Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 31 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 20

– Eu descobri uma coisa. – ele disse. – O que era aquilo nas costas do

 

casaco de Stoke Jones.

– O que era? – Skip perguntou.

– Uma combinação de duas letras do semáforo da Marinha Britânica.

Olhem. –

Nate se levantou com os calcanhares juntos. Levantou seu braço esquerdo

na direção do teto e o deixou cair ao chão, fazendo uma linha reta. – Isso é

um N. – em seguida ele girou os braços em um ângulo de

aproximadamente quarenta e cinco graus de seu corpo. Eu conseguia ver

as duas formas, quando sobrepostas, iriam fazer a forma que Stoke havia

pintado nas costas de seu velho casaco. – Isso é um D.

– D, N. – Skip disse. – E daí?

– As letras são uma sigla para Desarmamento Nuclear. Bertrand Russel

inventou esse símbolo nos anos cinqüenta. – ele o desenhou na contra capa

de seu caderno:

–

Ele o chamou de sinal da paz.

– Legal. – Skip disse.

Nate sorriu e enxugou os olhos com os dedos.

– Foi o que eu pensei. – ele concordou. – É super demais.

Eu soltei a agulha no disco e ouvimos Phil Ochs cantar. É super demais, como nós Atlantes costumávamos dizer.

20

O salão no meio de Chamberlain Três se tornou meu Júpiter, um planeta

assustador com um grande campo de atração gravitacional. Ainda assim, eu resisti naquela noite, voltando para a cabine telefônica e ligando para o

Franklin novamente.

Desta vez Carol atendeu.

– Eu estou bem. – ela disse, rindo um pouco. – Estou bem. Um dos policiais

até me chamou de mocinha. Calado, Pete, quanta preocupação.

Quanta preocupação esse tal de Gilman demonstrou para você ? Eu iquei tentado a perguntar, mas mesmo aos dezoito anos eu sabia que não era o

jeito certo de seguir.

– Você deveria ter ligado pra mim. – eu disse. – Talvez eu tivesse ido com

você.

Poderíamos ter ido no meu carro.

Carol começou a dar risadinhas, um doce som, mas ao mesmo tempo

enigmático.

– O que foi?

– Eu estava pensando no que aconteceria se eu fosse à demonstração anti-

guerra em um Station Wagon com um adesivo Goldwater no pára-choque.

Eu imaginei que isso fosse meio engraçado.

– Além disso. – ela disse. – Eu imaginei que você tinha outras coisas para fazer.

– O que você quer dizer com isso? – como se eu não soubesse. Pelo vidro da cabine telefônica, eu podia ver meus colegas de andar no salão jogando

cartas, envoltos pela fumaça dos cigarros. E mesmo aqui, com a porta

fechada, eu podia ouvir o cacarejo agudo de Ronnie Malenfant. Nós

estamos

caçando

A

Puta,

rapaziada,

nós

estamos cherchez ando la Puta noire, e temos que tirá-la dos arbustos.

– Estudando, ou jogando Copas. – ela disse. – Estudando, eu espero. Uma das garotas no meu andar sai com Lennie Doria, ou saia, quando ele tinha

tempo para sair.

Ela chama isso de jogo de cartas do inferno. Já estou sendo chata?

– Não. – eu disse, sem saber se ela estava sendo ou não. Talvez eu

precisasse ser chateado. – Carol, você está bem?

Houve uma longa pausa.

– É. – ela disse finalmente. – Com certeza estou.

– Os trabalhadores que apareceram. .

– Só usaram a boca. – ela disse. – Não se preocupe. Sério.

Mas ela não soava bem para mim, não muito bem. . e havia George Gilman

para se preocupar. Eu me preocupei com ele de um modo que não havia

feito com Sully, o namorado na cidade natal dela.

– Você está nesse comitê que Nate me contou a respeito? – eu perguntei a

ela. –

Esse tal de Comitê da Resistência?

– Não. – ela disse. – Ainda não, pelo menos. George me pediu para entrar.

Ele é um cara do meu curso de Ciências Políticas. George Gilman. Você o conhece?

– Já ouvi falar. – eu disse. Eu estava esganando o telefone tão forte e não parecia que eu soltaria.

– Foi ele quem me contou da demonstração. Eu fui no carro dele com

outros.

Eu. . – ela parou por um momento, então disse com honesta curiosidade: –

Você não está com ciúmes dele, está?

– Bem. – eu disse cuidadosamente. – Ele passou a tarde toda com você.

Estou com ciúmes disso, eu acho.

– Não ique. Ele tem neurônios, muitos deles, mas ele também tem um

corte de cabelo horroroso e olhos inquietos. Ele se barbeia, mas ele sempre parece se esquecer de algum grande chumaço. Ele não é atraente, acredite.

– Então o que é?

– Eu posso te ver? Eu quero te mostrar uma coisa. Não vai demorar. Mas pode ajudar se pudesse explicar. . – sua voz tropeçou na palavra e eu percebi que ela estava próxima de chorar.

– O que há de errado?

– Quer dizer outra coisa que não seja o fato de meu pai não me deixar voltar pra casa dele depois de me ver nos jornais? Ele vai mudar os

cadeados neste fim de semana, eu aposto. Isso se ele já não o fez.

Eu pensei em Nate dizendo que tinha medo de que sua mãe visse a foto

dele sendo preso. O dentista bonzinho da mamãe indo em cana em Derry

por fazer uma parada na frente do Prédio Federal sem permissão. Ah, a

vergonha, a vergonha. E o pai de Carol? Não a mesma coisa, mas bem

perto. O pai de Carol era um garoto engomadinho que gritou urra e se

juntou a Ma-ma-rinhaaa, afinal de contas.

– Talvez ele não veja a história. – eu disse. – Mesmo se o izer, o jornal não

publicou nomes.

– E a foto? – ela falou pacientemente, como se o izesse para alguém que não consegue evitar ser denso. – Você não viu a foto?

Eu comecei a dizer que seu rosto estava em sua maior parte virado para longe da câmera e que o que se podia ver eram sombras. Então eu me

lembrei de sua jaqueta do colégio COLÉGIO HARWICH brilhando através

do negro. E também, ele era o pai dela, pelo amor de Deus. Mesmo meio virada para longe da câmera, seu pai a reconheceria.

– Ele também pode não ter visto a foto. – eu disse idiotamente. –

Damariscotta está bem longe do ponto de circulação do jornal de Derry.

– É assim que quer viver sua vida, Pete? – ela ainda soava paciente, mas agora estava por um io. – Fazendo coisas e esperando que as pessoas não

descubram?

– Não. – eu disse. E eu poderia icar irritado com ela por dizer isso, considerando que Annmarie Soucie não tinha a menor idéia da existência

de Carol Gerber? Eu acho que não. Carol e eu não éramos casados ou

qualquer coisa, mas casamento não era o problema. – Não, eu não. Mas

Carol. . você não tem que esfregar o maldito jornal na cara dele, tem?

Ela riu. O som não tinha nada da radiação que eu ouvia em seus risinhos, mas eu pensei que mesmo um riso magoado era melhor do que nenhum.

– Eu não terei que fazer isso. Ele descobrirá. É assim que ele é. Mas eu tenho que ir, Pete. E eu vou provavelmente me juntar ao Comitê da

Resistência, mesmo que George Gilman pareça com uma criança que foi

pega comendo caraca e Harry Swidrowski tem o pior hálito do mundo.

Porque é. . a coisa disso. . você vê. . – ela soprou aquele suspiro “eu-não-consigo-explicar” em meu ouvido. – Ouça, sabe o lugar onde nós damos

uma pausa para fumar?

– No Holyoke? Perto das lixeiras, claro.

– Me encontre lá. – Carol disse. – Em quinze minutos. Você pode?

– Sim.

– Eu tenho que estudar muito, então não posso me demorar, mas eu. . eu só. .

– Eu estarei lá;

Eu desliguei o telefone e sai da cabine. Ashley Rice estava no umbral do salão, fumando e fazendo um truque de embaralhar. Eu deduzi que ele

estava esperando a vez de jogar. Sua face estava muito pálida, sua barba negra mal feita, aparecendo como marcas de caneta, e sua camisa estava

além de ser suja; ela parecia viva. Ele tinha aquele olhar de Perigo, Alta Voltagem, que eu mais tarde vim a associar a usuários de cocaína. E era exatamente isso que o jogo era; um tipo de droga. Mas tampouco era do