Corações na Atlântida
Capítulo 11
Eu tirei meus próprios cigarros e acendi ambos. Foi um bom momento, nós
dois olhando um para o outro sobre a chama de um Zippo. Não tão doce quanto um beijo, mas foi legal. Eu senti aquela leveza dentro de mim de novo, a sensação de levitar. Às vezes sua visão de tudo aumenta cheia de esperança. Às vezes você acha que pode ver pelos cantos, e talvez você
possa. Aqueles foram bons momentos. Eu fechei meu isqueiro com um
peteleco e continuei a andar, fumando, as costas de nossas mãos próximas,
mas não tanto a ponto de encostar.
– De quanto está falando? – ela perguntou. – O bastante para fugir para Califórnia, ou talvez nem tanto?
– Nove dólares.
Ela riu e pegou a minha mão.
– É um encontro, está certo. – ela disse. – Você pode me comprar pipoca também.
– Tudo bem. Importa-se com qual filme vemos primeiro?
Ela balançou a cabeça.
– Bogie é Bogie.
– Isso é verdade. – eu disse, mas eu esperava que fosse O Falcão Maltês.
E era. Na metade do ilme, enquanto Peter Lorre dava aquele seu giro gay
e estranho, e Bogie o encarava com aquela sua educada e espantada
incredulidade, eu olhei para Carol. Ela estava olhando para mim. Eu me
inclinei e beijei sua boca melada de manteiga à luz da lua preta e branca do primeiro filme inspirado de John Huston.
Seus lábios eram doces e sensíveis. Eu me afastei um pouco. Ela ainda
estava me olhando. O pequeno sorriso voltara. Então ela me ofereceu seu
saco de pipoca, e eu retribuí com minha caixa de doces, e nós vimos o resto
do filme.
11
Voltando para o complexo de dormitórios Chamberlain-King-Franklin, eu peguei sua mão sem quase pensar a respeito. Ela entrelaçou os dedos nos
meus naturalmente, mas eu achei que podia sentir uma restrição agora.
– Você vai voltar para ver A Nave da Revolta? – ela perguntou. – Você poderia, já que você ainda tem seu ingresso. Ou eu poderia te dar o meu.
– Não, eu tenho que estudar geologia.
– Aposto que vai acabar jogando cartas a noite toda ao invés disso.
– Não posso fazer isso. – eu disse. E eu falava sério; eu pretendia voltar e estudar. No duro.
– “A Batalha de um Solitário”, ou “A Vida de um Estudante”. – Carol disse. –
Uma novela de despedaçar corações por Charles Dickens. Você vai chorar
como Peter Riley enquanto ele se joga em um rio depois de descobrir que o
Escritório de Ajuda Financeira revogou sua bolsa de estudos.
Eu ri. Ela não deixava escapar uma.
– Estou no mesmo barco, sabia? Se nos ferrarmos, talvez possamos fazer
um suicídio duplo. Vamos nos jogar no Penobscot. Adeus, mundo cruel.
– O que uma garota de Connecticut está fazendo na Universidade do Maine
de qualquer forma? – eu perguntei.
– Isso é um pouco complicado. E se você algum dia planejar me chamar
para sair de novo, você deveria saber que está mexendo em um berço. Não
vou fazer dezoito até Novembro. Eu pulei a sétima série. Esse foi o ano em
que meus pais se divorciaram, e eu estava angustiada. Ou era estudar o
tempo todo ou me transformar em uma das garotas agitadas do ginásio do
colégio de Harwich. Elas eram as mais vagabundas e normalmente
engravidavam aos dezesseis. Sabe de que tipo estou falando?
– Claro. – em Gates você as via rindo em pequenos grupos fora do Frank’s
Foutain, ou do Daily Delish, esperando pelos garotos que vinham em seus
Fords e Plymouths, carros rápidos com, saias traseiras e decalques em que se lia FRAM e QUAKER STATE nas janelas traseiras. Você poderia ver essas
garotas como mulheres do outro lado da Main Street, dez anos mais velhas,
e vinte quilos mais gordas, bebendo cerveja e outras coisas na Tarvena do
Chucky.
– Eu me tornei uma CDF. Meu pai estava na Marinha. Ele saiu por
incapacidade e se mudou para cá, Maine. . Damariscotta, abaixo da costa?
Eu assenti, pensando nos garotos engomadinhos de Diane Renee, aquela
que disse urra e se juntou a Ma-ma-rinhaaa.
– Eu estava vivendo em Connecticut com minha mãe e ia para o Colégio de
Harwich. Eu me candidatei a dezesseis escolas diferentes, e fui aceita em todas, exceto três. . mas. .
– Mas eles esperavam que você pagasse do próprio bolso e você não podia.
Ela assentiu.
– Eu acho que perdi as bolsas por talvez uns vinte pontos no teste de aptidão.
Uma ou duas atividades extracurriculares não teriam doído, mas eu estava
ocupada demais sendo uma CDF. E nessa época eu comecei com Sully-
John. .
– O namorado, certo?
Ela assentiu, mas não como se pensar nele a interessasse.
– As únicas duas ofertas de ajuda inanceira realista eram Maine e UConn.
Eu decidi pelo Maine porque eu não estava me dando muito bem com
minha mãe. Muitas brigas.
– Você se dá melhor com seu pai?
– Mal o vejo. – ela disse em um tom seco. – Ele vive com uma mulher que. .
bem, eles bebem demais e brigam demais, vamos deixar a coisa assim. Mas
ele é um residente do estado, eu sou a ilha dela, e essa é uma boa faculdade. Eu não consegui tudo do que precisava (UConn ofereceu um acordo melhor, francamente), mas eu não tenho medo de fazer uns
trabalhinhos. Vale a pena, apenas para se afastar de tudo.
Ela respirou fundo o ar da noite, e o soltou, levemente esbranquiçado.
Estávamos quase de volta ao Franklins. Na entrada eu podia ver os caras sentados em cadeiras de plástico, esperando as garotas descerem as
escadas. Parecia uma galeria de quadros. Vale a pena, apenas para se
afastar de tudo, ela havia dito. Isso signi icava a mãe, a cidade, o colégio, ou estava o namorado incluído?
Quando chegamos às portas duplas abertas à frente de seu dormitório, eu
pus meus braços ao seu redor e me inclinei para beijá-la novamente. Ela pôs as mãos em meu peito, e parando. Não afastando, apenas parando. Ela
olhou para meu rosto, sorrindo aquele pequeno sorriso dela. Eu poderia
amar aquele sorriso, eu pensei, era o tipo de sorriso que você acordava pensando no meio da noite. Os olhos azuis e o cabelo loiro também, mas a
maior parte era o sorriso. Os lábios curvados um poucos, mas os cantos da
boca afundados por covinhas.
– O nome do meu namorado é John Sullivan. – ela disse. – Como o lutador.
Agora me diga o nome de sua namorada.
– Annmarie. – eu disse, não ligando muito para o som que saia de minha boca. – Annmarie Soucie. Ela é uma formanda este ano no ginásio do
Colégio Gates Falls. – eu soltei Carol. Quando o iz, ela tirou as mãos de meu
peito e segurou as minhas.
– Isto é informação. – ela disse. – Informação, é só isso. Ainda quer me beijar.
Eu assenti. Queria mais do que nunca.
– Está bem. – ela levantou a cabeça, fechou os olhos e abriu a boca um pouco.
Ela parecia uma criança esperando no pé da escada pelo seu beijo de boa
noite do papai.