Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 7 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 6

Ambos sorriam.

Tem algo de errado aqui, Bobby pensou, e enquanto o Sr. Biderman abria a

porta do passageiro para sua mãe, e enquanto ela murmurava um

agradecimento e entrava, segurando o vestido para não amassar, ele

sentiu-se impelido a dizer para ela não ir, Rhode Island era longe demais, Bridgeport seria longe demais, ela precisava ficar em casa.

– Não faça nada que eu não faria, garotão. – ele disse.

– Mas se izer, diga que fui eu. – Cushman disse do banco traseiro. Bobby

não sabia exatamente o que isso queria dizer, mas deve ter sido engraçado

porque Dean riu e o Sr. Biderman lhe deu aquele tipo de piscadela “só-

entre-nós”.

Sua mãe se inclinou em sua direção.

– Seja um bom menino, Bobby. – ela disse. – Eu voltarei à noite, por volta das oito da Quinta-Feira, no máximo antes das dez. Tem certeza que está bem com isso?

Não. Não estou bem com isso. Não vá com eles. Mamãe, não vá com o Sr. Biderman e estes dois bananas sorridentes sentados atrás de você. Estes dois babacas. Por favor, não vá.

– Claro que está. – o Sr. Biderman disse. – Ele é um garotão. Não é, garotão?

– Sim. – ele disse. – Eu sou um garotão.

O Sr. Biderman riu ferozmente ( mate o porco, corte sua garganta , Bobby pensou) e ligou o Mercury. “Providence, vamos nessa!” ele gritou, e o carro

saiu do meio- io, virou para o outro lado da Broad Street e seguiu em

frente na direção da Asher. Bobby continuou no meio-feio, acenando

enquanto o Mercury passava pela casa de Carol e depois pela de Sully-

John. Ele sentiu como se tivesse um osso no coração. Se esta era uma

espécie de premonição (um palpite), ele nunca mais queria ter outra.

Uma mão caiu sobre seu ombro. Ele olhou para trás e viu Ted em seu roupão e chinelos, fumando um cigarro. Seu cabelo, que ainda tinha um

compromisso com a escova naquela manhã, estava espalhado pelas suas

orelhas em cômicos arrepios alvos.

– Então aquele era o chefe. – ele disse. – Sr. . Bidermeyer, não é?

– Biderman.

– E o que você acha dele, Bobby?

Falando com uma baixa e amarga limpidez, Bobby disse:

– Eu confiarei nele quando conseguir levantar um piano.

6

Um Velho Tarado. A Caçarola de Ted. Um Sonho Ruim.

A Aldeia dos Amaldiçoados. Submundo.

Mais ou menos uma hora depois de ver sua mãe sair, Bobby desceu até o

Campo B atrás do Clube Sterling. Não haveria jogos até a tarde, nada a não

ser brincadeiras de rebatidas ou lançamentos, mas até isso era melhor do

que nada. No Campo A, ao norte, as criancinhas estavam jogando algo que

vagamente lembrava beisebol; no Campo C, ao sul, alguns garotos do

ensino médio estavam jogando algo que era muito aproximado do beisebol.

Pouco depois do relógio do parque da cidade apontar o meio-dia e os

garotos saírem em disparada procurando o carrinho de cachorro-quente,

Bill Pratt perguntou, “Quem é aquele cara estranho ali?”.

Ele apontava para um banco na sombra. E embora Ted estivesse usando

um casaco, um velho chapéu, e óculos escuros, Bobby o reconheceu de

imediato. Ele imaginou que S-J também iria, se S-J não estivesse no Acampamento Winnie. Bobby quase levantou uma mão em um aceno,

então parou, porque Ted estava disfarçado.

Ainda assim, ele tinha vindo ver seu amigo do andar abaixo jogar bola.

Mesmo não sendo um jogo de verdade, Bobby sentiu uma grande e

absurda inchação crescer em sua garganta. Sua mãe só viera vê-lo uma vez

nos dois anos que ele já jogava (no último Agosto, quando seu time havia jogado nos Campeonatos das Três Cidades), e mesmo assim ela teve que ir

embora ao quarto tempo, antes que Bobby izesse a jogada que decidira a

partida. Alguém tem que trabalhar por aqui, Bobby-O , ela teria respondido se ele ousasse se aproximar dela para reclamar. Seu pai não nos deixou exatamente bem, entende. Era verdade, é claro, ela tinha que trabalhar e Ted estava aposentado. Exceto que Ted tinha que icar fora da vista dos

homens maus em casacos amarelos, e esse era um trabalho que tomava o

dia todo. O fato de que eles não existiam não era o ponto.

Ted acreditava que existiam. . mas havia saído só para vê-lo jogar mesmo assim.

– Provavelmente algum velho tarado querendo fazer uma chupeta em uma

dessas criancinhas. – Harry Shaw disse. Harry era baixo e forte, um garoto

atravessando a vida com seu queixo preso ao chão. Ficar com Bill e Harry

fez Bobby icar subitamente enjoado de saudade de Sully-John, que havia

partido no ônibus para o Acampamento Winnie na manhã da Segunda-

Feira (no horário desanimador das cinco da manhã). S-J não era muito

temperamental, e era gentil. Às vezes Bobby achava que essa era a melhor

coisa sobre Sully: ele era gentil.

Do Campo C veio o forte som de uma tacada, um som de uma grande

pancada, que nenhum dos meninos do Campo B poderia produzir ainda.

Isso foi seguido de selvagens urros de aprovação dados por Bill e Harry, e

Bobby olhou naquela direção um pouco nervoso.

– Os garotos do St. Gabe. – Bill disse. – Eles acham que são donos do Campo

C.

– Babacas nojentos. – Harry disse. – Esses nojentos, eu poderia derrubar qualquer um deles.

– E quanto a quinze ou vinte? – Bill perguntou, e Harry permaneceu em silêncio.

Mais a frente, brilhando como um espelho, estava o carrinho de cachorro-

quente. Bobby tocou o dinheiro em seu bolso. Ted havia lhe dado, tirado do

envelope que sua mãe havia deixado, e então o havia colocado atrás da

torradeira, dizendo a Bobby para pegar o que precisasse quando

precisasse. Bobby ficou quase exaltado por esse nível de confiança.

– Olhe pelo lado bom. – Bill disse. – Talvez alguns desses garotos do St.

Gabe batam naquele velho tarado.

Quando chegaram ao carrinho, Bobby comprou apenas um cachorro-

quente ao invés dos dois que ele havia planejado. Seu apetite parecia ter diminuído. Quando eles voltaram ao Campo B, onde os treinadores dos

Lobos agora apareciam em carrinhos com os equipamentos, o banco no

qual Ted estivera sentado estava vazio.

– Venham, venham! – O treinador Terrell chamou, batendo palma. – Quem

é que quer jogar beisebol por aqui?

***

Naquela noite Ted cozinhou sua famosa caçarola no forno dos Garfield. Isso

queria dizer mais cachorros-quentes, mas no verão de 1960, Bobby

Gar ield poderia comer cachorros-quentes três vezes ao dia e mais um na

hora de dormir.

Ele leu algumas coisas para Ted no jornal enquanto Ted arrumava o jantar.

Ted apenas queria ouvir alguns parágrafos sobre a inevitável revanche

entre Patterson e Johansson, aquela que todos chamavam de a luta do

século, mas ele queria ouvir todas as palavras do artigo sobre a luta da noite do dia seguinte entre Albini e Haywood no Garden em Nova York.

Bobby pensou que isso era moderadamente esquisito, mas ele estava feliz

demais para comentar sobre isso, deixe que as sombras reclamem.

Ele não conseguia se lembrar de ter passado uma noite sem sua mãe, e ele

sentia saudades dela, mas ao mesmo tempo ele estava aliviado de estar

sem ela por um tempo.

Havia uma estranha espécie de tensão correndo entre os apartamentos por semanas, talvez por meses. Era como zumbido elétrico tão constante

que você se acostumava e não percebia como isso havia se tornado parte

de sua vida até que sumisse. Esse pensamento trouxe mais um dos ditados

de sua mãe à sua mente.

– No que está pensando? – Ted perguntou enquanto Bobby vinha para

pegar os pratos.

– A mudança é boa como o descanso. – Bobby respondeu. – É algo que

minha mãe diz. Eu espero que ela esteja se divertindo tanto quanto eu.

– E eu também espero, Bobby. – Ted disse. Ele se inclinou, abriu o forno e

checou o jantar. – Eu também.

***

A caçarola estava maravilhosa, com feijão em lata da B&M (a única marca

que Bobby realmente gostava), e exóticos pedacinhos apimentados de

salsicha, não do supermercado, mas do açougueiro perto da praça da

cidade (Bobby achou que Ted os havia comprado enquanto estava em seu

“disfarce”). Tudo isso vinha em um tempero de rábano-picante que

esquentava sua boca e te fazia se sentir meio suado no rosto. Ted tinha duas porções; Bobby tinha três, lavando-as em sua garganta com vários

copos de suco de uva.

Ted apagou uma vez durante a refeição, primeiro dizendo que podia senti-

los atrás de seus olhos, então começando a falar em uma língua estrangeira

ou apenas palavras sem sentidos, mas o incidente foi breve e não fez a menor diferença ao apetite de Bobby. Os apagões eram parte de Ted, era tudo, como seu andar esquisito, e a mancha de nicotina entre seus dois

primeiros dedos de sua mão direita.

Eles lavaram a louça juntos, Ted guardando as sobras da caçarola na

geladeira e lavando os pratos, Bobby secando e guardando as coisas

porque ele sabia para onde iam todas elas.

– Interessado em me acompanhar em uma viagem para Bridgeport

amanhã? –

Ted perguntou enquanto trabalhavam. – Poderíamos ir ao cinema, na matinê de cedo, e depois eu tenho que fazer outra coisa.

– Carambola, sim! – Bobby disse. – O que você quer ver?

– Eu estou aberto a sugestões, mas eu estava pensando em, talvez, A Aldeia

dos Amaldiçoados, é um ilme Britânico. É baseado numa ótima novela de ficção-científica de John Wyndham. Acha que seria bom?

De início, Bobby estava tão excitado que nem pôde falar. Ele havia visto propagandas de A Aldeia dos Amaldiçoados no jornal, todas aquelas

crianças de semblante assustador com os olhos brilhantes, mas ele não

havia pensado que iria vê-lo de fato. Com certeza não era o tipo de matinê

de Sábado que o Asher Empire ou o Square passariam em Harwich.

Matinês nestes cinemas na maioria das vezes consistiam em mostrar ilmes

de grandes insetos monstruosos, faroestes, ou ilmes de guerra de Audie

Murphy. E embora sua mãe o levasse se ela fosse assistir a um ilme à

noite, ela não gostava de icção-cientí ica (Liz gostava de melancólicas

histórias de amor como Sombras no Fim da Escada). Outra coisa era que os

cinemas em Bridgeport não eram velhos como os de Harwich e Empire,

com sua plana, e desgastada marquise. Os cinemas em Bridgeport eram

como castelos em contos de fadas, eles tinham grandes telas (com montes

de cortinas aveludadas que as cobria entre as exibições), tetos onde pequenas luzes brilhavam em exuberância galáctica, baluartes brilhantes

de eletricidade. . e dois balcões.

– Bobby?

– Pode apostar! – ele disse inalmente, pensando que provavelmente não

dormiria hoje à noite. – Eu adorei. Mas você não tem medo dos. . você

sabe. .

– Vamos tomar um táxi, ao invés de um ônibus. Eu posso ligar para outro táxi nos levar para casa mais tarde. Nós icaremos bem. Eu acho que eles estão se afastando agora, de qualquer forma. Eu não os sinto claramente.

Ainda assim Ted olhou para longe quando disse isso, e para Bobby ele

pareceu um homem tentando contar uma história a si mesmo que no fundo

não conseguia acreditar. Se a crescente freqüência de apagões signi icar

alguma coisa, Bobby pensou, ele tem uma boa razão para olhar ao longe.

Pare, os homens maus não existem, eles não são mais reais que Flash Gordon ou Dale Arden. As coisas que ele pediu para você olhar são apenas. . apenas coisas.

Lembre-se disso, Bobby-O: apenas coisas ordinárias.

Com o jantar tirado, os dois se sentaram para assistir Bronco, com Ty Hardin.

Não era o melhor dos chamados “faroestes para adultos” ( Cheyenne e Maverick eram os melhores), mas não era ruim. Na metade do programa, Bobby soltou um peido moderadamente alto. A caçarola de Ted já havia

começado a trabalhar. Ele deu uma olhada de lado para se certi icar de

que Ted não estava apertando o nariz e fazendo uma careta. Nada, estava

apenas vendo televisão, aparentemente absorto.

Quando um comercial veio (alguma atriz vendendo refrigeradores), Ted

perguntou a Bobby se ele gostaria de um copo de refresco. Bobby disse

que tudo bem.

– Eu acho que poderia me ajudar com um daqueles antiácidos que eu vi no

banheiro, Bobby. Eu posso ter comido demais.

Enquanto levantava, Ted deixou sair um longo e sonoro peido que soou

como um trombone. Bobby pôs as mãos na boca e deu risadinhas. Ted lhe

deu um magoado sorriso e deixou a sala. As risadas de Bobby forçaram a

saída de mais peidos, um pequeno luxo de trombones, e quando Ted

voltou com a garra inha de antiácido em uma mão e uma garrafa

espumante de refresco na outra, Bobby estava rindo tanto que lágrimas

desciam até suas bochechas e icavam penduradas em sua mandíbula

como gostas de chuva.

– Isso deve ajudar. – Ted disse, e enquanto ele se inclinou para dar o refresco para Bobby, uma longa buzina soou atrás dele. – Um ganso acaba

de voar para fora da minha bunda. – ele adicionou como que comentando

um fato, e Bobby riu tanto que ele não conseguia mais ficar sentado em sua

cadeira. Ele deslizou da cadeira e deitou no mole carpete do chão.

– Eu volto logo. – Ted disse. – Há algo mais de que preciso.

Ele deixou a porta aberta entre o apartamento e a sala de estar, para que Bobby pudesse ouvi-lo subir as escadas. Quando Ted chegou ao terceiro

andar, Bobby conseguiu subir em sua cadeira novamente. Ele achou que

nunca havia rido tanto em sua vida. Ele bebeu mais um pouco, então

peidou de novo. “Um ganso acaba de voar. .

acaba de voar. .”. Mas ele não conseguiu terminar. Ele enterrou-se na

cadeira e uivou, balançando a cabeça de lado a lado.

As escadas gemeram enquanto Ted voltava. Quando ele reentrou no

apartamento ele tinha seu ventilador, com o io elétrico enrolado na base, sob um braço.

– Sua mãe tinha razão sobre isso. – ele disse. – Quando ele se inclinou para

ligá-

lo na tomada, outro ganso saiu de sua bunda.

– Ela normalmente tem. – Bobby disse, e isso soou engraçado para ambos.

Eles sentaram na sala de estar com o ventilador girando de um lado para o

outro, espalhando o crescente ar cheiroso. Bobby achou que se não

parasse de rir, sua cabeça estouraria.

Quando Bronco terminou (até lá Bobby já havia perdido o rumo da

história), ele ajudou Ted a fazer o sofá virar cama. A cama que estava escondida dentro dele não pareceu lá grande coisa, mas Liz havia

separado alguns lençóis e cobertores e Ted disse que iria servir. Bobby

escovou os dentes, então olhou da porta de seu quarto para Ted, que

estava sentado no limiar do sofá-cama assistindo ao noticiário.

– Boa noite. – Bobby disse.

Ted olhou para ele, e por um momento Bobby achou que Ted iria se

levantar, cruzar a sala, lhe dar um abraço e talvez um beijo. Ao invés disso,

ele esboçou uma engraçada e embaraçosa saudação.

– Durma bem, Bobby.

– Valeu.

Bobby fechou a porta do quarto, desligou as luzes, foi para cama, espalhou os sapatos nos cantos da cama. Enquanto olhava na escuridão, ele se

lembrou da manhã que Ted havia segurado seus ombros, então enlaçou

suas curvadas mãos em seu pescoço. Seus rostos naquele dia haviam

icado quase iguais aos dele e de Carol na roda gigante bem antes de se beijarem. O dia em que ele havia discutido com sua mãe. O dia que ele havia descoberto sobre o dinheiro no catálogo. Também o dia que ele havia

ganhado noventa centavos do Sr. McQuown. Agora vá comprar um Martini ,

o Sr.

McQuown havia dito.

Será que havia vindo de Ted? Será que o palpite surgiu do toque de Ted?

– Sim. – Bobby sussurrou na escuridão. – É, acho que provavelmente foi

isso.

E se ele me tocar de novo daquele jeito?

Bobby ainda estava pensando na idéia quando adormeceu.

***

Ele sonhou que pessoas estavam perseguindo sua mãe pela selva: Jack e

Porquinho, os Miúdos, Don Biderman, Cushman, e Dean. Sua mãe estava

usando seu novo vestido da Vestidos da Lucie, o preto com alças, só que ele

havia sido rasgado em alguns lugares por espinhos e galhos. Suas meias

estavam em farrapos. Elas pareciam pedaços de pele morta penduradas

em suas pernas. Seus olhos eram profundos buracos reluzentes de terror.

Os garotos que a perseguiam estavam nus. Biderman e os outros estavam

usando seus ternos de trabalho. Todos eles tinham riscas alternadas de

vermelho e branco pintadas em suas faces; todos brandiam lanças e

gritavam Matem o porco, cortem sua garganta! Matem o porco, bebam seu sangue! Matem o porco, derramem suas tripas!

Ele acordou sob a cinzenta luz da madrugada, tremendo, levantou-se para

usar o banheiro. Quando voltou para a cama ele não conseguia se lembrar

precisamente o que havia sonhado. Ele dormiu por mais duas horas, e

acordou com os bons aromas de bacon e ovos. Os brilhantes raios de sol batiam através de sua janela, e Ted estava fazendo o café da manhã.

***

A Aldeia dos Amaldiçoados foi o último grande ilme da infância de Bobby Gar ield; foi o primeiro e maior ilme que veio após sua infância (um negro

período onde ele era constantemente mau e estava bastante confuso, um

Bobby Gar ield que ele sentia que não conhecia). O policial que o prendeu

pela primeira vez era loiro, e o que veio à mente de Bobby, enquanto o policial o levava para longe da loja de conveniência que ele havia

arrombado (neste ponto ele e sua mãe viviam em um subúrbio ao norte de

Boston), foram todas aquelas crianças loiras de A Aldeia dos Amaldiçoados.

O policial podia ser um deles, só que crescido.

O ilme estava sendo exibido no Criterion, o rei daqueles palácios dos

sonhos de Bridgeport em que Bobby estivera pensando na noite anterior.

Era preto e branco, mas os contrastes eram perfeitos, não granulados

como no Zenith lá no apartamento, e as imagens eram enormes. Assim

como os sons, especialmente a tiritante música que tocava quando as

crianças de Midwich realmente começavam a usar seus poderes.

Bobby icou encantado com a história, entendendo mesmo antes dos

primeiros cinco minutos de ilme que essa era uma história de verdade, do

jeito que O Senhor das Moscas havia sido uma história de verdade. As pessoas pareciam reais, o que fez as partes de faz de conta mais

assustadoras. Ele imaginou que Sully-John icaria entediado, exceto pelo

inal. S-J gostava de escorpiões gigantes detonando a Cidade do México ou

Rodan esmagando Tóquio; para além disso seu interesse em o que ele

chamava de “criaturas estrelas” era limitado. Mas Sully não estava lá, e pela primeira vez desde que ele havia ido embora, Bobby sentiu-se feliz.

Eles chegaram a tempo para a matinê da uma hora, e o cinema estava

quase deserto. Ted (usando seu chapéu e seus óculos escuros pendurados

no bolso de sua camisa) comprou um grande saco de pipoca, uma caixa de

baganas, uma Coca para Bobby, e um refresco (é claro!) para si.

Constantemente ele passava a Bobby a pipoca ou os doces, e Bobby pegava

alguns, mas ele di icilmente percebia que estava comendo, nem mesmo

percebia o que ele estava comendo.

O ilme começou com todos no vilarejo inglês de Midwich caindo no sono

(um homem que dirigia um trator na hora do evento foi morto; o mesmo

aconteceu com uma mulher que caiu de cara no fogo do forno). Os militares foram noti icados, e eles mandaram um avião de reconhecimento

para dar uma espiada. O piloto dormiu no instante em que entrou no

espaço aéreo de Midwich; o avião caiu. Um soldado com uma corda

amarrada na cintura andou dez ou dozes passos na direção do vilarejo,

então caiu em um profundo sono. Quando foi trazido de volta, ele acordou

no momento em que saiu da “linha do sono” que havia sido pintada no

meio da estrada.

Todos em Midwich acordaram eventualmente, e tudo pareceu estar bem. .

até algumas poucas semanas depois, as mulheres na cidade descobriram

que estavam grávidas. Velhas senhoras, jovem, até mesmo meninas da

idade de Carol Gerber, todas grávidas, e as crianças a quem deram a luz eram aquelas crianças assustadoras do cartaz, aquelas de cabelos loiros e

olhos brilhantes.

Embora o ilme nunca tenha dito, Bobby imaginou que as Crianças dos

Amaldiçoados devem ter sido causadas por algum tipo de fenômeno do

espaço sideral, como as pessoas nos casulos em Vampiros de Almas . De qualquer forma, elas cresciam mais rápido do que crianças comuns, eram

super-inteligentes, e podiam fazer com que as pessoas izessem o que elas

queriam. . e elas eram impiedosas. Quando um pai tentou disciplinar sua

própria Criança dos Amaldiçoados, todas as crianças se juntaram e

direcionaram seus pensamentos no adulto que maltratava a outra (seus

olhos brilhavam, a música era tão pulsante e estranha que os braços de

Bobby se arrepiaram enquanto bebia a Coca) até que o cara pôs uma

escopeta na própria cabeça e se matou (essa parte não foi mostrada, e

Bobby ficou aliviado).

O herói era George Sanders. Sua esposa havia dado a luz a uma criança

loira. S-J teria feito pouco de George, o chamando de “bastardo afeminado”,

ou “velhote maricas”, mas Bobby achou isso uma bem-vinda mudança de

heróis como Randolph Scott, Richard Carlson, e o inevitável Audie Murphy.

George sabia como icar frio. Ele usava uma gravata especial e legal e

penteava o cabelo para trás da cabeça. Ele não parecia durão o bastante para enfrentar um grupo de bandidos de faroeste ou coisa assim, mas ele

era o único cara de Midwich com quem as Crianças dos Amaldiçoados não

mexiam; na verdade elas o escolheram para ser seu professor. Bobby não

conseguia imaginar Randolph Scott ou Audie Murphy ensinando a um

bando de crianças super-inteligentes do espaço sideral qualquer coisa.

No im, George Sanders conseguiu se livrar delas. Ele havia descoberto que

conseguia impedir que as Crianças lessem sua mente (ou pelo menos por

uns momentos), se imaginasse uma parede de tijolos em sua cabeça, com

todos os seus pensamentos secretos atrás dela. E depois que todos haviam

decidido que as Crianças precisavam sumir (você poderia ensinar

matemática, mas não por que era mau punir alguém fazendo essa pessoa

dirigir penhasco abaixo), Sanders pôs uma bomba-relógio em sua pasta e a

levou para a escola. Esse era o único lugar onde as Crianças (Bobby

entendeu de um vago modo que elas eram apenas versões sobrenaturais

de Jack Merridew e seus caçadores em O Senhor das Moscas) icavam todas

juntas.

Elas sentiram que Sanders escondia algo delas. Na excruciante seqüência

inal do ilme, você poderia ver tijolos voando da parede que Sanders havia

construído em sua cabeça, voando cada vez mais rápido, enquanto as Crianças dos Amaldiçoados bisbilhotavam nele, tentando achar o que ele

estava escondendo. Finalmente descobriram a imagem de uma bomba

dentro da pasta (oito ou nove bananas de dinamite presas a um relógio-

alarme). Você veria seus assustadores olhos brilhantes esbugalhados com

a compreensão, mas elas não tiveram tempo de fazer nada. A bomba

explodiu. Bobby icou chocado que o herói morreu, Randolph Scott nunca

morria em uma matinê de Sábado no Empire, nem Audie Murphy ou

Richard Carlson, mas ele entendeu que George Sanders havia dado sua

vida Pelo Bem de Todos. Ele achou que havia entendido outra coisa

também: Ted havia apagado.

Enquanto Ted e Bobby visitavam Midwich, o dia ao sul de Connecticut

havia se tornado quente e ofuscante. Bobby não gostava muito do mundo

depois de ver um ilme realmente bom, de qualquer forma; por um

instante ele achou que era uma piada injusta, cheia de pessoas com olhos estúpidos, pequenos planos, e manchas faciais. Às vezes ele achava que o mundo tinha uma trama que ficaria muito melhor.

– Brautigan e Gar ield atingem os tijolos! – Ted exclamou enquanto saiam do cinema, parando sob uma marquise (um banner com a inscrição ENTRE

ESTÁ FRIO LÁ DENTRO estava pendurado na parte frontal). – O que

achou? Você gostou?

– Foi ótimo. – Bobby disse. – “Fantabuloso”. Obrigado por me trazer. É

praticamente o melhor ilme que eu já vi. Você viu quando ele tinha a

dinamite? Você achou que ele conseguiria enganá-las?

– Bem. . eu já li o livro, lembre-se. A pergunta é, você vai?

– Sim! – Bobby sentiu uma gana de voltar como um raio para Harwich,

percorrer todas as distâncias de Connecticut Pike até a Avenida Asher sob

a quente luz do sol para poder alugar A Aldeia dos Malditos com seu novo cartão da biblioteca de adulto. – Ele escreveu outras histórias de icçãocientífica?

– John Wyndham? Oh, sim, algumas. E sem dúvida escreverá mais. Uma

coisa boa sobre escritores de icção-cientí ica e de mistérios é que eles raramente param de escrever por muito tempo. Essa é a prerrogativa dos

escritores sérios que bebem uísque e têm romances.

– Tem algum outro tão bom quanto o que vimos hoje?

– A Revolta das Trífides é bom. O Kraken Acorda é ainda melhor.

– O que é um kraken?

Eles haviam alcançado a esquina e estavam esperando que o semáforo

mudasse.

Ted fez uma cara assustadora, esbugalhou os olhos e inclinou-se na

direção de Bobby com as mãos nos joelhos.

– É um monstro! – disse ele, fazendo uma bela imitação de Boris Karloff.

Eles seguiram em frente, primeiro falando sobre o ilme, e então se haveria

ou não vida além do espaço, e então falaram das gravatas legais que

George Sanders havia usado no ilme (Ted disse que aquele tipo de

gravata era chamado de echarpe). Quando Bobby percebeu o ambiente ao

redor, eles haviam chegado a uma parte de Bridgeport que nunca estivera

antes, quando ele vinha à cidade com sua mãe, eles icavam no centro,

onde icavam as grandes lojas. As lojas eram pequenas e imprensadas.

Nenhuma delas vendia o que as grandes lojas de departamento vendiam:

roupas e aparelhos, brinquedos e sapatos. Bobby viu placas para chaveiros, serviços de contagem de dinheiro, livros usados. Em uma delas

estava escrito ARMAS DO ROD, na outra MACARRÃO GORDO. REVELAÇÃO

DE FOTOS, lia-se na terceira. Próximo à MACARRÃO havia uma loja

vendendo LEMBRANÇAS ESPECIAIS. Havia algo estranhamente parecido

com as estradinhas do Savin Rock nesta rua, e era tanto que Bobby quase

esperou ver McQuown parado na esquina com sua mesinha improvisada e

suas cartas de versos vermelhos.

Bobby tentou ver através da vitrine das LEMBRANÇAS ESPECIAIS

enquanto passavam, mas ela estava coberta por uma grande persiana de

bambu. Ele nunca havia ouvido falar sobre uma loja que cobria as vitrines

no horário do expediente.

– Quem iria querer uma lembrança especial de Bridgeport, não é?

– Bem, eu não acho que eles realmente vendam lembrancinhas. – Ted

disse. – Acho que vendem coisas de cunho sexual, poucas delas

estritamente legais.

Bobby tinha questões a fazer (mais ou menos um bilhão delas), mas achou que era melhor icar quieto. Fora de uma loja de penhores com três

sininhos pendurados acima da porta, ele parou para olhar uma dúzia de

lâminas de barbear a iadas que descansavam em veludo com suas lâminas

parcialmente abertas. Elas haviam sido organizadas em um círculo e o

resultado era estranho e (para Bobby) bonito: olhar para elas era como

olhar para algo tirado de uma máquina letal. Os cabos das lâminas eram

muito mais exóticos do que os das que Ted usava. Uma parecia com

mar im, a outra com um rubi com gravações de linhas douradas, e uma

terceira de cristal.

– Se comprasse uma dessas, você estaria se barbeando com estilo, não? –

Bobby perguntou.

Ele achou que Ted sorriria, mas ele não o fez.

– Quando as pessoas compram lâminas como aquelas, elas não as usam

para barbear, Bobby.

– O que quer dizer?

Ted não disse, mas ele lhe comprou um sanduíche em uma delicatessen

grega.

Ele veio em um pedaço de pão caseiro da qual saia um estranho molho

branco que a Bobby pareceu muito com pus de espinha. Ele se forçou a

provar porque Ted disse que era bom. Aconteceu de ser o melhor

sanduíche que ele já havia comido, carnudo como um cachorro-quente ou

um hambúrguer do Café Colony, mas com um exótico sabor que nenhum

hambúrguer ou cachorro-quente jamais tivera. E era ótimo comer na

calçada, vagando com seu amigo, olhando e sendo olhado.

– Do que eles chamam esta parte da cidade? – Bobby perguntou. – Ela tem nome?

– Atualmente, quem sabe? – Ted disse e deu de ombros. – Eles costumavam chamá-la de Grécia. Então vieram os Italianos, e os Porto

Riquenhos, e agora os Negros. Existe um novelista chamado David Goodis,

que faz o tipo de que nenhum professor lê, um gênio da capa mole vendida

em drogarias, que a chama de “Submundo”. Ele disse que cada cidade tem

uma vizinhança como esta, onde você pode comprar sexo e maconha ou

um papagaio que fale palavrão, onde os homens sentam para falar em

varandas, como aqueles homens do outro lado da rua, onde as mulheres

sempre parecem gritar para seus ilhos entrarem senão apanharão de

cinto, e onde o vinho sempre vem em sacos de papel. – Ted apontou para a

sarjeta, onde o pescoço de uma garrafa de Thunderbird saia de um saco

marrom. – É apenas o submundo, era isso que David Goodis dizia, o lugar

onde seu sobrenome não tem qualquer importância, e você pode comprar

quase qualquer coisa se tiver dinheiro no bolso.

Submundo, Bobby pensou, observando um trio de adolescentes morenos

em jaquetas de gangue que os observavam enquanto passavam. Esta é a

terra de lâminas afiadas e lembranças especiais.

O departamento de lojas Criterion e Muncie nunca havia parecido estar tão

longe. E quanto a Broad Street? Isso e toda Harwich poderiam estar em

outro sistema solar.

Finalmente chegaram a um lugar chamado O Canto do Bolso, Sinuca e

Bilhar, Jogos Automáticos, Rhenigold on Tap. Também havia outro daqueles

banners EN TR E ESTÁ FRIO LÁ DENTRO . Enquanto Bobby e Ted

passavam sob ela, um jovem de camisa sem mangas e de chapéu panamá

marrom como o tipo que Frank Sinatra usava saiu porta a fora. Ele tinha uma grande pasta em uma das mãos. Esse é o taco dele, Bobby pensou assombrado e maravilhado. Ele leva seu taco naquela pasta como se fosse um violão ou coisa parecida.