Corações na Atlântida
Capítulo 3
jogo termina quando um dos quatro jogadores atingir cem pontos. O
vencedor é o jogador que possuir o menor placar.
Em nossas maratonas, cada um dos outros três jogadores pagaria baseado
na diferença entre seu placar e o placar do vencedor. Se, por exemplo, a diferença entre meu placar e o de Skip fosse de vinte pontos ao fim do jogo,
eu teria que lhe pagar um dólar pela aposta normal de um níquel por
ponto. Uma ninharia, você diria hoje, mas isso foi em 1966, e um dólar não
era apenas um troco para os estudantes patetas que viviam em
Chamberlain Três.
3
Eu me lembro bem de quando a epidemia de Copas começou: na primeira
semana de Outubro. Eu me lembro por causa da primeira rodada de
provas que havia acabado de terminar, e eu havia sobrevivido.
Sobrevivência era um problema real para a maioria dos rapazes em
Chamberlain Três; nós estávamos na faculdade graças a variedade de
bolsas de estudo, empréstimos (a maioria era, incluindo a minha, uma
cortesia da Ato de Defesa da Educação Nacional), e empregos educacionais.
Era como dirigir em cima de um carro de destruição feito de caixa de
sabão construída com grude, ao invés de pregos, e enquanto os nossos
preparativos variavam (a maioria de acordo com o quanto éramos
espertos quando se tratava de preencher formulários e como nossos
conselheiros escolares haviam trabalhado duro por nós), havia um fato
duro da vida. Isso estava destacado em um quadro feito de crochê
pendurado no salão do terceiro ainda, onde nossa maratona de Copas era
jogada. A mãe de Tony DeLucca que o fez, falou para ele pendurá-lo em algum lugar onde ele pudesse vê-lo todo dia, e o mandou para a faculdade
com isso. Quando o Outono de 1966 foi substituído pelo Inverno, o quadro
da Sra. DeLucca pareceu icar mais brilhante a cada vez que uma mão era
passada, a cada queda d’A Puta, a cada noite em que eu ia para cama sem
abrir meus livros, com minhas notas nunca estudadas, e meus cadernos
nunca escritos. Uma ou duas vezes eu sonhei sobre isso:
2.5.
Era isso que o quadro dizia, em grandes números vermelhos costurados. A
Sra. DeLucca entendera o que isso signi icava, e nós também. Se você
morasse em um dos dormitórios comuns (Jacklin ou Dunn, ou Pease ou
Chadbourne), você poderia assegurar sua vaga na Classe de 1970 com a
média de 1.6. . se, é claro, Papai e Mamãe continuassem a pagar as contas.
Essa faculdade era uma instituição por concessão de terras, lembre-se; não
estamos falando sobre uma Harvard ou Wellesley. Entretanto, para
estudantes que tentavam escalar através dos pacotes de bolsa e
empréstimos, 2.5 era a linha traçada na areia. Tire menos de 2.5 (caia de C
normal para C-, em outras palavras), e seu pequeno carrinho de caixa de sabão estaria quase fadado a se desmanchar. “Mantenha contato, baby, até
mais.” Como Skip Kirk costumava dizer.
Eu fui bem na primeira rodada de testes, especialmente para um rapaz
que estava doente de saudades de casa (eu nunca estive longe de casa em
minha vida, exceto por uma semana no acampamento de basquete, de
onde eu voltei com um pulso torcido e um esquisito fungo que crescia
entre meus dedos e sob meu saco). Eu tinha cinco matérias, e tirei B em tudo, exceto em Inglês. Nessa eu tirei A. Meu instrutor, que mais tarde se divorciaria de sua esposa e acabaria indo para o Sproul Plaza no campus Berkeley, escreveu “Seu exemplo de onomatopéia é brilhante”, ao lado de
uma de minhas respostas. Eu mandei o teste para casa para minha mãe e meu pai. Minha mãe retornou um cartão postal com uma única palavra,