Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 22 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 11

Eu tirei meus próprios cigarros e acendi ambos. Foi um bom momento, nós

dois olhando um para o outro sobre a chama de um Zippo. Não tão doce quanto um beijo, mas foi legal. Eu senti aquela leveza dentro de mim de novo, a sensação de levitar. Às vezes sua visão de tudo aumenta cheia de esperança. Às vezes você acha que pode ver pelos cantos, e talvez você

possa. Aqueles foram bons momentos. Eu fechei meu isqueiro com um

peteleco e continuei a andar, fumando, as costas de nossas mãos próximas,

mas não tanto a ponto de encostar.

– De quanto está falando? – ela perguntou. – O bastante para fugir para Califórnia, ou talvez nem tanto?

– Nove dólares.

Ela riu e pegou a minha mão.

– É um encontro, está certo. – ela disse. – Você pode me comprar pipoca também.

– Tudo bem. Importa-se com qual filme vemos primeiro?

Ela balançou a cabeça.

– Bogie é Bogie.

– Isso é verdade. – eu disse, mas eu esperava que fosse O Falcão Maltês.

E era. Na metade do ilme, enquanto Peter Lorre dava aquele seu giro gay

e estranho, e Bogie o encarava com aquela sua educada e espantada

incredulidade, eu olhei para Carol. Ela estava olhando para mim. Eu me

inclinei e beijei sua boca melada de manteiga à luz da lua preta e branca do primeiro filme inspirado de John Huston.

Seus lábios eram doces e sensíveis. Eu me afastei um pouco. Ela ainda

estava me olhando. O pequeno sorriso voltara. Então ela me ofereceu seu

saco de pipoca, e eu retribuí com minha caixa de doces, e nós vimos o resto

do filme.

11

Voltando para o complexo de dormitórios Chamberlain-King-Franklin, eu peguei sua mão sem quase pensar a respeito. Ela entrelaçou os dedos nos

meus naturalmente, mas eu achei que podia sentir uma restrição agora.

– Você vai voltar para ver A Nave da Revolta? – ela perguntou. – Você poderia, já que você ainda tem seu ingresso. Ou eu poderia te dar o meu.

– Não, eu tenho que estudar geologia.

– Aposto que vai acabar jogando cartas a noite toda ao invés disso.

– Não posso fazer isso. – eu disse. E eu falava sério; eu pretendia voltar e estudar. No duro.

– “A Batalha de um Solitário”, ou “A Vida de um Estudante”. – Carol disse. –

Uma novela de despedaçar corações por Charles Dickens. Você vai chorar

como Peter Riley enquanto ele se joga em um rio depois de descobrir que o

Escritório de Ajuda Financeira revogou sua bolsa de estudos.

Eu ri. Ela não deixava escapar uma.

– Estou no mesmo barco, sabia? Se nos ferrarmos, talvez possamos fazer

um suicídio duplo. Vamos nos jogar no Penobscot. Adeus, mundo cruel.

– O que uma garota de Connecticut está fazendo na Universidade do Maine

de qualquer forma? – eu perguntei.

– Isso é um pouco complicado. E se você algum dia planejar me chamar

para sair de novo, você deveria saber que está mexendo em um berço. Não

vou fazer dezoito até Novembro. Eu pulei a sétima série. Esse foi o ano em

que meus pais se divorciaram, e eu estava angustiada. Ou era estudar o

tempo todo ou me transformar em uma das garotas agitadas do ginásio do

colégio de Harwich. Elas eram as mais vagabundas e normalmente

engravidavam aos dezesseis. Sabe de que tipo estou falando?

– Claro. – em Gates você as via rindo em pequenos grupos fora do Frank’s

Foutain, ou do Daily Delish, esperando pelos garotos que vinham em seus

Fords e Plymouths, carros rápidos com, saias traseiras e decalques em que se lia FRAM e QUAKER STATE nas janelas traseiras. Você poderia ver essas

garotas como mulheres do outro lado da Main Street, dez anos mais velhas,

e vinte quilos mais gordas, bebendo cerveja e outras coisas na Tarvena do

Chucky.

– Eu me tornei uma CDF. Meu pai estava na Marinha. Ele saiu por

incapacidade e se mudou para cá, Maine. . Damariscotta, abaixo da costa?

Eu assenti, pensando nos garotos engomadinhos de Diane Renee, aquela

que disse urra e se juntou a Ma-ma-rinhaaa.

– Eu estava vivendo em Connecticut com minha mãe e ia para o Colégio de

Harwich. Eu me candidatei a dezesseis escolas diferentes, e fui aceita em todas, exceto três. . mas. .

– Mas eles esperavam que você pagasse do próprio bolso e você não podia.

Ela assentiu.

– Eu acho que perdi as bolsas por talvez uns vinte pontos no teste de aptidão.

Uma ou duas atividades extracurriculares não teriam doído, mas eu estava

ocupada demais sendo uma CDF. E nessa época eu comecei com Sully-

John. .

– O namorado, certo?

Ela assentiu, mas não como se pensar nele a interessasse.

– As únicas duas ofertas de ajuda inanceira realista eram Maine e UConn.

Eu decidi pelo Maine porque eu não estava me dando muito bem com

minha mãe. Muitas brigas.

– Você se dá melhor com seu pai?

– Mal o vejo. – ela disse em um tom seco. – Ele vive com uma mulher que. .

bem, eles bebem demais e brigam demais, vamos deixar a coisa assim. Mas

ele é um residente do estado, eu sou a ilha dela, e essa é uma boa faculdade. Eu não consegui tudo do que precisava (UConn ofereceu um acordo melhor, francamente), mas eu não tenho medo de fazer uns

trabalhinhos. Vale a pena, apenas para se afastar de tudo.

Ela respirou fundo o ar da noite, e o soltou, levemente esbranquiçado.

Estávamos quase de volta ao Franklins. Na entrada eu podia ver os caras sentados em cadeiras de plástico, esperando as garotas descerem as

escadas. Parecia uma galeria de quadros. Vale a pena, apenas para se

afastar de tudo, ela havia dito. Isso signi icava a mãe, a cidade, o colégio, ou estava o namorado incluído?

Quando chegamos às portas duplas abertas à frente de seu dormitório, eu

pus meus braços ao seu redor e me inclinei para beijá-la novamente. Ela pôs as mãos em meu peito, e parando. Não afastando, apenas parando. Ela

olhou para meu rosto, sorrindo aquele pequeno sorriso dela. Eu poderia

amar aquele sorriso, eu pensei, era o tipo de sorriso que você acordava pensando no meio da noite. Os olhos azuis e o cabelo loiro também, mas a

maior parte era o sorriso. Os lábios curvados um poucos, mas os cantos da

boca afundados por covinhas.

– O nome do meu namorado é John Sullivan. – ela disse. – Como o lutador.

Agora me diga o nome de sua namorada.

– Annmarie. – eu disse, não ligando muito para o som que saia de minha boca. – Annmarie Soucie. Ela é uma formanda este ano no ginásio do

Colégio Gates Falls. – eu soltei Carol. Quando o iz, ela tirou as mãos de meu

peito e segurou as minhas.

– Isto é informação. – ela disse. – Informação, é só isso. Ainda quer me beijar.

Eu assenti. Queria mais do que nunca.

– Está bem. – ela levantou a cabeça, fechou os olhos e abriu a boca um pouco.

Ela parecia uma criança esperando no pé da escada pelo seu beijo de boa

noite do papai.