Corações na Atlântida
Capítulo 43
P.S.: Pare de jogar aquele jogo de cartas idiota.
Eu a li duas vezes, então dobrei o recorte cuidadosamente e o coloquei de
volta no cartão, minhas mãos ainda tremiam. Em algum lugar eu acho que
ainda tenho o cartão. . como também tenho certeza que em algum lugar
“Carol Vermelha” ainda tem sua pequena fotogra ia de seus amigos de
infância. Se ela ainda está viva, é claro. Não é uma coisa muito certa: muitos
de seus velhos amigos não estão.
Eu abri o pacote. Dentro dele (e em um chocante contraste com o
embrulho de Natal e a ita de cetim branca), estava uma cópia de capa
mole de O Senhor das Moscas, de William Golding. De algum modo eu havia
deixado de ler na escola, optando por Uma Paz Separada, no trabalho do último ano porque Paz pareceu menor.
Eu o abri, pensando que haveria uma inscrição. Havia, mas não do tipo que
eu esperava, não mesmo. Foi isso o que eu encontrei no espaço em branco
da página título:
Meus olhos se encheram de lágrimas inesperadas. Eu coloquei a mão na
boca para segurar o soluço que queria sair. Eu não queria acordar Nate, nem queria que ele me visse chorando. Mas eu chorei, pode apostar. Eu
sentei lá em minha mesa, e chorei por ela, por mim, por nós dois, e por todos nós. Eu não me lembro de me machucar tanto em minha vida quanto
naquela época. Corações são fortes, ela disse, na maioria das vezes os
corações não quebram, e eu tenho certeza disso. . mas e quanto a eles?
E quanto àqueles que estavam lá naquela época? E quanto aos corações na
Atlântida?
43
De qualquer forma, Skip e eu sobrevivemos. Fizemos um bom trabalho, nos
arrastamos pelas inais, e voltamos ao Chamberlain Hall no meio de Janeiro. Skip me disse que havia escrito uma carta para John Winkin, o
técnico de beisebol, durante as férias, dizendo que havia mudado de idéia
sobre entrar no time.
Nate estava de volta ao Chamberlain Três. E, por incrível que pareça,
Lennie Doria (devendo matérias, mas lá). Entretanto, seu amigo Tony
DeLucca se fora. Assim como Mark St. Pierre, Barry Margeaux, Nick Prouty,
Brad Whiterspoon, Harvey Twiller, Randy Echolls… e Ronnie, é claro.
Recebemos um cartão dele em Março. O remetente era de Lewiston, e
simplesmente endereçado para os Iô-Iôs do Chamberlain Três. Nós o
observamos no salão, na cadeira onde Ronnie sentava durante a maioria
dos jogos. Na frente estava Alfred. E. Neuman, o garoto-capa da Mad. No verso Ronnie havia escrito: “Tio Sam chama, e eu tenho que ir. Palmeiras em meu futuro e quem se importa com essa m––da. Quer uma coisa para
se preocupar? Eu venci com 21 pontos.
Isso me faz o vencedor.” Estava assinado RON. Skip e eu rimos muito disso.
Pelo que eu sei, o menininho boca-suja da Sra. Malenfant iria ser Ronnie até o dia de sua morte.
Stoke Jones, também conhecido como Matador, também se fora. Eu não
pensei muito nele por um tempo, mas seu rosto e memória voltaram a mim
com assustadora (se breve) vividez um ano e meio depois. Eu estava na
cadeia naquela época, em Chicago.
Eu não quantos de nós os policias prenderam fora do centro na noite em que Hubert Humphrey se tornou candidato, mas havia muitos, e muitos de
nós estavam machucados (uma comissão de ita-azul iria, um ano mais
tarde, designar aquele evento como uma “greve de polícia” em seu
relatório).
Eu acabei numa cela em que cabiam quinze prisioneiros (vinte no
máximo), com mais ou menos sessenta hippies nocauteados, espancados, fodidos, sangrentos, acabados, alguns fumando maconha, outros chorando, outros vomitando, outros cantando músicas de protesto (no canto mais
longe, vindo de um cara que eu nunca vi, veio uma versão desa inada de
“I’m Not Marchin’ Anymore”). Era como uma versão penal esquisita de um
amasso em uma cabine telefônica.
Eu estava esmagado contra as barras, tentando proteger o bolso de minha
camisa (cigarros), e meu bolso da calça (a cópia de O Senhor das Moscas que Carol havia me dado, agora muito surrado, com metade da capa
rasgada, e as páginas descolando), quando de repente o rosto de Stoke
apareceu em minha mente como uma brilhante e completa fotogra ia em
alta resolução. Veio do nada, pareceu, talvez um produto de um circuito
adormecido de minha memória que havia icado momentaneamente
quente, estimulado ou pelo cacetada na cabeça, ou pelo gás lacrimogêneo.
E uma pergunta veio com esse pensamento.
– Mas que porra estava fazendo um aleijado no terceiro andar? – eu perguntei alto.
Um baixinho forte de cabelos loiros (uma espécie de versão anã de Peter Frampton, se você se lembrar) olhou em volta. Seu rosto estava pálido e era cheio de espinhas. Sangue estava secando sob seu nariz e em uma
bochecha.
– Como é cara? – ele perguntou.
– Mas que porra estava fazendo um aleijado no terceiro andar de um
dormitório de faculdade? Um sem elevador? Eles não teriam que tê-lo
colocado no primeiro andar?
– então eu me lembrei de Stoke se arrastando na direção do Holyoke, a
cabeça abaixada, e seu cabeço pendendo sobre os olhos, Stoke
murmurando “Mate-mate, mate-mate.”, sob sua respiração. Stoke indo para
todos os lugares como se tudo fosse seu inimigo; dê-lhe uma moeda e ele tentaria explodir o mundo todo. – Cara, não estou te entendendo. O quê. .