Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 51 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 40

– . .sabem, um pouco lelé da cuca. – Nick terminou, perdendo sua imitação

pela própria consciência, a perdição dos grandes artistas. Ele rapidamente

se sentou.

– Não é o tipo de doença que eu quis dizer exatamente. – Skip disse. – Eu

não estou falando sobre ele ser um aleijado tampouco. Ele tem espirrado, tossido, e seu nariz tem escorrido desde que ele chegou aqui. Até você

deve ter percebido isso, Dearie.

Dearie não respondeu, nem mesmo reagiu ao uso de seu apelido desta vez.

Ele deveria estar muito cansado mesmo.

– Tudo o que estou dizendo é que ele pode falar um bocado de coisas. –

Skip disse. – Ele até pode acreditar em algumas. Mas ele não tem nada a ver com isso.

O sorriso de Ebersole ressurgiu, sem humor agora.

– Eu acredito que compreendo o impulso de seu argumento, Sr. Kirk. Você

quer nos fazer acreditar que o Sr. Jones não foi o responsável pela

pichação na parede, mas se ele confessar que o fez, não deveríamos dar

crédito a suas palavras.

Skip também sorriu (o sorriso de mil watts que faziam as garotas

suspirarem).

– É isso aí. – ele disse. – “Esse” é o impulso de meu argumento, pode crer.

Houve um momento de silêncio, e então Garretsen falou o que pode ter

sido o epitáfio de nossa breve era.

– Vocês rapazes me desapontaram. – ele disse. – Vamos, Charles, não

temos mais o que ver aqui. – Garretsen levantou sua mala, girou sobre os

calcanhares e foi para a porta.

Ebersole pareceu surpreso mas correu atrás dele. O que deixou Dearie

com seus comandados do terceiro andar que o encaravam expressões de

desconfiança e censura,

– Valeu, galera. – David estava quase chorando. – Valeu por me foderem pra

caralho. – Ele saiu com a cabeça abaixada e sua pasta segura por uma mão.

No semestre seguinte ele deixou Chamberlain e se juntou a fraternidade.

Considerando todas as coisas, talvez isso tenha sido o melhor. Como Stoke

teria dito, Dearie perdeu toda a sua credibilidade.

40

– Então vocês roubaram isso também. – Stoke Jones disse de sua cama na

enfermaria quando inalmente pôde falar. Eu acabara de dizer que quase

todos no Chamberlain Hall estavam usando a pegada de passarinho em ao menos uma roupa, achando que essa notícia o alegraria. Eu estava errado.

– Fique calmo, cara. – Skip disse, tocando em seu ombro. – Não vá ter uma

hemorragia.

Stoke não olhou muito para ele. Seus olhos negros acusadores

permaneceram em mim.

– Vocês icaram com todo o crédito, então tomaram o sinal de paz. Vocês viram minha carteira? Eu acho que tinha nove ou dez dólares também.

Você pode pegá-los também. Faça uma limpeza geral. – ele virou o rosto

novamente e começou a tossir fracamente. Naquele dia frio no começo de

Dezembro de ‘66, ele pareceu ter bem mais do que dezoito anos.

Isso foi quatro dias depois de Stoke ter ido nadar na Pista de Bennett. O

doutor (seu nome era Carbury), pareceu aceitar que a maioria de nós era

amigo de Stoke não importa o quão estranhamente havíamos nos

comportado quando o trouxemos, porque continuávamos a aparecer para

perguntar como ele estava. Carbury estivera na enfermaria da faculdade,

prescrevendo para gargantas irritadas e pulsos torcidos e deslocados em jogos de softball, por anos a io e provavelmente sabia que não havia

responsabilidade no comportamento dos rapazes e garotas em sua

maioria; eles podem parecer adultos, mas a maioria continuava presa à

bizarrice da infância também. Nick Prouty fazendo teste para o papel de

Frangolino na frente do “Decano dos Homens” por exemplo. . caso

encerrado.

Carbury nunca nos disse o quão as coisas haviam sido ruins para Stoke.

Uma das voluntárias (meio apaixonada por Skip na segunda vez em que o

viu, eu acredito) nos deu um quadro claro, não que realmente

precisássemos de um. O fato que Carbury o en iara em uma sala reservada

ao invés da Ala Masculina nos disse algo; o fato de que não nos era

permitido nos aproximar muito dele nas primeiras quarenta e oito horas

de sua estada nos disse ainda mais; o fato de que ele não havia sido levado

para o Eastern Maine, que era a apenas quinze quilômetros pela estrada,

nos disse quase tudo. Carbury não se atrevera a movê-lo, nem mesmo para

a ambulância de Universidade. Stoke Jones estivera numa pior mesmo. De

acordo com a voluntária, ele teve pneumonia, hipotermia incipiente por

causa da água, e a temperatura havia chegado até quarenta graus. Ela ouviu Carbury falando com alguém ao telefone e dizendo que a capacidade

pulmonar de Jones havia sido reduzida por causa de sua de iciência, ou

seja, se ele estivesse com trinta ou quarenta anos, ao invés de ser um adolescente, ele certamente teria morrido.

Skip e eu fomos os primeiros visitantes que ele permitiu. Qualquer outro garoto no dormitório provavelmente seria visitado por pelo menos um dos

pais, mas isso não iria acontecer no caso de Stoke, sabíamos disso agora. E

se houvessem outros parentes, eles não haviam se importado em aparecer.

Nós contamos a ele tudo o que aconteceu naquela noite, com uma exceção: as risadas que começaram no salão quando o vimos correr pela Pista de

Bennett e que continuaram enquanto o carregávamos para a enfermaria.

Ele escutou em silêncio quando eu falei sobre a idéia de Skip de pôr sinais

de paz em nossos livros e roupas, de modo que Stoke não fosse

encurralado sozinho.

Mesmo Ronnie Malenfant havia ajudado, eu disse, e sem uma única piada.

Nós contamos a ele para que ele pudesse mesclar sua história à nossa; nós

também contamos isso para que ele entendesse que tentar ganhar a

culpa/crédito pela pichação agora, nos meteria em encrenca assim como

ele também. E nós falamos sem precisarmos ser diretos. Não precisamos.

Suas pernas não funcionavam, mas as coisas entre suas orelhas estavam

muito bem.

– Tire a mão de mim, Kirk. – Stoke se esquivou de nós o máximo que sua cama estreita permitia, então começou a tossir de novo. Eu me lembro que

ele parecia que só viveria por mais quatro meses, mas eu estava errado

quanto a isso; Atlântida afundou, mas Stoke Jones ainda está nadando,

advogando em São Francisco. Seu cabelo negro se tornou prateado e está

mais bonito do que nunca. Ele conseguiu uma cadeira de rodas vermelha.

Ela parece boa pela CNN.

Skip sentou e recolheu os braços.

– Eu não esperava a maior das gratidões, mas isso já é demais. – ele disse.

– Você se superou dessa vez, Matador.

Seus olhos piscaram.

– Não me chame assim!

– Então não nos chame de ladrões só porque tentamos salvar sua bunda

magricela. Inferno, nós salvamos sua bunda magricela!

– Ninguém te pediu para fazer isso.

– Não. – eu disse. – Você não pede nada para ninguém, pede? Eu acho que

você vai precisar de muletas maiores para se arrastar por aí com seu

complexo de inferioridade mais cedo do que pensa.

– Aquele complexo é o que tenho, cabeça de merda. O que você tem?

Muito o que estudar, é isso o que eu tenho. Mas eu não disse a Stoke isso.

De algum modo eu não achava que ele se derreteria em simpatia.

– Quanto daquele dia você lembra? – eu perguntei a ele.

– Eu me lembro de fazer a pichação no dormitório. Eu planejei isso por semanas.

E eu me lembro de ir para a aula de uma hora. Eu iquei lá pensando no que diria no escritório do Decano quando ele me chamasse. Que tipo de

declaração eu faria. Depois disso, tudo desaparece em pequenos

fragmentos. – ele deu um riso sarcástico e girou os olhos em suas órbitas que pareciam feridas. Ele esteve de cama por boa parte da semana, e

ainda parecia indiscutivelmente cansado. – Eu me lembro de dizer a vocês

que eu queria morrer. Eu disse isso, não foi?

Eu não respondi. Ele me deu todo o tempo do mundo, mas eu fiquei no meu

direito de permanecer calado.

Finalmente Stoke deu de ombros, do tipo que quer dizer “certo, esquece

isso”.

Isso fez o ombro de seu pijama de hospital cair de seu ombro ossudo. Ele o

colocou de volta no lugar, usando sua mão cuidadosamente (havia uma

agulha intravenosa nela).

– Então vocês descobriram o sinal da paz, hein? Ótimo. Vocês podem usá-lo

quando forem ver Neil Diamond ou a porra da Petula Clark, no Festival de Inverno.

Quanto a mim, estou fora daqui. Para mim acabou.

– Se você for para a faculdade do outro lado do país, você acha que poderá

jogar suas muletas fora? – Skip perguntou. – Talvez entrar no time de

corrida de obstáculos?

Eu iquei um pouco chocado, mas Stoke sorriu. Era um sorriso de verdade

também, radiante e ileso.

– As muletas não são relevantes. – ele disse. – O tempo é curto demais para

se desperdiçar, isso é relevante. As pessoas daqui não parecem saber o que está acontecendo, e não se importam. Eles são as pessoas cinzas.

Apenas pessoas indo com a corrente. Em Orono, Maine, comprar um disco

dos Rolling Stones se torna um ato revolucionário.

– Algumas pessoas sabem mais do que pensam. . – eu disse. . mas eu estava

preocupado pelos pensamentos de Nate, que estivera preocupado que sua

mãe poderia ver a foto dele sendo preso e icou no meio- io por causa

disso. Um rosto no fundo, o rosto de um menino cinza na estrada para a odontologia do século vinte.

O Dr. Carbury botou a cabeça pela porta.

– Hora de irem, senhores. O Sr. Jones tem muito o que descansar.

Nós ficamos lá.

– Quando Dean Garretsen vier falar com você. . – eu disse. – . .ou aquele cara, Ebersole. .

– O máximo que saberão é que aquele dia todo foi um branco. – Stoke

disse. –

Carbury pode dizer que eu tenho bronquite desde Outubro e pneumonia

desde o feriado de Ação de Graças, então eles terão que aceitar. Eu direi que não fiz nada naquele dia.

Exceto, você sabe, largar as velhas muletas e correr um pouco.

– Nós realmente não roubamos seu sinal, sabe. – Skip disse. – Apenas o pegamos emprestado.

Stoke pareceu pensar nisso, então suspirou.

– Não é meu sinal. – ele disse.

– Não. – eu concordei. – Não mais. Até mais, Stoke. Nós voltaremos para te

ver.

– Não faça disso uma prioridade. – ele disse, e eu acho que tomamos sua palavra, porque nunca fomos. Eu o vi de volta no dormitório algumas vezes,

mas poucas. E eu estava na aula quando ele se mudou sem se importar de

terminar o semestre. Na vez seguinte em que eu o vi, ele estava no

noticiário da TV, quase vinte anos depois, falando sobre a reunião do

Greenpeace pouco depois da França explodir o navio Guerreiro do Arco-

Íris. Acho que foi em 1984, ou em ’85. Desde então eu o vi na TV muitas vezes. Ele junta dinheiro para causas ambientais, fala em campus de

faculdade em cima daquela cadeira de rodas vermelha, defende os eco-

ativistas na corte quando precisam de defesa. Eu ouvi dizer que o chamam

de “abraçador de árvores”, e eu aposto que ele meio que gosta disso. Ele ainda carrega aquele complexo de inferioridade. Eu ico feliz. Como ele

disse, é o que ele tem.

Quando chegamos à porta, ele nos chamou.

– Ei?

Voltamos a olhar para o rosto ino e branco em cima de um travesseiro

branco sobre um lençol branco, a única cor de verdade nele era aquela

massa de cabelos negros.

As formas de suas pernas sob o lençol novamente me izeram pensar no

Tio Sam da parada de Quatro de Julho em minha cidade. E novamente eu

pensei nele como uma criança com apenas quatro meses de vida. Mas

adicione alguns dentes brancos à pintura também, porque Stoke estava

sorrindo.

– Ei, o quê? – Skip disse.

– Vocês dois estavam tão preocupados com o que eu diria para Garretsen e

Ebersole. . talvez eu tenha algum complexo de inferioridade, ou coisa assim,

mas eu acho di ícil acreditar que todas essa preocupação é por minha casa.

Vocês dois decidiram ir para as aulas só para variar?

– Se fossemos, acha que conseguiríamos? – Skip perguntou.

– Poderão. – Stoke disse. – Há uma coisa que eu me lembro naquela noite.

Claramente, também.

Eu achei que ele diria que se lembrava de nós rindo dele. Skip também

pensou, ele me disse mais tarde, mas não foi isso.

– Você me carregou pela porta da sala de exames sozinho. – ele disse a Skip. – Não me deixou cair, tampouco.

– Sem chance de isso acontecer. Você não pesa muito.

– Ainda assim. . estar para morrer é uma coisa, mas ninguém gosta da idéia

de ser largado no chão. É indigno. Porque você não o fez, eu vou te dar um

bom conselho.

Saia dos programas de esportes, Kirk. A não ser que tenha algum tipo de bolsa escolar atlética que não pode ficar sem.

– Por quê?

– Porque eles vão te transformar em outra pessoa. Pode demorar mais do que no CTOR para transformar David Dearborn em Dearie, mas eles