Corações na Atlântida
Capítulo 23
– Por que não? – Stoke disse das escadarias. – Nós recuamos e deixamos os
Nazistas matarem os Judeus por seis anos. Judeus acreditavam em Deus,
ou foi isso que me disseram.
– Matador de bosta! – Ronnie berrou. – Quem caralho pediu tua opinião?
Mas neste momento, Stoke Jones, também conhecido como Matador, estava
descendo as escadas. Os ecos de suas muletas me izeram pensar na
recente saída de Frank Stuart.
Dearie virou as costas para Skip. Suas mãos estavam fechadas em punhos.
Descansando na frente de sua camisa branca estavam algumas plaquetas
de identi icação. Seu pai as havia usado na França e na Alemanha, ele nos
disse; as usava enquanto se encostava a uma árvore, se escondendo do
fogo da metralhadora que havia matado dois homens de sua companhia e
ferira outros quatro. O que isso tinha a ver com o con lito do Vietnã, nenhum de nós sabia muito bem, mas era claramente um assunto sério
para Dearie, então nenhum de nós perguntou. Mesmo Ronnie teve o senso
para ficar de bico calado.
– Se deixarmos que tomem o sul do Vietnã, eles tomaram o Camboja. – os olhos de Dearie saíram de Skip para mim e Ronnie. . para todos nós. –
Então Laos. Então as Filipinas. Uma após a outra.
– Se puderem fazer isso, talvez mereçam ganhar. – eu disse.
Dearie olhou para mim, chocado. Eu mesmo estava meio que chocado, mas
eu não retirei o que disse.
23
Ainda havia uma rodada de preliminares antes da folga do Dia de Ação de
Graças, e para os jovens escolares do Chamberlain Três, foi um desastre.
Até lá a maioria de nós entendia que nós éramos um desastre, que estávamos cometendo uma espécie de suicídio em massa. Kirby McClendon fez sua loucura e desapareceu como um coelho em um truque de mágica.
Kenny Auster, que normalmente sentava no canto durante a maratona de
jogos, e catava caraca no nariz quando não conseguia se decidir que carta
jogar em seguida, simplesmente sumiu um dia. Ele deixou uma rainha de
espadas com as palavras “eu desisti” escritas em seu travesseiro. George
Lessard se juntou a Jack Frady e Steve Ogg no Chadbourne, o dormitório
dos crânios.
Seis fora, faltam treze.
Deveria ter sido o su iciente. Inferno, apenas o que havia acontecido com o
pobre e velho Kirby deveria ter sido o su iciente; nos últimos três ou
quatro dias antes dele enlouquecer, suas mãos tremiam tanto que ele tinha
problemas em pegar cartas e ele pulava da cadeira se alguém batesse a
porta no corredor. Kirby deveria ter sido o su iciente, mas ele não foi. Nem
mesmo o meu tempo com Carol foi a resposta. Quando eu realmente estava
com ela, sim, eu estava bem. Quando eu estava com ela, tudo o que eu
queria era informação (e talvez transar). Quando eu estava no dormitório,
especialmente no maldito salão do terceiro andar, eu me tornava outra
versão de Peter Riley. No salão do terceiro andar eu era um estranho para
mim mesmo.
Enquanto o Dia de Ação de Graças se aproximava, um tipo de fatalismo
cego se instalou. Mas nenhum de nós falou a respeito. Nós falamos sobre ilmes, ou sexo (“eu consigo mais bundas do que um pônei de um
carrossel!” Ronnie costumava cacarejar, normalmente sem aviso ou
qualquer conversa que levasse ao assunto), mas na maior parte do tempo
falávamos sobre o Vietnã. . e Copas. Nossas discussões sobre Copas era
sobre quem estava na frente, quem estava atrás, e quem parecia não conseguir aprender algumas simples estratégias de jogo: tenha sempre um às; passe cartas de copas com valores medianos para os jogadores que
gostam de tentar acertar a lua; se tiver que fazer um blefe, sempre o eleve.
Nossa única resposta real para a iminente terceira rodada de preliminares
foi organizar o jogo num tipo de interminável torneio giratório. Ainda
jogávamos um níquel por ponto, mas agora também jogávamos “match
points”. O sistema para recompensar “match points” era complexo, mas
Randy Echolls e Hugh Brennan trabalharam em uma boa fórmula em duas
sessões febris tarde da noite. Ambos, incidentalmente, estavam se ferrando
em seus cursos de introdução à matemática; nenhum deles foi convidado a
voltar na conclusão do semestre no Outono.
Trinta e três anos se passaram desde a rodada de exames pré-Ação de
Graças, e o homem que aquele garoto se tornou ainda estremece com a
memória dela. Eu me ferrei em tudo, exceto Sociologia e Introdução ao
Inglês. Eu não tive que ver as notas para saber, tampouco. Skip disse que havia afundado o boletim, exceto em Cálculos, e ele mal havia se saído bem
nessa. Eu iria levar Carol ao cinema naquela noite, nosso primeiro encontro
pré-término (e nosso último, embora eu não soubesse disso), e eu vi
Ronnie Malenfant no caminho para pegar meu carro. Eu perguntei a ele
como ele havia se saído nos testes; Ronnie sorriu, piscou, e disse:
– Me saí bem em todas, garotão. Que nem na porra do Boliche da Faculdade.
Não estou preocupado. – mas na luz do estacionamento, eu pude ver seu
sorriso cedendo nos cantos. Sua pele estava pálida demais, e sua acne,
ruim quando começou na faculdade em Setembro, estava pior do que
nunca. – E quanto a você?
– Vão me transformar em Decano de Artes e Ciências. – eu disse. – Isso te