Corações na Atlântida
Willie Cegueta
– Sessenta e nove e setenta foram os piores anos. – o homem de suéter vermelho diz. – Eu estava na Colina Hamburger com a Companhia 3/187.
Perdemos vários bons homens. – então seu rosto se ilumina. – Mas eu
peguei isso. – do bolso esquerdo de seu casaco, ele pega um barba branca
presa com um cordão. – E isto. – do bolso direito ele tira um copo de isopor
rachado, a que ele sacode. Algumas moedas soltas chocalham no fundo
como dentes. – Então você vê. – ele diz, desaparecendo agora. – Há
compensações até para a vida mais cega.
Então o próprio sonho se desmancha, e Bill Shearman dorme
profundamente até as seis e quinze da manhã seguinte, quando o rádio-
relógio o acorda ao som de “O Menino do Tambor”.
1983: Deus abençoe a todos.
WILLIE CEGUETA
6:15 A.M.
Ele acorda com a música, sempre com a música; o insistente bip-bip-bip do
alarme de seu rádio-relógio é demais para sua mente suportar naqueles
primeiros momentos borrados do dia. Soa como um caminhão de lixo
dando ré. O rádio é muito ruim nesta época do ano; a leve estação a que seu rádio-relógio está sintonizado toca músicas natalinas a toda hora, e
nesta manhã ele acorda ouvindo a pior das duas ou três músicas que estão
na sua lista das mais odiadas, algo cheio de vozes sussurrantes e alegria falsa. O Coral de Hare Krishna ou Cantores de Andy Williams, ou coisa
assim.
Você ouve o que eu ouço, as vozes sussurrantes cantam enquanto ele se
senta na cama, piscando confusamente, o cabelo espetado para todas as
direções. Você vê o que eu vejo, eles cantam enquanto ele coloca os pés no
chão, faz uma careta enquanto anda pelo chão frio na direção do rádio, e aperta o botão que o desliga. Quando ele se vira, Sharon assumiu sua
postura defensiva de costume: o travesseiro esmagado contra sua cabeça,
nada à mostra exceto a curva cremosa de um ombro, uma alça de camisola
de renda, a um fofo cabelo aloirado.
Ele vai ao banheiro, fecha a porta, tira o pijama com que dormiu, o joga na
cesta de roupas, e pega seu barbeador elétrico. Enquanto ele o passa pelo
rosto, ele pensa, Por que não passam pelo resto do catálogo sensorial
enquanto estão em cima dele, rapazes?
Vocês cheiram o que eu cheiro, vocês sentem o gosto do que eu sinto, vocês
sentem o que eu sinto, quero dizer, vão nessa.
– Embuste. – ele diz enquanto se vira para o chuveiro. – É tudo embuste.
***
Vinte minutos depois, enquanto está se vestindo (o terno cinza-escuro de
Paul Stuart nesta manhã, mais sua gravata favorita da Sulka), Sharon
acorda um pouco.
Embora não o bastante para ele entender totalmente o que ela diz.
– Como é? – ele pergunta. – Eu entendi a parte da gemada, mas o resto foi
só uga-uga.
– Eu perguntei se você poderia trazer dois quartos de gemada quando
voltasse. –
ela diz. – Os Allens e os Dubrays virão hoje à noite, lembra-se?
– Natal. – ele diz, checando seu cabelo cuidadosamente no espelho. Ele já não mais parece o notório homem sonolento que senta em sua cama ao
som da música por cinco manhãs à semana (ás vezes seis). Agora ele
parece com todas as outras pessoas que viajarão a Nova York com ele às sete e quarenta, e isso é justamente o que ele quer.
– O que tem o Natal? – ela pergunta com um sorriso sonolento. – Embuste,
certo?
– Certo. – ele concorda.
– Se você lembrar, traga um pouco de canela também. .
– Certo.
– . .mas se você esquecer da gemada, eu te mato, Bill.
– Eu vou lembrar.
– Eu sei. Você é muito fidedigno. E está bonito também.
– Obrigado.
Ela cai na cama novamente, então se apóia com um cotovelo enquanto ele
faz um ajuste de última hora em sua gravata, que é azul-marinho. Ele
nunca usou uma gravata vermelha em sua vida, e ele espera que possa chegar ao seu túmulo intocado por este vírus em particular.
– Eu consegui o ouropel que você queria. – ela diz.
– Hã?
– O ouropel. – ela diz. – Está na mesa da cozinha.
– Oh. – agora ele se lembra. – Obrigado.
– Não tem de quê. – ela deixa-se cair e já está começando a dormir
novamente.
Ele não inveja o fato de que ela pode ficar na cama até às nove (inferno, até
às onze, se ela quiser), mas ele inveja sua habilidade de acordar, falar, e então dormir novamente.
Ele tinha isso quando estava na moita (a maioria dos rapazes tinha), mas a
moita foi há muito tempo atrás. No campo é como os novatos e
correspondentes sempre dizem; se você esteve lá por um tempo era só a
moita, ou às vezes, o verde.
No verde, é.
Ela diz algo mais, mas agora ela voltou a falar uga-uguês. Ele sabe o que é,
mesmo assim: tenha um bom dia, querido.
– Obrigado. – ele diz, lhe beijando o rosto. – Terei.
– Pareça bem. – ela murmura novamente, embora seus olhos estejam
fechados. –
Te amo, Bill.
– Te amo também. – ele diz, e sai.
***
Sua maleta (uma Mark Cross, não a melhor de todas, mas quase), está na
sala da frente, perto do mancebo onde está seu casaco (da Tager’s, na
Madison) pendurado. Ele pega a maleta pelo caminho e a leva para cozinha. O café está pronto (Deus abençoe, a cafeteira), e ele serve-se com
um copo. Ele abre a maleta, que está inteiramente vazia, e pega a bola de ouropel na mesa da cozinha. Ele a segura por um momento, observando o
modo como ela re lete sob as luzes luorescentes da cozinha, então a coloca
na mala.
– Você ouve o que eu ouço. – ele diz para ninguém, e então fecha a maleta.
8:15 A.M.
Lá fora, pela janela suja à sua esquerda, ele pode ver a cidade se mexendo.
A sujeira no vidro a faz parecer uma grande ruína suja (Atlântida morta, talvez, içada de volta para a super ície para brilhar sob o céu cinzento). O
dia tem um monte de neve presa em sua garganta, mas isso não o
preocupa muito; é apenas oito dias antes do Natal, e os negócios serão
bons.
O vagão cheira a vapor do café matinal, do desodorante matinal, da loção pós-barba matinal, do perfume matinal, e da fome matinal. Há uma pessoa
usando gravata em quase todos os assentos (até as mulheres as usam hoje em dia). Os rostos têm aquela aparência fofa das oito horas, ambos os olhos
introspectivos e indefesos, as conversas são chatas. Essa é a hora em que mesmo as pessoas que não bebem parecem estar de ressaca. A maioria
das pessoas se agarra ao jornal. Por que não? Reagan é o rei da América, o
mercado de seguros transformou-se em ouro, pena de morte está na moda
novamente. A vida é boa.
Ele mesmo tem as palavras cruzadas do Times abertas a sua frente, e embora ele tenha preenchido alguns quadrinhos, isso é mais como uma
medida de defesa. Ele não gosta de falar com as pessoas no metrô, não
gosta de ter qualquer tipo de conversa, e a última coisa que ele quer no mundo é um amigo de viagem. Quando ele começa a ver os mesmos rostos
em qualquer vagão, quando as pessoas começam a assentir para ele ou
dizer “Como está passando hoje?” enquanto vão se sentar, ele muda de
vagão. Não é tão di ícil permanecer desconhecido, apenas mais um viajante
do subúrbio de Connecticut, um homem notável apenas por sua recusa
inflexível em usar uma gravata vermelha.
Talvez uma vez ele tenha sido um menino de escola paroquial, talvez uma
vez ele tenha segurado uma garotinha chorosa enquanto um de seus amigos a espancava repetidamente com um bastão de beisebol, e talvez
uma vez ele tenha passado o tempo no verde. Ninguém no metrô tem que
saber destas coisas. Essa é a coisa boa sobre metrôs.
– Tudo pronto para o Natal? – o homem no assento pergunta.
Ele olha para cima, quase com uma carranca, então observa que não foi um
comentário substantivo, só um do tipo “falar para passar o tempo” que
algumas pessoas se sentem impulsionadas a fazer. O homem ao seu lado é
gordo, e sem dúvidas estará fedendo ao meio-dia, não importa o quanto de
desodorante ele use nesta manhã. . mas ele nem mesmo está olhando para
Bill, então está tudo bem.
– Sim, bem, você sabe. – ele diz, olhando para baixo, para sua maleta entre
seus sapatos (a maleta que contém a bola de ouropel e nada mais). – O
espírito está chegando em mim, pouco a pouco.
8:40 A.M.
Ele sai pela Estação Central com mil outros homens e mulheres de casaco,
executivos de médio porte em sua maioria, porquinhos-da-índia fofos que
estarão a todo vapor em suas rodas de exercício ao meio-dia. Ele para por
um momento, respirando fundo o ar gelado. A Avenida Lexington está
vestida de luzes natalinas, e não muito longe um Papai Noel que parece
Porto-Riquenho está tocando um sino. Ele tem um pote para contribuições
com um cavalete ao lado. AJUDE OS DESABRIGADOS NESTE
NATAL, diz a mensagem no cavalete, e o homem de gravata azul pensa,
Que tal um pouco de verdade na propaganda, Noel? Que tal uma mensagem
que diz AJUDEM-ME A MANTER MEU VÍCIO DE COCAÍNA NESTE NATAL ?
Não obstante, ele deixa cair duas notas de dólar no pote enquanto passa.
Ele tem uma boa sensação sobre hoje. Ele está feliz que Sharon o tenha lembrado sobre o ouropel (ele teria se esquecido de trazê-lo,
provavelmente; no fim ele sempre esquece coisas assim, a graça de prestar
atenção.
***
Uma caminhada de dez minutos o leva até o seu prédio. Do lado de fora da
porta está um jovem negro, de talvez dezessete anos, vestindo jeans preto e um sujo suéter vermelho com capuz. Ele muda de um pé para o outro,
soprando ilas de vapor pela sua boca, sorrindo freqüentemente,
mostrando um dente de ouro. Em uma mão ele segura um parcialmente rachado copo de café de isopor. Tem algumas moedas nele, que ele
chocalha constantemente.
– Um trocadinho? – ele pergunta às pessoas que passam enquanto seguem
na direção da porta giratória. – Um trocadinho para mim, senhor? Um
trocadinho para mim, senhora? Só estou tentando arrumar dinheiro para o
café-da-manhã. Obrigado, Deus o abençoe, feliz Natal. Um trocadinho para
mim, cara? Vinte e cinco centavos, talvez? Obrigado. Um trocadinho,
senhora?
Enquanto ele passa, Bill deixa cair uma moeda de cinco centavos e duas de
dez no copo do jovem negro.
– Obrigado, senhor, Deus o abençoe, feliz Natal.
– Para você também. – ele diz.
A mulher ao lado dele faz uma carranca.
– Você não deveria encorajá-lo. – ela diz.
Ele dá de ombros, e dá um pequeno sorriso envergonhado.
– É difícil para mim dizer não para qualquer um no Natal. – ele diz a ela.
Ele entra no saguão com um grupo de outros, observa brevemente a vadia
metida seguir para a banca de jornal, então ele entra nos elevadores com seus botões de andares à velha moda, e seus números de art decó (N.T. –
Expressão francesa, signi ica arte decorativa, estilo que se tornou
moda nomundo no meio dos anos 20 até o im dos anos 30. ). Aqui
várias pessoas assentem para ele, e ele troca algumas palavras com
algumas delas enquanto esperando (não como no trem, a inal de contas,
onde você pode mudar de vagão). Somado a isso, o prédio é velho; os
elevadores são lentos e presos a manivela.
– Como vai a esposa, Bill? – um homem magricela de sorriso constante do
terceiro andar pergunta.
– Carol está bem.
– E os garotos?
– Ambos bem. – ele não tem ilhos, e o nome de sua esposa não é Carol. Sua
esposa é a ex-Shanon Anne Donahue, da Escola Paroquial Secundária de
St. Gabriel, Turma de 1964, mas isso é algo que o magricela de sorriso constante nunca saberá.
– Aposto que mal conseguem esperar pelo grande dia. – o magricela diz,
seu sorriso aumentando e se tornando algo indizível. Para Bill Shearman
ele parece uma concepção de um cartunista editorial da Morte, grandes
olhos, grandes dentes, e a pele brilhante e esticada. O sorriso o faz pensar
em Tam Boi, no Vale A Shau. Aqueles rapazes do 2º Batalhão entraram lá
parecendo os reis do mundo e saíram parecendo fugitivos chamuscados de
meio acre do inferno. Eles saíram com aqueles grandes olhos e grandes
dentes. Eles ainda pareciam daquele jeito em Dong Ha, onde eles todos
meio que foram reunidos poucos dias depois. Muitas reuniões aconteceram
na moita. Muitos cozinhamentos também.
– Não conseguem esperar, absolutamente. – ele concorda. – Mas acho que
Sarah está meio que suspeitando agora sobre o cara de roupa vermelha. –
rápido, elevador, ele pensa, Jesus, me salve destas idiotices.
– Pois é, acontece. – o magricela diz. Seu sorriso oscila por um momento, como se estivesse discutindo sobre câncer, ao invés do Papai Noel. –
Quantos anos tem Sarah agora?
– Oito.
– Parece que ela havia nascido apenas um ou dois anos atrás. Cara, com certeza o tempo voa quando você está se divertindo, não é?
– Pode apostar nisso. – ele diz, esperando febrilmente que o magricela cale a boca. Nesse momento um dos quatro elevadores inalmente abre suas portas e eles saem.
***
Bill e o magricela andam um pouco pelo corredor do quinto andar juntos, e então o magricela para na frente de uma porta dupla antiga com as
palavras SEGURO CONSOLIDADO escritas em um painel de vidro, e
AJUSTADORES DA AMÉRICA no outro. De trás destas portas vêm o mundo
clique de teclados, e o som moderadamente alto de telefones tocando.
– Tenha um bom dia, Bill.
– Você também.
O magricela segue para seu escritório, e por um momento Bill vê uma
grande coroa pendurada no canto mais longe da sala. Também as janelas
foram decoradas com aquele tipo de neve que vem em latas de spray. Ele
estremece e pensa, Deus salve a todos.
9:05 A.M.
Seu escritório (um dos dois que ele tem neste prédio), está no im do
corredor.
Os dois escritórios mais próximos dele estão escuros e vazios, uma situação
que permanece pelos últimos seis meses, e uma de que ele gosta muito.
Impresso no vidro da porta de seu próprio escritório estão as palavras
ANÁLISE DA WESTERN STATES LAND. Há três cadeados na porta: aquele
que já estava lá quando ele se mudou para o prédio, mais dois que ele colocou por conta própria. Ele entra, fecha a porta, vira o ferrolho, então se
encarrega dos cadeados policiais.
Há uma mesa no centro da sala, e ela está infestada de papéis, mas
nenhum deles signi ica qualquer coisa; eles são apenas fachada.
Constantemente ele os joga fora e redistribui uma nova carga. No centro da mesa está um telefone em que ele faz ocasionais chamadas aleatórias para
que a companhia telefônica não registre que a linha estava totalmente
inativa. No último ano ele comprou uma copiadora colorida; e pareceu bem
pro issional colocada no canto perto da porta da pequena sala secundária,
mas ela nunca foi usada.
– Vocês ouvem o que eu ouço, vocês cheiram o que eu cheiro, vocês sentem
o gosto do que eu sinto. – ele murmura, e atravessa para a porta que leva a
sala secundária. Dentro dela há prateleiras estocadas com mais papéis
inúteis, dois grandes armários de arquivo (há um walkman em cima de um, sua desculpa em algumas ocasiões em que alguém bate na porta fechada e
não recebe resposta), uma cadeira, e uma escadinha móvel.
Bill pega a escadinha e a leva de volta para a sala principal e a desdobra à
esquerda da mesa. Ele põe sua maleta em cima dela. Então sobre os três primeiros degraus da escada, olha para cima (seu casaco agora se
fechando em seu corpo com o movimento), e cuidadosamente afasta um
dos painéis suspensos no teto.
Lá em cima está uma área escura que não pode ser corretamente chamada
de espaço útil, embora alguns canos e ios passem por ali. Não há poeira lá
em cima, ao menos não nesta área imediata, e tampouco há dejetos de
roedores (ele usa D-Con contra ratos uma vez ao mês). Ele não quer
amassar as roupas enquanto se mexe, é claro, mas essa não é a parte
realmente importante. A parte importante é respeitar seu trabalho e o seu
território. Isso ele aprendeu no Exército, durante seu tempo no verde, e às
vezes ele pensa que essa é a segunda coisa mais importante que ele já
aprendeu em sua vida. A mais importante é que apenas penitências
substituem con issões, e apenas penitências de inem a identidade. Essa foi uma lição que ele começou a aprender em 1960, quando ele tinha cartoze
anos. Esse foi o último ano em que ele pôde entrar em um confessionário e
dizer “Perdoe-me Padre, pois eu pequei”, e então contar tudo.
Penitência é importante para ele.
Deus abençoe, ele pensa na escuridão cheirando a mofo do espaço útil. Deus abençoe você, abençoe a mim, abençoe a todos.
Acima deste espaço estreito (uma fantasmagórica brisa leve venta
interminavelmente por ele, trazendo o cheiro da poeira dos elevadores,
bem como seus rangidos) está o fundo do sexto andar, e aqui tem um vão
falso quadrado de setenta e cinco centímetros. O próprio Bill o instalou; ele
é habilidoso com ferramentas, o que é uma das coisas que Sharon aprecia
sobre ele.
Ele abre o vão, deixando cair luz fraca sobre ele, então pega a maleta pela
alça.
Enquanto ele coloca a cabeça no espaço entre os andares, água desce
rapidamente pelo grande cano que vem do banheiro, mais ou menos sete metros ao norte de sua posição atual. Daqui à uma hora, quando as
pessoas no prédio pararem para o intervalo, esse som será tão constante
quanto as batidas ritmadas das ondas quebrando na praia. Bill di icilmente
nota isto ou qualquer um dos outros sons dos andares; ele está
acostumado a eles.
Ele sobe cuidadosamente até o topo da escadinha, e se impulsiona para
subir ao seu escritório do sexto andar, deixando Bill no quinto. Aqui em cima ele é Willie de novo, justamente como ele era no colégio. Justamente como ele era no Vietnã, onde ele era às vezes conhecido como Willie
Beisebol.
O escritório de cima tem uma forte aparência de o icina, com bobinas, motores e respiradouros estocados em prateleiras arrumadas, e o que
parece um iltro encostado em um canto da mesa. É um escritório,
entretanto; há uma máquina de escrever, um ditafone, uma cesta cheia de
papéis (também fachada, que ele periodicamente alterna, como um
fazendeiro alternando entre as colheitas), e armários de arquivo. Muitos
armários de arquivo.
Em uma parede está uma pintura de Norman Rockwell de uma família
rezando durante o jantar de Ação de Graças. Atrás da mesa está uma foto
emoldurada de Willie em seu primeiro uniforme de tenente (ganho em
Saigon pouco antes de ele ganhar sua Estrela de Prata por sua ação no
local da queda do helicóptero fora de Dong Ha), e próximo a ele está o resultado de sua honorável dispensa, também emoldurada; o nome no
papel é de William Shearman, e aqui suas condecorações são devidamente
notadas.
Ele salvou a vida de Sullivan na trilha fora da Vila. A citação que
acompanha a Estrela de Prata diz isso, os homens que sobreviveram a
Dong Ha dizem isso, e mais importante do que qualquer um desses, o
próprio Sullivan disse. Foi a primeira coisa que ele disse quando foram
tratados juntos no hospital conhecido como o Palácio das Bocetas: Você
salvou minha vida, cara. Willie sentado na cama de Sullivan, Willie com um
braço ainda envolto em ataduras e pomada ao redor dos olhos, mas estava
tudo bem, sim, ele estava legal, era Sullivan quem estava bem ferido. Esse
foi o dia em que o fotógrafo da imprensa associada tirou a foto deles, a foto
que apareceu nos jornais por todo o país. . incluindo o jornal de Harwich.
Ele pegou na minha mão, Willie pensa enquanto está de pé no escritório do
sexto andar com Bill Shearman agora no andar inferior. Acima do retrato e de sua dispensa está um cartas dos anos sessenta. Este item, não
emoldurado, e começando a amarelar nos cantos, mostra um sinal da paz.
Abaixo dele, em vermelho, branco, e azul, está o trocadilho: SÍMBOLO DOS
GRANDES FRANGOTES AMERICANOS.
Ele pegou na minha mão, ele pensa de novo. Sim, Sullivan fez isso, e Willie havia pensado em dar no pé, gritando por toda a enfermaria. Ele estava
certo de que Sullivan diria Eu sei o que você fez, você e seus amigos Doolin e
O’Meara, você achou que ela não me contaria?
Sullivan não havia dito nada disso. O que ele havia dito foi, Você salvou minha vida, cara, somos da mesma cidade e você salvou minha vida.
Merda, quais são as chances disso acontecer? E costumávamos ter tanto
medo dos garotos do St. Gabe.
Quando ele disse isso, Willie tivera certeza de que Sullivan não tinha idéia
do que Doolin, O’Meara, e ele haviam feito com Carol Gerber. Entretanto
não havia alívio em saber que estava seguro. Nada. E enquanto ele sorria e
apertava a mão de Sullivan, ele pensou: Vocês estavam certos de ter medo.
Vocês estavam certos.
Willie pôs a maleta de Bill na mesa, então se deitou com a barriga para baixo.
Ele en ia a cabeça e os braços na escuridão de ventos e cheiros de óleo entre os andares, e recoloca o painel do teto do escritório do quinto andar.
Ele está bem fechado; de qualquer forma ele não espera ninguém (ele
nunca espera; os Analistas da Western States Land nunca tiveram um
único freguês sequer), mas é melhor se assegurar. Seguro morreu de
velho.
Com o teto do quinto andar arrumado, Willie abaixa o vão deste andar.
Aqui em cima o vão é escondido por um pequeno tapete colado à madeira,
para que então ele possa ser alçado e abaixado sem muito barulho.
Ele se levanta, tira a poeira das mãos, então se volta para sua maleta e a
abre. Ele tira a bola de ouropel e a coloca em cima do ditafone que está em cima da mesa.
– Boa. – ele diz, pensando que Sharon pode ser um doce de verdade
quando ela programa sua cabeça para ser. . e ela constantemente o faz. Ele
fecha a maleta novamente e então começa a se despir, fazendo-o
cuidadosamente e metodicamente, pensando nos passos que deu desde às
seis e meia, rebobinando o filme. Ele tira tudo, até suas cuecas e suas meias
compridas pretas. Nu, ele pendura seu casco, terno, e camisa
cuidadosamente no armário onde apenas outro item está pendurado: uma
jaqueta vermelha pesada, não grossa o bastante para ser chamada de
parka. Abaixo dela há uma coisa parecida com uma caixa, grande demais
para ser chamada de maleta. Willie coloca sua Mark Cross próximo a ela, então coloca suas calças no suporte, para não amarrotar. A gravata vai
para o cabideiro na parte de trás da porta do armário, onde ela ica
pendurada por si mesma, como uma língua azul.
Ele anda nu em pêlo até um dos armários de arquivo. No topo dele está um
cinzeiro decorado com uma águia de olhar irritado com as palavras SE EU
MORRER EM UMA ZONA DE COMBATE. No cinzeiro há um par de placas de
identificação presas numa corrente. Willie passa a corrente sobre a cabeça,
então abre a gaveta mais baixa do armário. Dentro dela, roupas íntimas.
Organizadamente dobrada no topo está um par de shorts caqui ele as
colocas. Logo vêm as meias atléticas, seguidas por uma camisa de algodão
branca (sem gola). A forma de suas placas de identi icação contrasta
contra ela, como também fazem seus bíceps e quadríceps. Eles não estão
em tão boa forma quanto em A Shau e Dong Ha, mas não estão tão más
para um cara com quase quarenta.
Agora, antes de terminar de se vestir, é hora da penitência.
Ele vai para o outro armário de arquivos e abre a segunda gaveta. Ele vai
passando o dedo rapidamente pelos registros, passando pelos registros do
im de 1982, então para os deste ano: Janeiro-Abril, Maio-Junho, Julho,
Agosto (ele sempre se sente impulsionado a escrever mais no verão),
Setembro-Outubro, e inalmente o último volume: Novembro-Dezembro.
Ele senta-se à mesa, abre o registro, e passa rapidamente pelas páginas
com uma caligra ia densa. Há variações nas palavras escritas, mas a
essência é sempre a mesma: eu sinto muito com todo o coração.
Ele apenas escreve por dez minutos, mais ou menos, nesta manhã, a caneta arranhando o papel, prendendo-se ao fato básico do principal: eu sinto muito com todo o coração. Ele, pelo que pode dizer, escreveu isso mais de dois milhões de vezes. . e ele apenas começou. A con issão seria mais
rápida, mas ele está disposto a pegar o caminho mais longo.
Ele termina (não, ele nunca termina, mas ele termina por hoje), e devolve o
registro colocando-o entre aqueles que foram totalmente preenchidos, e os
que ainda serão. Então ele retorna ao estoque dos armários de arquivo
que são como cofres com gavetas. Enquanto ele abre a gaveta acima de
suas meias e cuecas, ele começa a cantarolar (não “Você ouve o que eu
ouço”, mas uma dos The Doors, aquela que fala sobre o dia destruindo a noite, a noite dividindo o dia).
Ele veste uma camisa batista azul, então um par de calças militares, ele fecha a gaveta do meio e abre a de cima. Aqui há um caderno e um par de
botas, ele pega o caderno e olha para sua capa de couro vermelha por um
momento. A palavra MEMÓRIAS está estampada na frente em faíscas
douradas. É uma coisa barata, este livro. Ele poderia pagar por coisa
melhor, mas nem sempre você tem direito as coisas que você pode pagar.
No Verão ele escreve mais histórias, mas a memória parece adormecer. É
no Inverno, especialmente por volta do Natal, que a memória desperta.
Então ele quer olhar em seu livro, que é cheio de recortes de jornal e fotos
onde todos parecem impossivelmente jovens.
Hoje ele devolve o caderno à gaveta sem abri-lo e pega as botas. Elas estão
engraxadas e brilhantes e parecem que poderiam durar até a trombeta do
julgamento inal. Talvez até mais. Elas não são do padrão do Exército, não estas, estas são botas usadas pelos soldados pára-quedistas. Mas tudo bem.
Ele não está realmente tentando se vestir como um soldado. Se ele
quisesse se vestir como um soldado, ele o faria.
Ainda assim, há tanto motivo para parecer desleixado quando para deixar
a poeira acumular no vão, e ele é cuidadoso no modo como se veste. Ele não en ia suas calças dentro das botas, é claro (ele está indo para a Quinta
Avenida em Dezembro, não Mekong em Agosto, cobras e insetos não serão
um problema), mas ele pretende parecer em ordem. Parecer elegante é
tão importante para ele quanto para Bill, talvez mais importante. Respeitar
o trabalho de um e seu território começa, a inal de contas, respeitando a si próprio.
Os últimos dois itens estão atrás da gaveta de cima, em sua escrivaninha: um tubo de maquiagem, e um pote de gel para cabelo. Ele espalha um
pouco da maquiagem na palma de sua mão esquerda, então começa a
aplicá-la, trabalhando da testa até a base de seu pescoço. Ele se move com
despreocupada velocidade de uma longa experiência, dando a si mesmo
um bronzeado moderado. Com isso feito, ele passa um pouco de gel no
cabelo, e o penteia novamente, se livrando do excesso e o tirando o que cai
na testa.
É o toque inal, o menor toque, e talvez o mais destacável. Não há vestígio do trabalhador que saiu da Estação Central uma hora atrás; o homem no
espelho colocado na parte de trás da porta da sala secundária parece um mercenário que acabou de tomar banho. Há um tipo de orgulho silencioso,
meio modesto, no rosto bronzeado, algo que as pessoas não olharão por muito tempo. As machuca se o izerem. Willie sabe disso; ele já viu
acontecer. Ele não pergunta o motivo disso acontecer. Ele fez sua vida sem
muitas perguntas, e esse é o jeito que ele gosta.
– Tudo bem. – ele diz, fechando a porta da sala secundária. – Está bonito, soldado.
Ele volta ao armário para a jaqueta vermelha, que é do tipo reversível, e para a caixa. Por enquanto ele coloca sua jaqueta sobre a cadeira da mesa,
e coloca a caixa na mesa. Ele abre as fortes dobradiças; agora parece um pouco com aqueles estojos que os vendedores de rua usam para mostrar
seus relógios falsi icados e questionáveis correntes de ouro. Há apenas
alguns itens na de Willie, um deles quebrado ao meio para que possa
caber. Há uma placa. Há um par de luvas, do tipo que você usa com o clima
frio, uma terceira luva que ele usa quando esta quente. Ele pega o par (ele
vai querer usá-las hoje, sem dúvida sobre isso), e então a placa pelo seu irme cordão. O cordão foi laçado entre os buracos pelos dois lados, para que Willie possa pendurá-lo ao redor do pescoço. Ele fecha a caixa
novamente, sem se preocupar em trancá-la, e coloca a placa em cima dela
(a mesa está tão desarrumada, mas é a única super ície em que ele pode trabalhar).
Cantarolando (we chased our pleasures here, dug our treasures there), ele abre a gaveta acima de seu joelho, tateia pelas canetas, corretivos, clipes de
papel, bloquinho de notas, e inalmente acha seu grampeador. Ele então
desenrola a bola de ouropel, colocando-a cuidadosamente ao redor do
retângulo em sua placa. Ele recorta o excesso e grampeia a coisa brilhante
irmemente no lugar. Ele a segura por um momento, primeiro avaliando o
efeito, e então o admirando.
– Perfeito! – ele diz.
O telefone toca, e ele enrijece, virando-se para olhá-lo com olhos que
subitamente estão muito pequenos e duros, e totalmente em alerta. Um
toque. Dois.
Três. No quarto a secretária manda, em sua voz de resposta (a versão dela
que vem junto com o escritório, de qualquer forma).
– Oi, você ligou para o Midtown Heating & Cooling. – Willie Shearman diz.
– Ninguém pode atendê-lo agora, então deixe sua mensagem após o bipe.
Biiiiiiiipe
Willie olha para a secretária eletrônica mais um pouco, quase como se
esperasse que ela falasse novamente (o ameaçando, talvez o acusando de
todos os crimes pelos quais ele acusa a si mesmo), mas nada acontece.
– Elegante. – ele murmura, colocando a placa decorada de volta na caixa.
Desta vez quando ele a fecha, ele a tranca. Na frente dela há um adesivo, a
mensagem é ladeada por bandeiras Americanas, EU TIVE ORGULHO DE
SERVIR, ela diz.
– Elegante, gracinha, é melhor acreditar nisso.
Ele deixa o escritório, fechando a porta com o painel de vidro em que está
escrito MIDTOWN HEATING & COOLING atrás dele, então fecha todos os
três cadeados.
9:45 A.M.
Na metade do caminho, ele vê Ralph Williamson, um dos contadores
gorduchos da Garowicz Finnacial Planning (todos os contadores na Garowicz são gorduchos, pelo que Willie pode observar). Há uma chave
presa a um velho remo de madeira em uma das mãos rosadas de Ralph, e
por isto Willie deduz que está diante de um contador de pinto pequeno.
Chave em um remo! Se uma maldita chave em um maldito remo não te
izer lembrar das alegrias da escola paroquial, se lembrar daquelas freiras
de queixos peludos e todas aquelas réguas de madeira, nada irá, ele pensa.
E sabe de uma coisa?
Ralph Williamson provavelmente deve gostar de ter uma chave em um
remo, como ele gosta de ter um sabonete em uma saboneteira com o
formato de um coelho ou um palhaço de circo pendurado na torneira de
água quente em sua casa. E daí se ele tiver?
Não julgais, para que não sejas julgado, pra caralho.
– Ei, Ralphie, como vai?
Ralph se vira, vê Willie, seu rosto se ilumina.
– Ei, oi, feliz Natal!
Willie sorri ao ver os olhos de Ralph. O maldito gorducho o venera, e por que não? Ralph está olhando para um cara tão elegante que dói. Tem que
se gostar, docinho, tem que se gostar disso.
– O mesmo pra você, cara. – ele estende a mão (agora com luva, então ele
não tem que se preocupar com sua mão sendo branca demais, e não
combinando com seu rosto), com a palma para cima. – Toca cinco aqui!
Sorrindo timidamente, Ralph toca.
– Toca dez!
Ralph vira sua mão fofa e rosada e permite que Willie a bata.
– Isso é bom pra caramba, tenho que fazer de novo! – Willie exclama, e dá
a Ralph mais cinco. – Já terminou suas compras de Natal, Ralphie?
– Quase. – Ralph diz, sorrindo e balançando a chave do banheiro. – Sim,
quase.
E quanto a você, Willie?
Willie lhe dá uma piscadela.
– Oh, você sabe como é, irmão; eu tenho uma turma de mulheres, e eu
deixo cada uma delas me comprar uma lembrancinha.
O sorriso admirável de Ralph sugere que ele não sabe como é, mas
gostaria de saber.
– Atendeu muito?
– O dia todo. É por causa dessa época do ano, você sabe.
– Parece que é sempre essa época do ano para você. Os negócios devem
ser bons. Você dificilmente fica em seu escritório.
– É por isso que Deus nos deu as secretárias eletrônicas, Ralphie. É melhor
ir agora, ou você vai acabar icando com suas calças de gabardine
molhadas.
Rindo (e corando um pouco também). Ralph segue para o banheiro
masculino.
Willie desce pelos elevadores, carregando sua maleta na mão, e checando
para se certi icar de que seus óculos estão dentro de seu bolso da jaqueta
junto ao outro. Eles estão. O envelope está lá dentro também, grosso e
estalando com notas de vinte dólares.
Quinze delas. É hora de uma pequena visita ao o icial Wheelock; Willie
estava esperando por ele ontem. Talvez ele não apareça até amanhã, mas
Willie está apostando em hoje. . não que ele goste disso. Ele sabe que é o jeito do mundo, você tem que lubri icar as rodas se quiser que este vagão
ande, mas ainda assim ele tem um ressentimento. Há vários dias em que
ele pensa em como prazeroso seria colocar uma bala na cabeça de Jasper
Wheelock. Era o jeito que as coisas aconteciam no verde, às vezes. O jeito que as coisas tinham que acontecer. Aquilo que aconteceu a Malenfant, por
exemplo. Aquele louco ilho da puta, ele, suas espinhas e seu baralho de
cartas.
Oh, sim, na moita as coisas eram diferentes. Na moita às vezes você tinha que fazer uma coisa errada para evitar que uma coisa ainda pior
acontecesse.
Comportamentos como aquele mostra que você está no lugar errado para
começar, sem dúvida, mas uma vez que você está dentro da sopa, você tem
que nadar. Ele e seus homens da Companhia Bravo estavam com a
Companhia Delta há poucos dias, então Willie não vivenciou muito com
Malenfant, mas sua voz estridente, e irritante é di ícil de esquecer, e ele se
lembra de algo que Malenfant gritava em seus intermináveis jogos de
Copa, se alguém tentasse pegar de volta uma carta jogada: Sem chance, otário! Uma vez que estás deitada, ela foi jogada!
Malenfant pode ter sido um cuzão, mas ele estava certo sobre isso. Na vida
como também nas cartas, uma vez que se está deitado, foi jogado.
***
O elevador não pára no quinto andar, mas o pensamento disso acontecer
não o deixa mais nervoso. Ele já desceu até o saguão muitas vezes com as
pessoas que trabalham no mesmo andar de Bill Shearman (incluindo o
magricela do Seguro Consolidado), e eles não o reconhece. Eles deveriam,
ele sabe que deveriam, mas não o fazem. Ele costumava pensar que era por
causa da mudança de roupas e a maquiagem, então ele decidiu que era o
cabelo, mas em seu coração ele sabe que não é por causa de nenhuma
dessas coisas. Nem mesmo pode ser por causa da insensibilidade na qual
vivem no mundo. O que ele está fazendo não é tão radical (calças militares,
botas de soldados pára-quedistas, e uma pequena maquiagem marrom não
fazem um disfarce); Sem chance que fazem um disfarce. Ele não sabe
exatamente como explicar, e na maioria das vezes nem tenta. Ele aprendeu
esta técnica, enquanto aprendia várias outras, no Vietnã.
O jovem negro ainda está do lado de fora da porta do saguão (ele colocou o
capuz de seu velho suéter agora), e ele balança seu copo de isopor rachado
para Willie.
Ele vê que o cara carregando a pasta do Sr. Reparador em uma mão está sorrindo, e então seu próprio sorriso se abre.
– Um trocadinho? – ele pergunta ao Sr. Reparador. – O que me diz, meu chapa?
– Sai da porra da minha frente, seu babaca preguiçoso, é isso que eu digo.
–
Willie lhe diz, ainda sorrindo. O jovem recua um passo, olhando para Willie
com os olhos esbugalhados e chocados. Antes que possa pensar em
qualquer coisa para dizer, o Sr. Reparador já passou da metade da quadra,
e já está quase perdido na avalanche de clientes, com sua grande maleta quadrada balançando uma mão enluvada.
10:00 A.M.
Ele entra no Hotel Whitmore, cruza o saguão, e sobe para o mezanino, onde
os banheiros públicos estão. Essa é a única parte do dia na qual ele se sente nervoso, e ele não sabe dizer o porquê; certamente nada nunca
aconteceu antes, durante, ou depois de uma de suas paradas no banheiro
do hotel (ele alterna bruscamente entre duas dúzias deles na área central
da cidade). Ainda assim, de algum modo ele está certo de que se as coisas
enlouquecerem para ele, isso acontecerá em um banheiro de hotel. Porque
o que acontece em seguida não é a transformação de Bill Shearman para
Willie Shearman; Bill e Willie são irmãos, talvez até gêmeos fraternais, e a
mudança de um para o outro parece limpo e perfeitamente normal. A
última transformação do dia de trabalho, entretanto (de Willie Shearman
para Willie Cegueta Gar ield), nunca pareceu assim. A última mudança
sempre parece sombria, furtiva, quase como se fosse a transformação de
um lobisomem. Até que esteja feito e ele esteja nas ruas de novo, batendo
sua bengala branca à sua frente, ele se sente como uma cobra deve se sentir trocando de pele, e antes que uma nova comece a ser produzida e cresça.
Ele olha em volta e vê o banheiro masculino vazio, exceto por um par de pés sob a porta da segunda cabine na longa ila delas (deve haver umas
doze ao todo). O sujeito limpou a garganta, folheou o jornal. E houve o som
pfff de um educado peido.
Willie vai até a última cabine. Ele desce sua maleta, tranca a porta, e tira sua jaqueta vermelha. Ele a vira ao avesso enquanto o faz. O outro lado é verde oliva. Ela se transformou em uma velha jaqueta de campo de um
soldado com uma única puxada.
Sharon, que realmente tem um toque de gênio, comprou este lado do casco
em uma loja de artigos militares e rasgou a costura para que ela pudesse costurá-lo facilmente na jaqueta vermelha. Antes de costurar, entretanto,
ela pôs primeiro uma insígnia de tenente, e pedaços pretos de tecido onde
icariam o nome e a unidade. Ela então lavou o traje umas trinta vezes mais
ou menos. A insígnia e as marcas da unidade se foram agora, é claro, mas
os lugares onde estiveram são claros (a roupa é mais verde nas mangas e
no peito esquerdo, de um padrão mais moderno que qualquer veterano
nos serviços armados reconheceria rapidamente.
Willie o pendura no gancho, senta-se na privada, e então pega sua maleta e
a coloca no colo. Ele a abre, tira a bengala desmembrada, e rapidamente monta os dois pedaços dela. Segurando-o pelo cabo, ele se levanta de seu assento, e pega sua jaqueta no gancho. Então ele tranca a maleta, puxa um
pouco do papel higiênico para criar o efeito sonoro apropriado de uma
cagada inalizada (provavelmente desnecessário, mas seguro morreu de
velho), e dá a descarga.
Antes de sair da cabine, ele tira os óculos do bolso da jaqueta, que também
guarda o envelope com o pagamento. Eles são grandes do tipo
wraparounds; de uma tonalidade retro que ele associa a lâmpadas de lava, e ilmes de motoqueiros fora da lei estrelados por Peter Fonda. Eles são bons para os negócios, parcialmente porque ele de algum modo dizem
“veterano” às pessoas, e parcialmente porque ninguém pode ver seus
olhos, mesmo as laterais.
Willie Shearman ica para trás do banheiro no mezanino do Whitmore
assim como Bill Shearman ica para trás no escritório do quinto andar dos
Analistas de Western States Land. O homem que sai (um homem vestindo
uma velha jaqueta militar, óculos, e batendo uma bengala branca à sua
frente), é Willie Cegueta, uma parte da mobília da Quinta Avenida desde os
dias de Gerald Ford.
Enquanto cruza o pequeno saguão do mezanino na direção das escadas
(cegos desacompanhados nunca usam as escadas), ele vê uma mulher de
blazer vermelho vindo em sua direção, usando lentes coloridas, ela parece
um tipo exótico de peixe nadando em água suja. E é claro que não é por
causa dos óculos; às duas horas desta tarde ele realmente estará cego, justamente quando ele continuou a gritar que ele estava quando ele, John
Sullivan, e Deus sabe quantos outros mais eram transportados em um
helicóptero para o hospital fora da província de Dong Ha, nos anos 70. Eu
estou cego, ele gritava mesmo enquanto puxava Sullivan para fora do caminho, mas ele não estivera, exatamente; através do branco latejante de
clarões ele havia visto Sullivan rolar e tentar segurar suas tripas expostas.
Ele havia pegado Sullivan e corrido com ele em cima de um ombro de
modo desajeitado. Sullivan era maior que Willie, bem maior, e Willie não tinha a menor idéia de como havia conseguido carregar tanto peso como
izera, por todo caminho até a clareira, onde eles haviam sido resgatados pelo helicóptero da misericórdia de Deus (Deus abençoe os helicópteros
Huey, Deus os abençoe, oh, Deus abençoe a todos). Ele havia corrido para a
clareira na direção do helicóptero com balas voando ao seu redor, e partes de corpos feitos na América jazendo pela trilha onde a mina ou armadilha,
ou o que quer que fosse, havia sido acionado.
Eu estou cego, ele havia gritado, carregando Sullivan, sentindo o sangue de Sullivan descendo em seu uniforme, e Sullivan também estava gritando. Se
Sullivan houvesse parado de gritar, Willie simplesmente teria despejado o
homem de seu ombro e corrido sozinho, tentando escapar da emboscada?
Provavelmente não. Porque ele sabia quem era Sullivan, sabia exatamente
quem ele era, ele era Sully de sua velha cidade natal, Sully que havia namorado Carol Gerber de sua velha cidade natal.
Estou cego, estou cego, estou cego ! Isso era o que Willie Shearman estava gritando enquanto carregava Sullivan, e é verdade que a maior parte do
mundo estava branco, mas ele ainda se lembra de ver as balas
atravessando as folhas e parando nos troncos das árvores; ele se lembra
de ver um dos homens que havia estado na Vila mais cedo botar a mão na
garganta. Ele se lembra de ver o sangue jorrando através dos dedos do
homem, manchando seu uniforme. Um dos outros homens da Companhia
Delta (Pagano era seu nome) pegou esse rapaz pelo tronco e passou pelo
cambaleante Willie Shearman, que realmente não conseguia ver muito.
Gritando estou cego, estou cego, estou cego, e cheirando o sangue de Sullivan, o fedor dele. E perto do helicóptero sua visão esbranquiçada
começou a piorar. Seu rosto estava queimado, seu cabelo estava queimado,
seu escalpo estava queimado, o mundo estava branco. Ele estava
chamuscado, e saia fumaça de seu sua roupa, apenas mais um fugitivo de
meio acre do inferno. Ele acreditou que nunca mais conseguiria enxergar, e isso na verdade foi um alívio. Mas é claro que ele voltou a ver.
Com o tempo, ele voltou.
A mulher de blazer vermelho o alcançou.
– Posso te ajudar, senhor? – ela pergunta.
– Não, senhora. – Willie Cegueta diz. A bengala pára de bater no chão e toca o vazio. Ela balança como um pêndulo para frente e para trás,
mapeando os lados da escadaria. Willie Cegueta assente, e então se move
cuidadosamente, mas con iante, até que consegue tocar o corrimão com a
mão que segura a maleta. Ele toma cuidado para não sorrir diretamente
para ela, mas um pouco para a sua esquerda. – Não, obrigado.
Estou bem. Feliz Natal.
Ele começa a descer, batendo a bengala enquanto o faz, de maneira fácil apesar da maleta, que está quase vazia. Mais tarde, é claro, a história será
diferente.
10:15 A.M.
A Quinta Avenida está cheia graças à época do ano (tão brilhante e cheia de enfeites que ele mal consegue ver). As lâmpadas da rua estavam
enfeitadas com coroas.
As grandes lojas se tornaram grandes e extravagantes pacotes natalinos,
completas com gigantes arcos vermelhos. Uma coroa, que deve ter
aproximadamente uns dez metros, enfeita a calma fachada cinza da
Bergdorf’s. Luzes piscam por todos os lados. Na vitrine da Sak, um
manequim elegante (com uma expressão arrogante, quase sem peitos ou
cintura) senta na garupa de uma Harley-Davidson. Ela está usando um
gorro de Papai Noel, uma jaqueta de motoqueiro nova em folha, botas altas,
e nada mais. Sinos de prata estão pendurados no guidão da moto. Em
algum lugar próximo, algumas pessoas cantam “Noite Feliz”, não
exatamente a música favorita de Willie Cegueta, mas é melhor do que
“Você ouve o que eu ouço”.
Ele pára onde sempre pára, na frente da Catedral de São Patrício do outro lado da rua da Sak’s, permitindo que as pessoas cheias de pacotes passem por ele. Seus movimentos agora são simples e elegantes. Seu desconforto
no banheiro masculino (a tímida sensação de nudez que está para ser
exposta) passou. Ele nunca se sente mais Católico do que quando chega
neste ponto. Ele era um garoto do St. Gabe a inal de contas; usava
cruci ixos, vestia a sobrepeliz, e era um coroinha; se ajoelhava no
confessionário, e comia os odiosos peixes na Sexta-Feira. Ele, de várias
formas, ainda é um garoto do St. Gabe, todas as três versões dele têm isso
em comum, que essa parte cruzou os anos e foi superada, como eles
costumavam dizer. Só que nestes dias ele cumpre penalidades ao invés de
se confessar, e sua certeza de um céu se foi. Nestes dias tudo o que ele pode fazer é ter esperança.
Ele se agacha, abre a mala, e a vira para que as pessoas que se aproximam
possam ler o adesivo no topo. Em seguida ele tira a terceira luva, a luva de
beisebol que ele possui desde o verão de 1960. Ele coloca a luva ao lado da
mala. Nada despedaça mais corações do que um cego com uma luva de
beisebol que ele achou; Deus abençoe a América.
Por último, mas não menos importante, ele tira a placa com o ouropel, e a veste.
A placa descansa contra a frente de sua jaqueta militar.
WILLIAM J. GARFIELD, EX-SOLDADO AMERICANO
SERVI EM QUANG TR1, THUA THIEN, TAM BOI, A SHAU
PERDI MINHA VISÃO NA PROVÍNCIA DE DONG HA, 1970
BENEFÍCIOS TIRADOS POR UM GOVERNO AGRADECIDO, 1973
PERDI MINHA CASA, 1975
ENVERGONHADO DE PEDIR, MAS TENHO UM FILHO NA ESCOLA PENSE
BEM DE MIM SE VOCÊ PUDER
Ele levanta a cabeça para que a luz fria deste dia frio e quase pronto para nevar, re lita nas lentes cegas de seus óculos escuros. Agora o trabalho
começa, ninguém conhece a di iculdade do trabalho. Há um jeito de se sentar, não exatamente em uma postura militar que é chamada de parada
para descanso, mas perto disso. A cabeça deve icar para cima, olhando
tanto para, quanto através das milhares e dezenas de milhares de pessoas
que passam de um lado para o outro. As mãos devem estar para baixo em
suas luvas negras, nunca mexendo na placa ou nas calças. Ele deve
continuar a projetar aquela sensação de orgulho misturado com dor e
humildade. Não deve haver sensação de vergonha ou de envergonhar, e
acima de tudo nenhum traço de insanidade. Ele nunca fala a não ser que falem com ele, e apenas quando o tom com que falam com ele é de
gentileza. Ele não responde às pessoas que lhe perguntam irritadas por
que ele não arranja um emprego de verdade, ou o que ele quer dizer com
“bene ícios tirados”. Ele não discute com as pessoas que o acusam de
falsidade ou de falar com desdém sobre um ilho que permitiria que seu
pai pedisse dinheiro nas ruas para ele ir para o colégio. Ele se lembra de ter quebrado esta regra de ferro uma única vez, em uma tarde de verão
sufocante em 1981.
– Em que colégio seu ilho estuda? – a mulher perguntou irritada. Ele não
sabe como ela está vestida, neste momento era quatro horas da tarde, e ele
estivera cego como um morcego por pelo menos duas horas, mas ele sentiu
a raiva explodindo de todas as direções, como percevejos fugindo de um
colchão velho. De certo modo ela o lembrou Malenfant com sua voz ina e irritante. “Me diga qual é, eu quero lhe mandar bosta de cachorro pelo
correio”, ela diz. “Não se importe”, ele respondeu, virando para o som da voz. “Se você tiver bosta de cachorro que quiser mandar para algum lugar,
mande para LBJ. O Expresso Federal deverá entregá-lo no inferno, eles
entregam em qualquer lugar.
– Deus o abençoe, cara. – um cara de casaco de casimira disse, e sua voz tremia com uma emoção surpreendente. Exceto que Willie Cegueta
Gar ield não estava surpreso. Ele já ouviu isso de todo os modos, ele se lembra, e alguns mais. Um surpreendente número de clientes coloca
dinheiro cuidadosamente e respeitosamente no buraco da luva de
beisebol. O cara de casaco de casimira jogou sua contribuição na mala
aberta, entretanto, onde é seu lugar apropriado. Uma de cinco. O
expediente começou.
10:45 A.M.
Até agora tudo bem. Ele repousa sua bengala cuidadosamente no chão, se apóia em um joelho e joga as contribuições da luva na mala. Então ele mexe
a mão para frente e para trás examinando as notas, embora ele possa vê-
las claramente. Ele as pega (há quatrocentos ou quinhentos dólares ao
todo, o que o coloca no caminho dos três mil dólares do dia, não é muito para esta época do ano, mas também não é nada mau), então ele as junta e
coloca um elástico ao redor delas. Ele então aperta o botão dentro da mala,
e o vão falso sai em um pulo, jogando o monte de trocados até o fundo. Ele
adiciona o rolo de notas, sem fazer esforço para esconder o que está
fazendo, sem sentir qualquer escrúpulo sobre isso, tampouco; por todos os
anos em que ele estivera fazendo isso, ninguém nunca tentou roubá-lo.
Deus ajude o filho da puta que tentar.
Ele solta o botão, fazendo o vão voltar ao seu lugar normal, e se levanta.
Uma mão imediatamente pressiona suas costas.
– Feliz Natal, Willie. – o dono da mão diz. Willie Cegueta o reconhece pelo cheiro de sua colônia.
– Feliz Natal, O icial Wheelock. – Willie responde. Sua cabeça continua
erguida em uma fraca postura de indagação; suas mãos pendem nas
laterais de seu corpo; seus pés em suas botas bem engraxadas permanecem separados a uma distância não grande o bastante para imitar
uma parada de descanso, mas ninguém está perto o bastante para prestar
atenção nisso. – Como está passando hoje, senhor?
– Na boa, filho da puta. – Wheelock diz. – Você me conhece, sempre na boa.
Aí vem um homem de casaco aberto sobre um suéter vermelho de esqui.
Seu cabelo é curto, preto no topo, cinza nos lados. Seu rosto tem uma
aparência severa que Willie Cegueta reconhece de primeira. Ele carrega
algumas sacolas (uma da Saks, outra da Bally), nas mãos. Ele pára e lê a placa.
– Dong Ha. – ele pergunta subitamente, falando não como um homem
quando dá nome a um lugar, mas como um quando reconhece um velho
amigo em uma rua movimentada.
– Sim, senhor. – Willie Cegueta diz.
– Quem foi seu comandante?
– Capitão Bob Brissum, com um u, não um o, e acima dele Coronel Andrew Shelf, senhor.
– Ouvi falar em Shelf. – diz o homem de casaco aberto. Sua face
subitamente parece diferente. Enquanto ele andava na direção do homem
na esquina, ela parecia pertencer à Quinta Avenida. Agora não parece. –
Embora, nunca o tenha conhecido.
– Nos últimos momentos do meu serviço, não vimos muitas pessoas com
patentes, senhor.
– Se você saiu do Vale A Shau, não estou surpreso. Estamos na mesma
página aqui, soldado?
– Sim, senhor. Não havia muita estrutura de comando sobrando quando
atacamos Dong Ha. Eu segui em frente com outro tenente. Seu nome era
Dieffenbaker.
O homem de suéter vermelho de esqui assentia lentamente.
– Vocês rapazes estavam lá quando aqueles helicópteros caíram, se eu
estou calculando corretamente.
– Afirmativo, senhor.
– Então você deve ter estado lá mais tarde, quando. .
Willie Cegueta não o ajuda a terminar. Ele pode sentir o cheiro da colônia e
Wheelock, mais forte do que nunca, e o homem está praticamente
arquejando em sua orelha, soando como um garoto excitado, depois de um
encontro quente. Wheelock nunca caiu na história dele, e embora Willie
Cegueta pague pelo privilégio de ser deixado em paz nesta esquina,
gentilmente na cotação atual, ele sabe que essa parte de Wheelock ainda é
policial o bastante para esperar que ele se foda. Parte de Wheelock está ativamente torcendo por isso. Mas os Wheelock do mundo nunca
entendem que o que parece falso nem sempre é falso. Às vezes os
problemas são bem mais complicados do que parecem no começo. Isso foi
outra coisa que o Vietnã lhe ensinou, nos anos anteriores, antes de se
tornar uma piada política e uma muleta para cineastas picaretas.
– Sessenta e nove e setenta foram os piores anos. – o homem grisalho diz.
Ele fala em uma voz lenta e pesada. – Eu estava em Hamburger Hill com a
Companhia 3/187, então eu sei sobre A Shau e Tam Boi. Você se lembra da
Rota 922?
– Ah, sim senhor, a Estrada da Glória. – Willie Cegueta diz. – Perdi dois amigos lá.
– Estrada da Glória. – o homem de casaco aberto diz, e de repente ele parece ter mil anos de idade, o suéter vermelho de esqui parece obsceno,
como algo vestido em uma múmia de museu por crianças mal-criadas que
acreditam estar exibindo senso de humor. Seus olhos passeiam por uma centena de horizontes. Então eles voltam para esta rua onde batem os
sinos pequeninos, sinos de Belém. Ele põe sua mala entre seus sapatos
caros e pega sua carteira de pele de porco de um bolso interno. Ele a abre,
e folheia entre um grosso maço de notas.
– Tem um filho, não, Garfield? – ele pergunta. – Tirando notas boas?
– Sim, senhor.
– Quantos anos?
– Quinze, senhor.
– Escola pública?
– Paroquial, senhor.
– Excelente. E se Deus quiser, ele nunca verá a merda da Estrada da
Glória. – o homem de casco aberto pega uma nota de sua carteira. Willie Cegueta sente também enquanto escuta Wheelock soltar uma exclamação
de surpresa, e nem precisa olhar para a nota para saber que se trata de uma de cem dólares.
– Sim, senhor, afirmativo. Se Deus quiser.
O homem de casaco toca a mão de Willie com a nota, parece supreso
quando a mão com a luva recua, como se houvesse sido tocada por algo quente.
– Coloque em minha caixa, ou no buraco da luva, se quiser. – Willie
Cegueta diz.
O homem de casaco olha para ele por um momento, o cenho levantado,
franzindo-o levemente, então parece entender. Ele se inclina, coloca a nota
no buraco antigo da luva com o GARFIELD impresso em tinta azul na
lateral, então põe a mão em um dos bolsos da frente e tira um pequeno monte de trocados. Estes ele espalha na cara do velho Ben Franklin, para prender a nota. Então ele se levanta. Seus olhos estão molhados e
vermelhos.
– Se importa se eu lhe der meu cartão? – ele pergunta a Willie Cegueta. –
Eu posso te colocar em contato com algumas organizações de veteranos.
– Obrigado, senhor, tenho certeza de que poderia, mas eu devo
respeitosamente recusar.
– Tentou a maioria delas.
– Tentei algumas, sim, senhor.
– Onde você se recuperou?
– São Francisco, senhor. – ele hesita, e então adiciona. – O Palácio das Bocetas, senhor.
O homem de casco ri ternamente com esta, e quando seu rosto se enruga,
as lágrimas que estavam em seus olhos rolam por suas bochechas frias.
– Palácio das Bocetas! – ele chora. – Eu não escuto isso há dez anos! Cristo!
Uma comadre embaixo de cada cama, e uma enfermeira nua entre cada
jogo de lençóis, certo? Nua exceto pelas miçangas do amor, que elas
deixavam.
– Sim, senhor, isso cobre tudo, senhor.
– Ou descobre. Feliz Natal, soldado. – o homem de casaco faz uma pequena
saudação com um dedo.
– Feliz Natal, senhor.
O homem de casaco pega sua mala de novo e sai andando. Ele não olha
para trás. Willie Cegueta não o teria visto se ele o tivesse feito; sua visão agora é apenas fantasmas e sombras.
– Isso foi lindo. – Wheelock murmura. A sensação do bafo fresco de
Wheelock em seu ouvido é odioso para Willie Cegueta (nojento para dizer
a verdade), mas ele não vai dar ao homem o prazer de mexer sua cabeça
um centímetro. – O velho idiota estava chorando mesmo. Como tenho
certeza de que você viu. Mas você pode fazer sua encenação, Willie, eu
deixo.
Willie não diz nada.
– Alguns soldados no hospital chamavam o lugar de Palácio das Bocetas,
hein?
– Wheelock diz. – Parece o lugar ideal para mim. Onde foi que você leu sobre ele, Soldadinho de Chumbo?
A sombra de uma mulher, uma forma escura em um dia escuro, se inclina
para a mala aberta e joga algo nela. Uma mão coberta em uma luva toca a
de Willie e ele a aperta brevemente.
– Deus o abençoe, meu amigo. – ela diz.
– Obrigado, senhora.
A sombra se move. Os pequenos vapores de hálito no ouvido de Willie não.
– Tem alguma coisa para mim, amigão?
Willie Cegueta coloca a mão no bolso da jaqueta. Ele pega o envelope e o segura, furando o ar frio com ele. É tomado de seus dedos assim que
Wheelock o percebe.
– Seu cuzão! – há medo, assim como raiva, na voz do policial. – Quantas vezes eu preciso te dizer, seja discreto, discreto!
Willie Cegueta nada diz. Ele está pensando na luva de beisebol, em como ele apagou BOBBY GARFIELD (tão bem quanto poderia apagar tinta de
couro, de qualquer forma), e então colocou o nome Willie Shearman no
lugar. Mais tarde, depois do Vietnã, e quando ele estava começando sua
nova carreira, ele a apagou uma segunda vez, e escreveu um único nome
nela, GARFIELD, em grandes letras de forma. O lugar na lateral da velha luva Alvin Dark onde todas essas mudanças havia ocorido parecia seca e
esfolada. Se ele pensar na luva, se ele se concentrar em seu desgate, e nas
camadas de nomes, ele provavelmente poderá evitar fazer algo estúpido. É
isso que Wheelock quer, é claro, o que ele quer mais do que suborno
nojento: que Willie faça algo estúpido, e estrague seu disfarce.
– Quanto tem? – Wheelock pergunta depois de um momento.
– Três mil. – Willie Cegueta diz. – Três mil dólares, Oficial Wheelock.
Isto é recebido por um breve momento de silêncio pensativo, mas
Wheelock dá um passo para trás, e o vapor do hálito em seu ouvido se
dissolve um pouco. Willie Cegueta é grato aos pequenos favores.
– Tudo bem. – Wheelock diz inalmente. – Desta vez. Mas um novo ano está
chegando, amigão, e seu amigo Jasper o Policial-Smurf tem um pedaço de
terra ao norte de Nova York em que ele quer construir uma pequena
cabana. Capisce? O preço do jogo está subindo.
Willie Cegueta nada diz, mas ele está escutando com muita, muita atenção
agora. Se isso fosse tudo, tudo terminaria bem. Mas a voz de Wheelock
sugeria que não era tudo.
– Na verdade a cabana não é a parte importante. – Wheelock continua. – A
coisa importante é que eu preciso de uma compensação melhor se eu terei
que lidar com um babaca baixo que nem você. – agora sua voz destilava
raiva genuína. – Como você pode fazer isso todo dia, mesmo no Natal, cara,
eu não sei. Pessoas que mendigam, isso é uma coisa, mas um cara como
você. . não mais cego do que eu.
Oh, você é bem mais cego do que eu, Willie Cegueta pensa, mas ainda segurando sua onda.
– E você está indo bem, não está? Provavelmente não tanto quanto aqueles
escrotos do Louvem a Deus na televisão, mas você deve ganhar. . o quê?
Mil por dia, nesta época do ano? Dois mil?
Ele nem chegou perto, mas o erro de cálculo é música para os ouvidos de Willie Cegueta Gar ield. Signi ica que seu parceiro silencioso não o está vigiando de tão perto, ou tão freqüentemente. . não ainda, de qualquer
forma. Mas ele não gosta da fúria na voz de Wheelock. Fúria é uma carta selvagem no jogo de pôquer.
– Você não é mais cego do que eu. – Wheelock repete. Aparentemente essa
é a parte que o deixa encucado. – Ei, amigão, sabe de uma coisa? Eu acho que vou te seguir em alguma noite quando você sair do trabalho, sabe? Ver
para onde você vai. – ele pausa. – Aonde você entra.
Por um momento, Willie Cegueta para de respirar. . então recomeça.
– Você não ia querer fazer isso, Oficial Wheelock. – ele diz.
– Eu não iria, hein? Por que não, Willie? Por que não? Você está cuidando
do meu bem estar, é isso? Tem medo de que possa matar a merda que põe
os ovos de ouro?
Ei, o que eu ganho de você por ano não é muito comparado a uma
recomendação, talvez uma promoção. – ele pausa. Quando ele fala de novo,
sua voz tem uma qualidade sonhadora que Willie acha especialmente
alarmante. – Eu poderia ir ao jornal.
POLICIAL HERÓI PRENDE ARTISTA INSENSÍVEL NA QUINTA AVENIDA.
Jesus, Willie pensa, Meu bom Jesus, ele fala sério.
– Diz Gar ield na sua luva ali, mas aposto que seu nome nem é Gar ield. Eu
apostaria dólares ao invés de rosquinhas.
– É uma aposta que você perderia.
– É o que você diz. . mas a lateral daquela luva parece ter visto mais do que
um nome escrito ali.
– Foi roubada quando eu era uma criança. – ele está falando demais?
Di ícil dizer. Wheelock conseguiu pegá-lo de surpresa, o bastardo. Primeiro o telefone toca em seu escritório, o bom e velho Ed da Nynex, e agora isso.
– O menino que roubou de mim escreveu seu nome nela enquanto a tinha.
Quando eu a recuperei, eu apaguei e recoloquei o meu.
– E ela foi para o Vietnã com você.
– Sim. – é a verdade. Se Sullivan tivesse visto a luva Alvin Dark e sua lateral, ele a teria reconhecido como sendo a de seu velho amigo Bobby?
Di ícil, mas quem poderia saber? Sullivan nunca a viu, não no verde, ao menos, o que fazia a questão inteira ser discutível. O O icial Jasper
Wheelock por outro lado, estava fazendo todo o tipo de pergunta, e
nenhuma delas era discutível.
– Ela foi para o Vale Atchim com você, não foi?
Willie Cegueta não responde. Wheelock está tentando levá-lo agora, e não
há lugar para onde Wheelock possa levá-lo que Willie Garfield queira ir.
– Foi com você para aquele tal de Tam Bor?
Willie nada diz,
– Cara, eu achei que tambor era um instrumento musical.
Willie continua em seu silêncio.
– O jornal. – Wheelock diz e Willie vê no meio da escuridão o cuzão
levantar as mãos e as separar lentamente, como se mostrando uma grande
fotografia. – POLICIAL
HERÓI. – ele pode apenas estar provocando. . mas Willie não tem certeza.
– Você estará no jornal, pode apostar, mas não haverá nenhuma
recomendação.
– Willie Cegueta diz. – Tampouco uma promoção. Na verdade, você seria
mandado para a rua, O icial Wheelock, para procurar outro emprego. Você
poderia tentar entrar em uma daquelas companhias de seguro, um homem
que aceita propina não pode ser vinculado.
É a vez de Wheelock parar de respirar. Quando ele começa novamente, o hálito no ouvido de Willie Cegueta se transformou em um furacão; a boca semovente do policial está quase tocando sua pele.
– O que quer dizer? – ele sussurra. Uma mão pousa no braço da jaqueta militar de Willie Cegueta. – Me diga o que caralho você quer dizer.
Mas Willie Cegueta permanece em silêncio, com as mãos nos lados de seu
corpo, a cabeça levemente para cima, olhando com atenção para a
escuridão que não vai clarear até que a luz do dia se vá, e em seu rosto está a falta de expressão que tantas vezes é mal interpretada como
orgulho arruinado, como coragem abatida, mas de algum modo ainda
intacta.
É melhor ter cuidado, O icial Wheelock, ele pensa. O gelo sobre a qual você está, está icando mais ino. Eu posso ser cego, mas você deve ser surdo se não pode ouvir o som dele se rachando sob seus pés.
A mão em seu braço o sacode levemente. Os dedos de Wheelock o
pressionam.
– Você tem um amigo? É isso, seu ilho da puta? É por isso que você segura
o envelope daquele jeito na maioria das vezes? Você tem um amigo tirando
fotos de mim?
É isso?
Willie Cegueta continua sem dizer nada; para Jasper, o Policial Smurf, ele está dando agora um sermão de silêncio. Pessoas como o O icial Wheelock
sempre irão pensar o pior se você deixar. Você só tem que dar tempo para
elas o fazerem.
– Você não vai querer foder comigo, amigão. – Wheelock diz,
maliciosamente, mas há um sutil tom de preocupação em sua voz, e a mão
na jaqueta de Willie Cegueta se afrouxa. – Agora vai ter que arrecadar
quatro mil por mês, começando em Janeiro, e se você tentar fazer
joguinhos comigo, eu vou te mostrar onde ica realmente o parque de
diversões. Você me entendeu?
Willie Cegueta nada diz. As baforadas de vapor param de bater em seu
ouvido, e ele sabe que Wheelock está pronto para se mandar. Mas ainda não; as nojentas baforadas voltam.
– Você vai queimar no inferno pelo que está fazendo. – Wheelock lhe diz.
Ele fala com grande sinceridade, quase febril. – O que eu faço com seu dinheiro é um pecado perdoável, eu perguntei ao padre, então estou certo
disso, mas o seu é mortal.
Você vai para o inferno, e vai ver quantas esmolas você consegue por lá.
Willie Cegueta pensa em uma jaqueta que Willie e Bill Shearman vêem às
vezes na rua. Há um mapa do Vietnã nas costas, normalmente os anos em
que o portador da jaqueta passou lá, e esta mensagem: QUANDO EU
MORRER, EU VOU DIRETO
PARA O CÉU, PORQUE EU GASTEI MEU TEMPO NO INFERNO. Ele poderia
mencionar este sentimento ao O icial Wheelock, mas não seria bom.
Silêncio é melhor.
Wheelock começa a se afastar, e o pensamento de Willie (de que ele está feliz de vê-lo ir), faz com que um raro sorriso toque sua face. Ele vem e vai
como um raio de sol errante em um dia nublado.
1:40 P.M.
Por três vezes ele enrolou as notas e jogou o troco no fundo da mala (ela realmente tem a função de guardar, não de dissimular), agora trabalhando
completamente pelo toque. Ele já não pode ver mais o dinheiro, não
diferencia um de cem, mas ele sente que está tendo um bom dia de fato.
Não há prazer em saber disso, entretanto. Nunca houve muito, prazer não
é o signi icado de Willie Cegueta, mas mesmo a sensação de sucesso que
ele pode ter tido outro dia foi silenciada por sua conversa com o O icial Wheelock. Às onze e quarenta e cinco, uma jovem mulher de voz bonita (
para Willie Cegueta ela soava como Diana Ross), saiu da Saks e lhe deu outro copo de café quente, como ela faz na maioria dos dias neste horário.
Ao meio-dia, outra mulher (esta não tão jovem, e provavelmente branca),
lhe trouxe um copo de sopa de macarrão e galinha. Ele agradeceu a ambas.
A senhora branca lhe beijou o rosto com lábios macios e lhe desejou o mais
feliz dos Natais.
Há o outro lado do dia também; quase sempre há. Por volta de uma da tarde, um adolescente com sua gangue de amigos, rindo, contando piadas,
e assoviando, falou em meio a escuridão da esquerda de Willie Cegueta, ele
disse que ele era um ilho da puta muito do feio, então pergunta se ele usa
aquelas luvas porque queimou os dedos tentando ler o ferro de waf les.
Ele e seus amigos correm, rindo desta velha piada.
Quinze minutos depois alguém o chuta, embora pode ter sido um acidente.
Em todas as vezes ele se inclina para a mala, entretanto, a mala está lá. É
uma cidade de ru iões, ladrões, e criminosos, mas a mala está bem aqui, como sempre esteve.
E durante todo o tempo, ele pensa em Wheelock.
O policial antes de Wheelock era mais fácil de lidar; aquele que vier depois
que Wheelock saia da força ou seja transferido para o centro também pode
ser fácil de lidar.
Wheelock vai sacudir, queimar, ou explodir, eventualmente, isso foi algo
que ele aprendeu na moita, enquanto isso, ele, Willie Cegueta, deve icar irme como um bambu em uma tempestade. Exceto que até o mais forte
dos bambus quebra se o vento soprar forte o bastante.
Wheelock quer mais dinheiro, mas não é isso que preocupa o homem de
óculos escuros e jaqueta militar; cedo ou tarde todos eles vão querer mais
dinheiro. Quando ele começou nesta esquina, ele pagava ao O icial
Hanratty cento e vinte inço. Hanratty era um cara cuja iloso ia era “viva e
deixe viver”, que cheirava a desodorante e uísque como George Raymer, o
policial da vizinhança da infância de Willie Shearman, mas o tranqüilo Eric
Hanratty ainda tinha Willie Cegueta preso a duzentos dólares por mês quando ele se aposentou em 1978. E a coisa é (cave, meus irmãos),
Wheelock estava furioso esta manhã, furioso, e Wheelock havia falado sobre consultar o padre. Estas coisas o preocupam, mas o que preocupa
ainda mais foi o que Wheelock disse sobre seguí-lo. Ver para onde você vai.
Aonde você entra. Gar ield não é seu nome. Eu apostaria dólares ao invés de rosquinhas.
É um erro foder com um verdadeiro penitente , O icial Wheelock. Willie Cegueta pensa. Você icaria mais seguro fodendo minha esposa do que meu nome, acredite.
Muito mais seguro.
Wheelock poderia fazê-lo, entretanto (o que poderia ser mais simples do
que enganar um cego, ou mesmo um que pode ver pouco mais do que
sombras?). Mais simples do que vê-lo entrar em algum hotel e em seguida
em um banheiro masculino público? Vê-lo entrar em uma cabine, enquanto
Willie Cegueta Gar ield sai como Willie Shearman? Suponha que Wheelock
possa segui-lo até a troca de Willie para Bill.
Pensar nisso traz de volta as tensões da manhã, sua sensação de ser uma
cobra entre peles. O medo de ser fotografado pegando propina vai segurar
Wheelock por um tempo, mas se ele estiver furioso o bastante, não há
como prever o que ele vai fazer. E
isso é assustador.
– Deus te ama, soldado. – uma voz diz na escuridão. – Eu queria poder fazer mais.
– Não é necessário, senhor. – Willie Cegueta diz, mas sua mente ainda está
em Jasper Wheelock, que cheira à colônia barata e falou com o padre sobre
um cego com uma placa, o cego que não é, na opinião de Wheelock, tão
cego assim. O que ele disse?
Você vai para o inferno, e vai ver quantas esmolas consegue por lá . – Tenha um feliz Natal, senhor, obrigado por me ajudar.
E o dia segue.
4:25 P.M.
Sua visão começou a melhorar, escura, distante, mas lá. É sua dica para guardar suas coisas e ir embora.
Ele se ajoelha, com as costas eretas, e repousa sua bengala atrás da mala novamente. Ele pega as últimas notas, as joga com as últimas moedas no
fundo da mala, então ele coloca sua luva de beisebol e a placa decorada com o ouropel dentro dela. Ele tranca a mala, e se levanta, segurando sua
bengala na outra mão. Agora a mala está pesada, puxando seu braço com o
peso morto de todo aquele metal. Há um barulho pesado de chocalho
enquanto as moedas vão voando de um lado para o outro, e então elas param como metal preso ao solo.
Ele sai da Quinta, suspendendo a mala no im de sua mão esquerda como
uma âncora (depois de todos esses anos ele está acostumado ao peso dela,
poderia até carregá-la para mais longe do que irá nesta tarde, se as
circunstâncias pedissem), segurando a bengala em sua mão direita e
batendo delicadamente no pavimento à sua frente. A bengala é mágica,
abrindo um corredor vazio entre as pessoas, que se empurram pela
calçada como uma onda na forma de lágrima. Quando ele chega na Quinta
com a Quarenta e três, ele consegue ver este corredor. Ele também pode
ver a placa NÃO ATRAVESSE na Quarenta e dois, piscando e parando, mas
ele continua a andar de qualquer forma, deixando um homem bem vestido
de cabelos longos e relógio dourado o alcançar e pegá-lo pelo ombro para
pará-lo.
– Cuidado, meu chapa. – o homem de cabelo longo diz. – Os carros vão
passar.
– Obrigado, senhor. – Willie Cegueta diz.
– Não há de quê. . feliz Natal.
Willie Cegueta cruza, passa pelos leões sentinelas na Biblioteca Pública, e desce mais duas quadras, onde ele vira na direção da Sexta Avenida.
Ninguém o aborda; ninguém o vigiara enquanto ele trabalhava o dia todo, e
então o seguira, esperando pela oportunidade de pegar a mala e correr
(não que muitos ladrões pudessem correr com ela, não esta mala). Uma vez, no verão de 79, dois ou três jovens, talvez negros (ele não podia dizer com
certeza; eles soaram negros, mas sua visão estivera voltando lentamente naquele dia, era sempre mais lento nos dias quentes. Quando os dias
icavam mais brilhantes), o abordaram e começaram a falar com ele de um
jeito que ele não gostou. Não era como as crianças de hoje à tarde, com suas piadas sobre ler o ferro do waf le e se ele toca uma vendo a Playboy
em Braille. Foi mais leve do que isso, e de algum modo bem estranho,
quase gentil (perguntas sobre quanto ele havia conseguido lá atrás na
catedral, e se por alguma chance ele seria generoso o bastante para fazer
uma contribuição para algo chamado a Liga Recreativa de Pólo, e se ele
queria um pouco de proteção para chegar a sua parada de ônibus, ou
metrô, ou o que fosse). Alguém, talvez um sexologista em crescimento, lhe perguntou se ele gostava de uma boceta jovem de vez em quando.
– Ela te deixa durão. – a voz disse à sua esquerda baixinho, quase
longinquamente. – Sim, senhor, tem que acreditar nessa merda.
Ele se sentiu do jeito que ele imaginou que um rato se sentiu quando um gato só icava lhe dando patadas, sem usar as garras ainda, curioso sobre o
que o rato faria, o quão rápido poderia correr, e que tipo de barulho ele faria enquanto seu terror crescia.
Willie Cegueta não estivera aterrorizado, entretanto. Assustado, sim, de
fato, você poderia dizer que ele estivera assustado, mas ele não estivera aterrorizado desde a última semana no verde, a semana que havia
começado no Vale A Shau e terminado em Dong Ha, a semana em que os
vietcongues os perseguiram incessantemente pelo oeste ao que não
pareceu exatamente uma batida em retirada, e ao mesmo tempo brincando
com ele em ambos os lados, os direcionando como gado na corredeira, sempre gritando pelas árvores, às vezes rindo na selva, às vezes atirando,
às vezes gritando na noite. Os homenzinhos que não estavam lá, Sullivan os
haviam chamado. Não há nada como eles aqui, e seu dia mais cego em
Manhattan não é tão escuro como aquelas noites depois que eles se
perderam do Capitão. Saber disso havia sido sua vantagem e o erro
daqueles jovens. Ele simplesmente aumentara sua vez, falando como um
homem ao se dirigir à velhos amigos em uma sala cheia deles.
– Me digam! – ele havia exclamado para os fantasmas de sombra que o
cercava lentamente pela calçada. – Me diga, alguém vê um policial? Eu
acredito que estes jovens camaradas aqui querem me roubar. – e isso
resolveu, fácil como puxar uma casca de laranja; os jovens camaradas que
o cercavam subitamente desapareceram na brisa fria.
Ele apenas desejava que pudesse resolver o seu problema com o O icial
Wheelock tão facilmente assim.
4:40 P.M.
O Sheraton Gotham, na Quarenta com a Broadway, é um dos maiores
hotéis de primeira classe no mundo, e na caverna de seu saguão milhares
de pessoas vêm e vão sob seu gigante candelabro. Eles perseguem seus
prazeres aqui e cavam seus tesouros lá, sem perceberem a música natalina saindo dos alto falantes até as conversas nos três restaurantes diferentes e
cinco bares, até os elevadores cênicos subindo e descendo em seus cabos
como pistões forçando uma exótica máquina de vidro. . e para o homem
cego que segue batendo sua bengala entre eles, indo para o banheiro
público masculino quase do tamanho de uma estação de metrô. Ele entra
com o adesivo na pasta virado para dentro agora, e ele é tão anônimo
quanto um cego pode ser. Nesta cidade, isso é ser muito anônimo.
Ainda assim, ele pensa enquanto entra em uma das cabines e tira a
jaqueta, colocando-a do avesso enquanto o faz, como é que em todos esses anos ninguém nunca me seguiu? Ninguém nem mesmo percebeu que um cego que entra e o homem que pode enxergar que sai são do mesmo tamanho, e carregam a mesma mala?
Bem, em Nova York, as pessoas di icilmente notam alguma coisa que não
seja da sua própria conta (a seu próprio modo, elas são tão cegas quanto Willie Cegueta).
Fora de seus escritórios, entupindo as calçadas, se aglomerando na estação
do metrô e nos restaurantes baratos, há algo tanto repulsivo quando triste
sobre eles; eles são como ninhos de toupeiras viradas pelo ancinho de um
fazendeiro. Ele viu esta cegueira de novo e de novo, e ele sabe que essa é
uma das razões do seu sucesso. . mas com certeza não a única razão. Eles não são todos toupeiras, e ele esteve jogando os dados por um longo tempo.
Ele toma precauções, é claro que toma, muitas delas, mas ainda há aqueles
momentos (como agora, sentado aqui com as calças caídas, desmontando a
bengala branca e a colocando de volta na mala) quando ele seria fácil de pegar, fácil de roubar, fácil de ser exposto. Wheelock estava certo sobre jornal, eles o adorariam. Eles iriam colocá-lo mais alto do que Amã. Eles nunca entenderiam, nunca iriam querer entender, ou ouvir o seu lado da história. Que lado? E por que nada disso jamais aconteceu?
Por causa de Deus, ele acredita. Porque Deus é bom. Deus é duro, mas
Deus é bom. Ele não pode ir se confessar, mas Deus parece entender.
Expiação e penitência levam tempo, mas lhe foi dado tempo. Deus andou
com ele em cada passo do caminho.
Na cabine, ainda entre as identidades, ele fecha os olhos e reza (primeiro
agradecendo, depois pedindo para Deus guiá-lo, e depois mais agradecimentos). Ele termina como sempre faz, em um sussurro que
apenas Deus pode ouvir: “Se eu morrer em uma zona de combate, me
coloque num saco, e me mande para casa. Se eu morrer em estado de
pecador, feche os olhos, e me aceite. Amém”.
Ele deixa a cabine, deixa o banheiro, deixa os ecos confusos do Sheraton Gotham, e ninguém anda até ele e diz, “Com licença, senhor, mas você não
era um cego agora há pouco?” Ninguém olha para ele duas vezes enquanto
ele anda pela rua, carregando sua mala como se pesasse dez quilos ao
invés de quarenta e cinco. Deus toma conta dele.
Começou a nevar agora. Ele anda devagar, Willie Shearman novamente
agora, trocando a mala de mão em mão, apenas mais um cara cansado no
im do dia. Ele continua a pensar sobre seu inexplicável sucesso enquanto
segue. Há um verso do Livro de Mateus que ele gravou na memória. São cegos , guia de cegos, ele diz, ora, se um cego guiar outro cego , cairão ambos no barranco. E tem aquele ditado que diz que em terra de cego quem tem olho é rei. Ele é o rei com o olho? Deixando Deus de lado, será que foi isso o segredo prático de seu sucesso em todos esses anos?
Talvez sim, talvez não. Em todo caso, ele foi protegido. . e em nenhum caso ele acredita que pode deixar Deus de lado. Deus está na pintura. Deus o marcou em 1960, quando ele ajudou Harry Doolin a provocar Carol, e
então o ajudou a espancá-la.
Aquela ocasião de pecado nunca abandonou sua mente. O que aconteceu
naquele pequeno bosque perto do Campo B permanece sobre tudo. Ele até
tem a luva de Bobby Gar ield para ajudá-lo a se lembrar. Willie não sabe onde Bobby está atualmente, e ele não liga. Ele manteve contato com Carol
o máximo que pode, mas Bobby não importava. Bobby parou de ser
importante quando ele o ajudou. Willie o viu ajudá-la.
Ele não se atreveu a sair e ajudá-la ele mesmo (ele tinha medo do que Harry pudesse fazer com ele, com medo de que Harry pudesse contar para
os outros, com medo de ser marcado), mas Bobby se atreveu. Bobby a ajudou, Bobby puniu Harry Doolin mais tarde naquele verão, e por fazer
estas coisas (provavelmente só por fazer a primeira delas), Bobby icou
bem, Bobby superou. Ele fez o que Willie não se atreveu a fazer, ele rolou
com a coisa e passou por cima dela, se deu bem, e agora Willie tem que fazer todo o resto. E isso é muita coisa para se fazer. Arrependimento é um trabalho que dura vinte e quatro horas por dia, e mais. Ora, mesmo com três deles trabalhando, ele mal consegue agüentar.
Ainda assim, ele não pode dizer que vive no arrependimento. Às vezes ele
pensa no bom ladrão, que se juntou a Cristo no Paraíso naquela mesma
noite. Na tarde da Sexta-Feira você está sangrando na colina de pedras da
Gólgota; na noite da Sexta-Feira você está tomando chá e bolinho com o
Rei. Às vezes alguém o chuta, às vezes alguém o empirra, às vezes ele tem
medo de ser roubado. E daí? Ele não defende aqueles que apenas podem
ficar nas sombras, vendo enquanto o dano é feito? Ele não pede por eles?
Ele não pegou a luva de beisebol da marca Alvin Dark de Bobby para dar a
eles em 1960? Ele fez. Ele fez. Deus o abençoe, ele fez. E agora eles colocam
seu dinheiro dentro dela enquanto ele ica sentado e cego do lado de fora
da catedral. Ele pede esmola por eles.
Sharon sabe. . exatamente o que Sharon sabe? Alguma coisa, sim. O quanto,
ele não pode dizer. Certamente o bastante para providenciar o ouropel; o bastante para lhe dizer que ele parece bem em seu terno Paul Stuart e sua
grava azul da Sulka; o bastante para lhe desejar um bom dia e o lembrar de trazer gemada. É o bastante. Tudo está bem no mundo de Willie, exceto
por Jasper Wheelock. O que ele fará quanto a Jasper Wheelock?
Eu acho que vou te seguir em alguma noite , Wheelock sussurra em seu ouvido enquanto Willie muda a mala que vai icando cada vez mais pesada,
para a outra mão.
Ambos os braços doem agora; ele icará feliz ao chegar ao seu prédio. Ver
para onde você vai. Aonde você entra.
O que, exatamente, ele vai fazer com Jasper, o Policial Smurf? O que ele pode fazer?
Ele não sabe.
5:15 P.M.
O jovem mendigo de suéter vermelho se foi há muito, seu lugar foi tomado
por outro Papai Noel. Willie não tem problemas em reconhecer o jovem gorducho deixando cair um dólar no pote de Noel.
– Ei, Ralphie! – ele grita.
Ralph Williamson se vira, seu rosto se ilumina quando ele reconhece Willie,
e ele levanta uma mão em uma luva. Neva mais forte agora; com as luzes acesas ao seu redor e o Papai Noel ao seu lado, Ralph parece um igura central em um cartão de feliz Natal. Ou talvez um Bob Cratchit (N.T. –
Personagem de “Um Conto de Natal”, empregado do avarento
EbenézerScrooge. ) moderno.
– Ei, Willie! Como vai?
– Como uma casa em chamas. – Willie diz, aproximando-se de Ralph com
um fácil sorriso em seu rosto. Ele deposita sua mala no chão com um
gemido, põe a mão no bolso, acha uma prata para o pote do Noel.
Provavelmente só mais um trapaceiro, e seu gorro parece um pedaço de
merda, mas enfim, que diabos.
– O que você tem aí? – Ralph pergunta, olhando para a mala de Willie, enquanto se enrola ao seu cachecol. – Parece que você roubou o cofrinho de alguma criança.
– Que nada, apenas bobinas soltas. – Willie diz. – Mais ou menos mil delas.
– Está trabalhando até no Natal?
– É. – ele diz, e subitamente tem uma idéia do que fazer com Wheelock.
Apenas um palpite, que apareceu e sumiu, mas, ei, é um começo. – É, bem
no Natal. Não há descanso para os mal criados, você sabe.
O rosto aberto e prazeroso de Ralph se abre em um sorriso.
– Duvido que tenha sido mal criado.
Willie sorri de volta.
– Você não sabe que o mal espreita no coração dos homens da Heating & Coolin, Ralphie. Eu provavelmente vou tirar uns dias de férias depois do
Natal. Acho que pode ser uma idéia realmente boa.
– Vai para o Sul? Flórida, talvez?
– Sul? – Willie olha espantado, então ri. – Oh, não. – ele diz. – Não é isso, garoto. Eu tenho muito o que fazer em casa. Uma pessoa tem que manter
sua casa em ordem. De outro modo ela pode desabar ao seu redor em um
dia em que o vento sopre.
– Suponho que sim. – Ralph ajeita seu cachecol na altura das orelhas. – Te
vejo amanhã?
– Pode apostar. – Willie diz e levanta sua mão protegida pela luva. – Toca aqui.
Ralphie toca cinco nele, então vira a mão. Ele sorri timidamente.
– Toca dez aqui, Willie.
Willie lhe toca dez.
– O quanto isso foi bom, querido Ralphie?
O sorriso tímido do homem se transforma no sorriso feliz de um garoto.
– Tão bom que quero fazer de novo. – ele grita, e bate na mão de Willie com autoridade real.
Willie ri.
– Você é o cara, Ralph. Você passa por cima.
– Você é o cara também, Willie. – Ralph responde, falando com um sotaque
fresco do leste que soa meio engraçado. – Feliz Natal.
– Pra você também.
Ele ica lá por um momento, vendo Ralph caminhar pesadamente pela
neve. Ao seu lado, o Papai Noel bate seu sino monotonamente. Willie pega
sua mala e segue para a porta de seu prédio. Então algo chama a sua
atenção, e ele pára.
– Sua barba está torta. – ele diz ao Noel. – Se você quer que as pessoas acreditem em você, conserte a merda da sua barba. – então ele entra.
5:25 P.M.
Há uma pequena caixa no armazém anexado do Midtown Heating &
Cooling.
Está cheio de trouxas de roupa, do tipo que os bancos usam para carregar
moedas. Tais trouxas normalmente têm o nome dos brancos impressos
nela, mas estas não (Willie as encomenda direto da companhia que as
fazem, em Moundsville, Virgínia Oeste).
Ele abre a mala, rapidamente pega os maços de dinheiro (estes ele vai
carregar para casa em sua maleta Mark Gross), então enche quatro
trouxas com moedas. Num canto longe da sala está um velho armário de
metal simplesmente marcado com a palavra PARTES. Willie o abre (não há
cadeado para prendê-lo), e revela outras duzentas ou trezentas trouxas
cheias de moedas. Várias vezes ao ano, ele e Sharon passeiam pelas igrejas
da cidade, empurrando estas trouxas pelo buraco de contribuições, ou
portas quando elas cabem, simplesmente deixando ao pé da porta quando
não cabem. A parte do leão sempre vai para a Catedral de São Patrício, onde ele passa o dia usando seus óculos escuros e a placa.
Mas não todo dia, ele pensa, agora se despindo. Eu não tenho que estar lá
todo dia, e ele pensa novamente que talvez Bill, Willie, e Willie Cegueta Gar ield vai tirar uma semana de folga depois do Natal. Nesta semana deve
haver um jeito de cuidar do O icial Wheelock. Para fazê-lo ir embora.
Exceto que. .
– Eu posso matá-lo. – ele resmunga. – Eu vou me foder se matá-lo. – só que
não é se foder que o preocupa. Estar condenado é o que o preocupa. Matar
era diferente no Vietnã, ou parecia diferente, mas isso não é o Vietnã, não é
o verde. Ele construiu todos esses anos de penitência apenas para jogá-los ralo abaixo novamente? Deus o está testando, testando, testando. Há uma
resposta aqui. Ele sabe que há, tem que haver. Ele apenas (ha ha,
desculpe-me o trocadilho) está cego demais para vê-la.
Ele pode ao menos encontrar o hipócrita ilho da puta? Claro que sim, isso não é problema. Ele pode achar Jasper, o Policial Smurf, pode crer. A hora
que quiser. O seguir até o lugar onde ele tira sua arma e seus sapatos e coloca seus pés no genuflexório. Mas então o quê?
Ele se preocupa com isso enquanto usa creme frio para remover sua
maquiagem, e então ele joga suas preocupações para longe. Ele pega o
registro de Novembro-Dezembro da gaveta, e por vinte minutos ele
escreve Eu sinto muito com todo o coração por ter machucado Carol . Ele preenche a página inteira, de cima a baixo, de margem a margem. Ele o
devolve, então se veste com as roupas de Bill Shearman.
Enquanto ele guarda as botas de Willie Cegueta, seus olhos caem no
caderno com a capa de couro vermelha. Ele o pega, o coloca em cima do armário de arquivo, e vira a capa com sua única palavra (MEMÓRIAS),
estampadas em ouro.
Na primeira página está a certidão de nascimento (William Robert
Shearman, nascido em 4 de Janeiro de 1946), e suas pequenas impressões
digitais dos dedos dos pés. Nas páginas seguintes há fotos dele com sua mãe, fotos dele com seu pai (Pat Shearman sorrindo como se nunca
houvesse empurrado seu ilho de sua cadeira alta, ou batido em sua
esposa com uma garrafa de cerveja), fotos dele com seus amigos. Harry
Doolin está particularmente bem representado. Em uma foto, um Harry de
oito anos está tentando comer um pedaço do bolo de aniversário de Willie
com uma venda (resultado de algum jogo, sem dúvida). Harry tem
chocolate espalhado por suas bochechas, ele está rindo e parece como se
não tivesse um único pensamento malvado na cabeça.