Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 5 de 59

Páginas do PDF

Corações na Atlântida

Capítulo 4

Gabriel e uma no canto da Asher com a Tacoma anunciando um show de

rock ‘n roll em Hartford estrelando Clyde McPhatter e Dwayne Eddy, o

Homem da Guitarra Vibrante.

Pela hora em que ele chegou ao Jornal da Avenida Asher, que era quase o caminho inteiro de volta para a escola, Bobby começava a esperar que

estivesse exagerando. Ainda assim, ele iria olhar no quadro de avisos

deles, então desceria até a Broad Street até a loja de Spicer, onde ele compraria outra bala e checaria o quadro de avisos também. Nada

suspeito nisso. Na Spicer, o cartão anunciando a piscina de jardim se fora,

mas e daí? O cara provavelmente a vendeu. Por que mais ele colocaria o cartão em primeiro lugar, pelo amor de Deus?

Bobby saiu e permaneceu na esquina, chupando sua bala, e tentando

decidir o que fazer em seguida.

A maioridade é uma coisa que vem em somas por natureza, uma coisa que

chega com vários estágios e sobreposições irregulares. Bobby Gar ield fez

sua primeira decisão adulta no dia em que ele terminou a sexta série,

concluindo que seria errado dizer a Ted sobre as coisas que ele vira. . ao menos por enquanto.

Sua opinião de que os homens maus não existiam havia sido abalada, mas

Bobby não estava pronto para desistir. Não com as evidências que ele

tinha até agora.

Ted icaria nervoso se Bobby lhe dissesse o que vira, talvez nervoso o

bastante para jogar suas coisas de volta em suas malas (e as sacolas com alças que agora estavam atrás de sua pequena geladeira) e dar no pé. Se realmente existissem caras maus atrás dele, fugir faria sentido, mas Bobby

não queria perder o único amigo adulto que ele já tivera. Então ele decidiu

esperar para ver o que aconteceria em seguida, se é que aconteceria

alguma coisa.

Naquela noite Bobby Gar ield experimentou outro aspecto da maioridade:

ele continuava acordado, depois que seu relógio de corda Big Ben

anunciou que eram duas da manhã, olhando para o teto e imaginando se

fizera a coisa certa.

4

Ted Apaga. Bobby Vai À Praia.

McQuown. O Palpite.

No dia em que as aulas terminaram, a mãe de Carol Gerber entupiu seu

Ford Estate Wagon de crianças e as levou para o Savin Rock, um parque de

diversões próximo ao mar, a trinta e dois quilômetros de Harwich. Anita

Gerber fazia esse passeio há três anos, o que o fez para Bobby, S-J e Carol,

o irmãozinho de Carol, e as amigas de Carol, Yvonne, Angie, e Tina, uma antiga tradição. Nem Sully-John ou Bobby teriam ido a qualquer lugar com

três garotas sozinho, mas já que estavam juntos estava tudo bem. Além

disso, a tentação do Savin Rock era muito forte para resistir. Ainda estaria

frio demais para dar mais do que uma caminhada pelo oceano, mas eles

poderiam brincar na praia e todos os brinquedos estariam abertos, os

intermediários também. No ano anterior, Sully-John derrubara três

pirâmides de garrafas de leite com apenas três bolas de beisebol,

ganhando para sua mãe um grande urso rosa de pelúcia, que ainda

carregava o orgulho de estar acima da TV dos Sullivan. Hoje S-J queria

ganhar outro.

Para Bobby, apenas sair de Harwich por um tempo era uma atração. Ele

não havia visto nada de suspeito desde a estrela e a lua desenhadas ao lado da amarelinha, mas Ted lhe dera um grande susto enquanto Bobby lia

para ele o jornal de Sábado, e em seguida veio uma feia discussão com sua

mãe.

A coisa com Ted aconteceu enquanto Bobby lia uma opinião acerca da idéia

de que Mickey Mantle nunca quebraria o recorde de home-runs de Babe

Ruth. Ele não tinha o fôlego ou dedicação, o colunista insistiu.

– “Acima de tudo, o caráter deste homem é errado”. – Bobby leu. – “O tão chamado Mick é mais interessado em farrear à noite do que. .”

Ted apagara novamente. Bobby sabia, sentiu de algum modo, mesmo antes

de tirar os olhos do jornal. Ted estava encarando vaziamente sua janela na

direção da Colony Street, e o rouco e monótono latido do cão da Sra.

O’Hara. Era a segunda vez que ele fazia isso nesta manhã, mas o primeiro lapso só havia durado alguns segundos (Ted se inclinou para abrir a

geladeira, os olhos abertos ante a luz gelada, sem se mover. . então dando uma sacudidela, e pegando o suco de laranja). Desta vez ele estava

totalmente apagado. Pirado, cara, como Kookie teria dito em um episódio

de 77 Sunset Trip. Bobby chocalhou o jornal para ver se conseguia acordá-

lo desse jeito. Nada.

– Ted? Você está b. . – com um súbito horror, Bobby percebeu que algo

estava errado com as pupilas dos olhos de Ted. Elas cresciam e diminuíam

em seu rosto enquanto Bobby assistia. Era como se Ted estivesse

mergulhando e voltando rapidamente de algum lugar abissalmente negro. .

e ainda assim tudo o que ele estava fazendo era estar sentado ali no meio

dos raios do sol.

– Ted?

Um cigarro estava queimando no cinzeiro, exceto que não era nada agora a

não ser um toco e cinzas. Olhando para isso, Bobby percebeu que Ted

devia ter apagado desde o começo da leitura do artigo sobre Mantle. E essa

coisa que seus olhos faziam, as pupilas inchando e contraindo, inchando e

contraindo. .

Ele está tendo um ataque de epilepsia ou coisa assim. Deus, às vezes eles não

engolem a própria língua quando isso acontece?

A língua de Ted parecia estar onde devia, mas seus olhos. . seus olhos. .

– Ted! Ted, acorde!

Bobby estava ao lado de Ted na mesa antes mesmo de que percebesse que

havia se movido. Ele agarrou Ted pelos ombros e o sacudiu. Era como

sacudir um pedaço de madeira esculpido em forma de homem. Sob sua

blusa de algodão os ombros de Ted eram duros e magricelas.

– Acorde! Acorde!

– Eles movem-se à Oeste agora. – Ted continuou a olhar pela janela com seus estranhos olhos em movimento. – Isso é bom. Mas eles podem voltar.

Eles. .

Bobby icou com suas mãos nos ombros de Ted, apavorado. As pupilas de Ted expandiram-se e contraíram como uma batida de coração que você

pudesse ver.

– Ted o que há de errado?

– Eu devo icar calmo. Devo ser como uma lebre em um arbusto. Eles

podem passar direto por mim. Pode haver água se for a vontade de Deus, e

eles podem passar direto. Todas as coisas servem. .

– Servem ao quê? – quase sussurrando agora. – Servem ao quê, Ted?

– Todas as coisas servem ao Feixe. – Ted disse, e de repente suas mãos se

fecharam nas de Bobby. Elas estavam muito frias, aquelas mãos, e por um

momento Bobby sentiu que estava em um pesadelo, desmaiando de terror.

Era como ser agarrado por um cadáver que só podia mexer suas mãos e

suas pupilas de seus olhos mortos.

Então Ted estava olhando para ele, e embora seus olhos estivessem

aterrorizados, eles estavam quase normais de novo. Não mortos, no fim das

contas.

– Bobby?

Bobby libertou suas mãos e as colocou ao redor do pescoço de Ted. Ele o abraçou, e enquanto ele o fez, Bobby ouviu um sino tocando em sua

cabeça, isso foi muito rápido, mas muito claro. Ele até mesmo podia ouvir o

barulho da mudança de sinos, do jeito que o barulho de um apito de trem

soa quando ele está se movendo rápido demais. Foi como se algo dentro de

sua cabeça estivesse passando a toda velocidade. Ele ouviu um chocalho de

cascos em uma super ície dura. Madeira? Não, metal. Ele sentiu cheio de

poeira, aridez e de trovões em seu nariz. Ao mesmo tempo a parte de trás

de seus olhos começou a formigar.

– Silêncio. – O hálito de Ted em sua orelha era seco como o cheio da poeira,

e de algum modo íntimo. Suas mãos estavam nas costas de Bobby,

apertando suas escápulas e o abraçando irmemente. – Nenhuma palavra.

Exceto. . beisebol. Sim, beisebol, se preferir!

Bobby pensou em Maury Wills ganhando campo, caminhando como líder,

contando três passos. . então quatro. . Wills curva-se até a cintura, as mãos pendentes, os pés levantados suavemente do chão, ele pode ir por

qualquer um dos caminhos, depende do que o arremessador izer. . e

quando o arremessador vai para a base, Wills sai correndo em uma

explosão de velocidade e poeira e. .

Desapareceu. Tudo desapareceu. Sem sinos tocando em sua cabeça, sem

sons de cascos, sem cheiro de poeira. Sem formigamento nos olhos. Aquele

formigamento realmente havia acontecido? Ou ele só inventou isso porque os olhos de Ted o estavam assustando?

– Bobby. – Ted disse, novamente diretamente na orelha de Bobby. O

movimento dos lábios de Ted contra sua pele o fez tremer. – Meu bom

Deus, o que estou fazendo?

Ele afastou Bobby, gentilmente, mas irmemente. Seu rosto parecia

assustado e um pouco pálido demais, mas seus olhos estavam normais de

novo, suas pupilas estavam irmes. Por um momento aquilo foi tudo o que

importou para Bobby. Ele se sentiu estranho, meio tonto da cabeça, como

se ele houvesse acordado de um sono pesado. Ao mesmo tempo o tempo

pareceu incrivelmente brilhante, cada linha e forma perfeitamente

definidas.

– Shazam. – Bobby disse, e riu nervosamente. – O que acabou de

acontecer?

– Nada que possa preocupá-lo. – Ted foi pegar seu cigarro e pareceu

surpreso de ver que ele tinha se transformado em apenas um pequeno

fragmento ardente. Ele o esmagou no cinzeiro com os nós dos dedos. – Eu

apaguei de novo, não foi?

– Sim, e que apagão. Eu iquei assustado. Eu achei que você estava tendo um ataque de epilepsia ou coisa assim. Seus olhos. .

– Não é epilepsia. – Ted disse. – E não é perigoso. Mas se acontecer de novo, é melhor que você não me toque.

– Por quê?

Ted acendeu um novo cigarro.

– Porque sim. Você vai me prometer?

– Está certo. O que é o Feixe?

Ted lhe deu um olhar penetrante.

– Eu falei do Feixe?

– Você disse “Todas as coisas servem ao Feixe”. Acho que foi isso.

– Talvez alguma hora eu te conte, mas não hoje. Hoje você vai para a praia,

não vai?

– Sim. – ele disse. – É melhor eu começar a me aprontar. Eu poderia

terminar de ler seu jornal quando voltar.

– Sim, ótimo. Uma boa idéia. Eu tenho algumas cartas para escrever.

Não, você não tem, só quer se livrar de mim antes que te pergunte algo que

você não quer responder.

Mas se era isso que Ted estava fazendo, estava tudo bem. Como Liz

Gar ield geralmente dizia, Bobby tinha seu próprio peixe para fritar. Ainda

assim, quando ele alcançou a porta do quarto de Ted, ele pensou no

pedaço de io vermelho preso à antena de TV e a lua crescente e a estrela

ao lado da amarelinha, e isso o fez se virar relutantemente.

– Ted, há algo. .

– Os homens maus, sim, eu sei. – Ted sorriu. – Por enquanto não se

preocupe com eles, Bobby. Por enquanto está tudo bem. Eles não estão se

movendo nesta direção, ou mesmo olhando para esta direção.

– Eles estão se movendo para o Oeste. – Bobby disse.

Ted olhou para ele através da cortina de fumaça de seu cigarro, seus olhos

azuis firmes.

– Sim. – ele disse. – E com sorte, eles ficarão por lá. Em Seattle estaria bem por mim. Divirta-se no litoral, Bobby.

– Mas eu vi. .

– Talvez você tenha visto apenas sombras. Neste caso, esta não é a hora de

falar.

Apenas lembre-se do que eu disse. . se eu apagar novamente, apenas ique

sentado e espere passar. Se eu for na sua direção, saia de perto. Se eu levantar, diga-me para sentar. Neste estado eu farei o que você dizer. É

como estar hipnotizado.

– Por que você. .

– Sem mais perguntas, Bobby. Por favor.

– Você está bem? Realmente bem?

– Como macaco numa bananeira. Agora vá. Aproveite seu dia.

Bobby desceu as escadas apressadamente, novamente espantado em como

as coisas pareciam de inidas: o brilho da luz penetrando a janela do chão do segundo andar, um inseto escalando o gargalo de uma garrafa de leite do lado de fora do apartamento da Sra. Prosky, um doce e alto zumbido em

seus ouvidos que era quase como a voz do dia, o primeiro Sábado das

férias de verão.

***

Ao voltar ao seu apartamento, Bobby pegou seus carrinhos e caminhões de

brinquedo de vários esconderijos abaixo de sua cama e atrás de seu

armário. Dois deles, um Matchbox Gord e um caminhão azul metálico que o

Sr. Biderman havia mandado por sua mãe para ele alguns dias depois de

seu aniversário, eram bem legais, mas ele não tinha nada que pudesse

rivalizar o tanque de gasolina, ou a escavadeira Tonka amarela de Sully. A

escavadeira era especialmente boa para se brincar na areia. Bobby estava

ansioso a pelo menos uma hora e via os prédios passando enquanto as

ondas se quebravam em algum lugar próximo e sua pele icava rósea na

luz do sol da costa.

Ocorreu a ele que ele não havia juntado seus caminhões assim desde o

inverno anterior, quando ele e S-J haviam passado uma feliz manhã pós-nevasca de Sábado fazendo estradas com a neve fresca no Parque Commonwealth. Ele estava velho agora, onze, quase velho demais para

coisas como esta. Havia algo de triste sobre essa idéia, mas ele não tinha que icar triste agora, não se não quisesse. Seus dias de caminhões de

brinquedo podiam estar se aproximando do im, mas esse im não seria

hoje. Não, não hoje.

Sua mãe lhe aprontou o almoço para viagem, mas ela não lhe daria

dinheiro quando ele pedisse, nem mesmo um níquel para os banheiros

públicos que icavam alinhados no lado do oceano da estrada. E quase

antes que Bobby percebesse o que estava acontecendo, eles estavam tendo

o que ele mais temia: uma discussão sobre dinheiro.

– Cinqüenta centavos devem dar. – Bobby disse. Ele ouviu a voz de bebê chorão em sua cabeça, a odiou, mas não pôde evitá-la. – Só meio mango.

Vamos, mãe, o que você diz? Seja legal.

Ela acendeu um Kool, atritando o fósforo com tanta força que fez um estalo,

e olhou para ele através da fumaça com seus olhos semicerrados.

– Você está ganhando seu próprio dinheiro agora, Bob. A maioria das

pessoas gasta três centavos pelo jornal e você é pago para lê-lo. Um dólar

por semana! Meu Deus! Quando eu era uma garotinha. .

– Mãe, esse é o dinheiro da minha bicicleta! Você sabe disso.

Ela se virou para o espelho, franzindo o cenho e inquietando-se com os

ombros de sua blusa, o Sr. Biderman havia pedido que ela fosse para lá por algumas horas, mesmo sendo Sábado. Ela se virou, o cigarro ainda

preso entre seus lábios, e dobrou sua carranca sobre ele.

– Você ainda me pede para comprar aquela bicicleta, não é? Ainda. Eu já te

disse que não posso pagar pelo que você me pede.

– Não, eu não estou. Não estou. – os olhos de Bobby estavam esbugalhados de raiva e mágoa. – Só um meio mango de nada. .

– Meio mango aqui, dois ali. . isso tudo acaba crescendo, você sabe. O que você quer de mim é que eu compre aquela bicicleta para você lhe dando o

dinheiro para pagar as outras coisas. Então você não tem que desistir de

nenhuma das outras coisas que você quer.

– Não é justo!

Ele sabia o que ela iria dizer antes mesmo de dizê-lo, até mesmo tempo de

pensar que havia caminhado na direção dessa.

– A vida não é justa, Bobby-O. – disse voltando-se para o espelho para arrancar um último fio solto abaixo do ombro direito de sua blusa.

– Um níquel para o banheiro? – Bobby perguntou. – Você não poderia ao

menos. .

– Sim, provavelmente, eu imagino. – ela disse, destacando cada palavra. Ela

normalmente colocava rouge nas bochechas antes de ir trabalhar, mas

nem todas as cores em seu rosto nessa manhã saíram de uma caixa de pó,

e Bobby, furioso como estava, sabia que era melhor ter cuidado. Se ele

perdesse a cabeça do jeito que ela era capaz de perder a dela, ele icaria aqui no apartamento quente o dia todo, proibido de dar um só passo no

corredor.

Sua mãe pegou a bolsa da mesa no im do sofá, amassou seu cigarro com

força o bastante para partir o filtro, então se virou e olhou para ele.

– Se eu dissesse para você, “Puxa, não podemos comer esta semana

porque eu vi um par de sapatos na Hunsicker que eu simplesmente tinha

que comprar”, o que você pensaria?

Eu pensaria que você é uma mentirosa, Bobby pensou . E eu diria que se você estivesse tão quebrada, mãe, o que é aquele catálogo da Sears em cima do armário?

Aquele com as notas de um dólar, e de cinco dólares, mesmo as de dez ou vinte, en iadas no meio das páginas de roupas íntimas? E quanto ao jarro azul no armário de pratos da cozinha, aquele escondido no canto atrás da molheira com uma rachadura nela, o jarro azul onde você põe sua pequena poupança de moedas, onde você as tem colocado desde que meu pai morreu?

E quando o jarro está cheio você pega as moedas e as leva para o banco para trocá-las por notas, e então as notas vão para o catálogo, não vão? As notas são colocadas nas páginas de roupas íntimas do seu livro de desejos.

Mas ele não disse nada disso, apenas olhou para baixo para seus tênis com os olhos em chamas.

– Eu tenho que fazer escolhas. – ela disse. – E se você está velho o su iciente para trabalhar, meu ilhinho, você tem que fazê-las também.

Você acha que eu gosto de te negar?

Não exatamente , Bobby pensou, olhando para seus tênis e mordendo o lábio, que queria se soltar e começar a soltar um monte de sons infantis.

Não exatamente, mas eu não acho que você se importa, tampouco.

– Se fossemos os Gotrocks, eu lhe daria cinco dólares para gastar na praia,

inferno, daria dez! Você não teria que pegar do seu pote da bicicleta se você quisesse levar sua namorada à montanha-russa. .

Ela não é minha namorada! Bobby gritou com sua mãe em sua cabeça. ELA

NÃO É MINHA NAMORADA!

– . .ou ao trenzinho. Mas é claro que se fossemos os Gotrocks você não precisaria poupar dinheiro para uma bicicleta em primeiro lugar,

precisaria? – sua voz aumentava cada vez mais. O que quer que a estivesse

perturbando pelos últimos meses, ameaçava explodir, espumando como

um refrigerante e destruidor como o ácido. – Eu não sei se você já

percebeu isso, mas seu pai não nos deixou exatamente bens de vida, e eu

estou fazendo o melhor que posso. Eu te alimento, eu te visto, eu te pago para ir ao Clube Sterling neste verão e jogar beisebol enquanto lido com papéis naquele escritório quente. Você foi convidado a ir para praia com as

outras crianças, estou muito feliz por você, mas como você trata de

assuntos financeiros em seu dia de folga é problema seu.

Se quiser andar nos brinquedos, leve algum do dinheiro que você tem no pote e ande neles. Se não quiser, apenas brinque na praia ou ique em

casa. Não faz diferença para mim. Eu só quero que você pare de

choramingar. Eu odeio quando você faz isso. É

igual. . – ela parou, suspirou, abriu a bolsa, tirou seus cigarros. – Eu odeio quando você faz isso. – ela repetiu.

É igual ao seu pai. Isso era o que não havia terminado de dizer.

– Então, como é, luz do sol? – ela perguntou – Terminou?

Bobby icou em silêncio, as bochechas em brasa, olhos em brasa, olhando

para baixo para seus tênis e se concentrando em não debulhar-se em

lágrimas. A este ponto, apenas um soluço engasgado poderia ser o bastante

para deixá-lo de castigo pelo dia; ela estava realmente furiosa, apenas

esperando uma razão para fazê-lo. E chorar não era o único perigo. Ele

queria gritar que ele preferia estar com seu pai a ela, uma velha magricela

e pão-dura como ela, que não prestava nem para dar um único níquel, e

daí se o falecido não-tão-legal Randall Gar ield não havia os deixado bens de vida? Por que ela sempre fazia soar como se fosse culpa dele? Quem havia casado com ele?

– Tem certeza, Bobby-O? Sem mais gracinhas? – o som mais perigoso de

todos havia penetrado na voz dela, um tipo de esperteza frágil. Soaria como

bom humor se você não a conhecesse.

Bobby olhou para seus tênis e não disse nada. Manteve todas as lágrimas e

todas as palavras furiosas trancadas em sua garganta e não disse nada. O

silêncio prolongou-se entre eles. Ele podia cheirar seu cigarro e todos os outros da noite passada antes desse, e todos aqueles fumados nas outras

noites enquanto ela não assistia a TV com atenção, esperando que o

telefone tocasse.

– Tudo bem, acho que nos entendemos. – ela disse depois de lhe dar

quinze segundos mais ou menos para abrir a boca e en iar seu grande pé lá dentro. – Tenha um bom dia, Bobby. – ela saiu sem beijá-lo.

Bobby foi abrir a janela (lágrimas escorregando por seu rosto agora, mas ele nem as notou), afastou as cortinas e a assistiu ir na direção do

Commonwealth, os saltos altos chocando-se contra o chão. Ele deu algumas

grandes e molhadas respiradas, e então foi para a cozinha. Ele olhou

através dela na direção do armário de copas, onde o jarro azul se escondia

atrás da molheira. Ele poderia pegar algum dinheiro dele, ela não

mantinha uma conta exata de quanto tinha lá e ela nunca sentiria falta de

três ou quatro moedas de vinte e cinco centavos, mas ele não faria isso.

Gastar o dinheiro não teria graça. Ele não tinha certeza de como sabia

disso, mas ele sabia; sabia desde os nove anos, quando havia descoberto o

jarro de moedas lá. Então, com sentimentos de arrependimento ao invés de

sentimentos de honradez, ele foi para seu quarto e olhou para o pote de Fundos da Bicicleta.

Ocorreu a ele que ela tinha razão, ele poderia pegar um pouco de seu

dinheiro e gastá-lo no Savin Rock. Pode levar um mês extra para acumular

o preço da Schwinn, mas ao menos gastar esse dinheiro o faria se sentir bem. E havia algo mais também. Se ele se recusasse a tirar dinheiro do pote, para fazer qualquer coisa a não ser guardá-lo e poupá-lo, ele seria como ela.

Isso decidiu o assunto. Bobby pegou cinqüenta centavos dos Fundos da

Bicicleta, e os colocou no bolso, e o tapou com um pano para evitar que as

moedas pulassem e caíssem em algum lugar, então terminou de pegar suas

coisas da praia. Não demorou e ele já estava assoviando, e Ted desceu as escadas para ver o que ele estava aprontando.

– Já está de saída, Capitão Garfield?

Bobby assentiu.

– O Savin Rock é um lugar muito legal. Brinquedos e coisas assim, sabe?

– Deveras eu sei. Divirta-se, Bobby, e não vá cair dos brinquedos.

Bobby começou a ir na direção da porta, então voltou-se para Ted, que

estava em pé no pé da escada de chinelos.

– Por que você não sai e se senta na varanda? – Bobby perguntou. –

Aposto que vai ficar quente na casa.

Ted sorriu.

– Talvez. Mas acho que vou ficar aqui dentro.

– Você está bem?

– Bem, Bobby. Estou bem.

Enquanto cruzava para o lado dos Gerbers da Broad Street, Bobby

percebeu que estava com pena de Ted, se escondendo em seu quarto

quente por nenhum motivo. E

tinha que ser por nenhum motivo, não tinha? Com certeza. Mesmo que houvesse homens maus lá fora, viajando por algum lugar ( pelo Oeste, ele pensou, eles se movem pelo Oeste), o que eles poderiam querer com um velho aposentando como Ted Brautigan?

***

No começo a briga com sua mãe havia lhe deprimido um pouco (a amiga

rechonchuda e bonita da Sra. Gerber, Rionda Hewson o acusou de “estar

com a cabeça nas nuvens”, o que quer que isso signi icasse, então começou

a lhe fazer cócegas nos lados e nos sovacos até que Bobby risse em defesa

própria), mas depois que passaram um tempo na praia, ele começou a se

sentir melhor, a se sentir mais ele mesmo.

Embora ainda fosse cedo na estação, o Savin Rock estava a toda

velocidade. . o carrossel girando, o Rato Selvagem rugindo, as criancinhas gritando, rock ‘n roll e metal saindo dos alto-falantes fora da casa de diversões, os camelôs berrando de suas barraquinhas. Sully-John não

conseguiu o ursinho que queria, acertando apenas duas das últimas três

garrafas de leite (Rionda disse que algumas delas tinham pesos especiais em seus fundos que as impediam de tombar a não ser que você as

acertasse em cheio), mas o cara na barraquinha lhe de um prêmio bem

legal de qualquer forma, um tamanduá amarelo com jeito de pateta. S-J

impulsivamente o deu para a mãe de Carol.

Anita riu e o abraçou e lhe disse que ele era a melhor criança do mundo, se

ele fosse quinze anos mais velho ela cometeria bigamia e casaria com ele.

Sully-John corou até ficar púrpura.

Bobby tentou a barraca das argolas, e errou todas as três jogadas. Na

Galeria de Tiros ele teve melhor sorte, quebrando dois pratos e ganhando

um pequeno ursinho de pelúcia, ele o deu para Ian-o-Cruel, que na

verdade estava sendo legal só para variar (não havia feito nenhuma birra,

nem molhado as calças, ou tentado socar Sully ou Bobby no saco). Ian

abraçou o ursinho e olhou para Bobby como se Bobby fosse Deus.

– É lindo e ele o adorou. – Anita disse. – Mas não quer levar para casa para

sua mãe?

– Não. . ela não gosta muito dessas coisas. Mas eu gostaria de ganhar para

ela um vidro de perfume.

Ele e Sully-John se desa iaram a entrar no Rato Selvagem, e inalmente

entraram juntos, berrando delirantemente a cada mergulho que o vagão

deles dava, simultaneamente sabendo que eles viveriam eternamente e

morreriam imediatamente.

Eles foram ao Bate-Bate e nas Xícaras Malucas. Com apenas quinze

centavos sobrando, Bobby entrou na roda gigante com Carol. O vagão deles

parando no topo, balançando suavemente, o fazendo se sentir engraçado

no estômago. À sua esquerda o Atlântico pisava na terra em uma série de ondas de cristas brancas. A praia estava tão branca, e o oceano era uma impossível sombra de azul profundo. A luz do sol o percorreu como sonda.

Abaixo deles estava o meio do parque. Saindo dos alto-falantes vinha o som

de Freddy Cannon: “ela veio de Tallahassee, e ela tem um grande chassi”.

– Tudo lá embaixo parece tão pequeno. – Carol disse. Sua voz era

estranhamente baixa.

– Não tenha medo, estamos totalmente seguros. A roda gigante vai ser um

passeio para bebês se não fosse tão alto.

Carol era de muitos jeitos a mais velha dos três, brigona e con iante de si mesma, como no dia em que ela havia feito S-J carregar os livros por

xingar, mas agora seu rosto quase tinha se tornado um rosto de bebê de novo: redondo, um pouco pálido, dominado por um par de olhos

alarmados. Sem pensar, Bobby se inclinou, pôs sua boca na da dela, e a beijou. Quando ele se afastou, os olhos delas estavam mais esbugalhados

do que nunca.

– Totalmente seguros. – ele disse, e sorriu.

– Faça de novo! – era o primeiro beijo de verdade dela, ela o havia

recebido no Savin Rock no primeiro Sábado das férias de verão, e ela não

estava prestando muita atenção. Era isso o que ela pensava, era por isso que ela queria que ele fizesse de novo.

– É melhor não. – Bobby disse. Apesar de que. . aqui em cima quem

poderia ver para chamá-lo de maricas?

– Eu te desafio, e não diga que você falou primeiro.

– Você vai contar?

– Não, juro por Deus. Vamos, depressa! Antes que desçamos!

Então ele a beijou de novo. Os lábios dela eram macios, e se fecharam, quentes como o sol. Então a roda começou a se mover e ele parou. Por um

momento Carol repousou sua cabeça contra o peito dele.

– Obrigada, Bobby. – ela disse. – Isso foi muito bom.

– Eu também achei.

Eles se afastaram um do outro um pouco, e quando o vagão deles parou e o

atendente tatuado levantou a trava de segurança, Bobby saiu e correu sem

olhar para trás na direção de S-J. Mas ele já sabia que beijar Carol no topo

da roda gigante seria a melhor parte do dia. Era seu primeiro beijo de verdade também, e Bobby nunca esqueceu a sensação dos lábios dela

pressionando os seus. . secos e macios e aquecidos pelo sol. Seria o beijo pelo qual todos os outros seriam comparados, e deixariam a desejar.

***

Por volta das três da tarde, a Sra. Gerber disse para eles começarem a

juntar as coisas; era hora de voltar para casa. Carol deu a ela o clássico

“Ah, mãe” e eles começaram a pegar as coisas. As amigas dela ajudaram;

até mesmo Ian ajudou um pouco (recusando até mesmo enquanto pegava

e se importou em largar o ursinho coberto de areia). Bobby meio que

esperava que Carol icasse perto dele pelo resto do dia, e ele tinha certeza

de que ela contaria a elas sobre o beijo na roda gigante (ele saberia que ela o havia feito quando as encontrasse e as visse dando risadinhas com as

mãos sobre suas bocas, olhando para ele, com seus divertidos olhos

espertos), mas ela não havia feito nenhuma dessas coisas. Muitas vezes ele

a lagrou olhando para ele, e muitas vezes ele se pegou dando umas

olhadelas nela. Ele continuava a se lembrar de seus olhos lá em cima. Como

estavam grandes e preocupados. E ele a havia beijado, simples assim.

Bingo.

Bobby e Sully carregaram a maioria das sacolas. “Bom Deus! Carambola!”

Rionda gritou, rindo, enquanto eles seguiam da praia até a calçada. Ela estava vermelha como camarão por baixo do hidratante que ela havia passado em todo o seu rosto e ombros, e ela se queixou para Anita Gerber

que ela não conseguiria pregar o olho naquela noite, se as queimaduras do

sol não a mantivessem acordada, a comida do parque a manteria.

– Ora, você não precisava ter comido quatro salsichões e duas rosquinhas.

–

disse a Sra. Gerber, soando mais irritada do que Bobby já a ouvira ficar, ela

estava cansada, ele percebeu. Ele se sentiu um pouco tonto pelo sol. Suas costas ardiam com as queimaduras e ele tinha areia dentro das meias. As sacolas de praia com as quais ele havia sido encarregado balançaram e

chocaram-se umas contra as outras.

– Mas as comidas dos parques de diversões são tão boooooas. – Rionda

protestou numa voz triste. Bobby riu.

Ele não pode evitar.

Eles andaram lentamente pelo caminho na direção do estacionamento de

terra, agora não prestando atenção nos brinquedos. Os donos das

barraquinhas olharam para eles, então desviaram o olhar atrás de sangue

fresco. Mais pessoas apareciam e tentar chegar ao estacionamento era, em

geral, uma causa perdida.

No im do caminho, à esquerda, estava um homem magricela usando

bermudas azuis, uma camisa de alças, e um chapéu-coco. O chapéu era

velho e desgastado, mas ereto em um ângulo devasso. Também havia uma

lor de girassol presa na aba. Ele era um cara engraçado, e as meninas

inalmente tiveram sua chance de colocarem as mãos na boca e darem

risadinhas.

Ele olhou para eles com o ar de um homem que já foi caçoado por

especialistas, e sorriu de volta. Isso se fez Carol e suas amigas rirem ainda mais. O homem de chapéu-coco, ainda sorrindo, espalhou as mãos sobre a

banca improvisada da qual ele estava atrás, uma tábua larga de madeira

em cima de dois brilhantes cavaletes alaranjados. Na mesinha improvisada

havia três cartas da marca Bicycle de versos vermelhos. Ele as virou com rápidos e graciosos gestos. Seus dedos eram longos e perfeitamente

brancos, Bobby viu, nem uma sombra de bronzeado neles.

A carta no meio era a rainha de copas. O homem de chapéu-coco a

levantou e a mostrou para eles, indo e vindo com destreza.

– Ache a dama de vermelho, cherchez la femme rouge , é só isso que é, e tudo que se tem a fazer. É fácil, fácil. Fácil como nadar, fácil como sonhar. –

ele disse para Yvonne Loving. – Venha aqui, boneca, e mostre como se faz.

Yvonne, ainda dando risadinhas e corando até as raízes de seus cabelos

negros, encolheu atrás de Rionda e murmurou que ela não tinha dinheiro

para jogos, que havia gasto tudo.

– Sem problema. – disse o homem de chapéu-coco. – É só uma

demonstração, boneca, eu quero que sua mãe e sua amiga linda vejam

como é fácil.

– Nenhuma delas é minha mãe. – Yvonne disse, mas foi até ele.

– É melhor nós irmos se quisermos evitar trânsito, Evvie. – disse a Sra.

Gerber.

– Não, espere um minuto, isto é divertido. – Rionda disse. – É um monte de

três cartas. Parece fácil, como ele diz, mas se não tiver cuidado, vai

começar a perder e voltar para casa sem nada.

O homem de chapéu-coco lhe deu um olhar reprovador, e então um sorriso

largo. Era o sorriso de um homem mau, Bobby pensou subitamente. Não

daqueles que Ted tinha medo, mas um homem mau do mesmo jeito.

– É óbvio para mim. . – disse o homem de chapéu-coco –. .que em algum

ponto de seu passado você foi vítima de um trapaceiro. Embora como

alguém possa ser tão cruel de passar para trás uma dama tão bonita e

classuda está além das minhas habilidades de compreensão.

A dama bonita e classuda, de cinqüenta e cinco anos mais ou menos,

noventa quilos mais ou menos, de ombros e rosto empapados de

hidratante, riu feliz.

– Falar bobagens e mostrar a uma criança como isso funciona. E você

realmente está querendo dizer que isto é legal?

O homem atrás da mesinha jogou a cabeça para trás e também riu.

– No im do caminho do estacionamento, tudo é legal até que te peguem e

te joguem para fora daqui. . como eu acho que você provavelmente sabe.

Agora. . como se chama, bonequinha?

– Yvonne. – ela disse em uma voz que Bobby mal ouviu. Ao seu lado, Sully-

John assistia a tudo com grande interesse. – Algumas vezes meus amigos

me chamam de Evvie.

– Certo, Evvie, olhe bem aqui, lindinha. O que você vê? Diga-me o nome delas, eu sei que você pode dizer, uma criança tão esperta como você, e aponte a certa quando eu disser. Não tenha medo tocá-las. Não há nada de

desonesto aqui.

– Este aqui na ponta é o valete. . este aqui na outra ponta é o rei. . e esta é a

rainha. Ela está no meio.

– É isso aí, bonequinha. Nas cartas, como na vida, é comum haver uma

mulher entre dois homens. Esse é o poder delas, e em cinco ou seis anos você vai descobrir por experiência própria. – sua voz caiu em um baixo e quase hipnótico canto. – Agora observe atentamente e nunca tire os olhos

das cartas. – ele as virou, mostrando seus versos. – Agora, bonequinha,

onde está a rainha?

Yvonne Loving apontou para o verso vermelho do meio.

– Será que ela acertou? – o homem de chapéu-coco perguntou ao pequeno

grupo reunido ao redor de sua mesinha.

– Até agora. – Rionda disse, e riu tão forte que sua barriga lácida dançou

sob seu vestido de verão.

Sorrindo para a mulher que ria, o homem mau no chapéu-coco virou um

canto da carta do meio, mostrando a rainha de copas.

– Cem por cento correta, meu docinho, até agora muito bom. Agora

veja! Observe bem! É uma corrida entre seu olho e minha mão! Quem

ganhará? Essa é a pergunta do dia!

Ele começou a embaralhar as três cartas rapidamente em cima da tábua,

rimando enquanto o fazia.

– Pra cima e pra baixo, por todo o lugar, será que eu acho, onde a carta estará?

Veja-as dançar, vamos, me conte, não pare de olhar, onde ela se esconde?

Enquanto Yvonne estudava as três cartas, que agora estavam mais uma

vez alinhadas lado a lado, Sully disse no ouvido de Bobby, “Você nem

precisa ver ele misturar as cartas. A rainha tem um dos cantos amassados.

Você vê?

Bobby assentiu, e pensou Boa garota quando Yvonne apontou

hesitantemente para a carta da esquerda, a carta com o canto amassado. O

homem de chapéu-coco a virou e revelou a rainha de copas.

– Bom trabalho! – ele disse. – Você tem um olho a iado, bonequinha, um olho afiado, de fato.

– Obrigada. – disse Yvonne, corando e parecendo quase tão feliz quanto

Carol quando Bobby a beijou.

– Se você apostar comigo dez centavos e ganhar, eu lhe darei vinte

centavos agora mesmo. – o homem de chapéu-coco disse. – Por que, você

pergunta? Porque é Sábado, eu chamo o Sábado de Dia do Dobro! Agora,

por acaso uma das senhoras gostaria de arriscar dez centavos em uma

corrida entre seus jovens olhos e minhas velhas mãos cansadas? Vocês

podem dizer aos seus maridos, senhores de sorte por tê-

las, eu diria, que o Sr. Herb McQuown, o Homem do Monte no Savin Rock, pagou pelo seu dia no estacionamento. Ou quem sabe vinte e cinco

centavos? Aponte onde está a rainha de copas e eu lhe darei de volta

cinqüenta.

– Meio mango, que legal! – Sully-John disse. – Eu tenho vinte e cinco

centavos, Senhor, e eu vou apostá-los.

– Johnny, isto é apostar dinheiro. – disse a mãe de Carol duvidosamente. –

Eu realmente não acho que eu deveria permitir. .

– Vamos, deixa o garoto aprender uma lição. – Rionda disse. – Além disso, o

rapaz é capaz de deixá-lo ganhar. Para nos atrair. – ela não fez esforço para abaixar a voz, mas o homem de chapéu-coco, Sr. McQuown, olhou

para ela e sorriu. Então voltou sua atenção para S-J.

– Deixe-me ver seu dinheiro, garoto, vamos, ponha-o aqui.

Sully-John passou os vinte e cinco centavos. McQuown o ergueu na direção

da luz do sol da tarde por um momento, com um olho fechado.

– É, parece uma boa moeda para mim. – ele disse, e a colocou na mesinha à

esquerda da ila de três cartas. Ele olhou em ambas as direções,

procurando tiras, talvez, então deu uma piscadela para a cínica e

sorridente Rionda antes de voltar sua atenção para Sully-John.

– Qual é o seu nome, amiguinho?

– John Sullivan.

McQuown abriu bem os olhos e mexeu seu chapéu para o outro lado da

cabeça, fazendo o girassol de plástico balançar e se inclinar comicamente.

– Um nome de respeito. Sabe ao que me refiro?

– Claro. Algum dia talvez eu seja um lutador também. – S-J disse. Ele socou

o ar à esquerda e à direita da mesa improvisada de McQuown. – Pou, pou!

– Pou pou, de fato. – disse McQuown. – E como estão seus olhos, Mestre Sullivan?

– Muito bons.

– Então os prepare, porque a corrida começou! Pode apostar que sim! Seus

olhos contra minhas mãos. – McQuown, então, fez novamente suas rimas.

As cartas, que desta vez haviam se movido bem mais rápido, foram

diminuindo de velocidade até pararem.

Sully começou a apontar, e então recuou a mão, franzinho os cenhos. Agora

havia duas cartas com os cantos amassados. Sully olhou para McQuown, cujos braços estavam cruzados em sua camisa desbotada. McQuown estava

sorrindo.

– Não se apresse, ilho. – ele disse. – Esta manhã passou rápida como um papaléguas, mas está sendo uma tarde lenta.

Homens que acham que chapéus com penas em suas abas são so isticados, Bobby se lembrou de Ted dizendo. O tipo de homens que defecariam em

uma viela, e passariam uma garrafa de licor em um saco de papel. No chapéu de McQuown havia uma lor de plástico engraçada ao invés de uma pena, e

não havia garrafas em evidência. . mas havia uma em seu bolso. Uma bem

pequena. Bobby tinha certeza disso.

E com o passar do dia, enquanto o negócio enfraquecia, e a coordenação de

seus olhos e mãos se tornava menos do que uma prioridade para ele,

McQuown iria, freqüentemente, tomar uns goles dela.

Sully apontou para a carta da direita. Não, S-J, Bobby pensou, e quando McQuown virou a carta, era o rei de espadas. McQuown virou a carta da

esquerda e mostrou o valete de paus. A rainha estava de volta ao meio.

– Desculpe, ilho, foi devagar desta vez, isso não é um crime. Quer tentar novamente agora que você já está aquecido?

– Puxa, eu. . esse foi meu último centavo. Sully-John estava cabisbaixo.

– Bem feito para você, garoto. – Rionda disse. – Ele poderia te tirar tudo e

te deixar só de cuecas aqui. – as meninas deram risinhos disso; S-J corou.

Rionda não percebeu nenhuma das duas coisas. – Eu trabalhei na Revere

Beach por uns tempos enquanto vivi em Massachussets. – ela disse. –

Deixe-me mostrar a vocês garotos como isso funciona. Quer apostar uma

prata, colega? Ou é muito doce para você?

– Em sua presença tudo seria doce. – McQuown disse sentimentalmente, e

arrebatou o dólar no momento em que ele saiu da bolsa dela. Ele o segurou

contra a luz, o examinou com seu olho calculista, então o colocou à

esquerda das cartas. – Parece bom. – ele disse. – Vamos jogar, querida.

Qual é o seu nome?

– Espertalhona. – Rionda disse. – Pergunte-me novamente e eu te direi a mesma coisa.

– Ri, você não acha. . – Anita Gerber começou.

– Eu já disse, estou a iada como uma faca. – Rionda disse. – Faça-as correr,

colega.

– Só se for agora. – McQuown concordou, e suas mãos colocaram as três

cartas de versos vermelhos em movimento (pra cima, e pra baixo, pra todo

o lado. .), inalmente as organizando em linha reta novamente. E desta vez,

Bobby observou impressionado, todas as três cartas tinham seus cantos

amassados.

O sorrisinho de Rionda sumira. Ela olhou da pequena ila de cartas para

McQuown, então para as cartas novamente, e então para a nota de um

dólar, repousando em um lado e flutuando levemente com a brisa marítima

que soprava. Finalmente ela olhou de volta para McQuown.

– Você me fez de otária, colega. – ela disse. – Não fez?

– Não. – McQuown disse. – Eu corri contra você. Agora. . o que me diz?

– Eu acho que deveria dizer que aquele foi um bom dólar que nunca deu problemas e eu sinto por vê-lo ir embora. – Rionda respondeu, e apontou para a carta do meio.

McQuown a virou, revelando o rei, e fez o dólar de Rionda desaparecer

para dentro de seu bolso. Desta vez a rainha estava na esquerda.

McQuown, um dólar e vinte cinco centavos mais rico, sorriu para o pessoal

de Harwich. A lor de plástico en iada na aba de seu chapéu balançou para

os lados no ar salgado.

– Quem é o próximo? – ele perguntou. – Quem quer apostar uma corrida

entre seu olho e minha mão?

– Acho que todos nós já corremos demais. – a Sra. Gerber disse. Ela deu ao

homem atrás da mesa um sorriso ino, e pôs uma mão no ombro de sua

filha e a outra em seu filho sonolento, os virando para outra direção.

– Sra. Gerber? – Bobby perguntou. Por um momento ele considerou como sua mãe, uma vez casada com um homem que nunca tivera uma interna

para seqüência que não gostasse, se sentiria se ela pudesse ver seu ilho ali parado em frente à mesinha improvisada do Sr. McQuown com aquele

cabelo à escovinha ruivo de Randy Gar ield re letidos ao sol. O pensamento

o fez sorrir um pouco. Bobby sabia o que era uma interna para seqüência

agora; flushes e full houses também. Ele havia feito perguntas. –

Posso tentar?

– Oh, Bobby, eu acho que já tivemos o bastante, não acha?

Bobby penetrou sua mão em seu bolso tapado com o lencinho e tirou seus

últimos três níqueis.

– Isso é tudo o que eu tenho. – ele disse, mostrando primeiro à Sra. Gerber

e então ao Sr. McQuown. – É o bastante?

– Filho. – McQuown disse. – Eu já joguei esse jogo por quantias

insignificantes e gostei.

A Sra. Gerber olhou para Rionda.

– Ah, diabos. – Rionda disse, e apertou a bochecha de Bobby. – É o preço de um corte de cabelo, pelo amor de Cristo. Deixe-o perder e então vamos

para casa.

– Está bem, Bobby. – a Sra. Gerber disse, e suspirou. – Se você insiste.

– Ponha estas moedinhas aqui, Bob, onde todos nós possamos vê-las. –

disse McQuown. – Elas parecem ser das boas, sim, parecem. Está pronto?

– Acho que sim.

– Então aqui vamos nós. Dois meninos e uma menina se escondem juntos.

Os meninos não valem nada. Ache a menina e dobre seu dinheiro.

Os dedos pálidos e espertos viraram as três cartas. McQuown começou seu

lengalenga e as cartas começaram a correr. Bobby as viu se mexer em

cima da mesinha, mas não fez qualquer esforço real para perseguir a

rainha. Não era necessário.

– Aqui vão elas, estão parando, todas belas, descansando. O teste começou!

– As três cartas de versos vermelhos estavam em ila novamente. – Diga-

me, Bobby, onde ela se esconde?

– Ali. – Bobby disse, e apontou para a carta da esquerda.

Sully resmungou.

– Era a do meio, seu boboca. Desta vez não tirei meus olhos dela.

McQuown não tomou notícia de Sully. Ele estava olhando para Bobby.

Bobby o olhou de volta. Depois de um momento McQuown se mexeu e

virou a carta apontada por Bobby. Era a rainha de copas.

– Mas que diabos? – Sully choramingou.

Carol bateu palmas, excitada, e começou a dar pulinhos. Rionda Hewson

guinchou e lhe deu um beijo no cangote.

– Você o ensinou uma lição dessa vez, Bobby! Muito bem!

McQuown deu a Bobby um peculiar e pensativo sorriso, então pôs a mão

no bolso e puxou o prêmio.

– Nada mau, ilho. Primeira vez que me bateram hoje. Que me ganharam,

quero dizer. – ele pegou vinte cinco centavos e um níquel e os colocou ao lado dos cinqüenta centavos de Bobby. – Gostaria de mantê-las girando? –

Ele viu que Bobby não entendeu. – Gostaria de jogar novamente?

– Posso? – Bobby perguntou a Anita Gerber.

– Não prefere sair enquanto está ganhando? – ela perguntou, mas seus

olhos brilhavam e ela parecia ter esquecido tudo sobre evitar o trânsito do

caminho para casa.

– Eu vou parar enquanto estou ganhando. – ele disse.

McQuown riu.

– Garoto durão! Não verá nenhum pêlo crescer em seu queixo por mais cinco anos, mas já é um garoto durão. Então Bobby Durão, o que acha?

Podemos jogar?

– Claro. – Bobby disse. Se Carol ou Sully-John o houvessem acusado de ser

durão, ele teria protestando veementemente, todos os seus heróis, de John

Wayne a Lucky Starr da Patrulha Espacial, eram pessoas modestas, do tipo

que diriam “ufa” depois de salvar o mundo ou um vagão de trem. Mas ele não sentiu necessidade de se defender contra o Sr. McQuown, que era um

homem mau em calças azuis, e talvez um trapaceiro das cartas também.

Ser durão era a última coisa na cabeça de Bobby. Ele não achava que isso

era como as internas para seqüências de seu pai. Internas para seqüências

eram apenas esperança e chutes, o “pôquer dos tolos”, de acordo com

Charlie Yearman, o zelador da escola primária de Harwich, que icou feliz em contar a Bobby tudo sobre o jogo que S-J e Denny Rivers não

conheciam. Mas não havia palpites neste aqui.

O Sr. McQuown olhou para ele um momento mais longo; a calma con iança

de Bobby pareceu o incomodar. Então ele levantou o braço, ajeitou a

posição de seu chapéu, estirou os braços e estalou os dedos do mesmo jeito

que Pernalonga fazia antes de tocar piano no Carnegie Hall em um dos

desenhos.

– Em sua marca, garoto durão. Eu estou lhe dando o negócio inteiro desta

vez, de cabo a rabo.

As cartas correram em uma espécie de ilme rosa. Detrás dele, Bobby

ouviu Sully-John murmurar um “Minha nossa!”. A amiga de Carol, Tina,

disse que estava

“rápido pra dedéu” em um maravilhado tom de empertigada

desaprovação. Bobby novamente viu as cartas se moverem, mas apenas

porque ele sentiu que era esperado que ele o izesse. O Sr. McQuown não

se preocupou em fazer qualquer rima ou tagarelice desta vez, o que meio

que o aliviou.

As cartas pararam. McQuown olhou para Bobby com suas sobrancelhas

levantadas. Havia um pequeno sorriso em sua boca, mas ele respirava

rápido e havia gotículas de suor acima de seu lábio superior.

Bobby apontou imediatamente para a carta da direita.

– É ela.

– Como sabe disso? – O Sr. McQuown perguntou, seu sorriso

desaparecendo. – Como diabos você sabe disso?

– Eu apenas sei. – Bobby disse.

Ao invés de virar a carta, McQuown virou a cabeça levemente e olhou para

o caminho do parque. O sorriso havia sido substituído por uma expressão

petulante: lábios comprimidos e uma ruga entre os olhos. Até mesmo o

girassol de plástico em seu chapéu parecia insatisfeito, seu balanço era

agora carrancudo ao invés de radiante.

– Ninguém me vence com esse movimento. – ele disse. – Ninguém nunca

me venceu com esse movimento.

Rionda passou por cima dos ombros de Bobby e virou a carta que ele havia

apontado. Era a rainha de copas. Desta vez todas as crianças bateram

palmas. O som fez a ruga entre os olhos do Sr. McQuown se aprofundarem

ainda mais.

– Parece que você deve ao velho Bobby Durão seus noventa centavos. –

Rionda disse. – Você vai pagar?

– E se eu não pagar? – o Sr. McQuown perguntou, virando sua carranca

para Rionda. O que você fará, rolha de poço? Chamar a polícia?

– Talvez fosse melhor irmos. – Anita Gerber disse, soando nervosa.

– Chamar a polícia? Eu não. – Rionda disse, ignorando Anita. Ela nunca

tirou seus olhos de McQuown. – Por causa de apenas noventa centavos

fora de seu bolso você começa a parecer o Baby Huey (N.T. – Baby Huey

era um personagem de desenho animado da Paramount. Era um pato gigante e amarelo que usava fraldas. ) com as fraldas cheias, por Deus.

Exceto que, Bobby sabia, não era por causa do dinheiro. O Sr. McQuown

havia perdido muito mais do que isso naquela ocasião. Algumas vezes ele

perdia por causa da velocidade; algumas vezes era por causa da sorte. Mas

o que deixava furioso é que desta vez havia sido o movimento. McQuown não gostava que crianças vencessem seu movimento.

– O que eu farei. – Rionda continuou. – É dizer a todos no caminho do parque que querem saber se você é um trapaceiro. Noventa-Centavos

McQuown, será como eu te chamarei. Acha que isso ajudará nos negócios?

– Sou eu quem gostaria de fazer um negócio com você. – McQuown rosnou,

mas colocou a mão no bolso, tirou mais dinheiro, e rapidamente contou os

ganhos de Bobby. – Aqui está. – ele disse. – Noventa centavos. Agora vá comprar um Martini.

– Eu apenas chutei, sabe. – Bobby disse enquanto pegava as moedas e as depositava em seu bolso, onde penderam pesadamente. A discussão com

sua mãe naquela manhã agora parecia extraordinariamente estúpida. Ele

agora voltaria para casa com mais dinheiro do que tinha quando saíra, e isso não quis dizer nada. Nada. – Eu chuto bem.

O Sr. McQuown relaxou. Ele não teria machucado nenhum deles, de

qualquer modo. Ele poderia ser um homem mau, mas não do tipo que

machucava as pessoas; ele nunca submeteria aquela mão de longos dedos

espertos à indignidade de um punho.

Mas Bobby não queria deixá-lo infeliz. Ele queria que o Sr. McQuown

achasse que tinha perdido por causa daquilo que ele chamava de “sorte”.

– É. – McQuown. – Você chuta bem sim. Quer tentar uma terceira vez,

Bobby: A riqueza o espera.

– Nós realmente temos que ir. – A Sra. Gerber disse rapidamente.

– Se eu tentasse novamente, eu perderia. – Bobby disse. – Obrigado,

Sr. McQuown. Foi um bom jogo.

– Claro que foi. . Agora se manda, garoto. – O Sr. McQuown agora parecia exatamente como todas as outras pessoas em suas barraquinhas, olhando

para a fila ao longe. Procurando por sangue fresco.

***

Indo para casa, Carol e suas amigas continuavam a olhar para ele, impressionadas; Sully-John também o fazia, com uma espécie de respeito

enigmático.

Isso fez Bobby sentir-se incomodado. A certo ponto, Rionda se virou para ele e lhe falou de bem perto.

– Não foi apenas um chute. – ela disse.

Bobby olhou para ela cautelosamente, sem falar nada.

– Foi um palpite.

– O que é um palpite?

– Meu pai não era um homem de apostar muito, mas desde sempre ele

teve umas sensações sobre números. Ele chamava isso de palpite. Então

ele apostava. Uma vez ganhou cinqüenta dólares. Fez uma feira que durou

um mês. Foi isso que você teve, não foi?

–Acho que sim. – Bobby disse. – Talvez eu tenha tido um palpite.

***

Quando chegou em casa, sua mãe estava sentada na varanda com suas

pernas cruzadas. Ela havia colocado suas calças de Sábado e olhava para

rua indiferente. Ela deu adeus à mãe de Carol rapidamente enquanto elas

se afastavam de carro; observou Anita virar em sua própria rua, e Bobby cruzava a calçada. Ele sabia o que sua mãe estava pensando: que o marido

da Sra. Gerber estava na Marinha, mas ao menos ela tinha um marido.

Anita Gerger também tinha um Estate Wagon. Liz tinha que pegar um

ônibus, ou um táxi se precisasse ir a Bridgeport.

Mas Bobby não achou que ela ainda estava com raiva dele, e isso era bom.

– Se divertiu no parque, Bobby?

– Muito. – ele disse, e pensou: O que foi, mãe? Não se importa com o que eu

fiz na praia? O que está realmente passando em sua cabeça? Mas ele não disse nada.

– Ótimo. Ouça, querido. . Desculpe-me pela discussão de hoje. É que eu odeio ir trabalhar aos Sábados. – Este último veio quase em um cuspe.

– Está tudo bem, mãe.

Ela tocou sua bochecha e balançou a cabeça.

– Você e essa sua pele frágil! Você nunca vai pegar um bronzeado, Bobby-

O. Não você. Entre e eu vou por um pouco de óleo de bebê nestas

queimaduras.

Ele a seguiu até o interior, tirou a camisa, e icou na frente dela enquanto ela sentava no sofá e passava a fragrância de óleo de bebê em suas costas,

braços e pescoço, e até mesmo em suas bochechas. A sensação era boa, e ele pensou novamente como ele a amava, como ele amava ser tocado por

ela. Ele imaginou o que ela pensaria se soubesse que ele havia beijado

Carol na roda gigante. Ela iria sorrir: Bobby achou que não. E se ela

descobrisse sobre McQuown e as cartas. .

– Eu não vi seu amigo do outro andar. – ela disse, colocando a tampa de volta no frasco do óleo de bebê. – Eu sei que ele está lá em cima porque consigo ouvir o jogo dos Yankees no rádio dele, mas não acha que ele sairia

para a varanda onde está mais fresco?

– Acho que ele não está com vontade. – Bobby disse. – Mamãe, você está bem?

Ela olhou para ele, assustada.

– Estou bem, Bobby. – ela sorriu, e Bobby sorriu de volta. Ele teve que se esforçar, porque não achou que sua mãe estava tão bem assim. Na

verdade ele tinha certeza de que ela não estava.

Ele acabara de ter um palpite.

***

Naquela noite Bobby deitou de bruços com os pés estirados nos cantos da

cama, os olhos abertos, olhando para o teto. Sua janela estava aberta

também, as cortinas lutuando para frente e para trás em um sopro da

brisa, e de alguma outra janela aberta veio o som dos The Platters: “Here,

in the afterglow of Day, We keep our rendezvous, beneath the blue .”

(N.T. – Letra da música “Twilight Time”, cuja primeira linha dá nome

à última história do livro. )

Mais longe ainda ele ouviu o barulho da turbina de um avião, e uma buzina

de carro.

O pai de Rionda chamava a coisa de palpite, e uma vez que ele atingisse a

marca diária de cinqüenta dólares, Bobby concordaria com ela. Um palpite,

com certeza, eu tive um palpite. Mas ele não pôde escolher um número de loteria que salvasse sua alma.

A coisa era que. .

A coisa era que o Sr. McQuown sabia onde a rainha parava em todas as vezes,

e eu também.

Uma vez que Bobby percebeu isso, outras coisas se encaixaram. Coisas

óbvias, de fato, mas ele estava se divertindo, e. . bem. . você não

questionava as coisas que sabia, não é? Você pode questionar um palpite, uma sensação que veio a você do nada, mas que você não questionou por

quê.

Exceto que, como ele sabia que sua mãe estava guardando dinheiro entre

as páginas de peças íntimas do catálogo da Sears em cima do armário dela?

Como ele sequer sabia que o catálogo estava lá em cima? Ela nunca lhe

contou. Ela nunca havia contado sobre a molheira azul onde ela colocava as

moedas, mas é claro que ele sabia disso há anos, ele não era cego embora ela às vezes pensasse isso. Mas e o catálogo? As moedas saiam e eram