Corações na Atlântida
Homens Maus em Casacos Amarelos
s anos sessenta, a rebeldia de uns e o medo de outros. Uma geração
m
arcada pela guerra do Vietnã, que o mestre do suspense americano
c ompartimenta em cinco diferentes histórias passadas entre 1960 e
1 999. Cinco momentos que ligam num mesmo e inquietante olhar o
passado e o presente de uma geração.
Sem Destino
1960: Eles tinham uma vara com ambas as pontas afiadas.
HOMENS MAUS EM CASACOS
AMARELOS
1
Um Menino e Sua Mãe. O Aniversário de Bobby.
O Novo Inquilino. Sobre Tempo e Estranhos.
O pai de Bobby Gar ield foi uma destas pessoas que começam a perder
cabelo na época dos vinte anos, e icam completamente carecas aos
quarenta e cinco, mais ou menos. Randall Gar ield foi poupado deste
extremo por morrer de um ataque do coração aos trinta e seis. Ele era um
corretor de imóveis, e deu seu último suspiro na cozinha da casa de
alguma pessoa qualquer. O comprador em potencial estava na sala de
estar, tentando chamar uma ambulância por um telefone desconectado,
quando o pai de Bobby faleceu. Na época Bobby tinha três anos. Ele tinha
vagas memórias de um homem fazendo cócegas nele e então beijando suas
bochechas e sua testa. Ele tinha total certeza de que aquele homem fora seu pai. SUA FALTA SERÁ SENTIDA , era o que estava escrito na lápide de Randall Gar ield, mas sua mãe nunca pareceu muito triste, e quanto ao
próprio Bobby. . ora, como você pode sentir falta de um cara de quem você
mal se recorda?
Oito anos após a morte de seu pai, Bobby se apaixonou violentamente pela
Schwinn de sessenta e seis centímetros, ao vê-la na vitrine da Harwich
Western Auto.
Ele deu dicas à mãe sobre a Schwinn de todos os modos que sabia, e
inalmente apontou para ela certa noite enquanto voltavam pra casa
depois do cinema (o ilme havia sido Sombras no Fim da Escada, que Bobby
não entendeu muito bem, mas gostou assim mesmo, especialmente na parte onde Dorothy McGuire caía pesadamente em uma cadeira e exibia
suas longas pernas). Enquanto passaram pela loja de materiais de
construção, Bobby mencionou casualmente que a bicicleta na vitrine com
certeza seria um belo presente de aniversário de onze anos para alguma
criança sortuda.
– Nem pense nisso. – ela disse. – Eu não posso pagar por uma bicicleta para o seu aniversário. Seu pai não nos deixou exatamente bens de vida, entende.
Embora Randall estivesse morto desde que Truman fora presidente e
agora Eisenhower estava quase terminando seu mandato de oito anos, “seu
pai não nos deixou exatamente bens de vida” era a resposta mais comum de sua mãe para qualquer coisa que Bobby sugerisse implicar num custo
maior do que um dólar. Geralmente o comentário vinha acompanhado de
um olhar reprovador, como se o homem houvesse fugido ao invés de ter
morrido.
Nada de bicicletas no seu aniversário. Bobby ponderou sobre isso, mal-
humorado, enquanto voltavam para casa, o prazer do estranho, confuso
ilme que haviam visto havia quase desaparecido. Ele não discutiu com sua
mãe, ou tentou persuadí-la (isso resultaria num contra-ataque, e quando
Liz Gar ield contra-atacava, ela não levava prisioneiros), mas ele meditou sobre a bicicleta. . e o pai perdido. Algumas vezes ele quase odiava seu pai.
Algumas vezes tudo o que o impedia de fazê-lo era o senso, inexato, mas muito forte, de que sua mãe queria que ele o odiasse. Enquanto
alcançavam o Parque Commonwealth, e caminhavam pela sua lateral (dois
blocos acima eles virariam à esquerda, entrando na Broad Street, onde
moravam), ele foi contra suas dúvidas usuais e fez uma pergunta sobre
Randall Garfield.
– Ele não deixou nada, mãe? Nada mesmo?
Uma ou duas semanas antes, ele havia lido um romance de mistério de
Nancy Drew onde a herança de algumas crianças pobres havia sido
escondida atrás de um velho relógio em uma mansão abandonada. Bobby
não achava realmente que seu pai havia deixado moedas de ouro ou selos
raros escondidos em algum lugar, mas se houvesse algo, talvez eles
pudessem vender esse algo em Bridgeport. Possivelmente em uma das lojas de penhores. Bobby não sabia exatamente como funcionava esse
negócio de empenhar, mas ele sabia como eram as lojas (elas tinham três sininhos dourados pendurados na frente). E ele tinha certeza de que os
atendentes da loja de penhores icariam felizes em ajudá-los. É claro que isso era apenas um sonho de criança, mas Carol Gerber, que morava na
rua acima, tinha uma coleção inteira de bonecas que seu pai, que estava na
Marinha, havia lhe mandado de onde estava. Se pais davam coisas, o que de fato faziam, era de se pensar que pais, às vezes, deixavam coisas.
Quando Bobby fez a pergunta, eles estavam passando por um dos postes
que corriam por aquele lado do Parque Commonwealth, e Bobby viu a
boca de sua mãe mudar como sempre fazia quando ele se aventurava em
fazer uma pergunta sobre seu falecido pai. A mudança o fez pensar em
uma bolsa que ela tinha: quando você puxava o zíper, o buraco no topo
aumentava.
– Eu vou lhe dizer o que ele deixou. – ela disse, enquanto começavam a subir a Broad Street Hill. Bobby já desejava não ter feito a pergunta, mas é
claro que era tarde demais agora. Uma vez que você a fazia começar, você
não podia pará-la, isso era um fato. – Ele deixou uma apólice de seguro de
vida que prescreveu no ano anterior de sua morte. Pouco eu sabia que
assim que ele morresse, todos, incluindo o agente funerário, iriam querer sua parte naquilo que eu não tinha. Ele também deixou uma grande pilha
de contas para pagar, de que eu já cuidei. As pessoas têm sido muito
compreensivas sobre minha situação, o Sr. Biderman em particular, e eu
nunca direi que eles nunca foram.
Tudo isso era coisa velha, tão entediante quanto amarga, mas então ela
disse a Bobby uma coisa nova.
– Seu pai. . – ela disse, enquanto se aproximavam do apartamento, que
ficava na metade da subida da Broad Street Hill. – Nunca teve uma interna
para seqüência (Variedade de mão no jogo de pôquer. N.T.) que não escolhesse.
– O que é uma interna para seqüência, mãe?
– Deixe pra lá. Mas eu te direi uma coisa, Bobby-O: nunca me deixe pegá-lo
jogando cartas por dinheiro. Eu já tive o bastante disso por uma vida
inteira.
Bobby queria perguntar mais, mas sabia que era melhor não fazê-lo; mais
perguntas eram aptas a provocar um grande discurso. Ocorreu a ele que
talvez o ilme, que falava sobre maridos e esposas infelizes, a havia
chateado de algum modo que ele, como uma mera criança, não entendia.
Ele perguntaria a seu amigo John Sullivan sobre as internas para
seqüência na escola, Segunda-Feira. Bobby pensou que era culpa do
pôquer, mas não tinha certeza absoluta.
– Há lugares em Bridgeport que tomam o dinheiro dos homens. – ela disse,
enquanto chegavam perto do apartamento onde viviam. – Homens tolos
vão para lá.
Homens tolos fazem bagunças, e normalmente são as mulheres do mundo
que têm que limpá-las mais tarde. Ora. .
Bobby sabia o que vinha a seguir; era a reclamação favorita de todos os tempos de sua mãe.
– A vida não é justa. – disse Liz Gar ield enquanto tirava a chave e se preparava para abrir a porta do número 149 da Broad Street na cidade de
Harwich, Connecticut.
Era Abril de 1960, a noite exalou o perfume da Primavera, e parado ao seu
lado estava um menino magricela com cabelos de escovinha ruivos de seu
falecido pai. Ela di icilmente já havia tocado em seu cabelo; nas raras
ocasiões em que ela o afagava, era normalmente seu braço ou sua
bochecha que ela tocava.
– A vida não é justa. – ela repetiu. Ela abriu a porta e eles entraram.
***
Era verdade que sua mãe não havia sido tratada como uma princesa, e
certamente era terrível que a vida de seu marido houvesse se extinguido
em um chão de linóleo em uma casa vazia na idade dos trinta e seis, mas Bobby às vezes pensava que as coisas poderiam ter sido piores. Poderia
haver dois ilhos ao invés de apenas um, por exemplo. Ou três. Inferno, até
mesmo quatro.
Ou suponha que ela tivesse de trabalhar em um trabalho di ícil para sustentar os dois. A mãe de Sully trabalha na padaria Tip-Top, no centro da
cidade, e durante as semanas em que ela teve que acender as fornalhas,
Sully-John e seus dois irmãos mais velhos di icilmente a viram. Bobby
também observou as mulheres que saiam da Inigualável Companhia de Sapatos quando o apito das três horas era soprado (ele mesmo havia saído
da escola às duas e meia), mulheres que pareciam magras demais ou
gordas demais, mulheres de rostos pálidos e dedos manchados com uma
coloração terrível de sangue velho, mulheres de olhares abatidos que
carregavam seus sapatos e calças de trabalho em sacos de compras da
Mercearia Total. No Outono anterior ele havia visto homens e mulheres
catando maçãs fora da cidade quando ele havia ido a uma feira de igreja com a Sra. Gerber e Carol e o pequeno Ian (a quem Carol chamava de Iano-cruel). Quando ele perguntou à Sra. Gerber sobre elas, ela disse que
eram migrantes, exatamente como alguns tipos de aves (sempre em
movimento, colhendo o que quer que já estivesse maduro). A mãe de
Bobby poderia ser uma dessas pessoas, mas não era.
O que ela fazia, era ser a secretária do Sr. Donald Biderman no Escritório de Corretagem Home Town, a companhia em que o pai de Bobby
trabalhava quando teve seu ataque do coração. Bobby achou que ela havia
conquistado o emprego porque Donald Biderman gostava de Randall e
sentiu pena dela (viúva com um ilho que mal havia saído das fraldas), mas
ela era boa nisso e trabalhava duro. Constantemente ela trabalhava até
tarde. Bobby esteve com sua mãe e o Sr. Biderman em algumas poucas
ocasiões (o piquenique da companhia era uma delas que ele lembrava
mais claramente), mas também houve a vez em que o Sr. Biderman os
levou até o dentista em Bridgeport quando Bobby quebrou um dente
durante uma brincadeira de recreio (e os dois adultos tinham um jeito de
se olharem). Às vezes o Sr. Biderman ligava para ela de noite, e durante estas conversas ela o chamava de Don. Mas “Don” era velho e Bobby não
pensava muito nele.
Bobby não tinha tanta certeza do que sua mãe fazia durante seus dias (e noites) no escritório, mas ele apostava que era melhor do que fazer sapatos ou catar maçãs, ou acender as fornalhas da padaria Tip-Top às
quatro e meia da manhã. Bobby apostava que era melhor pra caramba.
Também, quando se tratava da sua mãe, se você perguntasse sobre certas
coisas você estaria pedindo por problemas. Se você perguntasse, por
exemplo, como ela tinha condições para pagar por três novos vestidos da Sears, um deles de seda, mas não por três prestações de $11.50 em uma
Schwinn na vitrine da Western Auto (era vermelha e prata, e só de olhá-la,
as tripas de Bobby deram cãibras de cobiça). Pergunte coisas desse tipo e
você estará pedindo por problemas sérios.
Bobby não o fez. Ele apenas começou a batalhar para ter o dinheiro para comprá-la ele mesmo. Demoraria até o Outono, talvez até mesmo até o
Inverno, e este modelo em particular poderia desaparecer da vitrine da
Western Autos até lá, mas ele continuaria. Você teria que trabalhar duro para conseguir suas recompensas. A vida não era fácil, e a vida não era justa.
***
Quando o décimo primeiro aniversário de Bobby chegou na última Terça-
Feira de Abril, sua mãe lhe deu um pequeno e chato pacote enrolado em
papel prateado.
Dentro havia um cartão da biblioteca laranja. Um cartão de biblioteca para
adultos .
Adeus Nancy Drew, Hardy Boys, e Don Winslow da Marinha. Olá para todo
o resto, histórias com paixões tão confusas quanto Sombras no Fim da Escada. Sem mencionar adagas sangrentas em quartos de torre. (Havia mistérios e quartos de torre nas histórias sobre Nancy Drew e os The
Hardy Boys, mas pouco sangue e nenhuma paixão).
– Apenas se lembre que a Sra. Kelton na mesa é uma amiga minha. – disse
a mãe. Ela falou em seu acostumado tom seco de advertência, mas ela
estava feliz por seu prazer – ela podia vê-lo. – Se você tentar pegar emprestado qualquer coisa picante como A Cadeira do Diabo ou Em Cada Coração um Pecado, eu vou descobrir.
Bobby sorriu. Ele sabia que ela descobriria.
– Se quem estiver lá for a outra, Srta. Busybody, e ela perguntar o que você
está fazendo com um cartão laranja, diga para que ela o vire. Eu coloquei uma permissão escrita sobre minha assinatura.
– Obrigado, mãe. Isto é tão legal.
Ela deu um sorriso torto, e lhe deu um beijo seco na bochecha, que sumiu
quase antes de ter estado lá.
– Fico feliz por você ter icado feliz. Se eu chegar em casa mais cedo vamos
até o Colony comer uns mariscos fritos e sorvete. Vai ter que esperar o im
de semana por seu bolo; eu não tenho tempo de cozinhá-lo até lá. Agora ponha seu casaco e vá andando, filhote. Você vai se atrasar para escola.
Eles desceram as escadas e saíram para a varanda juntos. Havia um táxi
da cidade no meio- io. Um homem de jaqueta popeline se debruçava na
janela do passageiro, pagando o motorista.
Atrás dele havia um aglomerado de bagagem e sacolas de papel, as do tipo
que possuem alças.
– Este deve ser o homem que alugou o quarto do terceiro andar. – disse Liz. Sua boca fez aquele truque de se encolher, novamente. Ela icou no
degrau mais alto da varanda avaliando estreitamente o jeito engraçado do
homem, que se atirou na direção deles assim que terminou seu assunto
com o motorista do táxi. – Eu não con io em pessoas que se mudam usando
uma sacola de papel. Para mim os pertences de alguém dentro de uma
sacola de papel é algo obsceno.
– Ele tem malas também. – Bobby disse, mas ele não precisou que sua mãe
apontasse que as três pequenas malas do novo inquilino não eram lá
grande coisa.
Nenhuma combinava. Todas pareciam ter sido chutadas daqui até a
Califórnia por alguém de mau humor.
Bobby e sua mãe desceram o caminho de cimento. O táxi da cidade
arrancou. O homem de jaqueta de popeline se virou. Para Bobby, as
pessoas eram divididas em três principais categorias: crianças, adultos, e pessoas idosas. Pessoas idosas eram adultos com os cabelos grisalhos. O
novo inquilino era do terceiro tipo. Sua face era magra e tinha um
semblante cansado, não era exageradamente enrugada (exceto ao redor
de seus olhos azuis desbotados), mas tinha algumas linhas profundas. Seu
cabelo branco era liso como o de um bebê e recuava de uma sobrancelha
pintada de manchas do sol. Ele era alto e icou parado de uma maneira que fez Bobby pensar em Boris Karloff nos ilmes do Cinema Shock que eram
exibidos nas noites de Sextas-Feira às onze e meia no WPIX. Sob a jaqueta
de popeline havia roupas de trabalhador baratas que pareciam grandes
demais para ele. Em seus pés, sapatos de cordovão arranhados.
– Olá, pessoal. – ele disse, e sorriu com empenho. – Meu nome é Theodore
Brautigan. Eu creio que vou morar aqui por uns tempos.
Ele estendeu a mão para a mãe de Bobby, que a tocou brevemente.
– Sou Elizabeth Gar ield. Este é meu ilho, Robert. Você terá que nos
perdoar, Sr. Brattigan. .
– É Brautigan, madame, mas eu icaria feliz se a senhora e seu menino me
chamassem apenas de Ted.
– Sim, muito bem, Robert está atrasado para a escola e eu para o meu
trabalho.
Foi bom conhecê-lo, Sr. Brattigan. Apresse-se, Bobby. Tempus fugit. (N.T. –
Expressão em latim que significa “o tempo voa”. )
Ela começou a descer a rua na direção da cidade; Bobby começou a subir
(e em ritmo lento) na direção da Escola Primária de Harwich, na Avenida Asher. Dados três ou quatro passos em sua jornada ele parou e olhou para
trás. Ele sentiu que sua mãe havia sido rude com o Sr. Brautigan, que ela havia agido como uma arrogante. Ser arrogante era a pior das fraquezas
em seu pequeno círculo de amigos. Carol detestava pessoas arrogantes;
assim como Sully-John. O Sr. Brautigan provavelmente já estaria na metade
da varanda, mas se não estivesse, Bobby queria lhe dar um sorriso para
que ele soubesse que ao menos um membro da família Gar ield não era
arrogante.
Sua mãe também havia parado e também olhava para trás. Não porque ela
quisesse dar outra olhada no Sr. Brautigan; essa idéia nunca cruzou a
mente de Bobby.
Não, era para seu ilho que ela olhava. Ela sabia que ele iria se virar antes
que o próprio Bobby soubesse disso, e sobre isso ele sentiu um súbito
escurecimento em sua natureza normalmente brilhante. Ela uma vez disse que nevaria em Sarasota antes que Bobby pudesse fazê-la de boba, e ele
supôs que ela tivesse razão nisso. O quão velho você precisava ser para fazer sua mãe de boba, de qualquer forma? Vinte? Trinta? Ou talvez você tivesse que esperar que ela envelhecesse e icasse um pouco caduca da cabeça.
O Sr. Brautigan não havia começado a andar. Ele icou parado no im da
calçada com uma mala em cada mão e a terceira sob seu braço direito (ele
havia movido as três sacolas de papel para o gramado do número 149 da
Broad), mais curvado do que nunca sob este peso. Ele estava bem no meio
deles, como um pedágio ou coisa assim.
Os olhos de Liz Gar ield voaram dos dele para os do seu ilho. Vá, eles diziam.
Não diga uma palavra. Ele é novo aqui, um homem de qualquer ou nenhum lugar, e ele chegou com metade de suas coisas dentro de uma sacola de compras. Não diga uma palavra, Bobby, apenas vá.
Mas ele não iria. Talvez porque ele havia recebido um cartão da biblioteca
ao invés de uma bicicleta em seu aniversário.
– Foi um prazer conhecê-lo, Sr. Brautigan. – disse Bobby. – Espero que
goste daqui. Adeus.
– Tenha um bom dia na escola, ilho. – disse o Sr. Brautigan. – Aprenda muito. Sua mãe está certa. . tempus fugit.
Bobby olhou para sua mãe para ver se sua pequena rebelião poderia ter
sido perdoada à luz desta igualmente pequena adulação, mas a boca da
mãe estava seca. Ela virou-se e começou a descer a ladeira sem dizer outra
palavra. Bobby seguiu seu próprio caminho, feliz por ter falado com o
estranho mesmo que sua mãe mais tarde o fizesse se arrepender disso.
Enquanto se aproximou da casa de Carol Gerber, ele sacou seu cartão
laranja da biblioteca e olhou para ele. Não era uma Schwinn de sessenta e
seis centímetros, mas ainda assim era bem legal. Muito legal, para dizer a verdade. Um mundo inteiro de livros para explorar, e daí se tivesse
custado apenas dois ou três mangos. Não diziam que o que importava era a
intenção?
Bem. . era o que sua mãe dizia, de qualquer forma.
Ele virou o cartão. Escrito na traseira em sua caligra ia forte estava esta mensagem: “A quem interessar: este é o cartão da biblioteca de meu ilho. Ele
tem minha permissão para levar três livros por semana da seção de adultos da Biblioteca Pública de Harwich”. Estava assinado Elizabeth Penrose Garfield.
Abaixo de seu nome, como um P.S., ela havia adicionado isto: Robert será o
responsável por suas próprias multas atrasadas.
– Aniversariante! – Carol Gerber gritou, o assustando, e correu de trás de
uma árvore onde estivera deitada esperando. Ela jogou seus braços ao redor de seu pescoço e o beijou forte na bochecha. Bobby corou, olhando em volta para ver se alguém estava vendo (Deus, já era di ícil o bastante ser amigo de uma garota sem beijos surpresas), mas estava tudo bem. A
usual multidão matinal de estudantes movia-se na direção da escola ao
longo da Avenida Asher no topo da ladeira, mas aqui embaixo eles estavam
sozinhos.
Bobby esfregou a bochecha.
– Ora, vamos, você gostou. – ela disse, rindo.
– Não gostei. – disse Bobby, apesar de ter gostado.
– O que ganhou de aniversário?
– Um cartão da biblioteca. – Bobby disse, e a mostrou. – Um cartão de biblioteca para adultos.
– Legal! – teria sido compaixão que ele havia visto em seus olhos?
Provavelmente não. E daí se fosse? – Aqui. Para você. – ela lhe entregou um envelope marcado com seu nome na frente. Ela também havia posto
alguns coraçõezinhos e alguns ursinhos de pelúcia.
Bobby abriu o envelope com suave trepidação, lembrando-se de que
poderia esconder o cartão no bolso traseiro se fosse algo exageradamente sentimental.
Não era. Talvez um pouco criança demais (um menino de chapéu de caubói
montado em um cavalinho, FELIZ ANIVERSÁRIO, VAQUEIRO em letras que
deveriam parecer feitas de madeira por dentro), mas não sentimental
demais. Com amor, Carol era um pouco sentimental, mas é claro que ela era uma garota, o que se poderia fazer?
– Valeu.
– É um cartão para bebês, eu sei, mas os outros eram piores ainda. – Carol
disse por uma questão de fato. Um pouco mais acima na ladeira Sully-John
estava esperando por eles, batendo fortemente em sua Bo-lo Bouncer
(N.T. – raquete com uma bolinha amarrada em um cordão. ), fazendo manobras embaixo de seu braço direito, embaixo do esquerdo, atrás das
costas. Ele não mais tentava fazê-lo entre as pernas; ele tentou uma vez no
pátio da escola e acertou suas próprias bolas em cheio.
Sully gritou. Bobby e algumas outras crianças riram até chorar. Carol e três
de suas amigas correram para perguntar o que estava errado, e os
meninos disseram que nada estava errado. Sully-John disse a mesma coisa,
embora estivesse pálido e a ponto de chorar. Meninos são esquisitos, Carol
havia dito na ocasião, mas Bobby não acreditava que ela realmente achava
isso. Se achasse não teria pulado em cima dele e lhe dado um beijo, e havia
sido um bom beijo, um beijocão. Melhor do que o que sua mãe havia lhe dado.
– Não é um cartão de bebê. – ele disse.
– Não, mas quase é. – ela disse. – Eu pensei em te dar um cartão de adulto, mas cara, eles são tão arrogantes.
– Eu sei. – Bobby disse.
– Você vai ser um adulto arrogante, Bobby?
– Espero que não. – ele disse. – E você?
– Não. Eu vou ser como a amiga da minha mãe, a Rionda.
– Rionda é bem gorda. – Bobby disse, incerto.
– É, mas ela é legal. Eu quero ser a parte legal, não a gorda.
– Tem um cara novo se mudando para o nosso prédio. O quarto no terceiro
andar. Minha mãe diz que é realmente quente lá em cima.
– É? Como ele é? – ela deu risadinhas. – Ele é um bobo arrogante?
– Ele é velho. – Bobby disse, então parou para pensar. – Mas ele tinha uma
cara interessante. Minha mãe não gostou dele logo de cara porque ele
tinha trazido algumas de suas coisas dentro de sacolas de compras.
Sully-John se juntou a eles.
– Feliz aniversário, seu bastardo. – ele disse, e deu um tapinha nas costas
de Bobby. Bastardo era atualmente a palavra favorita de Sully-John; a de Carol era legal; Bobby atualmente não conseguia se decidir, embora achasse que puto certamente era uma boa.
– Se ficar xingando, eu não ando com você. – Carol disse.
– Está bem. – disse John companheiramente. Carol era uma loirinha fofa
que parecia uma das gêmeas Bobbsey (N.T. – personagens de uma série
de livros infantis. ) depois de crescida; John Sullivan era alto, cabelos negros, e olhos verdes. Um menino do tipo Joe Hardy. Bobby Gar ield
andava entre eles, sua depressão momentânea esquecida. Era seu
aniversário e ele estava com seus amigos e a vida era boa. Ele colocou o cartão de aniversário de Carol no bolso traseiro e o cartão da biblioteca no
fundo do bolso dianteiro, de onde não poderia cair ou ser roubado. Carol começou a pular. Sully-John a disse para parar.
– Por quê? – Carol perguntou. – Eu gosto de pular.
– Eu gosto de dizer bastardo, mas não digo se você me pede. – Sully-John respondeu com razão.
Carol olhou para Bobby.
– Pular, ao menos sem uma corda, é coisa de bebê, Carol. – disse Bobby,
desculpando-se, então encolheu os ombros. – Mas você pode se quiser. Não nos importamos, não é S-J?
– Não. – Sully-John disse, e começou a brincar com o Bo-lo Bouncer
novamente. Pra frente, pra trás, paf, paf, paf.
Carol não pulou. Ela andou entre eles e ingiu que era a namorada de
Bobby Gar ield, que Bobby tinha carteira de motorista e um Buick e que
eles iam para Bridgeport para ver o show WKBW de Rock ‘n Roll e
Extravaganza. Ela achou que Bobby era extremamente legal. A coisa mais
legal sobre ele era que ele não sabia disso.
***
Bobby saiu da escola às três da tarde. Ele poderia ter chegado mais cedo, mas catar garrafas para reciclagem era parte de sua campanha “Ganhe-uma-bicicleta-com-recompensas”, e ele desviou-se para a área coberta de
mato pouco depois da Avenida Asher procurando por elas. Ele achou três
Rhenigolds e uma Nehi. Não era muito, mas ora bolas, oito centavos eram oito centavos. Tudo vai aumentando, era outro dos ditados de sua mãe.
Bobby lavou as mãos (duas das garrafas estavam imundas), pegou um
lanche da geladeira, leu algumas revistinhas antigas do Super-Homem, pegou mais um lanche da geladeira, e então assistiu American Bandstand.
Ele ligou para Carol para contar que Bobby Darin iria aparecer (ela achava
que Bobby Darin era profundamente legal.
Especialmente quando ele estalava os dedos enquanto cantava “Queen of
the Hop”), mas ela já sabia disso. Ela estava assistindo com três ou quatro
de suas amigas cabeças de vento; elas davam risinhos sem parar do outro
lado. O som fez Bobby pensar em passarinhos em uma loja de animais. Na
TV, Dick Clark estava mostrando quantas acnes poderiam sumir usando
apenas um Stri-Dex.
Mamãe ligou às quatro horas. O Sr. Biderman precisava que ela
trabalhasse até mais tarde, ela disse. Ela sentia muito, mas a sopa de
aniversário no Colony teria que ser cancelada. Havia sobras de carne
moída na geladeira; ele poderia comer isso e ela estaria em casa às oito horas para fazer guloseimas. E, pelos céus, Bobby, lembre-se de desligar o
registro do gás quando terminar de usar o fogão.
Bobby voltou para a televisão sentindo-se desapontado, mas não realmente surpreso. Em Bandstand, Dick estava agora anunciando o painel do “Que
Nota Você Dá”. Bobby achou que o cara do meio poderia usar um
suprimento de Stri-Dex pra vida toda.
Ele pôs a mão dentro do bolso dianteiro, e tirou o novo cartão da biblioteca
laranja. Seu humor começou a icar bom de novo. Ele não precisava icar sentado aqui na frente da TV com uma pilha de velhas histórias em
quadrinhos se não quisesse. Ele poderia descer até a biblioteca e usar seu
novo cartão, seu novo cartão de adulto. A Srta.
Busybody estaria na mesa, só que seu nome de verdade era Srta.
Harrington, e Bobby achava que ela era linda. Ela usava perfume. Ele
sempre podia senti-lo em sua pele ou em seu cabelo, como uma boa
lembrança. E embora Sully-John estivesse em sua aula de trombone neste
instante, depois da biblioteca Bobby poderia ir até sua casa, e talvez
jogassem mico-preto.
Também, ele pensou, eu posso levar essas garrafas para a loja do Spicer, eu tenho uma bicicleta para ganhar neste verão:
De uma vez só, a vida pareceu completa.
***
A mãe de Sully convidou Bobby para ficar para o jantar, mas ele “disse não,
obrigado, é melhor eu ir pra casa”. De longe ele teria preferido a carne assada e as batatas-fritas crocantes da Sra. Sullivan ao que o esperava em
casa, mas ele sabia que uma das primeiras coisas que sua mãe faria
quando ela voltasse do escritório era checar a geladeira para ver se a
tigela Tupperware com as sobras da carne moída havia desaparecido. Se
não houvesse, ela perguntaria o que Bobby havia comido no jantar. Ela
estaria calma nesta questão, até mesmo espontânea. Se ele contasse que
havia jantado na casa de Sully-John ela assentiria, perguntaria o que eles prepararam e se tiveram sobremesa, e se ele havia agradecido à Sra.
Sullivan também; ela poderia até sentar no sofá com ele e dividir uma bola
de sorvete enquanto assistiriam o seriado de faroeste Sugarfoot na TV.
Tudo icaria bem. . exceto que não seria assim. Eventualmente haveria o
troco. Talvez não viesse em um dia ou dois, mesmo uma semana, mas ele viria. Bobby sabia disso sem quase saber que sabia. Ela sem dúvidas teve
que trabalhar até tarde, mas comer sobras de carne moída em seu aniversário também era uma punição por falar com o novo inquilino
quando ele não deveria fazê-lo. Se ele tentasse evitar tal punição,
aumentaria igual ao dinheiro numa conta poupança.
Quando Bobby voltou da casa de Sully-John, já havia passado vinte e cinco
minutos das seis horas e estava icando escuro. Ele tinha dois novos livros
para ler, um de Perry Mason chamado O Caso das Garras de Veludo , e uma
novela de icçãocientí ica de Clifford Simak intitulada O Anel ao Redor do Sol. Todos pareceram puta legais, e a Srta. Harrington não havia pegado no pé dele, a inal de contas. Ao contrário: ela disse que ele estava lendo livros
acima de seu nível, e para continuar a subí-lo.
Ao vir caminhando de volta da casa de S-J, Bobby inventou uma história
onde ele e a Srta. Harrington estavam em um cruzeiro que afundava. Eles
eram os únicos dois sobreviventes, salvos de se afogar ao achar um salva-
vidas com a marca SS
LUSITANIC. Eles nadaram até uma ilhota com palmeiras e selvas e um vulcão, e enquanto icavam deitados na praia, a Srta. Harrington tremia e dizia que estava com frio, com tanto frio, será que ele não poderia abraçá-
la e aquecê-la, o que ele, é claro, poderia e o fez, o prazer é meu, Srta.
Harrington, e então os nativos saiam da selva e no começo pareceriam
amigáveis, mas no im das contas eles seriam canibais que viviam na
encosta do vulcão e matavam suas vítimas em uma clareira cercada de
caveiras, então as coisas pareciam ruins, mas logo quando ele e a Srta.
Harrington estavam prestes a serem tragados pela bandeja fumegante do
vulcão, que começava a ribombar, e. .
– Olá, Robert.
Bobby olhou para cima, mais assustado do que havia icado quando Carol Gerber correra de trás da árvore para tascar um beijocão em sua
bochecha. Era o novo homem da casa. Ele estava sentado na varanda e
fumava um cigarro. Ele havia trocado seus velhos sapatos arranhados por
um par de velhos chinelos arranhados e havia tirado sua jaqueta de
popeline – a noite estava quente. Ele parecia à vontade, Bobby pensou.
– Oh, Sr. Brautigan. Olá.
– Eu não quis assustá-lo.
- Você não. .
- Eu acho que assustei sim. Você estava à milhas de distância. E é Ted. Por
favor.
– Tudo bem. – mas Bobby não sabia se poderia se acostumar com o Ted.
Chamar um adulto (especialmente um velho adulto) pelo seu primeiro
nome ia não só contra os ensinamentos de sua mãe como também sua
própria tendência.
– A escola foi boa? Aprendeu coisas novas?
– Sim, foi legal. – Bobby mudava de um pé para o outro; passava seus
novos livros de uma mão para outra.
– Poderia sentar comigo um minuto?
– Claro, mas não posso me demorar. Tenho coisas a fazer, sabe. Tenho que
fazer o jantar – as sobras de carne moídas agora pareciam bem atraentes
em sua cabeça.
– Absolutamente. Coisas para fazer e tempus fugit.
Enquanto Bobby se sentava próximo ao Sr. Brautigan (Ted) no degrau
comprido da varanda, cheirando o aroma de seu Chester ield, ele pensou
que nunca havia visto um homem que parecia tão cansado como este. Não poderia ser a mudança, poderia? O quão esgotado você poderia icar
quando tudo o que você trazia era três pequenas malas e três sacolas de compras? Bobby supôs que poderia haver homens que viriam mais tarde
com coisas em caminhões, mas ele realmente achava que não. Era só um
quarto (um grande, mas ainda só um quarto simples com uma cozinha de
um lado e tudo mais do outro). Ele e Sully-John haviam subido lá e
bisbilhotado depois que a velha Srta.
Sidley havia sofrido seu derrame e fora viver com sua filha.
– Tempus fugit signi ica “o tempo voa”. – Bobby disse. – Mamãe diz muito
isso.
Ela também diz que o tempo e a maré não esperam por ninguém, e que o
tempo cura todas as feridas.
– Sua mãe é uma mulher de muitos ditados, não é?
– É. – disse Bobby, e de repente a idéia de todos aqueles ditados o fez icar
cansado – Muitos ditados.
– Ben Johnson chamou o tempo de “velho careca trapaceiro”. – disse Ted
Brautigan, enquanto tragava profundamente seu cigarro e então exalando
rastros gêmeos através de seu nariz. – E Boris Pasternak disse que somos
escravos do tempo, reféns da eternidade.
Bobby o itou fascinado, seu estômago vazio estava momentaneamente
esquecido. Ele adorou a idéia do tempo como um velho careca trapaceiro
(estava absoluta e completamente certo, embora não pudesse explicar o
porquê. . e por acaso aquela incapacidade de responder o porquê não fazia
a coisa ser mais legal ainda?). Era como uma coisa dentro de um ovo, ou uma sombra atrás de um vidro estilhaçado.
– Quem é Ben Johnson?
– Um inglês, morto há muitos anos. – Sr. Brautigan disse. – Egocêntrico e tolo quando o assunto era dinheiro; dado à flatulência também. Mas. .
– O que é isso? Flatulência?
Ted pôs a língua entre os lábios e fez um breve, mas muito realístico, som
de um peido. Bobby cobriu a boca com as mãos e riu entre seus dedos
entrelaçados.
– Crianças acham que peidos são engraçados. – Ted Brautigan disse
assentindo com a cabeça. – É. Para um homem de minha idade, eles são
apenas parte do estranho negócio crescente da vida. Ben Johnson disse
várias coisas boas e sábias no intervalo de seus peidos, à propósito. Não tantas quanto o Dr. Johnson, (este seria Samuel Johnson) mas ainda assim
muitas boas.
– E Boris. .
– Pasternak. Um russo. – disse o Sr. Brautigan desaprovadoramente. – Não
era importante, eu acho. Posso ver seus livros?
Bobby os passou para o Sr. Brautigan ( Ted, ele se lembrou, você deveria chamá-lo de Ted) devolveu o de Perry Mason apressadamente na
oportunidade. A novela de Clifford Simak ele segurou por mais tempo, no
começo dando um olhar furtivo para a capa através dos anéis de fumaça
de seu cigarro que subiam até seus olhos, então o folheando. Ele assentia enquanto o fazia.
– Eu já li esse. – ele disse. – Eu tive muito tempo para ler antes de vir para
cá.
– Mesmo? – Bobby estava entusiasmado. – E é bom?
– Um dos seus melhores. – Sr. Brautigan, Ted, respondeu. Ele olhou de relance para Bobby, um olho aberto, o outro ainda fechado por conta da
fumaça. Isso lhe deu um semblante sábio e misterioso, como um
personagem não exatamente con iável em um ilme de detetive. – Mas tem certeza de que poder ler isto? Você não pode ter mais do que doze anos.
– Eu tenho onze. – Bobby disse. Ele estava radiante porque Ted achou que
ele poderia ser velho a ponto de ter doze. – Faço onze hoje. Eu posso lê-lo.
Eu não vou entendê-lo totalmente, mas se for uma boa história, eu vou
gostar dele.
– Seu aniversário! – Ted disse, parecendo impressionado. Ele deu um
último trago em seu cigarro, e então o jogou fora. O cigarro chocou-se
contra o cimento e faíscas voaram. – Feliz aniversário, querido Robert,
parabéns para você!
– Valeu. É só que eu gosto mais de Bobby.
– Bobby, então. Você vai sair para celebrar?
– Não, minha mãe tem que trabalhar até tarde.
– Gostaria de subir ao meu quartinho? Eu não tenho muito, mas eu sei
como abrir uma lata. Eu também acho que tenho alguns doces. .
– Valeu, mas mamãe me deixou algo pra comer. Eu deveria comer isso.
– Eu entendo. – E por incrível que pareça, ele de fato parecia entender. Ted
devolveu a cópia de O Anel ao Redor do Sol de Bobby. – Neste livro. . – ele disse. – O Sr. Simak postula a idéia de que há um número de mundos como
o nosso. Não outros planetas, mas outras Terras, Terras paralelas , em um tipo de anel ao redor do sol. Uma idéia fascinante.
– É. – Bobby disse. Ele sabia sobre mundos paralelos de outros livros. Das
revistinhas também.
Ted Brautigan agora o fitava pensativamente, de um jeito especulativo.
– Que foi? – Bobby perguntou, de repente se sentindo constrangido. Está vendo alguma coisa verde? Sua mãe teria perguntado.
Por um momento ele achou que Ted iria responder (ele pareceu ter
entrado em algum profundo e confuso trem de pensamento). Então ele deu a si mesmo uma sacudidela e sentou-se ereto.
– Não é nada. – ele disse. – Eu tenho uma pequena idéia. Talvez você
quisesse ganhar um dinheiro extra. Não que eu tenha muito, mas. .
– Sim! Pode apostar que sim! – Tem uma bicicleta, ele quase falou, então parou.
Em boca calada não entra mosca era outro dos ditados de sua mãe. – Eu faria qualquer coisa que o senhor quisesse!
Ted Brautigan pareceu simultaneamente alarmado e maravilhado. Isso
pareceu abrir a porta para um rosto diferente, de algum modo, e Bobby
podia ver isso, sim, o velho cara já havia sido um jovem cara. Talvez do tipo
insolente.
– Isso é uma coisa ruim para se dizer a um estranho. – ele disse. – E
embora nós tenhamos progredido para Bobby e Ted, um bom começo,
ainda somos estranhos um para o outro.
– Algum desses caras, Johnson, disse alguma coisa sobre estranhos?
– Não que eu me lembre, mas aqui vai algo tirado da Bíblia: “Pois sou contigo como um estranho. Sou como um viajante. Poupa-me, ajuda-me a
recuperar forças, antes que venha a morte. .” – Ted distanciou-se por um momento. A diversão havia sumido de seu rosto e ele pareceu velho de
novo. Então sua voz se irmou e ele terminou. – “. .antes que venha a morte
e eu deixe de existir.” Livro dos Salmos. Não consigo me lembrar qual é.
– Bem. . – disse Bobby. – . .eu não mataria ou roubaria ninguém, não se preocupe, mas eu com certeza gostaria de ganhar algum dinheiro.
– Deixe-me pensar, – Ted disse. – Deixe-me pensar um pouco.
– Claro. Mas se você tiver tarefas ou coisas assim, eu sou o cara para se falar.
Posso te dizer isso agora mesmo.
– Tarefas? Talvez. Embora esta não seja a palavra que eu escolheria. – Ted
abraçou com seus braços ossudos os seus joelhos ainda mais ossudos e olhou ixamente para a grama da Broad Street. Estava escurecendo agora;
a parte favorita de Bobby da noite havia chegado. Os carros que passavam
estavam com as lanternas acesas, e em algum lugar na Avenida Asher, a
Sra. Sigsby chamava suas gêmeas para entrarem e comerem o jantar.
Nesta hora do dia, e de madrugada, enquanto ele estava no banheiro,
urinando na privada com o brilho do sol caindo através da janelinha direto
para seus olhos semicerrados, Bobby sentia-se como em um sonho dentro
da cabeça de outra pessoa.
– Onde você morava antes de vir para cá, senhor. . Ted?
– Um lugar que não era bom. – ele disse. – Nem um pouco perto de ser bom. Há quanto tempo você mora aqui, Bobby?
– Desde que me lembro. Desde que meu pai morreu, quando eu tinha três
anos.
– E você conhece todos na rua? Neste bloco da rua, em todo caso?
– A maioria, sim.
– Você reconheceria estranhos. Viajantes. Rostos desses desconhecidos.
Bobby sorriu e assentiu.
– Aham, acho que sim.
Ele esperou para ver aonde isso chegaria, era interessante, mas
aparentemente isso era o mais longe que a coisa iria. Ted levantou-se,
devagar e prudentemente. Bobby pôde ouvir seus pequenos ossos
estalarem em suas costas quando ele pôs suas mãos lá ao se esticar,
fazendo uma careta.
– Vamos. – disse ele. – Está icando frio. Eu vou entrar com você. Sua chave
ou a minha?
Bobby sorriu.
– É melhor começar a usar a sua própria, não acha?
Ted (estava icando mais fácil de imaginá-lo como Ted) puxou um chaveiro
do bolso. As únicas chaves nele eram a que abria a grande porta da frente
e a do seu quarto.
Ambas eram brilhantes e novas, a cor do ouro do bandido. As chaves de
Bobby estavam arranhadas e desbotadas. O quão velho era Ted? Ele se
perguntou novamente. Sessenta, pelo menos. Um homem de sessenta anos
com apenas duas chaves no bolso. Isso era esquisito.
Ted abriu a porta da frente e eles adentraram a grande e escura entrada
com a cestinha para colocar guarda-chuvas e sua velha pintura de Lewis e
Clark olhando através do Oeste Americano. Bobby foi para a porta do
apartamento dos Gar ield e Ted subiu as escadas. Ele parou lá por um
momento com a mão no corrimão.
– O livro de Simak é uma grande história. – ele disse. – Não é uma escrita
tão boa. Não é má, eu não quis dizer isso, mas confie em mim, há melhores.
Bobby esperou.
– Existem também livros cheios de grandes escritas que não tem histórias tão boas. Leia às vezes pela história, Bobby. Não seja como os esnobes
literários que não fariam isso. Leia às vezes pelas palavras, a linguagem.
Não seja como super-prudentes que não fariam isso. Mas quando você achar um livro que tenha tanto boa escrita como boa história, guarde-o
como um tesouro.
– Você acha que existem muitos desses? – Bobby perguntou.
– Mais do que esnobes literários e super-prudentes pensam. Muito mais.
Talvez eu lhe dê um. Um presente de aniversário atrasado.
– Você não precisa fazer isso.
– Não, mas talvez eu vá. E tenha um feliz aniversário.
– Valeu. Ele tem sido ótimo. – Então Bobby entrou em seu apartamento,
aqueceu a carne moída (lembrando-se de desligar o registro de gás depois
que a comida começou a borbulhar, também se lembrando de pôr a
frigideira na pia para esfriar), e comeu o jantar sozinho, lendo O Anel ao Redor do Sol com a TV ligada de companhia.
Ele quase não ouviu Chet Huntley e David Brinkley tagarelando as notícias
da noite.
Ted estava certo sobre o livro; era formidável. As palavras pareceram
leves para ele também, embora ele achasse que não tinha tanta
experiência ainda.
Eu gostaria de escrever histórias assim , ele pensou enquanto inalmente fechava o livro e deitava no sofá para assistir Sugarfoot. Imagino se um dia
poderia fazer isso.
Talvez. Talvez sim. Alguém tinha que escrever histórias, a inal de contas, exatamente como alguém tinha que consertar os canos quando eles
congelavam ou mudar as luzes dos postes do Parque Commonwealth
quando eles queimavam.
Mais ou menos uma hora depois, depois que Bobby pegou O Anel ao Redor
do Sol e começou a ler de novo, sua mãe chegou. Seu batom estava um
pouco borrado no canto e seu vestido estava um pouco solto. Bobby pensou em avisá-la sobre isso, e então se lembrou como ela detestava
quando alguém lhe dizia que “nevava no sul”. Além disso, o que importava?
Seu dia de trabalho estava terminado e, como ela às vezes dizia, não havia
ninguém aqui exceto nós, os frangos.
Ela checou a geladeira para se certi icar de que as sobras de carne moída
haviam sumido, checou o fogão para se certi icar de que o registro do gás havia sido desligado, checou a pia para se certi icar de que o pote estava boiando na água espumante. Então ela o beijou na têmpora rapidamente, e