Corações na Atlântida
Por que Estivemos no Vietnã
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Willie estremece ao ver aquela face risonha, melada e vendada. Isso quase
sempre o faz tremer.
1999: Quando alguém morre, você pensa sobre o passado.
POR QUE ESTIVEMOS NO VIETNÃ
Quando alguém morre, você pensa sobre o passado. Sully sabe disso
provavelmente há anos, mas foi apenas no dia do funeral de Pags, que isso
se instalou em sua mente como um axioma consciente.
Faz vinte e seis anos desde que os helicópteros resgataram o último grupo
de sobreviventes (alguns balançando fotogenicamente no trem de pouso
de esqui) do telhado da Embaixada Americana em Saigon e quase trinta
desde que o helicóptero evacuou John Sullivan, Willie Shearman, e talvez
uma dúzia de outros da Província de Dong Ha. Sully-John e seu conhecido
de infância magicamente reencontrado haviam sido heróis naquela manhã
quando os helicópteros caíram do céu; eles haviam sido outra coisa à tarde.
Sully consegue se lembrar de estar deitado lá no piso trêmulo do
helicóptero, e de estar gritando para que alguém o mate. Ele pode se
lembrar de Willie gritando também. Estou ceg o, foi o que Willie estivera gritando. Ah, Jesus, porra, estou cego!
Eventualmente icou claro para ele (mesmo com uma parte de suas tripas
penduradas para fora de sua barriga em cordas cinza, e a maior parte de
suas bolas estouradas) que ninguém faria o que ele estava pedindo, e que
ele não conseguiria fazer o trabalho sozinho. Não rápido o bastante para satisfazê-lo, de qualquer forma. Então ele pediu para alguém se livrar do mamasan, ele poderiam fazer isso, não poderiam?
Deixar ela no chão, ou simplesmente jogá-la, por que não? Ela já não estava
morta? A coisa era que, ela não ia parar de olhar para ele, e isso já era o bastante.
Na hora em que o transferiram com Shearman, e uma dúzia de outros (os piores), para uma ambulância no ponto de encontro que todos chamavam
de Peepee City (os pilotos do helicóptero provavelmente estavam felizes
em vê-los ir, com todos aqueles gritos), Sully começou a perceber que
nenhum dos outros poderia ver a velha mamasan agachada ali na cabine
do piloto, a velha mamasan de cabelos brancos em calças verdes e camisa laranja e aqueles estranhos tênis chineses brilhantes, aqueles que
pareciam os sapatos de Chuck Taylor, vermelhos e brilhantes, uau. A velha
mamasan havia sido o lerte de Malenfant, o grande lerte do velho Sr.
Tubarão das Cartas. Mais cedo naquele dia, Malenfant havia corrido para a
clareira junto com Sully, Dieffenbaker, Sly Slocum e os outros, sem se
importar com os congues atirando neles pelos arbustos, sem se importar
com a terrível semana de morteiros, atiradores de elite, e emboscadas,
Malenfant havia sido um herói, e Sully havia sido um herói também, e
agora, oh, ei, olhem para isso, Ronnie Malenfant foi um assassino, o rapaz de quem Sully tivera tanto medo em seus dias de menino havia salvado sua
vida, e estava cego, e o próprio Sully estava deitado no piso do helicóptero
com suas tripas balançando à brisa. Como Art Linkletter sempre disse, isso
apenas provou que as pessoas são engraçadas.
Alguém me mate, ele havia gritado naquela iluminada e terrível tarde.
Alguém atire em mim, pelo amor de Deus, apenas deixem-me morrer.
Mas ele não havia morrido, os doutores conseguiram salvar um de seus
testículos destruídos, e agora havia até mesmo dias em que ele se sentia mais ou menos feliz por estar vivo. Os pores-do-sol o faziam se sentir
assim. Ele gostava de ir para o quintal do lote, para aonde os carros que eram trocados, mas não consertados, eram levados, e icar lá assistindo o sol se pôr. É uma merda sentimental, pode crer, mas ainda assim era a
melhor parte.
Em São Francisco Willie estava na mesma ala, e o visitava muito, até que o Exército em sua sabedoria, mandou o Primeiro Tenente Shearman para
outro lugar; eles conversaram por horas sobre os velhos dias em Harwich,
as pessoas que conheciam em comum. Uma vez eles conseguiram uma foto
tirada por um repórter de jornal (Willie sentado na cama de Sully, ambos rindo). Os olhos de Willie haviam melhorado mas ainda não estavam
curados; Willie con idenciou a Sully que ele tinha medo de que nunca
estaria curado. A história que viera com a foto era muito louca, mas eles receberam alguma carta? Santo Deus! Mais do que ambos poderiam ler!
Sully até teve uma louca idéia de que ele poderia receber alguma de Carol,
mas é claro que nunca recebeu. Era a Primavera de 1970, e Carol Gerber
sem dúvida estivera ocupada fumando maconha e fazendo boquetes em
hippies anti-guerra enquanto seu velho namorado de colégio recebia uma
bomba nas bolas, no outro lado do mundo. Isso mesmo, Art, as pessoas são engraçadas. Também, as crianças diziam as coisas mais sinceras.
Quando Willie foi embora, a velha mamasan icou. A velha mamasan icou bem ali. Durante os sete meses em que Sully icou no Hospital de
Veteranos de São Francisco, ela viera todo dia, e toda a noite, sua visita mais constante naquele tempo interminável onde o mundo inteiro parecia
cheirar a mijo e sua cabeça doía. Às vezes ela aparecia em um muumuu como a apresentadora de algum lual maluco, às vezes ela usava uma daquelas horríveis saias de golfe, e camisetas sem manga que mostravam
seus braços magricelas. . mas na maioria das vezes ela vestia o que
estivera usando no dia em que Malenfant a matou: calças verdes, camisa
laranja, tênis vermelhos com os símbolos chineses neles.
Um dia naquele Verão, ele abriu o San Francisco Chronicle e viu que sua velha namorada havia conseguido aparecer na primeira página. Sua velha
namorada e seus amigos hippies haviam matado um bando de garotos e
recrutadores de empregados em Danbury. Sua velha namorada era
conhecida agora como “Carol Vermelha”. Sua velha namorada era uma
celebridade.
– Sua puta. – ele disse enquanto o jornal primeiramente se dobrou, então triplicou, e então se rasgou em primas. – Sua puta estúpida e fodida. – ele havia feito uma bolinha com o jornal, pretendendo jogá-lo do outro lado da
sala, e lá estava sua nova namorada, lá estava a velha mamasan sentada na
cama seguinte, olhando para Sully com seus olhos negros, e Sully não conseguiu mais se segurar ao vê-la. Quando a enfermeira chegou Sully ou
não conseguia, ou não queria dizer por que ele estava chorando. Tudo o
que ele sabia era que seu mundo havia enlouquecido e ele queria uma
injeção, e eventualmente a enfermeira achou um doutor para dar a ele
uma, e a última coisa que ele viu antes de desmaiar foi mamasan, a velha e
fodida mamasan sentada lá na cama seguinte com suas mãos amarelas em
seu colo de poliéster verde, sentada lá e o observando.
Ela fez a viagem cruzando o país com ele também, havia voltado todo o
caminho até Connecticut com ele, viajando gratuitamente com ele na cabine
de turista da United Airlines 747. Ela sentou ao lado de um homem de
negócios que a viu tanto quanto ao pessoal do helicóptero, ou Willie
Shearman, ou o pessoal do Palácio das Bocetas. Ela havia sido o lerte de
Malenfant em Dong Ha, mas ela era agora o lerte de John Sullivan, e ela nunca tirou seus olhos negros dele. Seus dedos amarelos e enrugados
estavam sempre fechados em seu colo, e seus olhos sempre ficaram nele.
Trinta anos. Cara, isso foi há muito tempo.
Mas enquanto esses anos passavam, Sully a via menos e menos. Quando
ele retornou a Harwich no Outono de 1970, ele ainda via a velha mamasan
quase todo dia (comendo um cachorro-quente no Parque Commonwealth
pelo Campo B, ou em pé nos degraus de ferro da estação de trem, onde os
viajantes diminuíam e luíam, ou apenas andando pela Main Street).
Sempre olhando para ele.
Uma vez, não muito depois de ele ter conseguido seu primeiro emprego
pós-Vietnã, (vendendo carros, é claro; era a única coisa que ele realmente
sabia fazer) ele havia visto a velha mamasan sentada no assento de
passageiro de um Ford LTD 1968 com O PREÇO FEITO PARA SER
VENDIDO! escrito no pára-brisas.
Você vai começar a entendê-la com o tempo, o psiquiatra do São Francisco
havia lhe dito, e ele se recusou a dizer mais não importava o quão Sully o pressionava.
O psiquiatra queria ouvir sobre os helicópteros que haviam colidido e
caído do céu; o psiquiatra queria saber por que Sully se dirigia a Malenfant
como “aquele jogador de cartas bastardo” (Sully não queria dizer); o
psiquiatra queria saber se Sully tinha fantasias sexuais, e se sim, se haviam
se tornado notadamente violentas. Sully meio que havia gostado do cara
(Conroy era seu nome), mas isso não mudava o fato de que ele era um
cuzão. Uma vez, próximo a sua saída do São Francisco, ele havia chegado perto de contar ao Dr. Conroy sobre Carol. No im das contas ele icou feliz
de não ter dito nada. Ele não sabia como pensar em sua velha namorada, quanto menos falar sobre ele ( aflito era a palavra de Conroy para seu estado). Ele a havia chamado de puta estúpida e fodida, mas o maldito
mundo todo estava meio que fodido ultimamente, não estava? E se alguém
saberia o quão fácil um comportamento violento poderia partir suas
algemas e sair correndo, essa pessoa era John Sullivan. Tudo o que ele
tinha certeza era de que ele esperava que a polícia não a matasse quando
finalmente a capturasse junto com seus amigos.
Cuzão ou não, o Dr. Conroy estivera inteiramente errado sobre Sully tendo que entender a velha mamasan com o tempo. A coisa mais importante era
entender, em um nível intestinal, que a velha mamasan não estava lá.
Saber deste fato básico era fácil, mas seus intestinos eram lentos para
aprender, possivelmente porque seus intestinos haviam pulado para fora
em Dong Ha, e uma coisa assim tem que desacelerar o processo de
entendimento.
Ele havia pegado emprestado alguns dos livros do Dr. Conroy, e a bibliotecária do hospital havia conseguido para ele alguns outros com um
empréstimo na biblioteca.
De acordo com os livros, a velha mamasan em suas calças verdes e camisa
laranja era
“uma fantasia exteriorizada”, que servia como um “mecanismo copiador”
para ajudá-lo a lidar com sua “culpa de sobrevivente”, e “síndrome de
estresse pós-traumático”. Ela era uma alucinação, em outras palavras.
Por qualquer razão que tenha sido, sua atitude com ela havia mudado
enquanto suas aparições se tornavam menos freqüentes. Ao invés de
sentir asco, ou um tipo de horror supersticioso quando ela apareceu de
novo, ele começou a se sentir quase feliz por vê-la. Do jeito que você se sente quando vê um velho amigo que deixou a cidade, mas às vezes volta para fazer uma visitinha.
***
Ele vivia em Milford agora, uma cidade mais ou menos a trinta e dois
quilômetros ao norte de Harwich pela I-95, e anos luz de distância na
maioria dos outros sentidos. Harwich havia sido prazerosa, um subúrbio
cheio de árvores onde Sully vivera quando criança, andando por aí com
Bobby Gar ield e Carol Gerber. Agora sua velha cidade natal era um
daqueles lugares no qual você não sai à noite, apenas um complemento
encardido de Bridgeport. Ele ainda passa a maior parte de seus dias lá, no
lote ou em seu escritório (a Gold Star Chevrolet era um negócio digno de Sullivan, funcionando há quatro anos agora), mas ele ia embora às seis
horas, na maioria das tardes, sete no máximo, viajando para o norte em
seu Caprice. Ele normalmente ia com uma irreconhecível, mas muito real,
sensação de gratidão.
Neste dia em particular no Verão, ele havia ido para o sul de Milford pela I-95 como sempre, mas uma hora mais tarde, sem sair da estrada, chegara à
Saída 9, da AVENIDA ASHER, HARWICH. Hoje ele havia mantido seu carro
na direção sul (ele era azul, com pneus negros, e observar as luzes de freio
das pessoas piscando quando eles o viam em seus espelhos retrovisores
nunca falhavam em impressioná-lo, elas sempre achavam que ele era um
policial), e dirigiu o caminho todo até a cidade de Nova York.
Ele deixou o carro na concessionária Arnie Mossberg em West Side
(quando você é um negociante de Chevys nunca há problema de
estacionamento; essa é uma das coisas boas a respeito disso), fez algumas
compras em sua viagem pela cidade, comeu um pouco em Palm Tôo, então
foi ao funeral de Pagano.
Pags era um dos caras no local do acidente do helicóptero naquela manhã,
um dos caras na Vila naquela tarde. Também um dos caras pego na
emboscada inal na trilha, a emboscada que começara quando o próprio
Sully pisara em uma mina, ou partira um fio que acionou uma bomba presa
a uma árvore. Os homenzinhos em pijamas negros estavam em terreno
alto, e cara, eles abriram fogo. Na trilha, Pags agarrou Wollensky, quando Wollensky fora baleado na garganta. Ele levou Wollensky até a clareira,
mas até lá Wollensky já estava morto. Pags estava coberto pelo sangue de
Wollensky (Sullivan não se lembra realmente de ver isso; ele estivera em seu próprio inferno na hora), mas isso provavelmente foi um alívio para o
homem porque cobriu o outro sangue, ainda não inteiramente seco.
Pagano estivera perto o su iciente para ser coberto, quando Slocum atirou
no amigo de Malenfant. Coberto com o sangue de Clemson, coberto os
pedaços do cérebro de Clemson.
Sully nunca disse uma palavra sobre o que aconteceu a Clemson na Vila,
nem ao Dr. Conroy nem a ninguém. Ele havia dissimulado. Todos eles
haviam dissimulado.
Pags morreu de câncer. Sempre que um dos velhos amigos de guerra de
Sully morriam (bem, está bem, eles não eram exatamente amigos, a maioria
deles tão burros quanto barcos de pedra, e não o que Sully realmente
chamaria de amigos, mas era a palavra que usavam porque não havia palavra inventada para o que eles foram um para o outro realmente),
sempre parecia ser de câncer, drogas, ou suicídio. Normalmente o câncer
começava nos pulmões, ou no cérebro, e então corria para todo o lado, como se estes homens houvessem deixado seus sistemas imunológicos no
verde. Com Dick Pagano havia sido câncer pancreático (ele e Michael
Landon). Era a doença das estrelas.
O caixão foi aberto e o velho Pags não parecia muito mal. Sua esposa izera
o agente funerário vesti-lo com um terno, não um uniforme. Ela
provavelmente nem pensou na hipótese do uniforme, apesar das
condecorações que Pags ganhara. Pags usara um uniforme por apenas
dois ou três anos, aqueles anos como uma aberração, como o tempo
passado em alguma prisão porque você fez algo ao perder a cabeça em
uma ocasião azarada, provavelmente enquanto estava bêbado. Matar um
cara em uma briga de bar, por exemplo, ou botar na cabeça de queimar a
igreja onde sua ex-esposa ensinava aos Domingos. Sully não conseguia
pensar em um único homem com quem servira, incluindo ele mesmo, que
iria querer ser enterrado com um uniforme do Exército.
Dieffenbaker (Sully ainda pensa nele como o novo tenente) veio ao funeral.
Sully não via Dieffenbaker há muito tempo, e eles conversavam muito. .
embora Dieffenbaker tenha providenciado a maior parte do falatório. Sully
não tinha certeza se conversar jamais izera diferença, mas ele continuava a pensar no que Dieffenbaker dissera. O quão irado Dieffenbaker soou. No
caminho todo de volta para Connecticut ele continuou a pensar.
Ele estava na Ponte Triborough indo para o norte novamente às duas
horas, com tempo de sobra para evitar o tráfego pesado. “Movimento leve
pela ponte de Triborough e nos pontos chave ao longo da auto-estrada de
Long Island”, seria como o repórter de tráfego diria na TV. Era para isso que serviam os helicópteros hoje em dia; espiar o movimento do tráfego
dentro e fora das cidades Americanas.
Quando o tráfego começou a diminuir ao norte de Bridgeport, Sully não
percebeu. Ele havia tirado do noticiário para colocar umas músicas antigas
no rádio, e começara a pensar em Pags e sua gaita. Era um clichê de ilme
de guerra, o grisalho soldado com sua gaita, mas Pagano, meu Deus,
Pagano poderia te enlouquecer. Dia e noite ele tocava, até que um dos
caras (deve ter sido Hexley, ou mesmo Garrett Slocum) dizia que se ele não
parasse, ele iria acordar na manhã seguinte com o primeiro implante de
gaita na bunda do mundo.
Quanto mais pensava nisso, mais Sully achava que havia sido Sly Slocum
quem havia feito a ameaça do implante de gaita na bunda. Um negão alto de Tulsa, achava que Sly and the Family Stone era o melhor grupo musical
do planeta, por isso seu apelido, ele se recusava a acreditar que outro grupo que ele admirava, Rare Eath, era composto por brancos. Sully relembrou Deef (isso foi antes de Dieffenbaker se tornar o novo tenente e
dar a Slocum aquele aceno com a cabeça, provavelmente o gesto mais
importante que Dieffenbaker já fez em sua vida) dizendo a Slocum que
esses caras eram tão brancos quanto o caralho de Bob Dylan (o branquelo
cantador de folk, era como Slocum chamava Dylan). Slocum pensou nisso,
então respondeu com o que foi para ele uma rara gravidade. Foda-se o que você diz. Rare Earth, cara, eles são negros. Eles gravam na porra da Motown, todos os grupos da Motown são negros, todo mundo sabe disso. Supremes, os putos do Temps, Smokey Robinson and the Miracles. Eu te respeito, Deef, você é foda e é in luente, sem dúvida, cara, mas se você persistir nessa merda, eu vou te acertar em cheio.
Slocum odiava música de gaita. Música de gaita o fazia pensar no
branquelo cantador de folk. Se você tentasse dizer a ele que Dylan se
importava com a guerra, Slocum então perguntaria como então esse
jumento ilho da puta não vinha até aqui com Bob Hope para fazer uma
visitinha. Eu te digo por que, Slocum dissera, ele tem medo, eis o porquê.
Maldito tocador de gaita veadinho do caralho!
Ficou meditando sobre a discussão de Dieffenbaker sobre os anos
sessenta.
Pensando naqueles velhos nomes, velhos rostos, e velhos dias. Sem
perceber que o velocímetro do Caprice caiu de sessenta para cinqüenta,
para quarenta, o tráfego começando a engrossar em todas as pistas ao
norte. Ele relembrou como Pags era lá no verde: magro, cabelos pretos,
bochechas ainda pontilhadas pelas suas últimas acnes pós-adolescentes,
um ri le em sua mão e duas gaitas Hohner (uma em C maior, e a outra em
G), en iadas no cinto de suas calças. Isso havia acontecido trinta anos atrás.
Volte mais dez e Sully seria uma criança crescendo em Harwich, andando
com Bobby Gar ield e desejando que Carol Gerber olhasse para ele, John
Sullivan, só uma vez do jeito que ela sempre olhava para Bobby.
Com o tempo ela havia olhado para ele é claro, mas nunca mais do mesmo modo. Era porque ela não tinha mais onze anos, ou porque ele não era
Bobby? Sully não sabia. O próprio olhar era um mistério. Ele parecia dizer
que Bobby estava a matando, e ela estava feliz, ela morreria daquele jeito
até que as estrelas caíssem do céu, e os rios corressem para cima, e todas as palavras da música Louie Louie fossem entendidas claramente.
O que havia acontecido a Bobby Gar ield? Ele havia ido ao Vietnã? Havia se
juntado aos hippies? Havia se casado, se tornado um pai, morrido de
câncer pancreático? Sully não sabia. Tudo o que ele sabia com certeza era
que Bobby havia mudado de alguma forma no Verão de 1960 (o Verão em
que Sully havia ganhado uma semana grátis no Acampamento da ACM no
Lago George), e havia se mudado da cidade com sua mãe. Carol icou até o
colegial, e mesmo nunca tendo olhado para ele do jeito que ela olhava para
Bobby, ele havia sido o primeiro homem dela, e ela a primeira mulher dele.
Uma noite atrás de um celeiro de uma fazenda em Newburg.
Sully se lembrava do cheiro do doce perfume na garganta dela, enquanto
ele chegava ao orgasmo.
Por que ele havia feito uma conexão entre Pagano em seu caixão e seus
amigos de infância? Talvez porque Pags parecia um pouco com Bobby. O
cabelo de Bobby era ruivo ao invés de negro, mas ele tinha o mesmo
semblante magricela e o rosto angular. .
e as mesmas sardas. Sim! Tanto Pags quando Bobby havia levado um
spray de sardas nas bochechas e no pau do nariz! Ou talvez seja só porque
quando alguém morre, você pensa sobre o passado, o passado, a porra do
passado.
Agora o Caprice havia diminuído para trinta quilômetros por hora, e o
tráfego havia parado, próximo a Saída 9, mas Sully ainda não havia
percebido. Na WKND, a estação das músicas clássicas, Question Mark and the Mysterians cantavam “96 Tears”, e ele estava pensando sobre quando havia estado na ila no meio da capela com Dieffenbaker a sua frente,
andando para o caixão para dar sua primeira olhada em Pagano enquanto música era tocada. “Abide with Me” era a canção que lutuava pelo ar
acima do corpo de Pagano (Pags, que estivera perfeitamente feliz em se
sentar por horas com a .50 ao seu lado e sua mochila no colo, e algumas
cartas presas ao seu capacete, enquanto tocava “Going Up the Country” a toda hora).
Qualquer semelhança com Bobby Gar ield se fora há muito, Sully viu isso
enquanto olhava para o caixão. O agente funerário havia feito um bom
trabalho para justificar o caixão aberto, mas Pags ainda tinha a pele flácida,
e aparência frágil de um gordo que gastou seus últimos meses na Dieta do
Câncer, aquela que nunca escrevem no National Enquirer, aquela que consiste em radiação, venenos químicos injetados, e todas as batatas fritas
que você quiser.
– Lembra das gaitas? – Dieffenbaker perguntou.
– Eu me lembro. – Sully disse. – Eu me lembro de tudo. – isso soou
esquisisto, e Dieffenbaker olhou para ele.
Sully tivera um claro e feroz lampejo do semblante de Deef naquele dia na
Vila quando Malenfant, Clemson, e aqueles outros idiotas de repente
começaram a espalhar o terror matinal. . o terror inal da última semana.
Eles queriam colocá-lo em algum lugar, os gritos na noite e os súbitos tiros
de morteiro, e inalmente os helicópteros em chamas que haviam caído
com seus rotores ainda girando, jogando a fumaça de suas próprias mortes
enquanto caiam. E lá vêm eles, bum! E os homenzinhos em pijamas negros
estavam atirando no Delta 2-2 e Bravo 2-1 da moita assim que os
Americanos correram para a clareira. Sully havia corrido com Willie
Shearman ao seu lado direito e o Tenente Packer à sua frente; o Tenente Packer levou um balaço na cara, e então ninguém mais estava na sua
frente. Ronnie Malenfant estava à sua esquerda, e Malenfant estivera gritando em sua voz ina, continuamente, ele era como um vendedor
maluco de telefones de alta pressão sob efeito de anfetaminas: Venham, seus putos de merda! Venham seus merdas de olhos puxados! Atirem em mim, seus fodidos! Seus putos fodidos! Não conseguem acertar em nada! Pagano estava atrás deles, e Slocum estava ao lado de Pags. Algum dos rapazes da
Bravo, mas a maioria era da Delta, essa era sua memória. Willie Shearman
gritou por seus próprios companheiros, mas muitos deles icaram para
trás. Delta 2-2 não icou para trás. Clemson estava lá, e Wollensky, e
Hackermeyer, e era incrível como ele conseguia se lembrar de seus nomes;
seus nomes e o odor daquele dia. O odor do verde, e o odor de querosene.
A visão do céu, azul ou verde, e, oh, cara, como eles atiravam, como aqueles
escrotinhos atiravam, você nunca poderia esquecer o modo como atiravam e a sensação de uma bala passando perto de você, e Malenfant estava
berrando Atirem em mim, seus cuzões da porra! Não consegue! São cegos!
Vamos, estou bem aqui! Malditas bichas cuzonas e cegas, eu estou bem aqui!
E os homens nos helicópteros que caiam estavam gritando, e eles os
puxaram de lá, criaram bolhas de queimaduras, mas os puxaram, só que
eles não eram mais homens, não o que você chamaria de homens, eles
eram uma espécie de banquete de TV em sua maior parte, um banquete
com olhos, ivelas de cinto, e suculentos dedos com fumaça saindo de suas
unhas derretidas, é, bem assim, não é coisa que se poderia dizer a pessoas
como Dr. Conroy, como quando você os puxou e partes de seus corpos
saíram, meio que deslizaram, que nem a pele frita de um peru cozinhado
vai deslizar da gordura quente e liquefeita bem abaixo, bem assim, e o
tempo todo você está sentindo o odor do verde e do querosene, está tudo acontecendo, é um show realmente, realmente, enorme, como Ed Sullivan
costumava dizer, e está tudo acontecendo em nosso palco, e tudo o que você pode fazer é seguir com a maré, e tentar passar por cima dela.
Aquilo foi a manhã, aquilo foram os helicópteros, e uma coisa assim tinha que ir a algum lugar. Quando chegaram à pequena Vila de merda naquela
tarde, eles ainda sentiam o fedor dos corpos das equipes dos helicópteros
carbonizadas em seus narizes, o velho tenente estava morto, e alguns dos homens (Ronnie Malenfant e seus amigos, se quer ir direto ao ponto)
haviam enlouquecido. Dieffenbaker era o novo tenente, e no mesmo
instante ele havia se descoberto no comando de homens loucos que
queriam matar quem vissem pela frente: crianças, velhos, velhas
mamasans em tênis chineses vermelhos.
Os helicópteros caíram às dez horas. Aproximadamente às duas e cinco,
Ronnie Malenfant en iou sua baioneta no estômago da velha, e então
anunciou sua intenção de decepar a porra da sua cabeça de porco.
Aproximadamente às quatro e quinze, a menos de quatro cliques de
distância, o mundo explodiu na cara de John Sullivan. Aquele havia sido
seu grande dia na Província de Dong Ha, seu show realmente grande.
Parado lá, entre duas cabanas na cabeça da única rua da Vila,
Dieffenbaker parecera um garoto assustado de dezesseis anos. Mas ele
não tinha dezesseis anos, ele tinha vinte e cinco, anos mais velho do que Sully e a maioria dos outros. O outro único homem da idade e patente de
Deef era Willie Shearman, e Willie parecia relutante a dar um passo a frente. Talvez a operação de resgate desta manhã o tivesse cansado. Ou
talvez ele houvesse percebido que mais uma vez eram os garotos do Delta
2-2 que estavam no comando. Malenfant estava gritando que quando os
malditos congues de merda vissem uma dúzia de cabeças espetadas em
varetas, eles iriam pensar duas vezes antes de foder com o Relâmpago
Delta. Continuando com sua voz estridente e perfurante, de um vendedor
de telefone. O jogador de cartas. O Sr. Tubarão das Cartas.
Pags tinha suas gaitas; Malenfant tinha seu baralho. Copas, esse era o jogo de Malenfant. Dez centavos por ponto se ele pudesse te convencer, senão
um níquel por ponto se não pudesse. Vamos, rapazes ! ele gritou naquela voz estridente, uma voz que Sully jurou que poderia causar sangramentos
no nariz, e matar gafanhotos em seus vôos.
Vamos, quero ver grana, estamos caçando A Puta!
Sully se lembrou de estar de pé na rua e olhar para o rosto confuso,
exausto, e pálido do novo tenente. Ele se lembrou de pensar, ele não vai conseguir fazer isso. O que quer que precise ser feito para parar isso antes que as coisas piores, ele não vai conseguir fazer. Mas então Dieffenbaker se controlou e acenou com a cabeça para Slocum. Slocum não hesitou por um
momento. Slocum, lá de pé ao lado de uma cadeira de cozinha virada com
pernas de cromo e um assento vermelho, havia aprontado seu ri le,
mirado, e explodido a cabeça de Ralph Clemson. Pagano, que estava
boquiaberto perto de Malenfant, di icilmente parecia ter percebido que
havia sido coberto de sangue e miolos dos pés a cabeça. Clemson caiu
morto na rua e aquilo parou a festa. Fim de jogo, querida.
***
Atualmente Dieffenbaker tinha uma barriga considerável, e usava bifocais.
Também ele havia perdido a maior parte do cabelo. Sully estava espantado
com isto, porque Deef havia tido sua cabeça cheia pelo menos cinco anos atrás, na reunião da unidade no litoral de Jersey. Aquela era a última vez,
Sully havia prometido a si mesmo, que ele se reuniria com estes caras. Elas
não melhoraram. Elas não amadureceram. Cada uma delas, parecia uma
reunião do elenco chapado de Seinfeld.
– Quer sair, e fumar um cigarro? – o novo tenente perguntou. – Ou você parou quando todos os outros pararam?
– Parei quando todos pararam, a irmativo. – eles estavam um pouco à
esquerda do caixão nessa hora, para que o resto das pessoas de luto
pudesse dar uma olhada e passar por eles. Sendo tocada em notas baixas, a música rolava fácil em suas vozes, a irritante trilha sonora da salvação. A
canção que era tocada agora é “Velha Rude Cruz”, Sully acreditava.
– Eu acho que Pags teria preferido. . – ele começou.
– “Going Up the Country” ou “Let’s Work Together”. – Dieffenbaker
terminou, sorrindo.
Sully sorriu de volta. Esse era um daqueles momentos inesperados, como
um breve raio de sol em um longo dia de chuva, quando está tudo bem em
se lembrar de alguma coisa (um daqueles momentos quando você ica,
incrivelmente, feliz por ter estado lá).
– Ou talvez “Boom Boom”, aquela dos The Animals. – ele disse.
– Lembra-se de Sly Slocum dizendo que iria en iar a gaita de Pags em sua
bunda se ele não parasse de tocar?
Sully assentiu, ainda sorrindo.
– Disse que se en iasse fundo o su iciente, Pags poderia tocar “Vale do Rio
Vermelha” enquanto peidasse. – ele olhou afetuosamente de volta para o
caixão, como se esperasse que Pagano também estivesse sorrindo com a
lembrança. Pagano não estava. Pagano estava apenas deitado ali com
maquiagem na cara. Pagano havia passado por cima. – Vamos fazer assim,
eu vou lá para fora assistir você fumar.
– Feito. – Dieffenbaler, que uma vez havia dado a ordem para um de seus
soldados matar outro de seus soldados, começou a subir a ileira lateral da
capela, sua cabeça careca re letindo as cores misturadas enquanto ele
passava por cada janela de vidro colorido. Mancando atrás dele (ele
estivera mancando por metade de sua vida agora e nunca mais percebeu)
vinha John Sullivan, negociante da Gold Star Chevrolet.
O tráfego na I-95 agora engatinhava e então parava completamente, exceto pelas ocasionais contrações em uma das pistas. No rádio Question Mark and The Mysterians haviam dado seu lugar para Sly and the Family Stone (“Dance to the Music”). O escroto do Slocum estaria batucando no carro
com certeza, batucando o mais alto que poderia.
Sully colocou seu carro em modo estacionado e batucou em sincronia no
volante.
Enquanto a música terminava, ele olhou para sua direita, e lá estava a
velha mamasan no banco, não batucando, apenas sentada lá, com suas mãos em seus colo e seus tênis enlouquecedores e brilhantes, aqueles
sapatos de Chuck Taylor, plantados no descartável tapete de plástico, com
um SULLIVAN CHEVROLET APRECIA SEU NEGÓCIO impresso nele.
– Olá, sua vadia velha. – Sully disse, feliz ao invés de perturbado. Quando havia sido a última vez que ela havia mostrado a cara? A festa de Ano Novo
no The Tacklins, talvez, a última vez em que Sully havia em embebedado de
verdade. – Por que não apareceu no funeral de Pags? O novo tenente
perguntou por você.
Ela não respondeu, mas ei, quando ela já havia? Ela apenas ficou sentada lá
com as mãos fechadas e os olhos negros nele, uma visão de Dia das Bruxas
em verde, laranja e vermelho. A velha mamasan não era como os
fantasmas de um ilme de Hollywood; você não conseguia ver através dela,
ela nunca mudava de forma, nunca desaparecia.
Ela usava um pedaço de tecido amarrado ao redor de seu pulso como um
bracelete de amizade de uma criança na escola. E embora você pudesse
ver cada volta do tecido, e cada ruga de seu rosto antigo, você não podia sentir o cheiro dela, e uma vez, quando Sully tentou tocá-la, ela
desapareceu. Ela era um fantasma, e sua cabeça era a mansão mal-
assombrada em que ela vivia. Apenas atualmente (normalmente indolor e
sem avisar), sua cabeça a vomitaria onde ele tivesse que vê-la.
Ela não havia mudado. Ela nunca perdeu cabelo, ou teve cálculos biliares, ou precisou de bifocais. Ela não morreu como Clemson, Pags, Packer e os caras nos helicópteros acidentados (mesmo os dois que eles haviam levado
até a clareira cobertos de fuligem como bonecos de neve haviam morrido,
eles estavam queimados demais para viver, e todo o esforço havia sido em
vão). Ela não desapareceu como Carol izera, tampouco. Não, a velha mamasan continuava a aparecer para uma visita ocasional, e ela não
mudara nada desde os dias em que “Instant Karma” estava no top dez das
melhores músicas. Ela havia morrido uma vez, isso é verdade, teve que cair
lá na lama, enquanto Malenfant en iava sua baioneta em sua barriga e
então anunciava sua intenção de arrancar sua cabeça, desde então ela
esteve vagando.
– Por onde andou, querida? – se qualquer pessoa em outro carro olhasse
(seu Caprice estava cercado pelos quatro lados agora, encaixotado) e visse
seus lábios se mexendo, imaginariam que ele estava cantando com o rádio.
Mesmo se pensassem outra coisa, quem ligaria? Quem ligaria para
qualquer coisa que esses babacas pensassem?
Ele havia visto coisas, coisas terríveis, não a pior delas sendo seus próprios intestinos caindo em uma mata sangrenta de seus próprios pêlos púbicos,
e se algumas vezes ele via este velho fantasma (e falava com ela), quem ligava? Isso era da conta de alguém?
Sully olhou a estrada, tentando espiar o que havia feito o tráfego icar tão lento (ele não conseguia, você nunca consegue, você apenas tem que
esperar e se arrastar um pouco para frente enquanto o cara a sua frente se arrasta), e então olhou para trás. Às vezes quando ele fazia isso, ela ia embora. Não desta vez; desta vez ela havia apenas trocado de roupas. Os tênis vermelhos ainda eram os mesmo agora, mas ela vestia um uniforme
de enfermeira: calças brancas de náilon, blusa branca (com um pequeno
relógio de ouro espetado nele, que belo toque), chapéu branco com uma
alça negra.
Suas mãos ainda estavam repousadas em seu colo, ela ainda olhava para
ele.
– Onde esteve, Mama. Eu senti saudades. Eu sei que é estranho, mas é
verdade.
Mama, você esteve em meus pensamentos. Você deveria ter visto o novo
tenente. Sério, foi incrível. Ele entrou na fase de cabeça de pica. Totalmente
careca em cima, e brilhante.
A velha mamasan nada disse. Sully não ficou surpreso.
***
Havia uma viela ao lado do salão de funeral, com um branco pintado de
verde colocado contra um lado. Dos dois lados do banco havia baldes de
areia. Dieffenbaler sentou-se ao lado de um dos baldes, colocou um cigarro
na boca (era um Dunhill, Sully observou, bem impressionante), então
ofecereu o maço a Sully.
– Não, eu realmente parei.
– Excelente. – Dieffenbaker acendeu o seu com um isqueiro da Zippo, e
Sully percebeu uma coisa estranha: ele nunca havia visto alguém que
estivera no Vietnã acender seus cigarros com fósforos ou aqueles isqueiros
descartáveis de butano; os veteranos do Vietnã sempre pareciam carregar
isqueiros da Zippo. É claro que isso não poderia ser verdade. Poderia?
– Você ainda manca pra caramba. – Dieffenbaker disse.
– É.
– No somatório de tudo, eu chamaria isso de melhoramento. Da última vez
que eu te vi, você parecia um aleijado. Especialmente depois de ter tomado
umas bebidas.
– Você ainda vai às reuniões? Eles ainda fazem os piqueniques e essas merdas?
– Eu acho que ainda fazem, mas não apareço por lá há três anos. Fiquei deprimido demais.
– É. Aqueles que não têm câncer estão loucos com a bebida. Aqueles que conseguiram parar o alcoolismo viraram adeptos do Prozac.
– Você percebeu.
– Pode apostar nisso.
– Acho que não estou surpreso. Você nunca foi o cara mais esperto do
mundo, Sully-John, mas você sempre foi um ilho da puta perceptivo.
Mesmo naquela época.
De qualquer forma, você acertou em cheio; bebidas, câncer, e depressão, esses são os problemas principais ao que parece. Oh, e os dentes. Eu nunca
conheci um veterano do Vietnã que não tivesse problemas sérios com os
dentes. . se ele ainda tivesse algum sobrado, é claro. E quanto a você, Sully?
Como vão seus velhos dentes da frente?
Sully, que perdera seis desde o Vietnã (mais quase incontáveis canais
apodrecidos), balançou a mão em um gesto “mais ou menos”.
– E o outro problema? – Dieffenbaker perguntou. – Como vai?
– Depende. – Sully disse.
– De quê?
– De que descrevi como um problema. Nós estivemos em três daqueles
fodidos piqueniques de reunião juntos. .
– Quatro. Houve também ao menos um que eu fui e você não foi. No ano seguinte àquele na costa de Jersey? Foi aquele em que Andy Hackermeyer
disse que se mataria pulando do topo da Estátua da Liberdade?
– E ele fez isso?
Dieffenbaker traçou demoradamente seu cigarro e deu a Sully o que ainda
era um olhar de Tenente. Mesmo depois de todos esses anos ele podia
fazer isso. Era meio que incrível.
– Se ele tivesse feito, você teria lido no Post. Você não lê o Post?
– Religiosamente.
Dieffenbaker assentiu.
– Os veteranos do Vietnã sempre têm problemas com os dentes e eles
sempre lêem o Post. Se eles estiverem na área de publicação dele, é claro.
O que supõe que eles fazem se não estiverem?
– Escutam Paul Harvey. – Sully disse prontamente, e Dieffenbaker riu.
Sully estava se lembrando de Hack, que também estivera lá no dia dos
helicópteros, da Vila, e da emboscada. Um garoto loiro com uma risada contagiosa.
Tinha uma foto de sua namorada laminada para não apodrecer com a
umidade, e a usava pendurada ao redor de seu pescoço em uma pequena
corrente de prata. Hackermeyer estivera bem ao lado de Sully quando eles
chegaram a Vila e o tiroteio começou. Ambos viram a velha mamasan vir correndo com as mãos pra cima, berrando em uma língua estranha para
nós, berrando para Malenfant, Clemson, Peasley, Mims e os outros que
estavam atirando no local. Mims havia acertado um garotinho, talvez por
acidente. O
menino estava na lama do lado de fora de uma daquelas cabanas
deploráveis, gritando.
A velha mamasan decidiu que Malenfant estava no comando, e por que não? Malenfant era o único berrando, e então ela correu para ele, ainda balançando as mãos no ar. Sully poderia ter dito a ela que isso seria um grande erro, que o velho Sr. Tubarão das Cartas já tivera uma longa
manhã, todos tiveram, mas Sully nunca abriu a boca. Ele e Hack icaram lá
assistindo enquanto Malenfant levantava o rabo de seu ri le e o acertava na cara dela, fazendo com que ela caísse e parasse de berrar. Willie
Shearman estivera mais ou menos há vinte metros de distância. Willie Shearman de sua velha cidade natal, um dos garotos Católicos dos quais
ele e Bobby tinham medo, e era impossível ler o rosto de Willie. Willie Beisebol, alguns dos homens o chamavam, e sempre afetuosamente.
Sully não tinha a menor idéia do porquê.
– Então, e quanto ao seu problema, Sully-John?
Sully voltou da Vila em Dong Ha para a viela ao lado do salão do funeral em
Nova York. . mas lentamente. Algumas memórias são como a armadilha na
velha história sobre a Raposa e o Coelho (N.T. – Refere-se à história contada no ilme “A Canção do Sul”, de Walt Disney, onde o Tio Remo
conta uma história da Raposa e do Urso, e suas armadilhas
grudentas para pegar o Coelho. ), você fica preso a elas.
– Eu acho que depende. Que tipo de problema eu disse que tinha?
– Você disse que suas bolas explodiram quando nos pegaram fora da Vila.
Você disse que era Deus te punindo por não parar Malenfant antes que ele
enlouquecesse de vez e matasse aquela velha senhora.
Enlouquecer não era uma justi icativa, Malenfant com suas pernas
plantadas em ambos os lados da velha senhora, descendo a baioneta e
ainda assim mexendo a boca o tempo todo. Quando o sangue começou a
sair, fez sua camisa laranja parecer de hippie, graças à mistura de cores.
– Eu exagerei um pouco. – Sully disse. – Como bêbados normalmente
fazem.
Parte do velho saco escrotal ainda está lá, e às vezes o meu amigo ainda levanta.
Especialmente por causa do Viagra. Deus abençoe essa merda.
– Você parou de beber que nem com os cigarros?
– Eu bebo uma cerveja ocasionalmente. – Sully disse.
– Prozac?
– Ainda não.
– Divorciado?
Sully assentiu.
– E você?
– Duas vezes. Estou pensando em mergulhar novamente. Mary Theresa
Charlton, como ela é doce. Da terceira vez você dá sorte, esse é meu lema.
– Sabe de uma coisa, cara? – Sully perguntou. – Nós estamos descobrindo alguns claros legados da experiência no Vietnã. – ele levantou um dedo. –
Veteranos do Vietnã pegam câncer, normalmente nos pulmões ou no
cérebro, mas em outros lugares também.
– Como Pags. Pags foi no pâncreas, não foi?
– Certo.
– Todos esses cânceres por causa do Laranja. – Dieffenbaker disse. –
Ninguém pode provar, mas todos nós sabemos. O Agente Laranja, o
presente que continua a ser oferecido.
Sully levantou um segundo dedo (seu dedo da foda), Ronnie Malenfant sem
dúvida teria dito.
– Veteranos do Vietnã icam deprimidos, icam bêbados nas festas,
ameaçam pular de pontos turísticos nacionais. – agora levantou o terceiro dedo. – Veteranos do Vietnã têm dentes ruins. – e então o dedo mindinho. –
Veteranos do Vietnã se divorciam.
Sully parou neste momento, ouvindo vagamente a música do órgão vindo
da janela parcialmente aberta, olhando para seus quatro dedos levantados,
e então para seu polegar ainda abaixado em sua mão. Veteranos do Vietnã
eram viciados em drogas.
Veteranos eram perigosos em empréstimos, e muito; qualquer bancário te diria isso (nos anos em que Sully estivera construindo sua concessionária,
um grande número de banqueiro disseram isso para ele). Os veteranos estouravam seus cartões de crédito, eram jogados para fora de cassinos,
chorando por causa de canções de George Strait e Paty Loveless, brigavam
uns com os outros no boliche, compravam carrões com crédito e então os
batia, batiam em suas esposas, batiam em seus ilhos, batiam na porra dos
seus cachorros, e provavelmente se cortavam na hora de barbear mais freqüentemente do que as pessoas cujo máximo de aproximação do verde
foi Apocalipse Now, ou aquele pedaço de merda O Franco Atirador.
– E o polegar? – Dieffenbaker disse. – Vamos, Sully, você está me matando
de curiosidade.
Sully olhou para seu polegar recolhido. Olhou para Dieffenbaker, que
agora usava bifocais e ostentava uma barriguinha (o que os veteranos do
Vietnã chamavam de “A casa que a cerveja construiu”) mas que ainda
podia carregar aquele jovem magricela com o temperamento de uma vela
de cera em algum lugar dentro dele. Então ele olhou de volta para seu
polegar e o levantou como um cara tentando pedir uma carona.
– Veteranos do Vietnã sempre carregam isqueiros da Zippo. – ele disse. –
Ao menos até pararem de fumar.
– Ou até pegarem um câncer. – Dieffenbaker disse. – Ao que suas esposas
sem dúvida tomaram de suas mãos paralisadas.
– Exceto aqueles que estão divorciados. – Sully disse, e ambos riram. Havia
sido bom do lado de fora do salão do funeral. Bem, talvez não bom, mas melhor do que lá dentro. A música do órgão lá dentro era ruim, o cheiro grudento de flores era pior. O
cheiro das lores fazia Sully pensar em Mekong Delta. “No campo”, as
pessoas diziam agora, mas ele não se lembrava de ter ouvido essa frase
particular naquela época.
– Então você não perdeu suas bolas inteiramente afinal de contas. –
Dieffenbaker disse.
– Não, nunca entrei no campo de Jake Barnes (N.T. – Personagem e narrador do livro “O Sol Também se Levanta” de Ernest Hemingway,
que perde seu órgão sexual numa explosão de uma trincheira,
durante aPrimeira Guerra Mundial. ).
– Quem?
– Não importa. – Sully não era uma amante dos livros, nunca fora (seu
amigo Bobby havia sido o amante), mas a biblioteca do centro de
reabilitação havia lhe dado O Sol Também Se Levanta, e Sully o havia lido avidamente, não uma, mas três vezes. Na época parecera muito importante
(como O Senhor das Moscas havia sido importante para Bobby quando
eram crianças). Agora Jake Barnes parecia remoto, um homem de lata com
problemas falsos. Apenas mais um faz de conta.
– Não?
– Não. Eu posso ter mulheres se realmente quiser. Não posso ter ilhos,
mas posso ter mulheres. Há preparatórios envolvidos, a maioria parece ser
complicada.
Dieffenbaker nada disse por muito tempo. Ele ficou olhando para as mãos.
Quando olhou para cima, Sully achou que ele iria dizer algo sobre ter que
ir andando, dar um rápido adeus à viúva e então voltar para as guerras (Sully pensou que no caso do novo tenente, os dias de guerra envolvia
vender computadores com alguma coisa mágica dentro deles chamada
Pentium), mas Dieffenbaker não disse isso. Ele apenas fez uma pergunta.
– E quanto a velha senhora? Você ainda a vê, ou ela foi embora?
Sully sentiu pavor, informe, mas vasto, ecoar atrás de sua cabeça.
– Que velha senhora? – ele não conseguia se lembrar de ter dito a Dieffenbaker, não conseguia se lembrar de ter dito a qualquer pessoa, mas
é claro que deveria ter dito.
Merda, ele poderia ter dito qualquer coisa a Dieffenbaker em um desses
piqueniques nas reuniões; eles não eram nada a não ser buracos negros
com cheiro de licor em suas memórias, cada um deles.
– A velha mamasan. – Dieffenbaker disse, e pegou um novo cigarro. –
Aquela que Malenfant matou. Você disse que costumava vê-la. “Às vezes
ela usa roupas diferentes, mas é sempre ela”, você disse. Você ainda a vê?
– Posso pegar um desses? – Sully perguntou. – Nunca fumei um Dunhill.
***
Na WKND, Donna Summer cantava sobre uma garota realmente má e
safada.
Sully se virou para a velha mamasan, que estava de camisa laranja e calças verdes novamente.
– Malenfant nunca foi obviamente louco. Não mais do que qualquer outro,
de qualquer forma. . exceto talvez no quesito Copas. Ele sempre estava
procurando por três caras para jogar Copas com ele, e isso não é
realmente louco, você diria isso? Não mais louco do que Pags com suas
gaitas e muito menos do que aqueles caras que passavam a noite cheirando heroína. E também, Ronnie ajudou a tirar aqueles caras dos
helicópteros. Deveria haver uns dozes congues na moita, talvez duas
dúzias, todos atirando que nem doidos, mas ele nunca hesitou. – nem
Fowler ou Hack, ou Slocum, ou Peasley, ou o próprio Sully. Mesmo depois de Packer cair, eles continuaram. Eram garotos corajosos. E se a coragem deles houvesse sido destruída em uma guerra feita por velhos com
cabeças de porco, isso queria dizer que a coragem era inútil? Tocando
neste assunto, a causa de Carol Gerber era errada porque uma bomba
explodiu na hora errada? Merda, várias bombas explodiam na hora errada no Vietnã. O que era Ronnie Malenfant, quando você vai direto ao assunto,
a não ser uma bomba que havia explodido na hora errada.
A velha mamasan continuou a olhar para ele, seu lerte de cabelos brancos
sentado ali no banco do passageiro com suas mãos no colo (mãos amarelas
fechadas onde o laranja encontrava o verde da calça de poliéster).
– Eles atiraram em nós por quase duas semanas. – Sully disse. – Desde
então deixamos o Vale A Shau. Vencemos no Tam Boi e quando você vence,
supostamente deve comemorar, ao menos foi isso o que eu sempre pensei,
mas o que estávamos fazendo era bater em retirada, não comemorar.
Merda, ganhamos por pouco, e com certeza não nos sentimos vencedores
por muito tempo. Não havia apoio, estávamos soltos para morrer. Maldita
Vietnamização! Que piada!
Ele icou em silêncio por um momento ou dois, olhando para ela enquanto
ela olhava calmamente para ele. Além deles, o tráfego pesado brilhou como
uma febre.
Algum caminhoneiro impaciente buzinou e Sully pulou como um homem
subitamente desperto de uma soneca.
– Foi aí que eu conheci Willie Shearman, sabe. Fugindo do Vale A Shau. Eu
sabia que ele parecia familiar e tinha certeza de que já o havia encontrado
em algum lugar, mas não conseguia saber onde. As pessoas mudam pra
caramba entre os catorze e os vinte quatro anos, sabe. Então em uma
tarde, ele e um bando de caras da outra Companhia Bravo estavam
sentados e falando merda, sobre garotas, e Willie disse que a primeira vez
que havia dado um beijo, havia sido em uma festa da Confraria de Santa
Teresa de Ávila, E eu pensei, “Puta merda, essas são as garotas do St. Gabe”. Eu andei até ele e disse, “seus safados, podem ter sido os reis da Avenida Asher, mas chutávamos seus traseiros todas as vezes em que
desciam ao colégio Harwich pra jogar futebol”. Ei, e que “te peguei” foi aquele! O puto do Willie pulou tão alto que eu achei que ele ia correr como
um homem de biscoito. Era como se ele houvesse visto um fantasma, ou
coisa assim. Então ele riu, mostrou a mão e eu vi que ele estava usando seu
anel de formatura do Harwich! E sabe o que tudo isso prova?
A velha mamasan nada disse, ela nunca dizia, mas Sully podia ver em seus
olhos que ela sabia o que tudo isso provava: as pessoas eram engraçadas,
as crianças diziam as coisas mais sinceras, os vencedores nunca desistiam,
e os que desistiam nunca venciam.
E também, Deus abençoe a América.
– De qualquer forma, eles nos caçaram durante toda a semana, e começou
a ficar óbvio que eles estavam nos levando. . apertando pelos lados. . nossas
baixas continuavam a subir e você não podia dormir por conta dos fogos e
dos helicópteros e os gritos que eles davam à noite. E eles viriam até você,
sabe. . vinte deles, três dúzias deles. . vinham e iam, vinham e iam, desse jeito. . e eles faziam uma coisa. .
Sully lambeu os lábios, percebendo que sua boca estava seca. Agora ele
deseja não ter ido ao funeral de Pags. Pags havia sido um cara legal, mas não o bastante para justificar o retorno de tais memórias.
– Eles montavam quatro ou cinco morteiros na moita. . em um dos nossos
lancos, sabe. . e ao lado de cada morteiro eles alinhavam oito ou nove
caras, cada um com uma granada. Os homenzinhos de pijamas negros,
todos alinhados como crianças como em uma fonte de água em um livro de
gramática. E quando a ordem vinha, cada um deles colocava sua granada
no tubo do morteiro, e então corriam o mais que podiam.
Correr desse modo, eles alertariam o inimigo, nós, ao mesmo tempo em
que as granadas eram lançadas. Isso sempre me fez pensar em algo que o
cara que vivia no andar de cima do apartamento de Bobby Gar ield nos
disse, enquanto brincávamos no jardim de Bobby. Era sobre um jogador de
beisebol que os Dodgers costumavam ter. Ted disse que esse cara era tão
fodidamente rápido que ele poderia acertar uma tacada na prata da casa,
então correr e pegar a bola ele mesmo. Era meio que. . enervante.
Sim. Do modo como ele estava agora, meio que em pânico, como crianças
que cometem o erro de contar histórias de fantasmas no escuro.
– O fogo que eles jogaram naquela clareira onde os helicópteros haviam
caído era apenas mais do mesmo, acredite. – exceto que isso não era
exatamente verdade. Os congues haviam deixado a coisa correr naquela