Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 9 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 8

É tudo que posso lhe dizer. Não é seguro você saber mais.

Mas Bobby tinha que fazer mais uma pergunta.

– Você veio de um desses mundos?

Ted olhou solenemente para ele,

– Eu vim de Teaneck.

Bobby olhou estupidamente para ele por um momento, e então começou a

rir.

Ted, ainda de joelhos ao lado da tomada, juntou-se a ele.

– No que você pensou dentro do táxi, Bobby? – Ted perguntou quando

inalmente conseguiram parar. – Para onde você foi quando os problemas

começaram? – ele pausou. – O que você viu?

Bobby pensou em Carol em seus vinte anos com suas unhas pintadas de

rosa, Carol parada nua com a toalha a seus pés e o vapor subindo ao seu redor. Apenas para Adultos, É Obrigatório Carteira de Motorista. Sem

Exceções.

– Eu não posso dizer. – ele disse finalmente. – Porque. . bem. .

– Porque algumas coisas são particulares. Eu entendo. – Ted levantou-se.

Bobby avançou para ajudá-lo, mas Ted o repeliu. – Talvez você devesse

sair e brincar um pouco por um tempo. – ele disse. – Mais tarde, lá pelas seis, poderíamos dizer, eu colocarei meus óculos escuros novamente e

sairemos, e vamos jantar no Café Colony.

– Mas sem feijões.

Os cantos da boca de Ted se abriram em um fantasma de sorriso.

– Absolutamente, sem feijões, feijões são proibidos. Às dez horas eu vou ligar para meu amigo Len e ver como a luta terminou, ham?

– Os homens maus. . agora estarão procurando por mim também?

– Eu nunca deixaria você sair por esta porta se eu pensasse isso. – Ted respondeu, parecendo surpreso. – Você está bem, e eu vou me certificar de

que você ique bem. Vá agora. Vá brincar de pique-esconde ou pega-pega

ou qualquer outra coisa que queira. Eu tenho coisas a fazer. Só volte as seis

então não se preocupe.

– Certo.

Bobby foi até seu quarto e depositou as quatro moedas que havia ganhado

em Bridgeport em seu pote de dinheiro. Ele olhou ao redor de seu quarto,

vendo as coisas com novos olhos: a colcha de caubói, o retrato de sua mãe

em uma parede, e a foto assinada, e obtida poupando caixas de cereal, de

Clayton Moore em sua máscara em outra, seus patins (um deles com a

correia partida) no canto, sua mesa contra a parede.

O quarto pareceu menor agora, não tanto quanto um lugar para se chegar

do que para um lugar a se sair. Ele percebeu que estava crescendo e

alcançando a faixa etária de seu cartão da biblioteca, e alguma amarga voz

interior chorou contra isso. Chorou: não, não, não.

8

Bobby Faz uma Confissão. A Bebê Gerber e o Bebê Xarope.

Rionda. Ted Faz uma Ligação. Grito dos Caçadores.

No Parque Commonwealth, as crianças jogavam bola. O Campo B estava

vazio; no Campo C alguns adolescentes com as camisas laranjas do St.

Gabriel jogavam scrub (N.T. – Variação de beisebol onde não há

times. ). Carol Gerber estava sentada em um banco com sua corda de pular

em seu colo, assistindo-os. Ela viu Bobby se aproximar e sorriu. E então o sorriso sumiu.

– Bobby, o que houve com você?

Bobby não estava precisamente a par de que havia qualquer coisa de errado com ele até que Carol disse, mas o olhar de preocupação no rosto dela fez tudo desmoronar e ele cedeu. Era a realidade dos homens maus e

o fato assustador do quase encontro que tiveram com eles no caminho de

volta de Bridgeport; era a sua preocupação sobre sua mãe; mas a maior

parte de tudo era Ted. Ele sabia perfeitamente por que Ted havia o

enxotado de casa, e o que Ted estava fazendo bem agora: enchendo suas

pequenas malas e aquelas sacolas de papel. Seu amigo estava indo embora.

Bobby começou a chorar. Ele não queria parecer um bebezinho na frente

de uma garota, particularmente esta garota, mas ele não pode evitar.

Carol pareceu espantada por um momento, assustada. Então ela saiu do

banco, veio até ele, pôs os braços ao redor dele.

– Está tudo bem, Bobby, não chore, está tudo bem.

Quase cego pelas lágrimas, e chorando mais do que nunca (era como se

houvesse uma tempestade de verão violenta acontecendo em sua cabeça),

Bobby deixou que ela o levasse a um pequeno bosque onde estariam

escondidos dos campos de beisebol e dos caminhos principais. Ela sentou

na grama, ainda o abraçando, passando a mão em seus cabelos suados. Por

um tempo ela não disse nada, e Bobby estava incapaz de falar; ele apenas

conseguia soluçar até que sua garganta começou a doer e seus olhos a

latejar.

En im os intervalos entre os soluços se tornaram maiores. Ele sentou, enxugou o rosto com o braço, horrorizado e envergonhado pelo que

sentira: não apenas lágrimas, mas muco e saliva também. Ele devia ter

sujado-a com musgo.

Carol não pareceu se importar. Ela tocou seu rosto úmido. Bobby recuou

de seus dedos dando outro soluço, e olhou para a grama. Sua visão, lavada

pelas suas lágrimas, pareceu quase sobrenaturalmente aguçada; ele conseguia ver cada espinho e dente de leão.

– Está tudo bem. – ela disse, mas Bobby estava envergonhado demais para

olhar para ela. Eles icaram sentados quietamente por um momento, e

então Carol disse. – Bobby, eu serei sua namorada, se você quiser.

– Você é minha namorada. – Bobby disse.

– Então me diga o que está errado.

E Bobby ouviu-se contando tudo para ela, começando com o dia em que

Ted havia se mudado e como sua mãe levara apenas um instante para

detestá-lo. Ele contou para ela sobre o primeiro apagão de Ted, sobre os homens maus, e os sinais deles.

Quando ele chegou nesta parte, Carol tocou seu braço.

– O que foi? – ele perguntou. – Não acredita em mim? – sua garganta ainda

tinha aquela dolorosa sensação de inchamento que obteve depois de tanto

chorar, mas ele estava melhorando. Se ela não acreditasse nele, ele não

icaria com raiva dela. Não a culparia por nada, na verdade. Era só um

grande alívio poder tirar a coisa do peito. – Tudo bem. Eu sei como deve parecer. .

– Eu vi essas amarelinhas engraçadas por toda a cidade. – ela disse. –

Yvonne e Angie também. Nós falamos sobre elas. Elas têm pequenas

estrelas e luas desenhadas próximo a elas. Algumas vezes cometas

também.

Ele a encarou.

– Você está brincando?

– Não. Garotas sempre olham para amarelinhas, não sei por que. Feche a boca antes que entre uma mosca.

Ele fechou a boca.

Carol assentiu, satisfeita, então colocou a mão dele na dela e entrelaçou os

dedos com os dele. Bobby estava espantado com o encaixe perfeito que os

dedos faziam.

– Agora, conte-me o resto.

E ele o fez, terminando com o incrível dia que ele havia terminado de

experimentar: o ilme, a viagem ao Canto do Bolso, como Alanna havia

reconhecido seu pai nele, o quase encontro no caminho para casa. Ele

tentou explicar como o DeSoto púrpuro não parecia um carro de verdade

afinal de contas, que apenas parecia um carro.

O mais próximo que ele conseguia chegar era dizer que a coisa parecia

viva de alguma maneira, como uma versão malé ica do carro que o Dr.

Dolittle dirigia naquela série de livros sobre animais falantes pela qual eles

icaram doidos na segunda série. A única coisa que Bobby não confessou

foi quando ele teve que esconder seus pensamentos quando o táxi passou

pelo Willian Penn Grille e a parte de trás de seus olhos começou a coçar.

Ele lutou, e então disse o pior como num clímax de uma peça: que ele tinha

medo de que sua mãe ter ido à Providence com o Sr. Biderman e os outros

homens havia sido um erro. Um péssimo erro.

– Você acha que o Sr. Biderman dá em cima dela? – Carol perguntou. Agora

eles já estavam voltando para o banco aonde ela havia deixado sua corda de pular.

Bobby a pegou e deu para ela. Eles começaram a sair do parque na direção

da Broad Street.

– Sim, talvez. – Bobby disse carrancudamente. – Ou pelo menos. . – E aqui estava a parte de que ele tinha medo, embora isso não tivesse nome ou

forma real; era como algo sinistro coberto por pedaços de lonas. – Pelo menos ela acha que ele está.

– Ele vai pedir para casar com ela? Se ele izesse isso, ele se tornaria seu padrasto.

– Deus! – Bobby não havia considerado a idéia de ter Don Biderman como

padrasto, e ele desejou com todas as forças que Carol não houvesse tocado

no assunto.

Era um pensamento horrível.

– Se ela o ama é melhor se acostumar com a idéia. – Carol disse de uma maneira tão madura que Bobby achou que poderia ter icado melhor sem

ter ouvido isso; ele achou que ela havia gastado tempo demais neste verão

assistindo os programas “Oh, John, Oh, Marsha” na TV com a mãe. E de um

jeito esquisito ele não teria se importado se sua mãe amava o Sr. Biderman,

e isso era tudo. Seria horrível, certamente, porque o Sr. Biderman era

assustador, mas ele teria entendido. Mas mais coisas estavam acontecendo.

A avareza de sua mãe pelo dinheiro (sua pão-durice), era parte da coisa, e então o que quer que a izera voltar a fumar e a izera chorar durante

algumas noites. A diferença entre o Randall Gar ield de sua mãe, o homem

safado que a deixou com contas não pagas, e o Randy Gar ield de Alanna, o

cara legal que gostava da jukebox no volume mais alto. . até mesmo isso poderia ser parte da coisa. (Realmente haviam existido contas não pagas?

Havia existido de verdade a apólice de seguro prescrita? Por que sua mãe

mentiria sobre tais coisas?) Essas eram as coisas que ele não podia contar

a Carol. Não era questão de discrição; era só que ele não sabia como se expressar.

Eles começaram a subir a ladeira. Bobby pegou uma ponta da corda e eles

andaram lado a lado, arrastando-a entre eles pela calçada. De repente

Bobby parou e apontou.

– Olhe.

Havia uma linha amarela de pipa presa em um dos ios elétricos que

cruzavam a rua acima. Ela pendia em uma curva que pareceu mais ou

menos um ponto de interrogação.

– Sim, eu estou vendo. – Carol disse, soando deprimida. Eles começaram a

andar novamente. – Ele deve ir embora hoje, Bobby.

– Ele não pode. A luta é hoje à noite. Se Albini vencer, Ted tem que pegar sua grana no salão de bilhar amanha de noite. Eu acho que ele precisa

muito da grana.

– Com certeza. – Carol disse. – Você só tem que olhar para as roupas dele

para ver que ele está quase falido. O que ele apostou provavelmente era o

último dinheiro que tinha.

As roupas dele. . isso é algo que apenas uma garota iria perceber , Bobby pensou, e abriu a boca para dizer isso para ela. Antes que ele pudesse, alguém atrás deles disse: “Oh, olha só isso. É a Bebê Gerber e o Bebê Xarope. Como vão, bebezinhos?

Eles olharam em volta. Pedalando lentamente enquanto subiam a ladeira

iam três garotos do St. Gabe em camisas alaranjadas. Dentro das cestas de

suas bicicletas estavam seus apetrechos de beisebol. Um dos garotos, um

marginal espinhento com uma cruz prateada pendurada ao seu pescoço

em uma corrente, tinha um bastão de beisebol caseiro preso às costas. Ele

acha que é Robin Hood, Bobby pensou, mas ele estava com medo. Eles eram

garotos grandes, garotos do ginásio, garotos da escola paroquial, e se eles decidissem que queriam colocá-lo no hospital, então para o hospital ele iria.

Garotos maus em camisas alaranjadas, ele pensou.

– Oi, Willie. – Carol disse para um deles (não para o marginal com o taco nas costas). Ela soou calma, até feliz, mas Bobby podia ouvir medo

in iltrado nela como uma asa de pássaro. – Eu assisti você jogar. Você fez uma boa pegada.

Aquele com quem ela falou tinha um rosto feio e deformado abaixo de

cabelos ruivos penteados para trás e acima de um corpo de homem. A

bicicleta na qual andava era ridiculamente pequena. Bobby achou que ele

parecia um ogro em uma história de contos de fadas.

– E o que te importa, Bebê Gerber? – ele perguntou.

Os três rapazes do St. Gabe emparelharam com eles. Então dois deles, o

com a cruz pendente e o que Carol havia chamado de Willie, avançaram um pouco, saindo de cima de suas bicicletas, andando com elas. Com

crescente desespero, Bobby percebeu que ele e Carol haviam sido

cercados. Ele podia sentir o cheiro de mistura de suor e desodorante que

vinha das camisas alaranjadas dos rapazes.

– Quem é você, Bebê Xarope? – perguntou o terceiro rapaz do St. Gabe a Bobby. Ele inclinou-se por sobre o guidão da bicicleta para dar uma melhor

olhada. – Você é Gar ield? Você é, não é? Billy Donahue ainda está

procurando por você por causa daquela no inverno. Ele quer estourar seus

dentes. Talvez eu devesse estourar um ou dois bem aqui, para dar a ele um começo.

Bobby sentiu uma horrível sensação de embrulhamento em seu estômago,

algo como cobras em uma cesta. Eu não vou chorar de novo, ele disse a si mesmo. O que quer que aconteça eu não vou chorar de novo, mesmo que eles me mandem para o hospital. E eu vou tentar protegê-la.

Protegê-la de garotos grandes como estes? Que piada.

– Por que está sendo tão mau, Willie? – Carol perguntou. Ela falou

solenemente com o garoto de cabelo ruivo. – Você não é mau quando está

sozinho. Por que tem que ser mau agora?

Willie ruborizou. Isso, junto com seu cabelo ruivo escuro, mais escuro que

o de Bobby, fez com que ele parecesse estar pegando fogo do pescoço para

cima. Bobby achou que ele não gostaria que seus amigos soubessem que

ele poderia agir como um humano quando eles não estavam por perto.

– Cale a boca, Bebê Gerber! – ele rosnou. – Por que você não cala a boca e

beija seu namorado enquanto ele ainda tem dentes?

O terceiro rapaz usava um cinto de motoqueiro apertado e velhos sapatos

sociais cobertos de areia do campo de beisebol. Ele estava atrás de Carol.

Agora ele estava se aproximando, ainda andava com sua bicicleta, e pegou

o rabo de cavalo dela com as duas mãos. E então ele o puxou.

– Ai! – Carol quase gritou. Ela soou surpresa e também machucada. Ela se

esquivou com tanta força que quase caiu. Bobby a socorreu e Willie, que poderia ser legal quando não estava com seus amigos, de acordo com

Carol, riu.

– Por que fez isso? – Bobby berrou com o rapaz com o cinto de motoqueiro,

e as palavras saíram de sua boca como se ele houvesse as ouvido milhares

de vezes antes.

Tudo isso era como um ritual, as coisas que eram ditas antes dos

verdadeiros machucados e empurrões e antes que os primeiros punhos começassem a voar. Ele pensou novamente em O Senhor das Moscas (Ralph

fugindo de Jack e os outros). Ao menos na ilha de Golding havia uma selva.

Ele e Carol não tinham para onde fugir.

Ele diz “Porque eu quis”. É isso que vem em seguida.

Mas antes que o garoto do cinto apertado pudesse dizê-lo, Robin Hood com

o bastão caseiro nas costas disse por ele.

– Porque ele quis. O que vai fazer a respeito, Bebê Xarope? – Ele

subitamente jogou a mão, rápido como uma cobra, e estapeou Bobby no

rosto. Willie riu de novo.

Carol andou na direção dele.

– Willie, por favor, não. .

Robin Hood chegou nela, agarrou a frente da blusa de Carol, e a apertou.

– Já cresceram os peitinhos? Que nada, não muito. Você não é nada a não ser um Bebê Gerber. – ele a empurrou. Bobby, sua cabeça ainda latejando

pelo tapa, a pegou e pela segunda vez a impediu de cair.

– Vamos arrebentar esse veadinho. – disse o garoto do cinto de

motoqueiro. – Eu odeio a cara dele.

Eles se adiantaram, os pneus de suas bicicletas guinchando solenemente.

Então Willie deixou a sua cair de lado, como um pônei morto e foi até Bobby. Bobby levantou os punhos em uma débil imitação de Floyd

Patterson.

– Digam-me, garotos, o que está havendo? – Alguém perguntou atrás deles.

Willie havia abaixado um de seus próprios punhos. Ainda mantendo-os

cerrados, ele olhou por cima dos ombros. Assim também o fez Robin Hood

e o garoto do cinto de motoqueiro. Estacionado no meio- io estava um velho

Studebaker azulado com soleiras externas enferrujadas e um ímã de Jesus pregado no pára-lama. Parada à frente dele, parecendo extremamente

peituda e extremamente ampla nos quadris, estava a amiga de Anita

Gerber, Rionda. Roupas de verão nunca seriam suas amigas (mesmo aos

onze anos, Bobby entendia isto), mas naquele momento ela parecia uma

deusa com tênis.

– Rionda! – Carol gritou (sem chorar, mas quase). Ela abriu caminho

através de Willie e o garoto de cinto de motoqueiro. Nenhum deles fez

qualquer esforço para detê-la. Todos os três garotos do St. Gabe olhavam para Rionda. Bobby percebeu que olhava para o punho cerrado de Willie.

Às vezes Bobby acordava de manhã com seu bilau tão duro quanto uma

rocha, apontado para cima como um foguete lunar ou coisa assim.

Enquanto ia ao banheiro fazer xixi, com o tempo ele iria amolecendo e

encolhendo. O punho cerrado de Willie começava a encolher agora, o

punho relaxando de volta à formação original dos dedos, e a comparação

fez Bobby querer sorrir. Ele resistiu ao ímpeto. Se eles o vissem sorrindo agora, eles não poderiam fazer nada. Mais tarde, entretanto. . ou em outro

dia. .

Rionda pôs os braços ao redor de Carol e abraçou a garota contra seus

largos seios. Ela inspecionou os rapazes nas camisas alaranjadas e sorria.

Sorria e não fazia esforço para esconder.

– Willie Shearman, não é?

O braço do punho antes cerrado caiu ao seu lado. Resmungando, ele se

inclinou para pegar sua bicicleta.

– Richie O’Meara?

O garoto de cinto de motoqueiro olhou para os seus sapatos sociais

empoeirados e também resmungou alguma coisa. Suas bochechas

queimavam de vergonha.

– Um dos rapazes O’Meara, de qualquer forma, há tantos de vocês,

malditos, que eu não consigo acompanhar. – Seus olhos pularam para

Robin Hood. – E quem é você, garotão? É um dos Dedham? Você parece um

pouco com um deles.

Robin Hood olhou para as mãos. Ele usava um anel da classe em um dos dedos, e agora ele começava a torcê-lo.

Rionda ainda mantinha um braço ao redor dos ombros de Carol. Carol

tinha um dos seus próprios braços agarrado à cintura de Rionda, ao mais longe que conseguia.

Ela andou com Rionda, sem olhar para os rapazes, enquanto Rionda saia

da rua para a pequena faixa de grama entre o meio- io e a calçada. Ela ainda olhava para Robin Hood.

– É melhor me responder quando eu falo com você, ilhinho. Não será

di ícil achar sua mãe se eu quiser. Tudo o que tenho a fazer é perguntar ao

Padre Fitzgerald.

– Harry Doolin, sou eu. – o menino disse inalmente. Ele torcia seu anel da

classe mais rápido do que nunca.

– Ora, mas eu cheguei perto, não foi? – Rionda perguntou com prazer,

dando dois ou três passos para frente. Eles a levaram para a calçada. Carol,

com medo de se aproximar dos meninos, tentou pará-la, mas Rionda não parou. – Dedhams e Doolins, todos casados juntos. Voltando agora mesmo

para o Condado da Rolha, tra-la-tra-li.

Não era Robin Hood, mas um garoto chamado Harry Doolin com um

estúpido bastão de beisebol feito em casa preso às costas. Não era Marlon

Brandon em “O Selvagem”, mas um garoto chamado Richie O’Meara, que

não teria uma Harley para combinar com seus cintos por mais cinco anos. .

se é que algum dia teria uma. E Willie Shearman, que não se atrevia a ser

legal com uma garota quando estava com seus amigos. Tudo o que foi

necessário para que encolhessem ao seu tamanho natural foi uma mulher

acima do peso com tênis, que havia vindo ao resgate não em um garanhão

branco, mas em um Studebaker 1954. O pensamento deveria ter

confortado Bobby, mas não o fez. Ele percebeu que pensava no que

William Golding havia dito, que os meninos na ilha haviam sido resgatados

pela tripulação de um cruzador e bom para eles. . mas quem resgataria a tripulação?

Isso era idiota, ninguém nunca pareceu tanto não precisar de resgate como

Rionda Hewson naquele momento, mas as palavras ainda assombravam

Bobby. E se não houvesse adultos? Suponha que a idéia inteira de adultos seja uma ilusão. E se o dinheiro deles fossem apenas bolinhas de gude,

seus negócios não fossem nada mais do que trocas de igurinhas, suas

guerras apenas jogos de pistolas de água no parque? E se eles ainda

fossem crianças irritadas dentro de seus ternos e vestidos? Cristo, isso não

seria possível, seria? Era horrível demais pensar a respeito.

Rionda ainda olhava para os rapazes do St. Gabe com seu perigoso e duro

sorriso.

– Vocês três não iriam pegar nos pés de crianças mais novas e mais

inteligentes do que vocês, iriam? Uma delas sendo uma menina como suas

próprias irmãzinhas?

Eles icaram em silêncio, sem nem mesmo resmungar. Apenas mexiam os

pés.

– Tenho certeza de que não, porque isso seria uma coisa covarde de fazer,

não seria?

Novamente ela deu a eles a chance de responder e muito tempo para ouvir

seus próprios silêncios.

– Willie? Richie? Harry? Vocês não estavam pegando nos pés deles,

estavam?

– Claro que não. – Harry disse. Bobby achou que se ele continuasse a girar

o anel naquela velocidade, seu dedo provavelmente pegaria fogo.

– Se eu pensasse em uma coisa como essa. . – Rionda disse, ainda

ostentando seu perigoso sorriso. – . .eu teria que falar com o Padre

Fitzgeral, não teria? E o Padre, ele provavelmente sentiria que deveria

falar com seus pais, e seus pais provavelmente se sentiriam obrigados a esquentar seus traseiros. . e vocês iriam merecer, rapazes, não iriam? Por pegar no pé dos fracos e pequenos.

O silêncio dos três rapazes continuou, agora já estavam montados em suas

bicicletas ridiculamente pequenas.

– Eles pegaram no seu pé, Bobby? – Rionda perguntou.

– Não. – Bobby disse de uma vez.

Rionda pôs um dedo sob o queixo de Carol e levantou sua cabeça.

– Eles pegaram no seu pé, amorzinho?

– Não, Rionda.

Rionda sorriu para ela, e embora houvesse lágrimas nos olhos de Carol, ela

sorriu de volta.

– Bem, garotos. Acho que estão fora do anzol. – Rionda disse. – Eles disseram que vocês não izeram nada que poderiam lhes causar um único

desconfortante minuto no confessionário. Eu diria que vocês devem a eles

votos de agradecimento, não?

Mais resmungos dos rapazes do St. Gabe. Por favor, deixe isso pra lá, Bobby pediu silenciosamente. Não os faça realmente nos agradecer. Não esfregue os narizes deles nisso.

Talvez Rionda tenha ouvido seu pensamento (Bobby agora tinha uma boa

razão para acreditar que tais coisas eram possíveis).

– Bem. – ela disse. – Talvez possamos pular essa parte. Vão para casa, meninos.

E Harry, quando você vir Moira Dedham, diga a ela que Rionda disse que ela ainda vai ao Bingo em Bridgeport toda semana, se ela quiser uma

carona.

– Com certeza. – Harry disse. Ele montou em sua bicicleta e pedalou ladeira

acima, os olhos ainda estavam na calçada. Se houvesse pedestres pelo

caminho ele provavelmente os teria atropelado. Seus dois amigos o

seguiram, pedalando depressa para alcançá-lo.

Rionda os assistiu irem, seu sorriso desaparecia lentamente.

– Minha nossa. – ela inalmente disse. – Problemas apenas esperando para

acontecerem. Bah, boa viagem para eles. Carol, você realmente está bem?

Carol disse que realmente estava bem.

– Bobby?

– Claro, estou bem. – Era necessária toda a disciplina que ele podia

arranjar para não começar a tremer na frente dela como uma gelatina de

morango, mas se Carol podia se segurar, ele também podia.

– Entre no carro. – Rionda disse para Carol. – Eu lhe darei uma carona até

sua casa. Você vá andando, Bobby, atravesse a rua e entre em casa. Esses

garotos terão esquecido tudo sobre você e minha menina Carol pela manhã, mas hoje a noite pode ser mais inteligente se vocês dois

permanecerem em suas casas.

– Certo. – Bobby disse, sabendo que eles não esqueceriam nada pela

manhã, e muito menos pelo im da semana, e muito menos ainda pelo im

do verão. Ele e Carol teriam que ter cuidado com Harry e seus amigos por

um bom tempo. – Tchau, Carol.

– Tchau.

Bobby trotou pela Broad Street. Do outro lado ele parou, observando o

velho carro de Rionda subir até o apartamento onde viviam os Gerbers.

Quando Carol saiu, ela olhou de volta para o início da ladeira e acenou, Bobby acenou de volta, então subiu a varanda do 149 e entrou.

Ted estava sentado na sala de estar, fumando um cigarro e lendo a revista

Life.

Anita Ekberg estava na capa. Bobby não tinha dúvidas de que as maletas e

sacolas de papel estavam arrumadas, mas não havia sinal delas; ele devia

tê-las deixado lá em cima no seu quarto. Bobby estava feliz. Ele não queria

olhar para elas. Já era ruim o suficiente saber que elas estavam lá.

– O que você fez? – Ted perguntou.

– Não muito. – Bobby disse. – Eu acho que vou deitar na cama e ler até a hora do jantar.

Ele foi até seu quarto. Empilhados no chão ao lado de sua cama estavam três livros da seção de adultos da Biblioteca Pública de Harwich:

Engenheiros Cósmicos , Ed Clifford D. Simak; O Mistério do Chapéu Romano,

de Ellery Queen; e Os Herdeiros , de William Golding. Bobby escolheu Os Herdeiros e deitou com a cabeça no pé da cama e seus pés ainda calçados

com as meias no travesseiro. Havia homens da caverna na capa do livro,

mas eles eram desenhados de uma maneira quase abstrata, você nunca

veria homens da caverna como aqueles em uma capa de livro infantil. Ter um cartão de biblioteca para adultos era bastante legal. . mas não legal quanto havia parecido no começo.

***

O Olho Havaiano estava passando às nove horas, e Bobby ordinariamente

teria sido proibido (sua mãe dizia que programas como O Olho Havaiano e

Os Intocáveis eram violentos demais para crianças e ordinariamente não teria deixado que ele os assistisse), mas esta noite sua cabeça continuava a

vagar para longe da história. A menos de cem quilômetros dali Eddie Albini

e Hurricane Haywood estariam lutando; a Garota de Lâminas de Gilete

Azul, vestida em roupas de banho azuis e usando salto-alto azul, estariam andando pelo ringue antes do começo de cada round segurando uma placa

com um número azul nela. 1. . 2. . 3. . 4. .

Às nove e meia Bobby não conseguiu decifrar quem era o culpado no

programa, e desistiu de imaginar que havia matado a socialite loira.

Hurricane Haywood cai ao oitavo round, Ted havia lhe dito; o Velho Gee sabia disso. Mas e se algo desse errado?

Ele não queria que Ted fosse, mas se ele tivesse que ir, Bobby não

agüentava o pensamento dele indo com a carteira vazia. Embora com

certeza isso não pudesse acontecer. . ou poderia? Bobby havia visto um

programa na TV onde um lutador deveria ter desistido e então mudou de

idéia. E se isso acontecesse hoje? Desistir era ruim, era trapacear (não brinca, Sherlock, qual foi a sua primeira pista?), mas e se Hurricane

Haywood não trapaceasse, Ted estaria com muitos problemas; “se

machucar pra valer”, era como Sully-John teria posto a coisa.

Nove e meia de acordo com o relógio na parede da sala de estar. Se a matemática de Bobby estivesse correta, o crucial oitava round já estaria a

caminho.

– O que está achando de Os Herdeiros?

Bobby estava tão aprofundado em seus pensamentos que a voz de Ted o fez pular. Na TV, Keenan Wynn estava parado em frente a uma

escavadeira dizendo que caminharia dois quilômetros por um cigarro.

– É bem mais di ícil do que O Senhor das Moscas. – ele disse. – Parece que

há essas duas pequenas famílias de gente da caverna andando por aí, e

uma família é mais inteligente. Mas a outra família, a família burra, eles são

os heróis. Eu quase desisti, mas agora está icando mais interessante. Eu acho que vou continuar.

– A família que você conheceu primeiro, aquela com a menininha, eles são

os Neandertais. A segunda família (só que é uma tribo, Golding e suas

tribos), são os Cro-Magnons). Os Cro-Magnons são os herdeiros. O que

acontece entre os dois grupos satisfaz a de inição de tragédia: eventos

levando a um desfecho infeliz que não pode ser evitado.

Ted continuou, falando sobre as peças de Shakespeare e poema de Poe e

as novelas de um cara chamado Theodore Dreiser. Normalmente Bobby

teria icado interessado, mas hoje a noite sua mente continuava a viajar até

o Madison Square Garden. Ele podia ver o ringue, aceso de modo tão

selvagem quanto as mesas de sinuca do Canto do Bolso. Ele podia ouvir a multidão gritando enquanto Haywood entrava nele, beijando o surpreso

Eddie Albini com suas esquerdas e direitas. Haywood não iria facilitar a luta; como o pugilista no programa da TV, ao invés disso ele iria mostrar ao

outro cara um sério mundo de dor. Bobby podia sentir o cheiro de suor e

ouvir o pesado som das luvas acertando a carne. Os olhos de Eddie Albini

ficaram totalmente brancos. .

seus joelhos cederam. . o público estava de pé, gritando. .

– . .a idéia de destino como uma força da qual não se pode escapar parece

ter começado com os Gregos. Havia um dramaturgo chamado Eurípedes

que. .

– Ligue. – Bobby disse, e embora ele nunca houvesse fumado um cigarro

na vida (em 1964 ele estaria fumando um maço por semana), sua voz soou

tão áspera quanto a de Ted à noite, após um dia inteiro de Chesterfields.

– Perdão, Bobby?

– Ligue para o Sr. Files, e veja o que aconteceu na luta. – Bobby olhou para o relógio. Nove e quarenta e cinco. – Se já chegou ao oitavo, já deve ter terminado.

– Eu concordo que a luta terminou, mas se eu ligar para Files tão cedo ele

pode suspeitar de algo. – Ted disse. – O rádio também não adianta, essa luta não está no rádio, como ambos sabemos. É melhor esperar. É mais

seguro. Deixe-o acreditar que eu sou um homem de palpites inspirados. Eu

vou ligar às dez, como se eu esperasse que o resultado fosse uma decisão

ao invés de um nocaute. E enquanto isso, Bobby, não se preocupe. Eu lhe digo que isso é como um passeio no parque.

Bobby desistiu de vez de assistir Olho Havaiano; ele apenas sentou no sofá

e ouviu os atores falarem. Um homem gritou para um policial gordo

havaiano. Uma mulher de maiô branco correu para o mar. Um carro

perseguiu outro enquanto tambores decoravam a trilha sonora. Os

ponteiros do relógio se moveram, batalhando seu caminho do dez até o

doze como escaladores negociando seus últimos metros no Monte Everest.

O homem que havia matado a socialite se matou enquanto corria por um

campo de abacaxis e então Olho Havaiano finalmente terminou.

Bobby não esperou pelo trailer do próximo episódio; ele desligou a TV e disse:

– Ligue, ok? Por favor, ligue.

– Em um momento. – Ted disse. – Eu acho que tomei um refresco a mais além do meu limite. Minhas bexigas parecem ter encolhido com a idade.

Ele foi até ao banheiro. Houve uma pausa interminável, e o som de xixi caindo no bojo.

– Aaah! – Ted disse. Havia considerável satisfação em sua voz.

Bobby não podia mais icar sentado. Ele se levantou e começou a andar

pela sala de estar. Ele tinha certeza de que Tommy “Hurricane” Haywood

estava sendo fotografado agora em canto no Garden, machucado, mas

brilhando enquanto os lashes brancos eram jogados contra sua cara. A

Garota das Lâminas de Gilete Azul estaria lá com ele, seu braço em volta de

seus ombros, sua mão em sua cintura enquanto Eddie Albini estava atolado

em seu canto, esquecido, os olhos inchados quase fechados, ainda assim não completamente consciente da porrada que havia levado.

Quando Ted voltou, Bobby já estava desesperado. Ele sabia que Albini

havia perdido a luta e seu amigo havia perdido quinhentos dólares. Ted

icaria quando descobrisse que estava falido? Ele poderia. . mas e se os

homens maus viessem. .

Bobby assistiu, os punhos fechando e abrindo, enquanto Ted pegava o

telefone e discava.

– Relaxe, Bobby. – Ted lhe disse. – Vai ficar tudo bem.

Mas Bobby não conseguia relaxar. Suas tripas pareceram cheias de arame

farpado. Ted segurou o telefone contra a orelha sem dizer nada pelo que pareceu uma eternidade.

– Por que eles não respondem? – Bobby sussurrou ferozmente.

– Só tocou duas vezes, Bobby. Por que você não. . alô? Aqui é o Sr.

Brautigan ligando. Ted Brautigan? Sim, senhora, de hoje de manhã. –

Incrivelmente, Ted deu a Bobby uma piscada. Como ele podia estar tão

calmo? Bobby não achou que pudesse ser capaz de segurar o telefone

contra a orelha se estivesse no lugar de Ted, e muito menos piscar. – Sim,

senhora, ele está. – Ted virou-se para Bobby e falou, sem cobrir o bocal do

telefone. – Alanna quer saber como está sua namorada.

Bobby tentou falar e só conseguiu fazer uma brisa.

– Bobby diz que ela está bem. – Ted disse a Alanna. – Tão linda quanto um

dia de verão. Posso falar com Len? Sim, eu espero. Mas por favor, e fale sobre a luta. –

Houve uma pausa que pareceu eterna. Ted não demonstrava expressão

alguma. E desta vez quando ele se virou para Bobby, ele cobriu o bocal. –

Ela disse que Albini levou uma bela porrada no quinto, conseguiu se

segurar no sexto e sétimo, e então deu um belo gancho de direita do nada

e fez Haywood beijar a lona no oitavo. Hurricane apagou bonito. Que

surpresa, hein?

– Sim. – Bobby disse. Seus lábios pareceram entorpecidos. Era verdade, tudo. A esta hora, na Sexta-Feira de noite, Ted já teria ido embora. Com dois mil mangos no bolso você podia fazer várias fugas de vários homens maus; com dois mil mangos no bolso você podia pilotar o Grande Cão

Cinzento do céu ao inferno.

Bobby foi ao banheiro e colocou pasta em sua escova de dente. Seu terror

de que Ted havia apostado no lutador errado se fora, mas a tristeza da perda ainda estava lá, e continuava a crescer. Ele nunca teria adivinhado que algo que nunca havia acontecido poderia doer tanto. Daqui a uma

semana eu não vou lembrar o que ele tinha de tão. Em um ano eu dificilmente vou me lembrar dele.

Isso era verdade. Deus, era verdade?

Não, Bobby pensou. Sem chance. Eu não vou deixar que aconteça.

Na outra sala Ted conversava com Len Files. Pareceu ser uma conversa

bastante amigável, se desenrolando do jeito que Ted esperava. . e sim, aqui

estava Ted dizendo que tivera um palpite, um bem forte, do tipo que você

tinha apostar se quiser pensar em você mesmo como um esportista. Claro,

às nove e trinta da noite de amanhã seria ideal para o pagamento,

presumindo que a mãe de seu amigo estaria de volta às oito; se ela se atrasasse um pouco, Len o veria lá pelas dez ou dez e trinta. Estava tudo bem com isso?

Mais risadas de Ted, então parecia estar tudo certo para o gorducho

Lennie Files.

Bobby pôs a escova de dente de volta no copo de vidro no armário abaixo

do espelho e pôs as mãos no bolso. Havia algo lá que seus dedos não

reconheciam, não era parte das coisas usuais que icavam lá. Ele puxou o chaveiro de plástico verde, uma lembrancinha especial da parte de

Bridgeport da qual sua mãe não tinha conhecimento.

A parte do submundo. O CANTO DO BOLSO, BILHAR, SINUCA,

FLIPERAMAS.

KENMORE 8-2127.

Ele provavelmente já deveria tê-lo escondido (ou se livrado inteiramente), e então subitamente uma idéia veio até ele. Nada poderia realmente

animar Bobby Gar ield naquela noite, mas isto ao menos chegava perto: ele

daria o chaveiro para Carol Gerber, depois de precavê-la de nunca dizer a

mãe dele aonde ela tinha arranjado.

Ele sabia que Carol tinha ao menos duas chaves que poderia colocar nele (a do apartamento e a do diário que Rionda havia lhe dado de presente de

aniversário). Carol era três meses mais velha do que Bobby, mas ela nunca

passou isso na cara dele. Dar a ela o chaveiro seria um pouco como dizer que eles estavam prontos para ficarem firmes.

Ele tampouco teria que icar todo meloso e se envergonhar ao dizê-lo;

Carol saberia.

Isso era parte do que a fazia ser legal.

Bobby pousou o chaveiro no armário próximo ao copo de vidro, então foi

ao quarto colocar o pijama. Quando saiu, Ted estava sentado no sofá,

fumando um cigarro e olhando para ele.

– Bobby, você está bem?

– Acho que sim. Acho que tenho que estar, não é?

Ted assentiu.

– Acho que ambos temos que ficar.

– Eu voltarei a vê-lo? – Bobby perguntou, esperando no íntimo que Ted não

soasse como o Cavaleiro Solitário, falando daquele jeito canastrão de que algum dia eles voltariam a se encontrar, parceiro, ou coisa assim. . porque

não era uma coisa, essa palavra era gentil demais. A palavra certa era

“merda”. Ele não achou que Ted houvesse mentido para ele alguma vez, e

ele não queria que ele começasse agora que estavam próximos do fim.

– Eu não sei. – Ted estudou seu cigarro, e quando olhou para cima, Bobby

viu que seus olhos nadavam em lágrimas. – Eu acho que não.

As lágrimas destruíram Bobby. Ele correu pela sala, querendo abraçar

 

Ted, precisando abraçar Ted. Ele parou quando Ted ergueu os braços e os

cruzou no peito de sua velha camisa surrada, sua expressão era uma

espécie de surpresa horrorizada.

Bobby permaneceu onde estava, seus braços ainda apartados para o

abraço.

Lentamente ele os abaixou. Sem abraços, sem toques. Era a regra, mas a

regra era horrível. A regra estava errada.

– Você vai escrever? – ele perguntou.

– Eu mandarei cartões postais. – Ted respondeu depois de pensar um

momento.

– Não diretamente para você, isto pode ser perigoso para ambos. O que eu

poderia fazer? Alguma idéia?

– Mande-os para Carol. – Bobby disse. Ele nem precisou parar para

pensar.

– Quando você contou para ela sobre os homens maus, Bobby? – Não havia

reprovação na voz de Ted. E por que haveria? Ele ia embora, não ia? Por toda a diferença que fez, o cara que escreveu a história sobre o ladrão de

carrinhos de supermercado poderia escrever isso para o jornal: VELHO

DOIDO FOGE DE ALIENÍGENAS INVASORES. As pessoas iriam ler umas

para as outras enquanto beberiam café e comeriam cereais, e então ririam.

Do que Ted havia chamado isso naquele dia? Humor negro de uma

pequena cidade, não é? Mas se era tão engraçado, por que machucava?

Por que machucava tanto?

– Hoje. . – ele disse em voz baixa. – Eu a vi no parque e tudo meio que. .

saiu.

– Acontece. – Ted disse gravemente. – Eu sei disso muito bem; às vezes a represa simplesmente cede. E talvez seja para o melhor. Você dirá a ela que eu posso querer te contatar através dela?

– Sim.

Ted bateu o dedo contra os lábios, pensando. Então assentiu.

– No topo dos cartões que eu mandar estará escrito Para C, ao invés de Para Carol. No fundo eu assinarei como Um Amigo. Desse modo ambos saberão quem escreve. Certo?

– Sim. – Bobby disse. – Legal. – Não era legal, nada disso era lega, mas teria

que servir.

Subitamente ele ergueu a mão, beijou os dedos, e soprou através deles.

Ted, sentado no sofá, sorriu, pegou o beijo, e o carimbou em sua bochecha

enrugada.

– É melhor ir para a cama agora, Bobby. Este foi um grande dia e já é tarde.

Bobby foi para a cama.

***

No começo ele achou que era o mesmo sonho de antes, Biderman,

Cushman, e Dean, caçando sua mãe pela selva da ilha de William Golding.

Então Bobby percebeu que as árvores e vinhas eram parte do papel de

parede, e que o chão sob os pés corredores de sua mãe eram o tapete

marrom. Não uma selva, mas um corredor de hotel.

Essa era a sua versão mental do Hotel Warwick.

O Sr. Biderman e os outros dois bananas ainda a perseguiam. E agora

também iam os rapazes do St. Gabe: Willie, Richie e Harry Doolin. Todos eles usavam aquelas maquiagens brancas e vermelhas, à base de tinta, no

rosto. Todos eles usavam gibões amarelos nas quais estavam desenhados

um olho brilhante e rubro: Fora os gibões, eles estavam nus. Suas partes íntimas subiam e desciam em ninhos emaranhados de pelos púbicos.

Todos, menos Harry Doolin, brandiam lanças; ele estava com seu bastão de beisebol. Ele havia sido aguçado em ambas as pontas.

– Matem a vadia! – Cushman berrou.

– Bebam o sangue dela! – Don Biderman gritou, e jogou sua lança em Liz Gar ield no momento em que ela virava em um corredor. A lança estava

presa, em uma das paredes pintadas de selva.

– En iem em sua boceta suja. – Gritou Willie (Willie que poderia ser legal quando não estivesse perto dos amigos). O olho rubro em seu peito

observava. Abaixo dele, seu pênis também parecia observar.

Corra, mãe! Bobby tentou gritar, mas nenhuma palavra saiu. Ele não tinha

boca, nem corpo. Ele estava lá, e ao mesmo tempo não estava. Ele voou ao

lado de sua mãe como sua própria sombra. Ele a ouviu engasgar a procura

de ar, viu sua boca aterrorizada e tremulante e suas meias rasgadas. Seu vestido caro também estava rasgado. Um de seus seios estava arranhado e

sangrava. Um de seus olhos estava quase fechado. Ela parecia ter lutado

uns rounds com Eddie Albini ou Hurricane Haywood. . ou ambos ao mesmo

tempo.

– Vou te abrir ao meio! – Richie urrou.

– Vou te comer viva! – Concordou Curis Dean (com um grito). – Vou beber

seu sangue, espalhar suas tripas!

Sua mãe olhou para trás e seu pé (ela havia perdido os sapatos em algum

lugar) enrolou-se no outro. Não faça isso, mãe, Bobby gritou. Pelo amor de Deus, não faça isso.

Como se ela o houvesse ouvido, Liz olhou novamente para frente e tentou

correr mais rápido. Ela passou por um cartaz na parede:

POR FAVOR NOS AJUDE ACHAR NOSSA PORCA DE ESTIMAÇÃO

LIZ é nossa MASCOTE!

LIZ TEM 34 ANOS DE IDADE!

Ela é uma PORCA DE TEMPERAMENTO RUIM mas NÓS A AMAMOS!

Fará o que você quiser se você disser “EU PROMETO”

(OU)

TEM DINHEIRO NESSA! LIGUE PARA HOusitonic 5-8337

(OU)

TRAGA-A ao WILLIAM PENN GRILLE!

Pergunte pelos HOMENS MAUS EM CASACOS AMARELOS!

Lema: “NÓS COMEMOS MAL PASSADO”

Sua mãe viu o cartaz também, e desta vez quando seus calcanhares se

entrelaçaram, ela caiu.

Levante-se, mãe! Bobby berrou, mas ela não o fez, talvez não pudesse fazê-

lo.

Ela arrastou-se pelo tapete, olhando por cima dos ombros enquanto seguia,

seu cabelo pendendo pelas bochechas e pela tenta em conjuntos suados.

As costas de seu vestido estavam dilaceradas, e Bobby podia ver tudo, suas

calcinhas haviam desaparecido. Pior, as costas de suas coxas estavam manchadas de sangue. O que haviam feito com ela?