Corações na Atlântida
Capítulo 2
foi para o quarto trocar seu vestido do escritório.
Ela pareceu distante, preocupada. Ela não perguntou se ele teve um feliz aniversário.
Mais tarde ele mostrou a ela o cartão de Carol. Sua mãe olhou de relance para ele, não o vendo realmente, dizendo que era “bonitinho”, e o devolveu.
Então ela falou para ele ir se lavar, escovar os dentes, e ir para a cama.
Bobby assim o fez, sem mencionar sua interessante conversa com Ted. Em
seu humor atual isso a faria icar zangada. A melhor coisa a se fazer era deixá-la icar distante, deixá-la em paz o quanto ela precisasse icar, dar a
ela tempo para voltar ao normal. Assim ele sentiu aquele triste humor o tomando novamente enquanto terminava de escovar os dentes e subia na
cama.
Às vezes ele se sentia quase ávido por ela, e ela não sabia.
Ele saiu da cama e fechou a porta, bloqueando o som de um ilme antigo.
Ele desligou a luz. E então, quando ele estava quase adormecendo, ela
entrou, sentou ao lado da sua cama, e pediu desculpas por estar tão
distante hoje à noite, mas havia sido muito trabalhoso no escritório e ela estava cansada. Algumas vezes era como um hospício, ela disse. Ela fez um
carinho em sua testa com o dedo e o beijou lá, fazendo-o sentir um arrepio.
Ele sentou-se e a abraçou. Ela enrijeceu momentaneamente ao seu toque,
então relaxou. Ela até mesmo o abraçou de volta rapidamente. Ele achou
que estaria tudo bem contar sobre Ted agora. Ou pelo menos um pouco.
– Eu falei com o Sr. Brautigan quando eu voltei para casa da biblioteca. –
ele disse.
– Quem?
– O novo homem no terceiro andar. Ele me pediu para chamá-lo de Ted.
– Você não fez isso, eu deveria tê-lo proibido! Você nem o conhece direito!
– Ele disse que dar a uma criança um cartão da biblioteca de adulto era um
grande presente. – Ted não havia dito tal coisa, mas Bobby vivia com sua mãe o tempo su iciente para saber o que funcionava e o que não
funcionava.
Ela relaxou um pouco.
– Ele disse de onde veio?
– Acho que ele disse de um lugar não tão bom quanto aqui.
– Bem, isso não nos diz muito, diz? – Bobby ainda estava a abraçando. Ele
poderia abraçá-la por mais uma hora facilmente, sentindo o cheiro de seu
xampu e de seu desodorante e o prazeroso odor de tabaco em seu hálito, mas ela soltou-se dele e o deitou. – Eu acho que se ele vai se tornar seu amigo, seu amigo adulto, eu terei que conhecê-lo um pouco.
– Bem. .
– Talvez eu goste mais dele quando ele não tiver mais sacolas de compras
espalhadas por toda a grama. – Para Liz Gar ield isto era sinceramente
conciliador, e Bobby estava satisfeito. O dia havia chegado a um im
bastante aceitável, apesar de tudo. – Boa noite, aniversariante.
– Boa noite, mãe.
Ela saiu e fechou a porta. Mais tarde naquela noite, bem mais tarde, ele achou que estava ouvindo-a chorar em seu quarto, mas talvez fosse apenas
um sonho.
2
Dúvidas Sobre Ted. Livros são como Bombas.
Nem Pense Nisso. Sully Ganha um Prêmio.
Bobby Arranja um Emprego. Sinais dos Homens Maus.
Pelas semanas seguintes, enquanto o clima esquentava com o verão, Ted
normalmente icava na varanda fumando quando Liz voltava para casa do
trabalho. Às vezes ele estava só, e às vezes Bobby estava sentado com ele, falando sobre livros. Às vezes Carol e Sully-John estavam lá também, as
três crianças brincando de mico-preto na grama enquanto Ted fumava e os
observava jogar. Às vezes outras crianças apareciam: Denny Rivers, com
seu planador de brinquedo, o cabeça-mole do Francis Utterson, sempre
andando em seu patinete com uma perna super desenvolvida, Angela
Avery e Yvonne Loving para perguntar a Carol se ela gostaria de ir para a
casa de Yvonne e brincar de bonecas ou de um jogo chamado Hospital de
Enfermeiras – mas na maioria das vezes era apenas S-J e Carol, os amigos
especiais de Bobby. Todas as crianças chamavam o Sr. Brautigan de Ted,
mas quando Bobby explicou a razão de ser melhor se o chamassem de Sr.
Brautigan enquanto sua mãe estivesse por perto, Ted concordou na hora.
Quanto à sua mãe, ela parecia não conseguir expelir o nome Brautigan da
boca.
O que emergia era sempre Brattigan. Isso, porém, poderia não ser de propósito; Bobby começava a sentir uma cautelosa sensação de alívio
sobre o ponto de vista que sua mãe tinha sobre Ted. Ele temia que ela se sentisse com Ted do mesmo modo que havia se sentido com a Sra. Evers,
sua professora da segunda série. Mamãe havia detestado a Sra. Evers logo
de cara, detestava-a profundamente, por nenhuma razão aparente que
Bobby pudesse ver ou entender, e não teve uma única boa palavra para
dizer sobre ela durante todo o ano. A Sra. Evers se vestia como uma pessoa
careta, a Sra. Evers pintava o cabelo, a Sra. Evers usava maquiagem
demais, Bobby só tinha que dizer se a Sra.
Evers havia lhe tocado em um único io de cabelo, porque ela parecia o tipo de mulher gostava de beliscar e empurrar. Tudo isto seguindo uma única
reunião de pais e professores em que a Sra. Evers disse a Liz que Bobby
estava com boas notas. Houve outras reuniões de pais e professores naquele ano, e a mãe de Bobby encontrou motivos para evitar cada uma
delas.
As opiniões de Liz sobre as pessoas haviam piorado rapidamente; quando
ela escrevia MÁ PESSOA sob sua igura mental de você, ela quase o
escrevia com tinta. Se a Sra. Evers tivesse salvado seis crianças de um ônibus escolar em chamas, Liz Gar ield diria que elas provavelmente
deviam à velha vaca de olhos esbugalhados o dinheiro de duas semanas do
leite.
Ted fez todo o esforço para ser gentil com ela sem ser um puxa-saco (as pessoas puxavam o saco de sua mãe, Bobby sabia; diabos, às vezes ele mesmo fazia isso), e funcionou. . mas até certo ponto. Em uma ocasião Ted e
a mãe de Bobby conversaram por quase dez minutos sobre o quão terrível
era o fato dos Dodgers terem se mudado para o outro lado do país sem
nada mais do que um adeus, mas nem que ambos fossem fãs do Ebbet
Field Dodger isso poderia gerar uma faísca entre eles. Eles nunca seriam amigos. Mamãe não desgostava de Ted do jeito que fazia com a Sra. Evers,
mas ainda assim havia algo errado. Bobby supunha que ele sabia o que
era; ele havia visto nos olhos dela na manhã em que o novo inquilino se mudou. Liz não confiava nele.
Nem, como se descobriu, Carol Gerber.
– Às vezes me pergunto se ele está fugindo de alguma coisa. – ela disse numa tarde enquanto ela, Bobby e S-J subiam a ladeira na direção da
Avenida Asher.
Eles icaram brincando de mico-preto por uma hora mais ou menos,
falando com Ted aqui e acolá enquanto jogavam, e agora se dirigiam para o
Felicidade à Beira da Estrada do Moon para comerem uma casquinha de
sorvete. S-J tinha trinta centavos e estava se divertindo. Ele também tinha levado seu Bo-lo Bouncer, que ele agora tirava de seu bolso traseiro. Daqui
a pouco ele estaria batendo a bola pra cima, pra baixo, pra todo lado, paf-
paf-paf.
– Fugindo? Está brincando? – Bobby icou pasmo com a idéia. Ainda assim
Carol tinha os dois pés atrás quando se tratava de pessoas; até sua mãe já
havia percebido isso. Essa menina não é bonita, mas ela não deixa escapar
uma, ela disse certa noite.
– Não os deixe escapar, McGarrigle! – Sully-John gritou. Ele colocou seu Bo-
lo Bouncer sob o braço e caiu agachado, atirando com uma pistola invisível,
puxando para baixo o lado direito da sua boca para assim fazer o som das
balas, uma espécie de ih-ih-ih que vinha do fundo de sua garganta. – Vocês
nunca me pegarão vivo, babacas! Acabe com eles, Mugsy! Ninguém passa o
Rico para trás! Ah, caramba, eles me acertaram! –
S-J apertou o peito, começou a girar, e caiu morto no gramado da Sra.
Conlan.
Essa senhora, uma velha rabugenta e aquilo-que-rima-com-luta de setenta
e cinco anos mais ou menos, berrou: “Garoto! Chispa, garoto! Saia daí! Vai
amassar minhas flores!
Não havia uma única lor no raio de três metros de onde Sully-John estava
caído, mas ele se levantou de supetão.
– Desculpe, Sra. Conlan.
Ela agitou uma mão para ele, isentando-o do pedido de desculpas sem
dizer uma palavra, e vigiou atentamente enquanto as crianças seguiam seu
caminho.
– Você não está falando sério, está? – Bobby perguntou a Carol. – Sobre Ted?
– Não. – ela disse. – Acho que não. Mas. . você já viu ele vigiando a rua?
– Sim. Parece que ele está esperando que alguém apareça, não é?
– Ou esperando que alguém não apareça. – Carol respondeu.
Sully-John voltou a brincar com sua raquete. Não demorou para que a
bolinha vermelha começa a quicar para frente e para trás de novo. Sully só
parou quando pararam pelo Asher Empire onde dois ilmes de Brigitte
Bardot estavam sendo exibidos, Apenas para Adultos, É Obrigatório
Carteira de Motorista ou Certi icado de Nascimento, Sem Exceções. Um dos
ilmes era novo; o outro era um velho, E Deus Criou a Mulher, que parecia
sempre voltar ao Empire como uma crise de tosse. Nos cartazes, Brigitte estava vestida com nada mais do que uma toalha e um sorriso.
– Minha mãe disse que ela é um lixo desprezível. – Carol disse.
– Se ela é um lixo eu adoraria ser o lixeiro. – disse S-J, e movimentou as sobrancelhas como Groucho Marx.
– Você acha que ela é desprezível? – Bobby perguntou a Carol.
– Eu nem mesmo tenho certeza do que isso significa.
Enquanto passavam por debaixo da marquise (de onde em seu interior, na
cabine de ingressos de vidro ao lado das portas, a Sra. Godlow, conhecida pelas crianças da vizinhança como a Sra. Godzilla, os vigiava
suspeitamente). Carol olhou para trás acima de seus ombros para ver
Brigitte Bardot em sua toalha. Sua expressão era difícil de ler.
Curiosidade? Bobby não saberia dizer.
– Mas ela é bonita, não é?
– É, eu acho.
– E você tem que ser corajoso para deixar as pessoas olharem para você vestindo apenas uma toalha. É o que eu penso, de qualquer forma.
Sully-John já não mais tinha interesse em la femme Brigitte agora que ela já estava para trás.
– De onde veio o Ted, Bobby?
– Eu não sei. Ele nunca fala sobre isso.
Sully-John assentiu como se esperasse essa resposta, e então novamente
pôs sua raquete em ação. Pra cima e pra baixo, e pra todo lado, paf-paf-paf.
***
Em Maio, os pensamentos de Bobby passaram a versar sobre as férias de
verão.
Não havia nada realmente melhor do que o que Sully chamava de “A Grande Folga”.
Ele iria gastar várias horas curtindo com seus amigos, tanto na Broad
Street quanto lá embaixo no Clube Sterling do outro lado do parque (eles tinham várias coisas legais para fazer durante o verão no Clube Sterling, incluindo beisebol e viagens semanais para Patagonia Beach, em West
Haven) e ele também teria bastante tempo para si mesmo. Tempo para ler,
é claro, mas o que ele realmente queria fazer com um pouco deste tempo era conseguir um trabalho temporário. Ele tinha pouco mais de sete
mangos em um pote onde se lia FUNDOS PARA BICICLETA, e sete mangos
era um começo. .
mas não o que você chamaria de um grande começo. Neste ritmo Nixon se
tornaria Presidente dois anos antes que ele começasse a pedalar para a
escola.
Em um destes dias as-férias-estão-quase-aqui, Ted lhe deu um livro de
capa mole.
– Lembra-se de que eu lhe disse que alguns livros têm tanto boas histórias
como boa escrita? – ele perguntou. – Este aqui é um deles. Um presente de
aniversário atrasado de um novo amigo. Ao menos espero que eu seja seu
amigo.
– Você é. Muito obrigado! – A despeito do entusiasmo em sua voz, Bobby pegou o livro descon iado. Ele estava acostumado com livros de bolso com
capas brilhantes e ásperas com slogans sensuais (“Ela caiu na sarjeta. . E
DESCEU MAIS AINDA!”); este não tinha nada disso. A capa era em sua
maior parte branca. Num dos cantos estava desenhado, apenas esboçado,
um grupo de meninos em um círculo. O nome do livro era O Senhor das Moscas. Não havia slogan acima do título, nem mesmo um do tipo discreto como “Uma história que você nunca irá esquecer”. Não obstante, ele tinha
uma aparência medonha e desagradável, sugerindo que a história sob a
capa seria di ícil. Bobby não tinha nada em particular contra livros di íceis,
contanto que izessem parte do dever da escola. Sua opinião sobre ler por
prazer, no entanto, era que as histórias deveriam ser fáceis, que o escritor
deveria fazer de tudo, exceto girar os olhos em órbita por você. Se não o fizesse, que prazer poderia haver nisso?
Ele tentou devolver o livro. Ted colocou sua mão gentilmente em cima da de Bobby, o parando.
– Não faça isso. – ele disse. – Como um favor pessoal, não faça isso.
Bobby o fitou sem entender.
– Entre no livro como se você estivesse entrando em uma terra
inexplorada. Entre sem um mapa. Explore-o e desenhe seu próprio mapa.
– Mas e se eu não gostar dele?
Ted deu de ombros.
– Então não o termine. Um livro é como uma bomba. Não lhe dá nada a não
ser que você lhe dê algo primeiro. Você enche uma bomba com sua própria
água, você opera a manivela com sua própria força. Você faz isso porque você espera receber mais do que deu. . eventualmente. Você entendeu
isso?
Bobby assentiu.
– Por quanto tempo você continuaria a operar a manivela da bomba se
nada saísse de lá?
– Não por muito tempo, eu acho.
– Este livro tem duzentas páginas, mais ou menos. Leia os primeiros dez por cento, vinte páginas, no caso. Eu já sei que sua matemática não é tão boa quanto sua leitura, e se até lá você não gostar, se ele não lhe der mais
do que você está dando-lhe, deixe-o para lá.
– Eu gostaria que deixassem você fazer isso na escola. – Bobby disse. Ele estava pensando no poema de Ralph Waldo Emerson que eles deveriam
memorizar. “Pela rude ponte que arqueava a enchente”, era assim que
começava. S-J chamou o poeta de Ralph Waldo Emersonífero.
– A escola é diferente. – eles estavam sentados à mesa da cozinha de Ted,
olhando para o quintal, onde tudo estava lorescido. Na Colony Street, que
seria a próxima rua, o cachorro da Sra. O’Hara latiu seu interminável uou-
uou-uou ao suave vento da primavera. Ted estava fumando um
Chesterfield.
– E falando em escola, não leve o livro para lá com você. Há coisas nele que
seu professor pode não querer que você leia. Poderia haver uma bru-ra-
ra.
– Uma o quê?
– Um carão. E se você tiver problemas na escola, você terá problemas em casa, isso eu tenho certeza de que não preciso te dizer. E sua mãe. . – a mão
que não segurava o cigarro fez um gesto de gangorra que Bobby entendeu
de cara. Sua mãe não confia em mim.
Bobby pensou em Carol dizendo que talvez Ted estivesse fugindo de
alguma coisa, e lembrou-se de sua mãe dizendo que Carol não deixava
escapar uma.
– O que tem nele que poderia me colocar em problemas? – ele olhou para
O Senhor das Moscas com nova fascinação.
– Nada que te faça espumar pela boca. – Ted disse secamente. Ele esmagou seu cigarro em um cinzeiro de lata, foi até seu pequeno refrigerador, e tirou duas garrafas de refresco. Não havia cerveja ou vinho lá, apenas
refresco e uma garrafa de vidro de sorvete. – Alguém fala sobre en iar
uma lança na bunda de um porco selvagem, acho que isso é o pior. Ainda assim, há um certo grupo de adultos que conseguem ver apenas árvores e
nunca a loresta. Leia as primeiras vinte páginas, Bobby. Você nunca
olhará para trás. Isto eu te prometo.
Ted pôs as garrafas na mesa e tirou as tampas com um abridor de
garrafas. Então ele levantou sua garrafa e a bateu contra a de Bobby.
– Aos seus novos amigos na ilha.
– Que ilha?
Ted Brautigan sorriu e acendeu o último cigarro da embalagem amassada.
– Você vai descobrir. – ele disse.
***
Bobby, de fato, descobriu, e não foi necessário chegar a vinte páginas para
que ele também achasse que O Senhor das Moscas era um livro bom pra caramba, talvez o melhor que ele já havia lido. Dez páginas lidas e ele já estava capturado; vinte páginas e ele já estava perdido. Ele viveu na ilha com Ralph, Jack, Porquinho e seus amigos; ele tremeu com a Fera que no im das contas era o piloto do avião que já estava apodrecendo preso no pára-quedas, ele assistiu, primeiro com receio, e então com horror,
enquanto um grupo de inofensivos colegas de escola regrediam à
selvageria, inalmente pondo em ação uma caçada contra o único deles que
ainda conseguia se manter meio humano.
Ele terminou o livro em um Sábado, na semana anterior em que as aulas
desse ano acabavam. Quando o meio-dia chegou, e Bobby ainda estava em
seu quarto, sem amigos para brincar, sem desenhos matinais do Sábado
para ver, nem mesmo os do Pernalonga e sua turma, sua mãe olhou para
ele e disse para que ele saísse da cama, tirasse o nariz daquele livro, e descesse para o parque ou coisa assim.
– Onde está Sully? – ela perguntou.
– Na Praça Dalhouse. Está havendo um concerto de bandas escolares. –
Bobby olhou para sua mãe à porta e para as coisas ordinárias ao seu redor
com um olhar confuso e perplexo. O mundo da história se tornara tão
vívido que ver o mundo real agora parecia algo falso e entediante.
– E quanto a sua namorada? Leve-a ao parque com você.
– Carol não é minha namorada, mãe.
– Bem, tanto faz o que ela seja. Pelo amor de Deus, Bobby, eu não estava sugerindo que vocês dois fugissem.
– Ela foi dormir com algumas amigas ontem à noite na casa dos Angle.
Carol diz que quando dormem por lá, elas icam acordadas e brincam a
noite toda. Aposto que elas ainda estão na cama, ou tomando o café da
manhã.
– Então vá ao parque sozinho. Você já está me deixando nervosa. Com a TV
desligada no Sábado de manhã eu continuo a pensar que você morreu. –
ela entrou no quarto e tirou o livro de suas mãos. Bobby assistiu paralisado
enquanto ela folheava algumas páginas, lendo algumas passagens
aleatoriamente aqui e acolá. E se ela lesse a parte em que os meninos
confabulavam sobre en iar a lança no traseiro do porco (só que eles eram
ingleses, e diziam “bunda”, o que soava ainda mais obsceno para Bobby)?
O
que ela faria? Ele não sabia. Por toda sua vida eles haviam morado juntos,
na maior parte do tempo havia sido apenas eles dois, e ainda assim ele não
conseguia prever como ela iria reagir a qualquer situação.
– Esse é o que Brattigan te deu?
– É.
– De presente de aniversário?
– É.
– Sobre o que é?
– Sobre meninos perdidos em uma ilha. O navio deles afundou. Acho que a
história se passa depois da Segunda Guerra Mundial ou coisa assim. O cara
que o escreveu nunca dá certeza.
– Então é ficção-científica.
– Sim. – Bobby disse. Ele se sentiu um pouco tonto. Ele achou que O Senhor
das Moscas não parecia nem um pouco com O Anel ao Redor do Sol, mas sua mãe odiava icção-cientí ica, e se alguma coisa potencialmente poderia
fazê-la parar de folhear, seria essa.
Ela devolveu o livro e andou até sua janela.
– Bobby?
Não o olhou, ao menos não de primeira. Ela vestia uma blusa velha e suas
calças de Sábado. A luz do meio-dia brilhou em sua blusa; ele podia ver seu
per il e notou pela primeira vez como ela era magra, como se ela tivesse se
esquecido de comer ou coisa assim.
– O que é, mãe?
– O Sr. Brattigan lhe deu algum outro presente?
– É Brautigan, mãe.
Ela franziu o cenho em seu re lexo na janela. . ou provavelmente era para
seu reflexo que ela franzia.
– Não me corrija, Bobby-O. Ele deu?
Bobby pensou. Alguns refrescos, às vezes um sanduíche de atum ou
churros da padaria onde a mãe de Sully trabalhava, mas nada de
presentes. Apenas o livro, que era um dos melhores presentes que ele já havia ganhado.
– Caramba, não, por que ele faria isso?
– Eu não sei. Mas então, eu não sei por que de um homem que você acabou
de conhecer lhe dá um presente de aniversário logo de cara. – ela
suspirou, cruzou os braços sob seus pequenos seios pontudos, e continuou
a olhar pela janela de Bobby. –
Ele me disse que tinha um emprego de funcionário público em Hartford,
mas agora está aposentado. Foi isso o que ele te disse?
– Alguma coisa assim. – Na verdade Ted nunca lhe contou nada sobre
empregos, e perguntar nunca passou pela cabeça de Bobby.
– Que tipo de emprego? Em que área? Saúde? Transporte? Fiscal de contas
públicas?
Bobby balançou a cabeça. Que diabos eram contas públicas?
– Aposto que é da área de educação. – ela disse meditando. – Ele fala como
alguém que costumava ser professor. Não é?
– É, até que parece.
– Ele tem algum passatempo?
– Eu não sei. – Havia leitura, é claro; duas das três sacolas que haviam ofendido sua mãe estavam cheias de livros de capa mole, a maioria deles parecendo difíceis de ler.
O fato de que Bobby não sabia nada sobre os passatempos do novo homem
por alguma razão pareceu tranqüilizar a mente dela. Ela deu de ombros e
quando falou de novo parecia falar para si mesma ao invés de para Bobby.
– Puxa, é só um livro. E um de capa mole, afinal de contas.
– Ele disse que pode ter um trabalho para mim, mas até agora ele não me
disse nada.
Ela se virou rapidamente.
– Qualquer trabalho que ele te oferecer, qualquer tarefa que ele te pedir para fazer, você vem falar comigo primeiro. Entendeu?
– Claro, entendi. – A intensidade dela o surpreendeu e o deixou nervoso.
– Prometa.
– Eu prometo.
– Prometa sério, Bobby.
Ele obedientemente jurou de pé junto, e disse:
– Eu prometo à minha mãe em nome de Deus.
Isso normalmente colocava uma pedra no assunto, mas desta vez ela não
parecia satisfeita.
– Ele já. . ele já te. . – Aí ela parou, parecendo estranhamente nervosa. As crianças às vezes pareciam assim quando a Sra. Bramwell as mandava à
lousa para destacar os substantivos e verbos, e eles não conseguiam.
– Ele já o quê, mãe?
– Deixa pra lá. – ela disse zangada. – Saia daqui, Bobby, vá para o parque ou para o Clube Sterling. Eu estou cansada de olhar para você.
Então por que você veio até aqui? ele pensou (mas é claro que não disse).
Eu não estava te incomodando, mãe. Eu não estava te incomodando.
Bobby en iou O Senhor das Moscas em seu bolso traseiro e saiu para a porta.
Ele se virou quando chegou lá. Ela ainda estava na janela, mas agora ela o
estava observando novamente. Ele nunca a viu com um semblante
amoroso em tais momentos; na melhor das hipóteses ele via especulação,
às vezes (nem sempre) carinhosa.
– Ei, mãe? – ele estava pensando em pedir cinqüenta centavos, meio
mango.
Com isso ele poderia comprar um refresco e dois cachorros-quentes no
Café Colony, que vinham em pães de forma com pedacinhos de batatas e picles nas laterais. A boca dela endureceu, e ele soube que não era dia para cachorros-quentes.
– Não peça, Bobby, nem pense nisso. – Nem pense nisso. Esse era um dos seus favoritos. – Eu tenho toneladas de contas para pagar esta semana,
então tire essas cifras de seus olhos.
Ela não tinha toneladas de contas, isso era fato. Não nesta semana. Bobby havia visto ambas as contas de luz e o cheque do aluguel dentro do
envelope em que estava escrito “Sr. Monteleone” na Quarta-Feira passada.
E ela não poderia dizer que ele precisava de roupas novas tão cedo porque
o ano letivo estava quase no im, não no começo. O único dinheiro que ele
pediu ultimamente havia sido cinco pratas para ir ao Clube Sterling (taxas
trimestrais) e até sobre isso ela havia reclamado, embora soubesse que
tudo isso cobria natação e beisebol dos Lobos e Leões, além do seguro. Se
houvesse sido outra pessoa que não sua mãe, ele haveria pensado nisso
como sendo um comportamento sovina. Ele não podia dizer nada sobre
isso com ela; falar com ela sobre dinheiro quase sempre resultava em uma
discussão, e disputar qualquer parte de seu ponto de vista sobre assuntos
de dinheiro, mesmo os mais insignificantes, poderia fazê-
la adentrar a histeria. Quando ela chegava a este ponto ela icava assustadora.
Bobby sorriu.
– Tudo bem, mamãe.
Ela sorriu de volta, e então apontou para o pote em que estava escrito FUNDOS PARA A BICICLETA.
– Por que não pega emprestado dali? Vá se divertir. Eu nunca direi nada, e
você sempre poderá recuperar o dinheiro.
Ele segurou o sorriso, mas apenas com esforço. O quão fácil ela havia dito
aquilo, nunca pensando o quão furiosa icaria se Bobby sugerisse que ela
pegasse emprestado das contas de luz, ou do telefone, ou qualquer uma para seus “assuntos de roupas”, para que então ele pudesse comprar uma
dupla de cachorros-quentes e uma torta com sorvete no Colony. Se ele
dissesse animado que nunca diria nada, e que ela sempre poderia
recuperar o dinheiro. É, pode apostar, e então ganharia um beijo no rosto.
***
Quando chegou ao Parque Commonwealth, o ressentimento de Bobby
havia desaparecido e a palavra sovina havia abandonado seu cérebro.
Fazia um belo dia e ele tinha um incrível livro para terminar; como você poderia estar ressentido e irritado com coisas assim? Ele achou um banco
afastado e reabriu O Senhor das Moscas. Ele tinha que terminá-lo hoje, tinha que descobrir o que ia acontecer.
As últimas quarenta páginas lhe tomaram uma hora, e durante este tempo
ele estava absorto de tudo ao seu redor. Quando inalmente fechou o livro,
descobriu que ele estava coberto de lores brancas. Seus cabelos estavam
cheios delas também, ele estivera sentado, sem perceber, sob uma
tempestade de pétalas.
Ele as removeu, olhando na direção da área de brincadeiras. Crianças
brincavam em gangorras batendo e fazendo a tetherball (N.T. – Jogo norte-americano. Consiste num poste, onde se pendura uma bola por
uma corda e em que dois jogadores em lados opostos tentam enrolar
a bola no poste. Ganha quem primeiro conseguir enrolar a bola. ) voar em sua baliza. Rindo, perseguindo umas as outras, rolando na grama. Será
que estas crianças poderiam acabar icando nuas e venerando uma cabeça
de porco podre? Era tentandor dispensar tais idéias como as imaginações
de um adulto que detestava crianças (havia muitos que não detestavam,
Bobby sabia), mas então Bobby olhou para a caixa de areia e viu um
menininho sentado lá e chorando como se seu coração fosse se partir, enquanto outra criança maior sentada ao seu lado, brincava
despreocupadamente com um caminhãozinho Tonka que ele havia tomado
das mãos de seu coleguinha.
E o inal do livro, feliz ou não? O quão louco uma coisa dessas poderia parecer a um mês atrás, Bobby não saberia dizer. Nunca em sua vida ele havia lido um livro em que não soubesse se o inal dele havia sido feliz ou
não. Ted saberia, entretanto. Ele perguntaria a Ted.
***
Bobby ainda estava no banco quinze minutos depois quando Sully entrou
no parque e o viu.
– Diga lá, seu velho bastardo! – Sully exclamou. – Eu fui à sua casa e sua mãe disse que você estaria aqui, ou talvez no Clube Sterling. Finalmente terminou o livro?
– Sim.
– Foi bom?
– Sim.
S-J balançou a cabeça.
– Eu nunca conheci um livro de que gostasse realmente, mas vou acreditar
em você.
– Como foi o concerto?
Sully deu de ombros.
– Nós sopramos até que as pessoas foram embora, então acho que foi bom para nós de qualquer forma. E adivinhe quem ganhou a semana no
Acampamento Winiwinaia? – O Acampamento Winnie era o acampamento
colega da Associação Cristã de Moços (N.T.: Do original, Young Men Christian Association, o YMCA. )no lago George, nas lorestas ao norte de
Storrs. A cada ano o CAH – Comitê de Atividades de Harwich – fazia um sorteio para dar uma semana de férias lá.
Bobby sentiu uma pontada de ciúme.
– Não me diga.
Sully-John sorriu.
– Isso aí, cara. Setenta nomes naquele chapéu, setenta pelo menos, e aquele que o velho careca e bastardo Sr. Coughlin tirou foi John L. Sullivan, Junior,
da Broad Street, número 93. Minha mãe quase fez xixi nas calças.
– Quando você vai?
– Duas semanas depois das aulas acabarem. Mamãe vai tentar conseguir
sua folga de uma semana da padaria ao mesmo tempo, para que ela possa
ver Vovó e Vovô em Wisconsin. Ela vai tomar o Grande Cão Cinzento. – A Grande Folga eram as férias de verão; O Grande Exibido era Ed
Sullivan (N.T. foi um famoso apresentador de televisão nas décadas de 1950 e 1960. ) nas noites de Domingo; O Grande Cão Cinzento era, é claro, um ônibus Greyhound. O armazém local dos ônibus era na subida da
rua da Asher Empire e do Café Colony.
– Não gostaria de ir para Wisconsin com ela? – Bobby perguntou, sentindo
um perverso desejo de estragar a felicidade do seu amigo quando sua
sorte era tão pouca.
– Mais ou menos, mas pre iro ir acampar e atirar lechas. – ele pôs um braço ao redor dos ombros de Bobby. – Só queria que você pudesse vir
comigo, seu leitor bastardo.
Isso fez Bobby sentir-se desprezível. Ele olhou para baixo para O Senhor das Moscas novamente e soube que o leria de novo em breve. Talvez no começo de Agosto, se as coisas icassem entediantes (em Agosto elas
normalmente icavam, por mais di ícil que fosse acreditar nisso em Maio).
Então ele olhou para Sully-John, sorriu, e pôs o braço ao redor dos ombros
de S-J.
– Bem, você é um pato sortudo. – ele disse.
– Só não me chame de Donald. – concordou Sully-John.
Eles sentaram no banco daquele jeito por um tempo, com os braços em volta de seus ombros naquela iminente tempestade de pétalas, observando
as crianças menores brincarem. Então Sully disse que iria para a matinê de
Sábado no Empire, e que era melhor ele correr se não quisesse perder a pré-estréia.
– Por que você não vem, Bobborino? Está passando O Escorpião Negro.
Uma overdose de monstros.
– Não posso, estou falido. – disse Bobby. Isso era verdade (se você
excluísse os sete dólares no pote de Fundos da Bicicleta), e de qualquer forma ele não estava a im de ir ao cinema hoje, mesmo tendo ouvido um garoto na escola dizer que O Escorpião Negro era realmente muito bom, os escorpiões atravessavam as pessoas com seus ferrões quando as matavam
e também destruíam a Cidade do México.
O que Bobby queria fazer era ir para casa e conversar com Ted sobre O
Senhor das Moscas.
– Falido. – Sully disse tristemente. – É um fato triste, xará. Eu pagaria sua entrada, mas eu só tenho trinta e cinco centavos.
– Não se preocupe. Ei, onde está sua raquete?
Sully pareceu mais triste do que nunca.
– O elástico arrebentou. Foi para o céu das raquetes, eu acho.
Bobby riu. Céu das raquetes, essa era uma idéia engraçada.
– Vai comprar um novo?
– Duvido. Tem um estojo de mágica na Woolworth que eu quero. Sessenta
diferentes mágicas. Eu não me importaria de ser um mágico quando crescer, Bobby, sabia? Viajar por aí com um parque de diversões ou um
circo, usar um terno preto e uma cartola. Eu tiraria coelhos e outras
merdas da cartola.
– Os coelhos é que provavelmente fariam merda dentro da sua cartola. –
disse Bobby.
Sully sorriu.
– Mas eu seria um bastardo legal! Eu adoraria ser! A qualquer custo. – ele
se levantou. – Tem certeza de que não quer vir junto? Você provavelmente
poderia entrar escondido, debaixo do nariz da Godzilla.
Centenas de crianças apareciam para os ilmes de Sábado no Empire, que
normalmente consistiam em ilmes sobre criaturas, oito ou nove desenhos,
trailers de ilmes que estavam para estrear, e as notícias da maratona de ilmes. A Sra. Godlow endoidava tentando mantê-los em ila e calar a suas bocas, não entendendo que nas manhãs de Sábado você não poderia fazer
crianças bem comportadas agirem como se estivessem na escola. Ela
também estava obcecada pela convicção de que umas dúzias de garotos
maiores de doze anos tentavam entrar pagando o preço de menores de
doze anos; A Sra. G. teria exigido um certi icado de nascimento para as matinês do Sábado, como também nas seções duplas de Brigitte Bardot, se
ela pudesse. Faltando autoridade para tal, ela optava por berrar um
“EMQUEANOVOCÊNASCEU?” para qualquer criança acima de um metro e
sessenta. Com tudo isso acontecendo, às vezes você poderia passar por ela
bem facilmente, e não havia aquele cara que rasgava o ingresso nos
Sábados de manhã. Mas Bobby não queria escorpiões gigantes hoje; ele
passou a semana passada com monstros mais realistas, muitos das quais
provavelmente pareceriam exatamente com ele.
– Não, acho que vou só passear. – Bobby disse.
– Está bem. – Sully-John limpou seus cabelos negros das pétalas, e então olhou solenemente para Bobby. – Me chame de bastardo legal, Grande
Bob.
– Sully, você é um bastardo legal e tanto.
– Sim! – Sully-John pulou, socando o ar e rindo. – Sim, eu sou! Um bastardo legal hoje! Um grande bastardo legal e um mágico amanhã! Pow!
Bobby colapsou contra o banco, as pernas abertas, os sapatos pra cima, rindo violentamente. S-J era tão engraçado quando se despedia.
Sully começou a andar, e então se voltou.
– Cara, sabe de uma coisa? Eu vi uma dupla de caras estranhos quando eu
cheguei ao parque.
– O que tinha de estranho neles?
Sully-John balançou a cabeça, parecendo intrigado.
– Não sei. – ele disse. – Não sei realmente.
Então ele foi embora, cantando “At the Hop” Era uma de suas favoritas.
Bobby também gostava dela. Danny and the Juniors eram ótimos.
Bobby abriu o livro que Ted havia lhe dado (parecia agora extremamente
usado) e leu as últimas duas páginas de novo, a parte onde os adultos
inalmente apareciam. Ele começou a ponderar novamente. . inal feliz ou
triste? . .e Sully-John deslizou de sua mente. Ocorreu a ele mais tarde que se S-J tivesse mencionado que os caras estranhos que ele havia visto
estavam vestindo casacos amarelos, as coisas poderiam ter acabado bem
diferentes.
***
– William Golding escreveu uma coisa interessante sobre este livro, uma
que fala sobre sua preocupação sobre o final. . quer outro refresco, Bobby?
Bobby balançou a cabeça e disse “não, obrigado”. Ele não gostava do sabor
daquele refresco tanto assim; ele quase sempre bebia por educação
quando ele estava com Ted. Eles estavam sentados à mesa da cozinha de
Ted de novo, o cão da Sra.
O’Hara continuava a latir (até onde Bobby poderia dizer, Bowser nunca parava de latir), e Ted ainda estava fumando um Chester ield. Bobby foi
ver sua mãe pé ante pé quando voltou do parque, e a viu tirando um cochilo em sua cama, então ele correu para o terceiro andar para
perguntar a Ted sobre o fim de O Senhor das Moscas.
Ted fechou a geladeira. . e então parou, icando lá com sua mão na porta, olhando para o espaço. Bobby entenderia mais tarde que este era o
primeiro sinal claro de que alguma coisa sobre Ted não estava certa; que de fato estava errada e piorando o todo tempo.
– A pessoa os sente primeiro na parte de trás de seus olhos. – disse ele em
tom de conversa. Ele falou claramente; Bobby ouviu cada palavra.
– Sente o quê?
– A pessoa os sente primeiro na parte de trás de seus olhos. – ainda olhava
para o vazio com uma mão fechada sobre a maçaneta da geladeira, e
Bobby começou a icar assustado. Parecia haver algo no ar, algo quase
como pólen, isso fez os cabelinhos dentro do seu nariz formigarem, fez as costas de suas mãos coçarem.
Então Ted abriu a porta do refrigerador e se inclinou.
– Tem certeza de que não quer um? – ele perguntou. – Está bom e gelado.
– Não. . não, está tudo bem.
Ted voltou para a mesa, e Bobby entendeu que ele ou decidira ignorar o que acabara de acontecer, ou não lembrava. Ele também entendeu que
Ted estava bem agora, e isso era o bastante para Bobby. Adultos eram
estranhos, isso era fato. Algumas vezes você tinha que ignorar as coisas que eles faziam.
– Diga-me o que ele disse sobre o fim. O Sr. Golding.
– Pelo que eu consigo lembrar, foi algo assim: “Os meninos foram
resgatados pela tripulação de um Cruzador, e isto está muito bem para
eles, mas quem irá resgatar a tripulação?”. Ted derramou para si no copo o
refresco, esperou pela espuma abaixar, e então pôs um pouco mais. – Isso
ajudou?
Bobby ruminou sobre isso como se fosse um enigma. Inferno, era um enigma.
– Não. – ele disse inalmente. – Ainda não entendo. Eles não precisam ser resgatados, a tripulação do navio, eu digo, porque eles não estavam na ilha.
E também. .
– ele pensou nas crianças na caixa de areia, uma delas revirando os olhos
enquanto a outra brincava placidamente com o brinquedo roubado. – Os
caras no Cruzador são adultos. Adultos não precisam ser resgatados.
– Não?
– Não.
– Nunca?
Bobby de repente pensou em sua mãe e como ela era se tratando de
dinheiro.
Então ele se lembrou da noite em que ele havia acordado e pensado que a
ouvira chorar.
Ele não respondeu.
– Pense nisso. – Ted disse. Ele tragou fortemente seu cigarro, e então
soprou uma pluma de fumaça. – Bons livros também geram considerações
posteriores.
– Certo.
– O Senhor das Moscas não pareceu muito com os Hardy Boys, pareceu?
Bobby teve uma imagem momentânea, muito clara, de Frank e Joe Hardy
correndo pela selva com lanças feitas à mão, gritando que iriam matar o porco e en iar a lança em sua bunda. Ele explodiu em uma gargalhada, e enquanto Ted se juntava a ele, ele soube que os Hardy Boys, Tom Swift, Rick Brant, e Bomba, O Garoto da Selva estavam acabados. O Senhor das Moscas havia acabado com eles. Ele icou muito feliz por ter um cartão da biblioteca de adulto.
– Não. – ele disse. – Com certeza não parece.
– E bons livros não revelam todos os seus segredos de uma vez só. Vai se
lembrar disso?
– Sim.
– Maravilhoso. Agora me diga, gostaria de ganhar um dólar por semana de
mim?
A mudança de direção foi tão abrupta que por um momento Bobby não a
seguiu.
Então ele sorriu.
– Pode apostar que sim! – iguras correram descontroladamente por sua
mente; Bobby era bom o su iciente em matemática para saber que um
dólar por semana adicionaria pelo menos quinze pratas até Setembro.
Some-se a isso o que ele já tinha, mais a razoável colheita de garrafas para
se reciclar e alguns trabalhinhos na rua com o cortador de grama. . puxa, ele poderia já estar pedalando sua Schwinn quando chegasse o Dia do
Trabalho. – O que você quer que eu faça?
– Temos que ter cuidado sobre isso. Muito cuidado. – Ted meditou
quietamente e por tanto tempo que Bobby começou a temer que ele
começasse a falar sobre sensações na parte de trás de seus olhos de novo.
Mas quando Ted olhou para cima não havia sinal daquele estranho vazio
em seu olhar. Seus olhos eram penetrantes, se não um pouco pesarosos. –
Eu nunca pediria para um amigo meu, especialmente um jovem amigo,
para mentir para seus pais, Bobby, mas neste caso eu vou pedir que você
junte-se a mim em uma pequena ilusão. Sabe o que é isso?
– Claro. – Bobby pensou em Sully e sua nova ambição de viajar o mundo com um circo, usando um terno preto e tirando coelhos de sua cartola. – É
o que os mágicos fazem pra te enganar.
– Não soa muito gentil quando você põe deste jeito, soa?
Bobby balançou a cabeça. Não, tire as lantejoulas e os holofotes e não
soaria nem um pouco gentil.
Ted bebeu um pouco e lambeu a espuma de seu lábio superior.
– Sua mãe, Bobby. Ela não me detesta exatamente, eu não acho que seria justo dizer isso. . mas eu acho que ela quase me detesta. Você concorda?
– Acho que sim. Quando eu disse que você poderia ter um trabalho para
mim, ela icou esquisita. Disse que eu tinha que dizer tudo o que você me pedisse pra fazer antes de fazer.
Ted Brautigan assentiu.
– Eu acho que isso acontece por causa de suas sacolas de papel que você trouxe quando se mudou para cá. Eu sei que parece loucura, mas é tudo o
que posso imaginar.
Ele achou que Ted poderia rir, mas ele apenas assentiu de novo.
– Talvez isso seja tudo. Em todo caso, Bobby, eu não iria querer que você fosse contra os desejos de sua mãe.
Isso soou bem, mas Bobby Gar ield não acreditou nisso inteiramente. Se
fosse verdade, não precisaria haver ilusão.
– Diga a sua mãe que meus olhos icam cansados facilmente. É a verdade. –
E como se para provar isso, Ted levantou seu dedo até seus olhos e
massageou os cantos com o polegar e o indicador. – Diga a ela que eu
gostaria de te contratar para ler o jornal para mim todo dia, e por isso eu
te pagaria um dólar por semana, o que seu amigo Sully chama de “mango”,
não?
Bobby assentiu. . mas um mango por semana para ler como Kennedy
estava se saindo nas primárias e se Floyd Patterson venceria ou não em
Junho? Ler algumas tirinhas de Dick Tracy por diversão? Sua mãe ou o Sr.
Biderman no escritório de corretagem poderiam acreditar nisso, mas
Bobby não.
Ted ainda massageava os olhos, sua mão indo e vindo em seu nariz como
uma aranha.
– O quê mais? – Bobby perguntou. Sua voz saiu soando estranhamente
monótona, como a voz de sua mãe quando ele prometia limpar o quarto e ela voltava no im do dia e descobria que o trabalho estava incompleto. –
Qual é o trabalho de verdade.
– Quero que mantenha os olhos abertos, é só isso. – disse Ted.
– Para quê?
– Homens maus em casacos amarelos. – os dedos de Ted ainda
trabalhavam nos cantos de seus olhos. Bobby desejou que ele parasse;
havia algo de arrepiante nisso. Ele sentia algo atrás deles, era por isso que
ele continuava a esfregar e massagear daquele jeito? Algo que quebrou
sua atenção, interferiu com seu jeito normalmente são e bem ordenado de
pensar?
– Lo mein ? (N.T. – O trocadilho original se perde na tradução (Lo mein é um tipo de comida chinesa, feita com macarrão e farinha de trigo, que rima com “Low Men”, os Homens Maus da história) ) – era o
que sua mãe pedia nas ocasiões em que iam ao Sing Lu na Avenida
Barnum. Lo mein em casacos amarelos não fazia sentido, mas era tudo em
que ele podia pensar.
Ted riu, um radiante e genuíno riso que fez Bobby perceber o quão
receoso ele fora.
– Homens maus. – Ted disse. – Eu digo “mau” no sentido Dickensiano, signi ica que parecem ao mesmo tempo estúpidos. . e perigosos. O tipo de homens que defecariam em uma viela, digamos, e passariam uma garrafa
de licor em um saco de papel. Do tipo que se inclinariam em postes
telefônicos e assoviariam para as mulheres do outro lado da rua enquanto
esfregariam as costas de seus pescoços com um lenço que nunca está
limpo. Homens que pensam que chapéus com penas em suas abas são
so isticados. Homens que parecem saber todas as repostas certas para todas as perguntas idiotas da vida. Eu não estou sendo terrivelmente claro,
estou? Está entendendo alguma coisa disso, está fazendo você perceber
algo?
Sim, estava. De um certo modo que era semelhante a ouvir que o tempo
era descrito como um velho careca trapaceiro: uma sensação de que a
palavra ou frase estava exatamente certa embora você não pudesse dizer
a razão disso. O lembrou de como o Sr. Biderman parecia não fazer a barba, mesmo quando você podia sentir o cheiro doce da loção secando em
suas bochechas; do modo que você sabia que o Sr.
Biderman en iaria o dedo no nariz quando estivesse sozinho, ou checaria
se haviam moedas perdidas por perto de algum telefone público enquanto
caminhava sem nem mesmo pensar sobre isso.
– Eu te entendo.
– Bom. Eu nunca em uma centena de anos te pediria para falar com uma
dessas pessoas, ou mesmo se aproximar delas. Mas eu poderia te pedir
para manter os olhos abertos, fazer um circuito do bloco um dia desses: Broad Street, Parque Commonwealth, Colony Street, Avenida Asher, e
então de volta aqui ao número 149, e apenas ver o que você vê.
As coisas estavam começando a se encaixar na mente de Bobby. Em seu
aniversário, que também havia sido o primeiro dia de Ted no 149, Ted
havia lhe perguntado se ele conhecia todos na rua, se ele poderia
reconhecer (Viajantes. Rostos desses desconhecidos) estranhos, se algum aparecesse. Quase três semanas depois Carol Gerber fez seu comentário
sobre como às vezes Ted parecia estar fugindo de algo.
– Quantos caras desses estão lá fora? – ele perguntou.
– Três, cinco, talvez mais agora. – Ted deu de ombros. – Você os
reconhecerá por seus longos casacos amarelos e pele cor de azeitona. . embora a pele escura seja apenas um disfarce.
– O quê. . quer dizer como um bronzeado, ou coisa assim?
– Suponho que sim. Se eles estiverem dirigindo, você os reconhecerá por
seus carros.
– Qual marca? Qual modelo? – Bobby se sentiu como Barren McGavin em
Mike Hammer e se aconselhou a não se deixar levar. Isto não era a TV. Mas ainda assim, era excitante.
Ted balançou a cabeça.
– Eu não tenho idéia. Mas você vai reconhecê-los assim mesmo, porque seus carros serão como seus casacos amarelos e sapatos pontudos e o gel
perfumado que eles usam para deixar os cabelos para trás: gritante e
vulgar.
– Mau. – disse Bobby, e não era uma pergunta.
– Mau. – Ted repetiu, e assentiu enfaticamente. Ele sorveu o refresco, olhou
na direção do som dos latidos eternos de Bowser. . e permaneceu assim
por muito tempo, como um brinquedo com uma mola quebrado ou uma
máquina sem gás.
– Eles me sentem. – ele disse. – E eu os sinto também. Ah, mas que mundo.
– O que eles querem?
Ted virou de costas para Bobby, parecendo assustado. Era como se ele
houvesse se esquecido que Bobby estava ali. . ou esquecido por um
momento quem Bobby era.
Então ele sorriu, voltou-se e pegou na mão de Bobby. Era grande, quente e
confortante; a mão de um homem. Com a sensação dela suas opiniões
hesitantes sumiram.
– Certa coisa que por acaso eu tenho. – disse Ted. – Vamos deixar assim.
– Eles não são policiais, são? Ou caras do governo? Ou. .
– Está perguntando se eu sou um dos dez mais procurados do FBI, ou um
agente comunista como naquele seriado I Led Three Lives? Um cara mau?
– Eu sei que você não é um cara mau. – Bobby disse, mas o rubor
crescendo em suas bochechas dizia o contrário. Não que o que ele
pensasse mudasse muita coisa.
Você poderia gostar ou até amar um cara mau; até Hitler tinha uma mãe, sua própria mãe gostava de dizer.
– Eu não sou um cara mau. Nunca roubei um banco ou segredo militar.
Gastei a maior parte de minha vida lendo livros, dando calote na hora de
pagar as multas, se existisse um Policial da Biblioteca, eu temo que ele estivesse atrás de mim, mas não sou um cara mau como aqueles que você
vê na televisão.
– Como os homens maus em casacos amarelos.
Ted assentiu.
– E põe maus nisso. E, como eu disse, perigosos.
– Você já os viu.
– Muitas vezes, mas não aqui. E as chances são de noventa e nove em cem
de que você não os veja. Tudo o que eu peço é que ique atento a eles.
Poderia fazer isso?
– Sim.
– Bobby? Há algum problema?
– Não. – mas alguma coisa o deixou incomodado por um momento, não era
uma conexão, apenas a sensação momentânea de estar indo na direção de
uma.
– Tem certeza?
– Aham.
– Está bem. Agora, aqui vai uma pergunta: com a consciência limpa, você poderia, ou ao menos com a consciência neutra, não mencionar esta parte
de seu trabalho a sua mãe?
– Sim. – disse Bobby de vez, embora ele entendesse que fazer tal coisa marcaria uma grande mudança em sua vida. . e seria arriscado. Ele estava
mais do que com um medinho de sua mãe, e este medo era apenas
parcialmente causado pela fúria que ela poderia ter e por quanto tempo
ela poderia icar zangada. A maior parte vinha da sensação infeliz de ser amado tão pouco, e precisar proteger o amor que restava. Mas ele gostava
de Ted. . ele tinha gostado da sensação da mão de Ted sobre a sua, a
aspereza quente da grande palma, o toque dos dedos, engrossando quase
até os dedos e as juntas. E isto não era mentir, não de verdade. Era omitir.
– Tem realmente certeza?
Se você quer aprender a mentir, Bobby-O, eu suponho que omitir coisas é um
bom lugar para se começar como qualquer outro , uma voz interior
sussurrou. Bobby a ignorou.
– Sim. – ele disse. – Certeza. Ted. . esses caras são perigosos só para você ou para qualquer um? – ele estava pensando em sua mãe, mas ele também
estava pensando em si mesmo.
– Para mim eles poderiam ser muito perigosos, sim. Para outras pessoas, a
maioria das pessoas, provavelmente não. Quer saber de uma coisa
engraçada?
– Claro.
– A maioria das pessoas não os vê, a não ser que eles estejam muito, muito
próximos. É quase como se eles tivessem o poder para cegar a mente dos
homens, como O Sombra naquele velho programa de rádio.
– Quer dizer que eles são. . bem. . – ele supôs que sobrenatural era a palavra que ele não estava conseguindo dizer.
– Não, não, não chega a tanto. – expulsando sua pergunta antes que ela pudesse ser melhor articulada. Deitado em sua cama e demoradamente
insone como sempre, Bobby pensou que Ted quase teve medo de que
aquilo fosse falado em voz alta.
– Há várias pessoas, umas bem ordinárias, que não vemos.
A garçonete que caminha de volta para casa depois do trabalho com a
cabeça para baixo e seus sapatos do restaurante em uma sacola de papel.
Pessoas velhas que saem para caminhadas vespertinas no parque.
Meninas com seus cabelos enrolados e seus rádios tocando as músicas
mais pedidas. Mas as crianças os vêem. As crianças vêem todos eles. E
Bobby, você ainda é uma criança.
– Esses caras não parecem ser difíceis de perceber.
– Os casacos, quer dizer. Os sapatos. Os carros gritantes. Mas estas são exatamente as coisas que fazem as pessoas, a maioria delas, na verdade,
ignorá-los. Elas erguem pequenos bloqueios entre seus olhos e cérebros.
Em todo caso, eu não vou arriscar você. Se você vir os homens em casacos
amarelos, não se aproxime deles. Não fale com eles, mesmo que eles falem
com você. Eu não posso imaginar o porquê de fazerem isso, eu não acredito
que eles iriam te ver, como a maioria das pessoas que não os vêem de fato,
mas há várias coisas sobre eles de que eu não tenho conhecimento.
Agora diga o que eu acabei de dizer. Repita desde o começo. É importante.
– Não se aproxime deles, não fale com eles.
– Mesmo que eles falem com você. – disse impacientemente.
– Mesmo que eles falem comigo, certo. E o que eu deveria fazer?
– Voltar até aqui e me dizer que eles estão aqui e onde você os viu. Ande até ter certeza de que eles estão fora de vista, então corra. Corra como o vento. Corra como se o inferno estivesse atrás de você.
– E o que você fará? – Bobby perguntou, mas é claro que ele sabia. Talvez ele não fosse tão esperto como Carol, mas ele não era um completo idiota. –
Você irá embora, não é?
Ted Brautigan deu de ombros e terminou seu copo de refresco sem olhar
nos olhos de Bobby.
– Eu vou decidir quando a hora chegar. Se chegar. Se eu tiver sorte, as sensações que eu tive durante os últimos dias, meu sentido destes homens,
irão desaparecer.
– Já aconteceu antes?
– Sim, aconteceu. Agora, por que não falamos de coisas mais agradáveis?
Pela meia-hora seguinte eles discutiram beisebol, e então música (Bobby
icou surpreso em descobrir que Ted não só conhecia a música de Elvis
Presley como de fato gostava de algumas delas), e então sobre os medos e
esperanças de Bobby a respeito da sétima série em Setembro. Tudo isto
era agradável o bastante, mas por trás de cada assunto Bobby sentiu os homens maus à espreita. Os homens maus estavam aqui no quarto de Ted
no terceiro andar como sombras peculiares que não se podem exatamente
ver.
Não foi até Bobby estar quase indo embora que Ted tocou no assunto
novamente.
– Há coisas que você deve procurar. – ele disse. – Sinais de que meus. .
meus velhos amigos estão perto.
– Quais são eles?
– Em seus passeios pela cidade, mantenha o olho aberto para cartazes de animais perdidos nas paredes, vitrines de loja, pregados em postes
telefônicos em ruas residenciais. “Perdido, um gato malhado cinza, com
orelhas pretas, um peito branco, e cauda torta. Ligue para IRoquois 7-
7661”. “Perdido, um cãozinho mestiço, parte beagle, responde pelo nome de Trixie, adora crianças, nós a queremos de volta em casa. Ligue para
IRoquois 7-0984 ou traga-o para o número 77 na Peabody Street.” Ou coisa
assim.
– O que está dizendo? Caramba, você quer dizer que eles matam os
animais das pessoas? Você acha que. .
– Eu acho que a maioria desses animais nem existem. – disse Ted. Ele soou
cansado e triste. – Mesmo quando há uma pequena fotogra ia pobremente
reproduzida, acho que é pura icção. Eu acho que tais cartazes são uma
forma de comunicação, embora eu não saiba o porquê dos homens que os
colocam simplesmente não vão até o Café Colony e fazem suas
comunicações lá juntamente com uma torrada e purê de batatas. Aonde
sua mãe faz compras, Bobby?
– Mercearia Total. É do lado do escritório de corretagem do Sr. Biderman.
– E você vai junto com ela?
– Às vezes. – Quando ele era mais jovem ele a encontrava lá toda Sexta-Feira, lendo o guia da TV de uma estante de revistas até que ela
aparecesse, adorando as tardes das Sexa-Feiras porque era o começo da
semana, porque a mãe o deixava empurrar o carrinho e ele sempre ingia que estava numa corrida, porque ele a amava. Mas ele não contou a Ted nada disso. Era uma história antiga. Diabos, ele só tinha oito anos.
– Olhe no quadro de avisos que todos os caixas de supermercados colocam.
–
Ted disse. – Nele você verá um número de pequenas notas escritas à mão
que dizem coisas como CARRO À VENDA PELO PROPRIETÁRIO. Procure
por qualquer nota assim pregada com um percevejo de cabeça para baixo.
Há algum outro supermercado na cidade?
– Tem o A&P, descendo o viaduto ferroviário. Minha mãe não vai lá. Ela diz que o açougueiro sempre fica olhando estranho pra ela.