Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 19 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 8

Stoke Jones havia desaparecido, aparentemente enojado com muitos de

nós.

Ronnie olhou em volta, os olhos brilhando.

– Então. – ele disse. – Ainda estou afim. Níquel um ponto, quem quer jogar?

– Eu vou. – Skip disse.

– Eu também. – eu disse, sem nunca olhar na direção de meu livro de

geologia.

– Copas? – Kirby McClendon perguntou. Ele era o mais alto dos rapazes no

andar, talvez um dos mais altos da faculdade, um metro e noventa e cinco

pelo menos, e possuía uma longa e pesarosa cara de detetive. – Claro. Boa

escolha.

– E quanto a nós? – Ashley guinchou.

– É! – Hugh disse, soando como mulher de malandro.

– Vocês estão dispensados desta mesa. – Ronnie disse, falando com o que para ele era quase gentileza. – Por que não fazem uma para vocês

mesmos?

Ashley e Hugh o izeram. Às quatro da tarde, todas as mesas do salão

estavam ocupados por quartetos de calouros do terceiro andar, garotos

pobres que tinham que comprar seus livros na seção de Usados da livraria,

jogando Copas com um níquel por ponto. Em nosso dormitório, a

temporada da loucura havia começado.

8

A noite de sábado era mais um dia de trabalho para mim em Holyoke.

Apesar de meu interesse desperto em Carol Gerber, eu tentei fazer com

que Brad Whiterspoon trocasse de turno comigo (Brad trabalhava nas manhãs de Domingo, e ele odiava ter que se levantar cedo tanto quanto

Skip), mas Brad recusou. Até então ele já estava jogando também, e dois mangos saiam de seu bolso. Ele estava louco para nos alcançar. Ele apenas

balançou a cabeça para mim e sacou uma carta de espadas de sua mão.

– Vamos caçar a Puta! – ele berrou, soando bisonhamente como Ronnie

Malenfant. A coisa mais pér ida sobre Ronnie era que as mentes fracas

achavam que valia a pena imitá-lo.

Eu deixei meu assento na mesa original, onde eu havia gasto a balança do

dia, e meu lugar foi imediatamente tomado por um jovem chamado Kenny

Auster. Eu já tinha quase nove dólares a mais (a maior parte porque

Ronnie havia se mudado para outra mesa, para que eu não pudesse cortar

seus ganhos), e deveria estar me sentindo bem, mas eu não estava. Não

era o dinheiro, era o jogo. Eu queria continuar a jogar.

Eu andei desconsoladamente corredor abaixo, chequei o quarto, e

perguntei a Nate se ele queria comer mais cedo com a turma da cozinha.

Ele simplesmente balançou a cabeça e acenou para mim sem tirar os olhos

de seu livro de história. Quando as pessoas falam sobre estudantes

ativistas dos anos sessenta, eu tenho que lembrar a mim mesmo que a maioria dos garotos passou por aquela temporada de loucura do mesmo

jeito que Nate. Eles mantiveram as cabeças baixas e os olhos em seus livros

de história enquanto a história acontecia ao seu redor. Não que Nate

estivesse completamente desavisado, ou completamente dedicado aos

estudos. É provável que você ouça a respeito.

Eu andei na direção do Palácio das Planícies, fechando o zíper de minha jaqueta contra o ar, que havia icado frio. Vinte e cinco minutos passaram depois das quatro horas. O Commons não abria o icialmente até as cinco,

então os caminhos que se encontravam na Pista de Bennett estavam quase desertos. Stoke Jones estava lá, curvado sobre suas muletas e olhando para

algo no meio do caminho. Eu não estava surpreso de vê-lo; se você tivesse

algum tipo de de iciência ísica, você poderia comer uma hora antes que o

resto dos estudantes. Ao que me lembre, esse era o único tratamento

especial que os aleijados ganhavam. Se você estivesse fodido isicamente,

você tinha que comer com a ajuda da cozinha. Aquela pegada de

passarinho nas costas de seu casaco estava bem nítida e escura à luz do poente.

Enquanto eu me aproximava, eu vi o que ele estava olhando, Introdução a Sociologia. Ele havia o deixado cair nos apagados tijolos da Trilha de Bennett e tentava descobrir um modo de pegá-lo de volta sem aterrissar a

fuça no chão. Ele continuava a cutucar o livro com a ponta de uma das muletas. Stoke tinha dois, talvez três pares diferentes de muletas; estas eram aquelas que se encaixava sob seus antebraços em séries de espirais

de aço. Eu podia ouvi-lo murmurar “mate-mate, mate-mate” sob sua

respiração enquanto cutucava inutilmente o livro em todos os lugares.

Quando ele andava com suas muletas, o “mate- mate” soava mais

determinado. Nesta situação soava frustrado. Na época em que conheci

Stoke (eu não vou chamá-lo de Matador, embora era o que faziam muitos

imitadores de Ronnie pelo im do semestre), iquei fascinado pela

variedade de signi icados que poderiam ser dados a qualquer

“mate- mate” dito.

Isso foi antes de eu descobrir que os Navajos tinham quarenta modos

diferentes de falar nuvem. Isso foi antes de eu descobrir um bocado de coisas, na verdade.

Ele me ouviu chegar e virou a cabeça tão rápido que ele quase caiu do mesmo jeito. Eu o alcancei e o segurei. Ele recuou, parecendo nadar dentro

de seu velho casaco militar que usava.

– Afaste-se de mim! – ele disse como se esperasse que eu lhe desse uma surra.

Eu ergui as mãos para mostrar que eu estava desarmado e me inclinei. – E

tire as mãos de meu livro!

Isto eu não digni iquei, apenas peguei o livro e o empurrei em seu braço como um jornal.

– Eu não preciso de sua ajuda!

Eu estava para responder grosseiramente, mas eu percebi como suas

bochechas brancas estavam coloridas de vermelho no centro, e como seu

cabelo estava úmido pelo esforço. Mais uma vez eu pude sentir seu cheiro

(aquele cheiro de transformador que icou ligado tempo demais), e eu

percebi que também podia ouvi-lo: sua respiração soava irritada e

arranhada. Se Stoke Jones já não tivesse descoberto onde a enfermaria era,

eu imagino que ele o faria bem rápido agora.

– Eu não quis tirar onda com sua cara, pelo amor de Deus. – eu tentei colar

um sorriso na cara e meio que consegui. Diabos, por que eu não deveria sorrir? Eu ainda não tinha os nove dólares que havia conseguido, no bolso?

Pelos padrões de Chamberlain Três, eu estava rico.

Jones olhou para mim com aqueles seus olhos escuros. Seus lábios se

esticaram, mas depois de um momento ele assentiu.

– Certo. Já saquei. Valeu. – então ele continuou sua corrida rumo colina acima.

No começo ele estava bem à frente de mim, mas então o cansaço começou

a trabalhar nele e ele diminuiu. Sua respiração arranhada estava mais alta

e mais rápida. Eu a ouvi claramente quando o alcancei.

– Por que não pega leve? – eu perguntei.

Ele me deu aquele impaciente olhar de você-ainda-está-aqui.

– Por que não me come?

Eu apontei para seu livro.

– Está caindo de novo.

Ele parou, ajustou-o sob seu braço, então se endireitou nas muletas novamente, se curvou como uma garça mal-humorada, me olhando através