antes de. . antes. Eu pedi para ele. Ele tem amigos lá. Você nunca trabalhou no Estado de Connecticut, nem como iscal de contas
públicas, nem em qualquer outro lugar. Você estava na cadeia, não estava?
– De certo modo, suponho que estava. – Ted disse. Ele pareceu mais calmo
agora, apesar do sangue escorrendo pelo lado de seu rosto. Ele tirou os cigarros do bolso de sua camisa, olhou para eles, e os devolveu ao seu lugar. – Mas não do modo que pensa.
E não neste mundo, Bobby pensou.
– E pelo que foi? – ela perguntou. – Por fazer menininhas se sentirem
melhor?
– Eu tenho algo de valor. – Ted disse. Ele levantou a mão e tocou a testa. O
dedo voltou pontilhado de sangue. – Existem outros como eu. E há pessoas
cujo trabalho é nos pegar, nos aprisionar, e nos usar para. . bem, nos usar,
deixe desse jeito. Eu e outros dois escapamos. Um foi pego, o outro foi morto. Apenas eu estou livre. Se, é isso. . – ele olhou em volta. – . . que você
chama de liberdade.
– Você está louco. Velho louco Brattigan, com o cérebro mais cheio de
besteiras do que um bolo de aniversário. Eu vou chamar a polícia. Vamos deixá-los decidir se vão te colocar de volta na cadeia da qual você escapou
ou no Sanatório de Danbury. – ela se inclinou para pegar o telefone caído.
– Não, mãe! – Bobby disse, e avançou para ela. – Não. .
– Bobby, não! – Ted disse vivamente.
Bobby recuou, olhando primeiro para sua mãe enquanto ela pegava o
telefone, e então para Ted.
– Não do jeito que ela está agora. – Ted lhe disse. – Enquanto ela está desse
jeito, não vai parar de morder.
Liz Gar ield deu a Ted um brilhante, quase indescritível sorriso ( boa tentativa, seu desgraçado), e tirou o telefone do gancho.
– O que está acontecendo? – Carol gritou do banheiro. – Posso sair agora?
– Ainda não, querida. – Ted respondeu. – Daqui a pouco.
Liz pôs os dedos nos buracos do discador para cima e para baixo. Ela
parou, ouviu, e pareceu estar satisfeita. Ela começou a discar.
– Vamos descobrir quem você é. – ela disse. Ela falou em um estranho e con iante tom. – Isso deverá ser bem interessante. E o que você fez. Deve ser mais interessante ainda.
– Se você ligar para a polícia, eles também saberão quem você é e o que você fez. – Ted disse.
Ela parou de discar e olhou para ele. Foi um olhar astuto que Bobby nunca
havia visto antes.
– Do que, em nome de Deus, você está falando?
– Uma mulher tola que deveria ter sabido escolher melhor. Uma mulher
tola que já havia visto o su iciente de seu chefe para icar mais esperta. .
que já havia ouvido ele e seus amigos o su iciente para icar mais esperta,
para saber que qualquer “seminário”
a que eles iriam só poderiam ser festas de diversão e sexo. Talvez de
maconha, também.
Uma mulher tola que deixou sua cobiça dominar seu bom senso. .
– O que você sabe sobre estar só? – ela chorou. – Eu tenho um ilho pra criar! – ela olhou para Bobby, como se lembrasse do ilho que tinha para criar pela primeira vez em tanto tempo.
– O quanto disso você quer que ele escute? – Ted perguntou.
– Você não sabe de nada. Você não pode.
– Eu sei de tudo. A pergunta é, quanto você quer Bobby saiba? Quanto quer que seus vizinhos saibam? Se a policia vier e me levar, eles saberão o
que eu sei, isso eu lhe prometo. – ele fez uma pausa. Suas pupilas
permaneceram irmes, mas seus olhos pareceram crescer. – Eu sei de
tudo. Acredita em mim. . não me teste.
– Do contrário você me machucaria?
– Se eu tivesse escolha, não o faria. Você já foi machucada o su iciente, por
si mesma e por outros. Deixe-me ir, é tudo que lhe peço. Eu ia embora de
qualquer forma.
Deixe-me ir. Tudo o que fiz foi tentar ajudar.
– Oh, é. – ela disse, e riu. – Ajudar. Ela estava sentada em você
praticamente nua. Ajudar.
– Eu te ajudaria se eu. .
– Oh, sim, e eu sei como. – ela riu novamente.
Bobby começou a falar e viu os olhos de Ted, avisando-o para não fazê-lo.
Atrás da porta do banheiro, água escorria pela pia. Liz abaixou a cabeça, pensando.
Finalmente a levantou novamente.
– Tudo bem. – ela disse. – É isso que vou fazer. Eu vou ajudar a
namoradinha de Bobby a se limpar. Eu vou lhe dar uma aspirina e achar algo que ela possa vestir até em casa. Enquanto eu faço isso, vou fazer a ela
algumas perguntas. Se as respostas forem as certas, você pode ir. Pode ir ao inferno se quiser.
– Mãe.
Liz levantou uma mão como um guarda de trânsito, o calando. Ela olhava
para Ted, que a encarava de volta.
– Eu vou levá-la para casa, vou vê-la entrar pela porta da frente. O que ela
decidir contar a mãe ica entre ambas. Meu trabalho é vê-la chegar em
casa segura, só isso. Quando estiver feito, eu vou até o parque e sentar à sombra por um instante. Eu tive uma noite di ícil ontem. – ela sugou o ar e
o deixou escapar em um suspiro seco e pesaroso. – Muito di ícil. Então eu vou ao parque sentar na sombra e pensar o que vem em seguida. Pensar
em como vou manter a mim e a ele fora da miséria. Se eu te encontrar aqui
quando voltar do parque, meu querido, eu vou chamar a polícia. . e você não me teste nisso. Diga o que quiser. Nada vai importar muito a qualquer
pessoa a quem eu disser que entrei no meu apartamento umas horas mais
cedo do que você esperava e te achei com uma mão dentro dos shorts de uma menina de onze anos.
Bobby olhou para sua mãe em silêncio, chocado. Ela não viu o olhar, ela ainda estava olhando para Ted, seus olhos inchados estavam ixados nele
intensamente.
– Se, por outro lado, eu voltar e você tiver desaparecido, junto com sua bagagem, eu não terei que chamar ninguém ou dizer qualquer coisa. Tout
finis.
Eu vou com você! Bobby pensou para Ted. Eu não me importo com os homens naus. Eu pre iro ter milhares de homens maus em casacos amarelos, um milhão, do que ter que continuar a viver com ela. Eu a odeio!
– Bem? – Liz perguntou.
– De acordo. Eu terei ido em uma hora. Provavelmente menos do que isso.
– Não. – Bobby protestou. Quando ele havia acordado esta manhã, ele já
estava conformado com a partida de Ted, triste, mas conformado. Agora
tudo estava doendo novamente. Pior do que antes. – Não!
– Fique quieto. – sua mãe disse, ainda sem olhar para ele.
– É o único jeito, Bobby. Você sabe disso. – Ted olhou para Liz. – Tome conta de Carol. Eu vou falar com Bobby.
– Você não está em posição de dar ordens. – Liz disse, mas foi. Enquanto cruzava a sala para o banheiro, Bobby viu que ela mancava. Um salto de um de seus sapatos havia quebrado, mas ele não achou que era a única
razão pela qual ela não conseguia andar direito. Ela bateu brevemente na
porta, e então, sem esperar por uma resposta, deslizou para dentro.
Bobby correu pelo quarto, mas quando ele tentou pôr os braços ao redor
de Ted, o velho pegou suas mãos, e as apertou brevemente, então as
colocou no peito de Bobby e as soltou.
– Me leve com você. – Bobby disse ferozmente. – Eu vou te ajudar a
procurar por eles. Dois pares de olhos são melhores do que um. Me leve com você!
– Não posso fazer isso, mas pode vir comigo até a cozinha, Bobby. Carol não
é a única que precisa ser limpa.
Ted levantou-se da cabeça e balançou nos pés por um momento. Bobby foi
até ele para segurá-lo, e Ted uma vez mais empurrou sua mão gentil, mas
firmemente.
Doía. Não tanto quanto sua mãe não o ajudando a se levantar (ou mesmo não olhando para ele), depois que ela o havia jogado contra a parede, mas
o bastante.
Ele caminhou com Ted até a cozinha, sem tocá-lo, mas perto o bastante
para segurá-lo se ele caísse. Ted não caiu. Ele olhou para o re lexo nublado
de si mesmo na janela acima da pia, suspirou, e então abriu a torneira. Ele
molhou o tecido e começou a limpar o sangue de sua bochecha, checando
seu reflexo na janela para ter uma referência.
– Sua mãe precisa de você mais do que nunca. – ele disse. – Ela precisa de
alguém que possa confiar.
– Ela não confia em mim. Eu nem mesmo acho que ela gosta de mim.
Ted comprimiu a boca, e Bobby entendeu que havia tropeçado em uma
verdade que Ted vira na mente de sua mãe. Bobby sabia que ela não
gostava dele, ele sabia disso, então por que as lágrimas ameaçavam sair novamente?
Ted foi até ele, então parecendo se lembrar de que era uma má idéia, e voltou a trabalhar com o tecido molhado.
– Tudo bem. – ele disse. – Talvez ela não goste de você. Se for verdade, não é por causa de qualquer coisa que você tenha feito. É por causa do que você é.
– Um menino. – ele disse amargamente. – Um maldito menino.
– E o ilho de seu pai, não se esqueça disso. Mas Bobby. . quer ela goste ou
não de você, ela te ama. Soa como um cartão de aniversário, eu sei, mas é
verdade. Ela te ama, e precisa de você. Você é tudo o que ela tem. Ela está
muito machucada agora. .
– Se machucar foi culpa dela! – ele explodiu. – Ela sabia que havia algo de
errado! Você mesmo disse! Ele soube disso por semanas! Meses! Mas ela não iria largar o emprego! Ela sabia, e ainda assim foi com eles para
Providence! Ela foi com eles mesmo assim!
– Um domador de leões sabe, mas ainda assim ele entra na jaula. Ele entra porque é lá que está seu pagamento.
– Ela tem dinheiro. – Bobby quase cuspiu.
– Não o bastante, aparentemente.
– Ela nunca terá o bastante. – Bobby disse, e ele soube que era verdade no
momento em que as palavras saíram de sua boca.
– Ela te ama!
– Eu não ligo! Eu não a amo!
– Mas você a ama sim. Você irá. Você deve. É o ka.
– Ka? O que é isso?
– Destino. – Ted já limpara a maior parte do sangue em seu cabelo. Ele desligou a água e deu uma última checada em sua imagem fantasmagórica
na janela. Além dela jazia todo aquele quente verão, mais novo do que Ted
Brautigan jamais seria novamente. Mais novo do que Bobby jamais seria
novamente também. – Ka é destino.
Você se importa comigo, Bobby?
– Você sabe que sim. – Bobby disse, começando a chorar novamente.
Ultimamente chorar parecia tudo o que ele sabia sair. Seus olhos doeram. –
Me importo muito.
– Então tente ser amigo de sua mãe. Por mim, se não por você mesmo.
Fique com ela e a ajude a se recuperar. E de agora em diante eu te
mandarei um cartão postal.
Eles estavam voltando para a sala de estar novamente. Bobby começava a
se sentir um pouco melhor, mas ele desejou que Ted pudesse pôr o braço
ao redor dele. Ele desejou isso mais do que tudo.
A porta do banheiro se abriu. Carol saiu primeiro, olhando para os
próprios pés em estranha timidez. Seu cabelo havia sido secado, penteado, e preso em um rabo de cavalo. Ela usava uma das velhas blusas da mãe de Bobby; era tão grande que quase chegava aos seus joelhos, como um
vestido. Você não conseguia ver seus shorts vermelhos.
– Vá lá para fora e espere. – Liz disse.
– Certo.
– Você não vai voltar para casa sem mim, vai?
– Não. – Carol disse, e seu rosto abatido se encheu de alarme.
– Bom. Fique perto de minhas malas.
Carol começou a sair para a entrada, e então se virou.
– Obrigado por consertar meu braço, Ted. Espero que não ique
encrencado por causa disso. Eu não quis. .
– Vá para a maldita varanda. – Liz repreendeu.
– . .fazer ninguém icar encrencado. – Carol terminou em uma voz baixa,
quase um sussurro de um rato em um desenho animado. Então ela saiu, a
blusa de Liz balançando ao seu redor de um modo que seria cômico em
algum outro dia. Liz se virou para Bobby, e quando ele deu uma boa
olhada nela, seu coração afundou. Sua fúria havia sido refrescada. Uma
vermelhidão havia se espalhado por seu rosto machucado até seu pescoço.
Oh, caramba, o que foi agora? Bobby pensou. Então ela mostrou o chaveiro
verde, e ele entendeu.
– Aonde você conseguiu isso, Bobby-O?
– Eu. . ele. . – Mas ele não conseguiu pensar em nada para dizer: nenhuma
mentirinha, nem uma mentira mais elaborada, nem mesmo a verdade. De
repente Bobby se sentiu muito cansado. A única coisa que ele queria no
mundo era ir para o quarto e se esconder sob as cobertas de sua cama, e
dormir.
– Eu dei a ele. – Ted disse suavemente. – Ontem.
– Você levou meu ilho a um ponto de maconheiros em Bridgeport? Um salão de pôquer em Bridgeport?
Não diz um ponto de maconheiros no chaveiro . Bobby pensou. Nem mesmo diz salão de pôquer. . porque estas coisas são contra a lei. Ela sabe o que acontece lá porque meu pai ia lá. E tal pai, tal ilho. É o que dizem, tal pai, tal filho.
– Eu o levei ao cinema. – Ted disse. – A Aldeia dos Amaldiçoados, no Criterion.
Enquanto ele assistia, eu fui ao Canto do Bolso resolver um assunto.
– Que tipo de assunto?
– Eu iz uma aposta. – Por um momento o coração de Bobby afundou ainda
mais, e ele pensou, O que há de errado com você? Por que não mente? Se você soubesse como ela se sente com coisas assim. .
Mas ele sabia. Claro que sabia.
– Uma aposta? – ela assentiu. – Aham. Você deixou meu ilho sozinho em
um cinema de Bridgeport para que você pudesse ir apostar. – ela riu
loucamente. – Ora, bem, suponho que eu deveria estar grata, não? Você lhe
trouxe uma lembrancinha tão bonitinha. Se ele mesmo alguma vez decidir
fazer uma aposta, ou perder dinheiro jogando pôquer como fazia o pai, ele
saberá aonde ir.
– Eu o deixei por duas horas no cinema. – Ted disse. – Você o deixou comigo.
Ele pareceu ter sobrevivido a ambas as coisas, não?
Liz olhou por um momento como se tivesse levado um tapa, então por um
momento como se estivesse para chorar. Seu rosto suavizou e icou sem
expressão. Ela enrolou o punho sobre o chaveiro e o colocou no bolso do vestido. Bobby soube que ele jamais o veria novamente. Ele não se
importava. Ele não queria vê-lo novamente.
– Bobby vá para seu quarto. – ela disse.
– Não.
– Bobby, vá para seu quarto!
– Não! Eu não vou!
Parada num feixe de luz no tapete de boas vindas ao lado das malas de Liz
Gar ield, lutuando dentro de uma velha camisa de Liz Gar ield, Carol
começou a chorar ao som de vozes elevadas.
– Vá para seu quarto, Bobby. – Ted disse quietamente. – Foi muito bom
encontrá-lo e conhecê-lo.
– Conhecê-lo. – disse a mãe de Bobby em uma voz irritada e insinuante, mas Bobby não a entendeu, e Ted não a percebeu.
– Vá para seu quarto. – ele repetiu.
– Você ficará bem? Sabe o que quero dizer.
– Sim. – Ted sorriu, beijou os dedos, e soprou um beijo para Bobby. Bobby
o pegou e fez um punho ao redor dele, segurando-o irme. – Vou icar
muito bem.
Bobby andou lentamente na direção da porta de seu quarto, a cabeça
baixa e os olhos nos tênis. Ele quase havia chegado lá quando pensou Eu não posso fazer isso, não posso deixá-lo ir deste jeito.
Ele correu até Ted, jogou os braços ao seu redor, e cobriu seu rosto de beijos: testa, bochechas, queixo, lábios, as inas e sedosas pupilas de seus olhos.
– Ted, eu te amo!
Ted cedeu e o abraçou forte. Bobby pôde sentir um cheiro fantasma da
espuma que ele usara para se barbear, e o forte aroma dos cigarros
Chester ield. Estes foram cheiros que ele carregaria por um longo tempo,
como também as memórias das grandes mãos de Ted o tocando,
acariciando suas costas, segurando as curvas de seu rosto.
– Bobby, eu te amo também. – ele disse.
– Oh, pelo amor de Deus. – Liz quase gritou. Bobby virou-se para ela e o que ele viu foi Don Biderman a empurrando para um canto. Em algum
ligar a Orquestra de Benny Goodman tocava “One O’Clock Jump” no volume
máximo. A mão do Sr.
Biderman tinha uma forma de um tapa. O Sr. Biderman estava
perguntando se ela queria mais, se era desse jeito que ela gostava, ela poderia ter um pouco mais disso se era desse jeito que ela gostava. Bobby
quase pode sentir o gosto do entendimento aterrorizado dela.
– Você não sabia mesmo, não é? – ele disse, – Ao menos não tudo, tudo o que eles queriam. Eles achavam que você sabia, mas você não sabia.
– Vá para seu quarto agora mesmo, ou eu vou chamar a policia e pedir que
eles mandem uma viatura. – sua mãe disse. – Eu não estou brincando,
Bobby-O.
– Eu sei que não. – Bobby disse. Ele foi para o quarto e fechou a porta. Ele
primeiro pensou que estava bem e então achou que iria vomitar, ou
desmaiar, ou ambas as coisas. Ele andou até a cama com as pernas
tremendo. Ele só queria sentar, mas ao invés disso, ele acabou deitando
transversalmente, como se todos os músculos houvessem saído de seu
estômago e então entrado de volta. Ele tentou levantar os pés, mas as
pernas icaram lá, os músculos dela estavam desaparecidos também. Ele
teve uma imagem repentina de Sully-John em roupa de banho, subindo
uma escada de uma piscina, então correndo até o inal da rampa e
mergulhando. Ele desejou ser S-J agora.
Estar em qualquer lugar, exceto aqui. Em qualquer lugar, exceto aqui. Em
qualquer lugar, exceto aqui.
***
Quando Bobby acordou, a luz em seu quarto estava desaparecendo e quando ele olhou para o chão mal conseguia ver a sombra da árvore do
lado de fora de sua janela.
Ele apagara, dormindo ou inconsciente, por três, talvez quatro horas. Ele estava coberto de suor e suas pernas estavam dormentes; ele não havia as
colocado dentro da cama.
Agora ele tentou fazê-lo, e houve uma explosão de agulhadas, que quase fez com que gritasse. Ao invés disso, ele deslizou para o chão, e as agulhas
correram de suas coxas até sua virilha. E sentou-se com os joelhos dos
lados das orelhas, suas costas latejavam, suas pernas zumbiam, sua cabeça
estava confusa. Algo horrível havia acontecido, mas no começo ele não
conseguiu se lembrar o quê. Enquanto ele se sentava lá contra a cama,
olhando para Clayton Moore em sua máscara do Cavaleiro Solitário, as
coisas começaram a voltar. O braço deslocado de Carol, sua mãe espancada
e enlouquecida também, sacudindo o chaveiro verde em sua cara, furiosa
com ele. E Ted. .
Ted já teria ido embora a uma hora dessas, e provavelmente era melhor
assim, mas como doía pensar a respeito.
Ele se levantou e andou duas vezes ao redor do quarto. Na segunda vez ele
parou pela janela e olhou lá para fora, esfregando as mãos na parte de trás
do pescoço, que estava duro e suado. Um pouco abaixo da rua, as gêmeas
Sigsby, Dina e Dianne, pulavam corda, mas as outras crianças estavam
dentro de suas casas, ou para jantarem ou pelo resto da noite. Um carro passou, com os faróis acesos. Era mais tarde do que ele pensava; as
sombras celestiais da noite estavam caindo.
Ele deu mais uma volta em seu quarto, exercitando as pernas, sentindo-se
como um prisioneiro exercitando-se em sua cela. Não havia fechadura na
porta, não mais do que sua mãe havia posto, mas ele se sentiu como um pássaro em uma gaiola, mesmo assim. Ele tinha medo de sair. Ela não havia
o chamado para jantar, e embora ele estivesse com fome (um pouco, de
qualquer forma), ele tinha medo de sair. Ele tinha medo de como a
encontraria. . ou não encontraria. E se ela inalmente houvesse atingido sua
cota com Bobby-O, estúpido e mentiroso Bobby-O, o ilho de seu pai?
Mesmo se ela estivesse aqui, e parecesse voltar ao normal. . haveria
qualquer coisa parecida com normal? As pessoas tinham coisas horríveis
atrás de suas faces às vezes. Ele sabia disso.
Quando ele alcançou a porta fechada de seu quarto, ele parou. Havia um
pedaço de papel jazendo lá. Ele se abaixou e o pegou. Ainda havia luz o suficiente para ele ler facilmente.
Querido Bobby–
No momento em que estiver lendo isto, eu terei ido embora... mas vou
levá-lo comigo em meus pensamentos. Por favor, ame sua mãe e
lembre-se de que ela ama você. Ela estava com medo, ferida, e
envergonhada nesta tarde, e
quando nós vemos pessoas deste modo, nós só vemos o pior lado
delas. Eu te deixei algo que está em meu quarto. Eu me lembrarei de minha promessa.
Com todo amor,
Os cartões postais, é isso o que ele prometeu. Mandar-me cartões postais.
Sentindo-se melhor, Bobby dobrou a nota que Ted havia deslizado para
seu quarto antes de partir e abriu a porta do quarto.
A sala de estar estava vazia, mas havia sido arrumada. Pareceria quase
bem se você não soubesse que deveria haver um relógio na parede ao lado
da TV; agora havia apenas um pequeno prego onde estivera pendurado, apontando para fora sem segurar nada.
Bobby percebeu que podia ouvir sua mãe roncando no quarto. Ela sempre
roncava, mas este era um ronco pesado, como uma pessoa velha, ou um
bêbado roncando em um ilme. É porque eles a machucaram , Bobby
pensou, e por um momento ele pensou no
( Como vai essa força, garotão)
Sr. Biderman e os dois bananas se acotovelando no banco traseiro e
sorrindo, Matem a porca, cortem sua gargant a, Bobby pensou. Ele não queria pensar nisso, mas foi o que fez.
Ele saiu na ponta dos pés pela sala de estar, tão quieto como João no castelo do gigante, abriu a porta para a entrada, e saiu. Ele andou na ponta
dos pés no primeiro lance de escadas (andando pelo lado do corrimão,
porque ele havia lido em um romance de mistério dos Hardy Boys que se
você andasse deste modo em uma escada, ela não rangeria muito), e
correu pelo segundo.
A porta de Ted estava aberta; o quarto estava quase vazio. As poucas coisas que ele mesmo havia posto (uma pintura de um homem pescando
ao pôr-do-sol, uma pintura de Maria Madalena lavando os pés de Jesus, e um calendário) haviam desaparecido. O cinzeiro na mesinha estava vazio,
mas ao lado dela estava uma das sacolas de papel de Ted. Dentro dela
estavam quatro livros de capa mole: A Revolução dos Bichos, O Mensageiro do Diabo, A Ilha do Tesouro , e Ratos e Homens. Escrito do lado da sacola de papel, estava a caligra ia tremida, mas completamente legível, de Ted: Leia
o de Steinbeck primeiro. “Caras como nós”. – George diz quando ele conta a
Lennie a história que Lennie sempre quer ouvir. Quem são os caras como nós? Quem eram eles para Steinbeck? Quem são eles para você? Pergunte isso a si mesmo.
Bobby pegou os livros, mas deixou a sacola, ele tinha medo de que se sua
mãe visse uma das sacolas de Ted, ela enlouqueceria novamente. Ele olhou
para o refrigerador, mas não viu nada a não ser uma garrafa de mostarda French e uma caixa refrigerante quente. Ele fechou o refrigerador
novamente e olhou em volta. Era como se ninguém houvesse morado ali.
Exceto. .
Ele foi até o cinzeiro, segurou-o na frente do nariz, e inalou profundamente.
O cheiro dos Chester ields era forte, e isso trouxe Ted de volta
completamente, Ted sentado lá em sua mesa, falando sobre O Senhor das Moscas, Ted parado à frente do espelho no banheiro, fazendo a barba com
aquela lâmina assustadora dele, ouvindo pela porta aberta enquanto
Bobby lia as opiniões dos jornalistas que ele mesmo não entendia.
Ted deixando uma pergunta inal do lado de uma sacola de papel: Caras
como nós. Quem são os caras como nós?
Bobby inalou de novo, sugando os pequenos locos de cinza e lutando
contra a vontade de espirrar, segurando o cheio, ixando sua memória o
melhor que podia, fechando os olhos, e pela janela veio o interminável e inevitável lamento de Bowser, agora soando pela escuridão como em um
sonho: uou-uou-uou, uou-uou-uou.
Ele pousou o cinzeiro de novo. A vontade de espirrar havia passado. Eu vou
fumar Chester ields, ele havia decidido. Eu vou fumá-los por toda a minha vida.
Ele desceu as escadas, segurando os livros em seu peito e andando por fora das escadarias de novo enquanto ia do segundo andar até a entrada.
Ele deslizou para o apartamento, na ponta dos pés, andando pela sala de estar (sua mãe ainda roncava, mais alto do que antes) e para dentro de seu quarto. Ele pôs os livros sob a cama, bem escondido. Se sua mãe os achasse, ele diria que o Sr. Burton havia dado a ele. Era uma mentira, mas
se ele contasse a verdade, ela sumiria com os livros. Além disso, mentir não
parecia mais uma coisa tão ruim. Mentir poderia se tornar uma
necessidade. Com o tempo poderia até mesmo se tornar um prazer.
E agora? O ronco em seu estômago decidiu por ele. Um pouco de pasta de
amendoim e sanduíche de geléia era o que iria acontecer agora.
Ele começou pela cozinha, passando pela porta parcialmente aberta de sua
mãe na ponta dos pés sem nem mesmo pensar, e então parou. Ela estava
se mexendo na cama. Seus roncos estavam irregulares, e ela estava
falando enquanto dormia. Era apenas um murmúrio baixo, que Bobby não
conseguia decifrar, mas ele percebeu que não tinha que fazê-lo. Ele podia ouvi-la de qualquer forma. E ele podia ver coisas. Seus pensamentos? Seus
sonhos? O que quer que fosse, era horrível.
Ele deu três passos na direção da cozinha, então teve um lampejo de algo tão terrível que sua respiração congelou em sua garganta como gelo: VOCÊ
VIU BRAUTIGAN! Ele é um VELHO CÃO MESTIÇO mas NÓS O AMAMOS!
– Não. – ele sussurrou. – Oh, mamãe, não.
Ele não queria entrar lá onde ela estava, mas seus pés giraram naquela
direção de qualquer forma. Ele foi com eles como um refém. Ele assistiu sua mão se mover, os dedos se esticarem, e empurrar a porta de seu
quarto completamente.
Sua cama ainda estava feita. Ela estava deitada em cima da colcha em seu
vestido, uma perna tão encolhida que quase tocava em seu peito. Ele podia
ver o topo de suas meias e a cinta-liga, e isso o fez pensar na moça na foto
do calendário no Canto do Bolso, aquela saindo do quarto com a maior
parte da saia no colo. . exceto que a moça saindo do Packard não tinha os machucados feios acima das meias.
O rosto de Liz estava vermelho onde não estava machucado; o cabelo
estava empapado de suor; suas bochechas estavam besuntadas de lágrimas e manchadas pela maquiagem. Uma tábua rangeu abaixo do pé
de Bobby enquanto ele entrava no quarto.
Ela gemeu e ele congelou, claro que seus olhos se abririam.
Ao invés de acordar, ela rolou pela cama. Aqui, no quarto dela, a mistura de pensamentos e imagens que saiam dela não eram só mais claras, mas também mais organizadas e mais pungentes, como o suor emanando de
uma pessoa doente. No fundo de tudo estava o som de Benny Goodman
tocando “One O’Clock Jump”, e o gosto de sangue escorrendo pela parte de
trás da garganta dela.
Você viu Brautigan , Bobby pensou. Ele é um velho cão mestiço, mas nós o amamos. Você viu. .
Ela havia fechado as cortinas antes de se deitar e o quarto estava muito escuro.
Ele deu mais um passo, e então parou ao lado da mesa com o espelho, onde
às vezes ela sentava para retocar a maquiagem. Sua bolsa estava lá. Bobby
pensou em Ted o abraçando, o abraço que Bobby quisera, que precisara
tanto. Ted acariciando suas costas, a curva de seu rosto. Quando eu toco, eu
passo uma espécie de janela, Ted havia lhe dito enquanto voltavam no táxi de Bridgeport. E agora, do lado da mesa de maquiagem de sua mãe com os
punhos cerrados, Bobby tentou olhar através da janela da mente de sua
mãe.
Ele pegou um lampejo dela voltando de trem, encolhida, olhando pelos
milhares de quintais entre Providence e Harwich para que menos pessoas
a vissem; ele a viu espiando para o brilhante chaveiro verde no armário ao
lado do copo enquanto Carol vestia blusa; a viu levando Carol para casa, fazendo perguntas por todo o caminho, uma após a outra, atirando-as como
balas de uma metralhadora. Carol, abalada demais para dissimular, havia
respondido todas. Bobby viu sua mãe andando (mancando) até o Parque
Commonwealth, ouvindo-a pensar Se apenas algo de bom pudesse sair deste
pesadelo, se apenas algo de bom, qualquer coisa boa. .
Ele a viu sentar no banco na sombra e então se levantar por um momento,
andar na direção da Spicer para comprar alguma coisa para dor de cabeça
e um Nehi para ajudá-la engolir antes de voltar para casa. E então, logo antes de deixar o parque, Bobby a viu espiar algo preso às árvores. Este algo estava pregado por toda a cidade; ela deve ter passado por alguns no
caminho para o parque, mas estava tão perdida em seus pensamentos que
nem os notou.
Uma vez mais, Bobby sentiu-se como um passageiro em seu próprio corpo,
nada mais do que isso. Ele viu sua mão se mover, viu dois dedos (os dois que iriam carregar manchas amarelados de um fumante constante em
alguns anos) fazer um movimento de tesouro e pegar uma coisa saliente da
boca da bolsa. Bobby puxou o papel, o desdobrou, e leu as duas primeiras
linhas na fraca luz que vinha da porta: VOCÊ VIU BRAUTIGAN!
Ele é um VELHO CÃO MESTIÇO mas NÓS O AMAMOS!
Seus olhos pularam meio caminho abaixo para as palavras que sem dúvida
haviam seduzido sua mãe e extinguido qualquer outro pensamento de sua
cabeça.
Nós pagaremos UMA GRANDE RECOMPENSA
($$$$)
Aqui estava a coisa boa que ela estivera desejando, esperando, rezando;
aqui estava UMA GRANDE RECOMPENSA.
E ela havia hesitado? Será que o pensamento “Espere um minuto, meu filho
ama aquele velho bastardo! havia passado por sua cabeça?
Que nada.
Você não conseguia hesitar. Porque a vida era cheia de Don Bidermans, e a
vida não era justa.
Bobby saiu do quarto na ponta dos pés com o cartaz nas mãos, andando
em suaves e grandes passos, congelando quando o piso rangia sob seus
pés, e então continuava. Atrás dele, o murmúrio de sua mãe havia
diminuído para pequenos roncos novamente. Bobby chegou à sala de estar e fechou a porta atrás dele, segurando a maçaneta torcida até que a porta
icasse totalmente fechada, não querendo que o trinco izesse barulho.
Então ele correu na direção do telefone, percebendo só agora que ele estava longe dela, que seu coração batia a toda velocidade, e que sua
garganta tinha gosto de ferro. Qualquer vestígio de fome havia
desaparecido.
Ele pegou o fone, olhou em volta rapidamente para se certi icar que a
porta de sua mãe continuava fechada, então ligou para o número do cartaz.
O número queimava em sua cabeça: HOusitonic 5-8337.
Houve apenas silêncio quando ele terminou de discar. Não era surpresa,
porque não havia qualquer posto HOusitonic em Harwich. E se ele sentisse
frio novamente (exceto por suas bolas e as solas dos pés, que estavam
estranhamente quentes), era só porque ele estava com medo por Ted. Isso
era tudo. Apenas. .
Houve um clique que soou como uma pedra chocando-se quando Bobby
estava para desligar. E então a voz disse “Sim? ”.
É Biderman! Bobby pensou com selvageria. Caramba, é Biderman!
– Sim? – a voz disse novamente. Não, não era Biderman. Malvado demais
para ser Biderman, mas era a voz de um banana, sem dúvida, e enquanto a
temperatura de sua pele continuou a descer para o zero absoluto, Bobby
soube que o homem do outro lado da linha tinha algum tipo de casaco
amarelo em seu guarda-roupa.
Subitamente seus olhos arderam e a parte de trás deles começou a coçar. É
a família Sagamore? foi isso que ele pretendeu perguntar, e se quem quer que estivesse no telefone dissesse sim, ele iria implorar para que deixasse
Ted livre, ele faria qualquer coisa que pedissem. Mas agora que sua chance havia chegado, ele não conseguiu dizer nada. Até este ponto ele não
tinha acreditado completamente nos homens maus. Agora alguma coisa
estava do outro lado da linha, alguma coisa que não tinha nada em comum
com a vida como Bobby Garfield a entendia.
– Bobby? – a voz disse, e houve uma espécie de prazer insinuante na voz,
um reconhecimento sensual. – Bobby. – a voz disse novamente, dessa vez
sem um ponto de interrogação. As manchas começaram a invadir a visão
de Bobby; a sala de estar do apartamento subitamente se encheu de neve
negra.
– Por favor. . – Bobby suspirou. Ele juntou toda a sua determinação e se forçou a terminar. – Por favor, deixem ele ir.
– Não podemos fazer isso. – a voz vinda do vazio disse. – Ele pertence ao Rei.
Fique longe, Bobby. Não inter ira. Ted é nosso cão. Se não quiser ser nosso
cão também, fique longe.
Clique.
Bobby segurou o telefone em sua orelha por mais um momento,
precisando tremer, mas com frio demais para fazê-lo. A coceira em seus
olhos começou a desaparecer, e as manchas caindo começaram a se
misturar ao ambiente escuro.
Finalmente ele afastou o telefone do rosto, começou a abaixá-lo, e então parou. Havia dúzias de pequenos círculos vermelhos nas perfurações do
fone de ouvido. Era como se a voz da coisa do outro lado houvesse feito o telefone sangrar.
Arquejando em leves e rápidos soluços, Bobby pôs o telefone de volta ao gancho e foi para o quarto. Não inter ira, o homem do número da Família Sagamore havia lhe dito. Ted é nosso cão. Mas Ted não era um cão. Ele era
um homem, e ele era o amigo de Bobby.
Ela podia ter dito a eles onde ele icaria hoje à noite, Bobby pensou. Eu acho que Carol sabia. Se sim, se ela disse a sua mãe. .