Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 38 de 59

Páginas do PDF

Corações na Atlântida

Capítulo 27

 

minhas bochechas.

96 lágrimas, querida; chore, chore, chore.

Eu entrei no carro onde havia perdido a virgindade na noite anterior, e abri o envelope. Havia um único papel dentro. A brevidade é a alma do

talento, de acordo com Shakespeare. Se for verdade, então a carta de Carol

era talentosa como o inferno.

Querido Pete,

Acho que é obrigação nossa deixar que a última noite seja nosso adeus; como outro poderia ser melhor? Talvez eu te escreva na faculdade, talvez não, agora eu estou tão confusa que apenas não sei (ei, talvez até eu mude de idéia e volte!). Mas por favor, de nós dois, deixe que eu seja aquela que entre em contato, certo? Você disse que me amava. Se você me ama, então deixe que seja eu quem entre em contato. Eu irei, eu prometo.

P.S. A noite passada foi a coisa mais doce que já me aconteceu. Se isso melhora com o tempo, não consigo imaginar como as pessoas conseguem agüentar.

P.P.S. Pare de jogar aquele jogo de cartas idiota.

Ela disse que foi a coisa mais doce que já aconteceu a ela, mas ela não colocou

“com amor” no im da carta, apenas sua assinatura. Ainda assim. . se isso melhora com o tempo, não consigo imaginar como as pessoas conseguem agüentar. Eu sabia o que ela queria dizer. Eu estendi a mão e toquei o lado do assento onde ela estivera. Onde ambos estivéramos.

Ligue o rádio, Pete, eu gosto das músicas clássicas.

Eu olhei para meu relógio. Eu sai do dormitório cedo (obra daquela

premonição meio consciente, talvez) e acabara de dar três horas. Eu

facilmente poderia chegar a estação antes que ela fosse para Connecticut. .

mas eu não iria fazer isso. Ela estava certa, nós demos um adeus brilhante

em meu velho Station Wagon; qualquer coisa a mais estragaria tudo. O lado bom era que ambos estaríamos andando pelo mesmo terreno; o lado ruim

é que havíamos jogado lama em tudo na noite passada com um argumento.

Nós queremos informação.

Sim. E nós conseguidos. Deus sabia que sim.

Eu fechei a carta, a coloquei no bolso traseiro de meu jeans, e dirigi para casa, em Gates Falls. No começo meus olhos ainda icavam borrados, e eu

tinha que secá-los.

Então eu ligue o rádio e a música melhorou um pouco as coisas. A música sempre faz isso. Eu já tenho mais de cinqüenta agora, e a música ainda melhora as coisas; é um fato automático.

27

Eu cheguei em Gates Falls por volta das cinco e meia, parei no Frank’s, e então continuei. Nesta hora eu queria chegar em casa mais do que tomar

uma gelada e fofocar com Frank Parmeleau. O jeito de minha mãe dar boas

vindas era dizer que eu estava magro demais, meu cabelo longo demais, e

que eu não havia chegado nem perto de uma lâmina. Então ela se sentou

em sua cadeira de balanço, e derramou algumas lágrimas pelo retorno de

seu ilho pródigo. Meu pai me deu um beijo na bochecha, me abraçou com

um braço, e foi abrir a geladeira para pegar um copo do chá vermelho de

mamãe, sua cabeça saindo de seu pescoço em seu velho suéter marrom,

como a cabeça de uma tartaruga curiosa.

Nós, mamãe e eu, pensávamos que ele ainda tinha vinte por cento de sua visão, talvez um pouco mais. Era di ícil dizer, porque ele raramente falava

sobre isso. Foi um acidente em seu trabalho que fez isso com ele, uma

horrível queda de dois andares. Ele tinha cicatrizes no lado esquerdo do rosto e no pescoço; havia um pedaço de crânio saliente no lugar onde o cabelo nunca mais cresceu. O acidente havia escurecido a maior parte de

sua visão, e fez alguma coisa com sua cabeça também. Mas ele não virou um lelé da cuca, como eu ouvi um cuzão na Barbearia do Gendron dizer

uma vez, e ele também não era mudo, como algumas pessoas pareciam

pensar. Ele icou em coma por dezenove anos. Depois que ele acordou, ele

se tornou silencioso, isso é verdade, e constantemente sua mente icava confusa, mas algumas vezes ele ainda estava lá, totalmente presente. Ele

estava lá o su iciente quando eu voltei para casa para me dar um beijo e um forte abraço de um braço só, seu jeito de abraçar de sempre. Eu amei

muito o meu velho. . e depois de um semestre jogando cartas com Ronnie

Malenfant, eu aprendi que falar é uma habilidade superestimada.

Eu sentei com eles por um tempo, contando a eles algumas histórias de

faculdade (embora não sobre caçar A Puta), então sai. Eu remexi as folhas

caídas no crepúsculo, o vento gelado em minhas bochechas parecia uma

bênção, acenei para os vizinhos, e comi três hambúrgueres de minha mãe

no jantar. Depois, ela me disse que iria para a igreja, onde o grupo de mulheres estava preparando a comida para o Dia de Ação de Graças. Ela

não achou que eu iria querer passar minha primeira noite com um bando

de velhas galinhas, mas eu era bem-vindo para aparecer no galinheiro se

quisesse. Eu agradeci e disse que preferia ligar para Annmarie.

– Por que será que isso não me surpreende? – ela disse, e saiu. Eu ouvi o

carro ligar, e então, sem muita felicidade, me arrestei até o telefone e liguei

para Annmarie Soucie. Uma hora depois ela chegou na picape de seu pai,

sorrindo, seus cabelos caindo nos ombros, a boca radiante com batom. O

sorriso não durou muito, como eu acho que você pode imaginar por si só, e

quinze minutos depois de ela entrar, Annmarie saiu de minha casa e para

fora de minha vida. Mantenha contato, gata, te vejo por aí. Por volta da época de Woodstock, ela se casou com um agente de seguros de Lewiston e

se tornou Annmarie Jaulbert. Eles tiveram três ilhos, e ainda estão

casados. Eu acho que isso é bom, não é? Mesmo se não for, você tem que admitir que isso é Americano pra caralho.

Eu iquei de pé na frente da janela sobre a pia da cozinha, vendo as luzes

traseiras da picape do Sr. Soucie desaparecer na estrada. Eu sentia vergonha de mim mesmo, Cristo, o jeito que os olhos dela se esbugalharam,

o jeito que seu sorriso murchou e começou a tremer, mas eu também me

sentia feliz, nojentamente aliviado; leve o bastante para dançar pelas

paredes e pelo teto, como Fred Astaire.

Ouvi passos atrás de mim. Eu me virei para ver meu pai, fazendo sua lenta caminhada a passo de tartaruga pelo linóleo com seus chinelos. Ele andou

com uma mão estendida a sua frente. A pele dela estava começando a

parecer uma grande luva frouxa.

– Será que eu acabei de ouvir uma jovem dama chamar um jovem

cavalheiro de escroto de merda? – ele perguntou em uma voz calma do

tipo que se ouve quando uma pessoa comenta o clima.

– Bem. . é. – eu trancei os pés. – Acho que talvez tenha.

Ele abriu a geladeira, tateou e pegou uma jarra de chá vermelho. Ele o bebeu sem açúcar. Eu já bebi assim uma vez, e posso lhe dizer que quase

não tem gosto.

Minha teoria é que meu pai sempre procurava pelo chá vermelho porque

era a coisa mais brilhante na geladeira, e meu pai sempre sabia onde

estava.

– A menina Soucie, não é?

– Sim, papai. Annmarie.

– Todos os Soucie têm temperamento ruim, Pete. Ela bateu a porta, não foi?

Eu estava sorrindo, não pude evitar. Era incrível que o vidro ainda

estivesse firme naquela pobre e velha porta.

– Acho que bateu.

– Você a trocou por um modelo mais novo na faculdade, não foi?

Esta era uma questão bem complicada. A resposta simples, e talvez a mais verdadeira, no fim, era que não. Essa foi a resposta que eu dei.