Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 16 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 5

O suor era pungente, mas não ofensivo. O cheiro que vinha de baixo era menos prazeroso ainda. Eu havia participado de corridas no colégio

(forçado como um calouro a escolher entre fumar e correr, eu escolhera os

pregos do caixão) e havia cheirado aquela particular combinação antes,

normalmente quando um garoto com gripe ou garganta ferrada forçava a

si mesmo a correr mesmo assim. O único cheiro parecido é um

transformador de trem elétrico que ficou ligado por muito tempo.

Então ele havia passado por nós. Stoke Jones, que em breve seria

apelidado de Matador por Ronnie Malenfant, livre de seu aparelho das

pernas pelo resto da noite e a caminho de seu dormitório.

– Ei, o que foi isso? – Nate perguntou. Ele havia parado e olhava por cima

dos ombros. Skip e eu paramos e olhamos. Eu comecei a perguntar a Nate

o que ele estava vendo, então eu vi. Jones vestia uma jaqueta jeans. Nas costas dela, desenhado de piloto preto e visível à luz declinante daquele começo de noite de Outono, estava uma forma em círculo.

– Não sei. – Skip disse. – Parece uma pegada de passarinho.

O garoto de muletas se juntou à multidão à caminho de mais um jantar em

outra noite de Quinta-Feira em outro Outubro. A maioria dos garotos

estava barbeada; a maioria das garotas usava saias e blusas de botão, com

golas de Peter Pan. A lua estava quase cheia, jogando luz laranja neles. O

estouro da Era dos Esquisitos estava ainda a dois anos de distância, e

nenhum de nós três percebemos que havíamos visto um sinal da paz pela

primeira vez.

5

O café-da-manhã das manhãs de Sábado era o horário em que eu

trabalhava nos pratos em Holyoke. Era um bom trabalho para se ter porque o Commons nunca estava muito cheio nas manhãs de Sábado. Carol Gerber, a garota dos talheres, icou na frente da esteira. Eu estava próximo

dela; meu trabalho era pegar os pratos que vinham pela esteira, enxaguá-

los, e colocá-los no carrinho ao meu lado. Se o “trânsito” na esteira

estivesse pesado, como era na maioria das noites de semana, eu apenas

organizava os pratos, sujos e tudo mais, e os lavava mais tarde, quando as

coisas ficavam mais calmas.

O próximo da ila seria o rapaz dos copos (ou moça), que pegava os copos e

os colocava em uma máquina especial para lavar pratos. Holyoke não era

um lugar ruim para se trabalhar. Desde sempre algum escroto com a

sensibilidade de Ronnie Malenfant devolveria um kielbasa ou uma salsicha

do café-da-manhã não comido com um “cavalo de Tróia” espetado na

ponta, ou o mingau viria com um EU QUERO TE FODE escrito

cuidadosamente em pedaços de guardanapo (uma vez, na super ície de

uma tigela de sopa escrito em molho de carne estava a mensagem

AJUDEM-ME, ESTOU SENDO MANTIDO PRISIONEIRO EM UMA FACULDADE

DE VACAS), e você não acreditaria em como alguns garotos podem ser tão

porcos (pratos cheios de ketchup, copos de leite cheios com tomate

amassado, vegetais esmagados), mas realmente não era ruim,

especialmente nas manhãs de Sábado.

Eu tirei os olhos de Carol (que parecia extraordinariamente bonita tão

cedo na manhã), e vi Stoke Jones. Ele estava de costas para a janelinha em

que eram passados os pratos, mas você não tinha como deixar de perceber

as muletas encostadas perto dele, ou aquela igura peculiar desenhada nas

costas de sua jaqueta. Skip estava certo; parecia uma pegada de

passarinho (foi só quase um ano depois que eu vi um cara dizendo na TV que aquilo era “a pegada da grande galinha Americana”).

– Você sabe o que é aquilo? – eu perguntei a Carol, apontando.

Ela olhou por um longo tempo, e então balançou a cabeça.

– Não. Deve ser algum tipo de piada.

– Que nada. Stoke não faz piada.

– Minha nossa, você é um poeta e nem sabia.

– Pare, Carol, você está me matando.

Quando nosso turno havia acabado, eu andei com ela de volta ao

dormitório (dizendo a mim mesmo que eu estava apenas sendo legal, que

andar com Carol Gerber de volta ao Franklin Hall não me fazia ser in iel a

Annmarie Soucie lá em Gates Falls), então andei lentamente até o

Chamberlain, me perguntando se alguém saberia o que era aquela pegada

de passarinho. Ocorreu a mim só agora que eu nunca pensei em perguntar

ao próprio Jones. E quando eu cheguei ao meu andar, eu vi algo que

mudou a direção dos meus pensamentos inteiramente. Desde que eu havia

saído às seis e meia da manhã com um olho aberto para tomar meu lugar

ao lado de Carol na ila de pratos, alguém havia besuntado a porta de

David Dearborn com creme de barbear, por todos os lados, na maçaneta, e

com uma porção extra no chão. Neste “depósito” do chão havia uma

espécie de pegada que me fez sorrir. Dearie abre sua porta, vestido

apenas com uma toalha, à caminho do chuveiro, e vuuush, vejam só.

Ainda sorrindo, fui para o 302. Nate escrevia em sua mesa. Observando o

modo como mantinha um braço curvado, como se quisesse proteger seu

caderno, eu deduzi que era a carta do dia para Cindy.

– Alguém encheu a porta de Dearie de creme de barbear. – eu disse, me dirigindo às minhas prateleiras e pegando meu livro de geologia. Meu plano era voltar ao terceiro andar e estudar um pouco para o teste na

Quinta-Feira.

Nate tentou parecer sério e desaprovador, mas não conseguiu evitar um

sorriso.

Ele sempre tentava ser justo naqueles dias, e sempre escorregava um

pouquinho. Eu suponho que ele tenha melhorado com o tempo, o que é

uma pena.

– Você devia tê-lo ouvido gritar. – Nate disse. Ele riu pelo nariz, então pôs o

punho na boca para sufocar qualquer impropério. – E xingar. – E por um minuto lá estava ele, no time de Skip.

Nate olhava para mim com uma ruga de preocupação.

– Não foi você, não é? Porque eu sei que você já estava de pé cedo. .

– Se eu fosse decorar a porta de Dearie, eu teria usado papel higiênico. –

eu disse. – Todo meu creme de barbear vai apenas para a minha cara. Eu

sou um estudante pobre, como você. Lembra?

A ruga de preocupação suavizou e Nate mais uma vez pareceu um

santinho. Pela primeira vez eu percebi que ele estava sentado lá com

apenas uma cueca e o estúpido boné azul.

– Que bom. – ele disse. – Porque David estava gritando que ele pegaria quem havia feito e se certi icaria de que o cara levasse uma punição

disciplinar.

– Tudo isso por causa de uma merda de creme na porta dele? Eu duvido, Nate.

– É estranho, mas eu acho que ele falou sério. – Nate disse. – Às vezes David Dearborn me lembra daquele ilme sobre o capitão de navio louco.

Humphrey Bogart estava nele. Sabe de qual estou falando?

– Sim, A Nave da Revolta.

– Aham. E David. . bem, vamos apenas dizer que para ele, dar uma lição faz parte do ofício de ser monitor do andar.

No código de regras e comportamentos da Faculdade, expulsão era o pior,

reservado para ofensas como roubo, agressão, e posse/uso de drogas.

Vigilância disciplinar estava um passo abaixo disso, era a punição para

ofensas como ter uma garota em seu quarto (ter uma em seu quarto

depois do toque de recolher delas poderia levar à expulsão, por mais di ícil

de acreditar que isso seja hoje), ter álcool em seu quarto, trapacear nos testes, plagiar. Todas essas últimas ofensas poderiam teoricamente

resultar em expulsão, e nos casos de trapacear geralmente resultavam

(especialmente em casos envolvendo testes do meio e do im do semestre),

mas na maioria das vezes era uma punição disciplinar, que você carregava

por todo o semestre. Eu não gostaria de acreditar que um monitor tentaria

conseguir uma punição disciplinar do “Decano dos Homens” Garretsen, por

causa de uma inofensiva brincadeira dessas. . mas este era Dearie, um

sacana que havia insistido tanto por inspeções semanais dos quartos e

carregava consigo um banquinho para poder checar o topo das prateleiras

dos trinta e dois armários que ele parecia sentir fazer parte de sua

responsabilidade. Esta foi provavelmente uma idéia que ele teve no CTOR

(N.T. – Corporação de Treinamento de O iciais de Reserva, do original

“ReserveOfficers’ Training Corps – ROTC”. ), um programa que ele amava

tão ardentemente quanto Nate amava Cindy e Rinty. Ele também cuidava

das crianças (essa prática ainda era uma parte o icial da política da escola,

embora tenha sido esquecida fora do programa CTOR) que não faziam os

deveres de casa. Com faltas o su iciente você aterrissava na Punição

Disciplinar. Em teoria você poderia ser reprovado, perder seu deferimento,

entrar pelo cano, e acabar indo para o Vietnã desviar das balas, porque você repetidamente esqueceu-se de esvaziar o lixo ou varrê-lo para

debaixo da cama.

David Dearborn era um rapaz de empréstimos e bolsas de estudo também,

e seu trabalho como monitor, também em teoria, não era diferente do meu

de lavar pratos.

Entretanto, essa não era a teoria de Dearie. Dearie considerava a si mesmo

“Um Degrau Acima do Resto”, um dos poucos, o orgulhoso, o bravo. A

família dele veio da costa, você sabe; de Falmouth, onde em 1966 ainda

havia mais de cinqüenta Leis Dominicais herdadas dos Puritanos nos

livros. Algo havia acontecido a sua família, Havia Derrubado-os, como uma

família em um velho melodrama, mas Dearie ainda estava vestido como um

formando da Escola Preparatória de Falmouth, vestindo um blazer nas

aulas e um terno nos Domingos. Nenhuma outra pessoa poderia ser mais

diferente do que Ronnie Malenfant, com sua boca suja, seus preconceitos, e

seu brilho com números.

Quando eles passavam pelo corredor você quase poderia ver Dearie

diminuir perto de Ronnie, cujos cabelos ruivos enrolavam em um rosto que

parecia querer fugir dele mesmo, a tesa protuberante, e um queixo quase

não existente. . sem mencionar os lábios tão vermelhos que quase

pareciam estar usando alguma coisa barata e extravagante da loja de 1,99.

Dearie não gostava de Ronnie, mas Ronnie não tinha que encarar essa

desaprovação sozinho; Dearie parecia não gostar de qualquer garoto que monitorava.

Não gostávamos dele, tampouco, e Ronnie o odiava completamente. O ódio

de Skip Kirk se misturava com desprezo. Ele estivera na CTOR com Dearie

(ao menos até Novembro, quando Skip largou o curso), e ele disse que Dearie era ruim em tudo, exceto em puxar saco. Skip, que quase havia sido chamado para o time de beisebol All-State como um formando, tinha uma

queixa especí ica sobre nosso monitor: Dearie, Skip disse, não colocava pra

fora. Para Skip esse era o pior dos pecados. Você tinha que colocar pra fora. Mesmo que você apenas estivesse apenas descascando a banana,

você tinha que colocar pra fora.

Eu detestava Dearie como qualquer um. Eu posso suportar vários

sentimentos humanos, mas eu abomino sacanas. Ainda assim eu nutri um

pouco de simpatia por ele, também. Ele não tinha senso de humor, por

exemplo, e eu acredito que isso seja uma de iciência incapacitante assim

como o que quer que tenha dado de errado com a metade de baixo de

Stoke Jones. Por outro lado, eu não acho que Dearie gostava muito de si mesmo.

– Punição disciplinar não vai ser um problema se ele nunca achar o

culpado. – eu disse a Nate. – Mesmo se achar, eu duvido muito que

“Decano” Garretsen iria concordar em espancar alguém só por encher a

porta do monitor de creme. – ainda assim, Dearie poderia ser persuasivo.

Ele poderia ser um “Derrubado”, mas ele tinha aquele algo que o mantinha

no degrau de cima. “Trotador”, era como Skip o chamava, porque ele não

corria por um campo de futebol durante os exercícios do CTOR, mas

apenas iria numa caminhada rápida.

– Contanto que você não tenha feito. – Nate disse, e eu quase ri. Nate Hoppenstand sentando lá de cuecas e boné, com seu peito estreito, sem

cabelos, e pontilhado de sardas. Nate olhando para mim seriamente com

seu proeminente tórax magricela. Nate bancando o papai. Abaixando a voz,

ele disse:

– Você acha que foi Skip?

– Não. Se eu tivesse que adivinhar quem neste andar iria pensar que besuntar a porta do monitor de creme de barbear seria uma coisa hilária,

eu diria. .

– Ronnie Malenfant.

– Certo. – eu apontei meu dedo para Nate como uma arma e fiz uma careta.

– Eu vi você indo para o Franklin com aquela loirinha. – ele disse. – Carol.

Ela é bonita.

– Só estava lhe fazendo companhia.

Nate icou lá sentado com sua cueca e seu boné, sorrindo como se

soubesse de algo mais. Talvez soubesse. Eu gostava dela, isso é certo,

embora eu não a conhecesse muito, apenas que ela era de Connecticut.

Não muitos vinham de lá para serem estudantes-trabalhadores aqui.

Eu desci até o salão comunal, com meu livro de geologia sob o braço.

Ronnie estava lá, usando seu boné com a aba levantada de modo que

parecia um repórter da Fedora. Sentado com ele estavam dois outros

rapazes de nosso andar, Hugh Brennan e Ashley Rice. Nenhum deles

parecia como se estivessem tendo a manhã de Sábado mais excitante do

mundo, mas quando Ronnie me viu, seus olhos brilharam.

– Pete Riley! – ele disse. – Justamente o homem que eu procurava! Você sabe como jogar Copas?

– Sim. Para minha sorte, também sei estudar. – eu levantei meu livro de geologia, já pensando que era melhor descer ao salão do segundo andar,

isso, é claro, se eu realmente quisesse estudar. Porque Ronnie nunca se

calava. Era aparentemente incapaz de se calar. Ronnie Malenfant era a original boca-motor.

– Vamos, só um jogo até cem. – ele adulou. – Estamos jogando um níquel por ponto, e estes dois jogam Copas como velhos.

Hugh e Ashley sorriram debilmente, como se ele os houvesse elogiado. Os

insultos de Ronnie eram tão brutos e sem noção, que a maioria dos caras os encarava como brincadeira, talvez até como elogios camuflados. Eles não era nenhuma das duas coisas. Ronnie falava sério em cada xingamento que

já pronunciara.

– Ronnie, eu tenho um teste na Quinta-Feira, e eu não consigo entender

essas coisas sobre as geossinclinais.

– Que se foda as geossinclinais. – Ronnie disse, e Ashley Rice riu. – Você ainda tem o resto do dia, amanhã, e toda a Segunda-Feira para estudar

essa merda.

– Eu tenho aula na Segunda e amanhã eu e Skip vamos para Oldtown. Eles

vão fazer um sermão em aberto na igreja Metodista e nós. .

– Pare, desista, poupe meu saco e não fale comigo sobre essa merda

popular.

Miguel pode remar seu maldito barco em meu rabo, ta? Ouça, Pete. .

– Ronnie, eu realmente. .

– Vocês dois palermas não saiam daqui. – Ronnie deu a Ashley e Hugh um

olhar sinistro. Nenhum deles discutiu com ele. Eles provavelmente tinham

dezoito como o resto de nós, mas qualquer um que já tenha freqüentado a

faculdade lhe dirá que alguns “dezoitoanistas” muito jovens aparecem a

cada Setembro, especialmente em estados rurais. Era com os jovens que

Ronnie obtinha sucesso. Eles o respeitavam. Ele pegava seus vales de

refeição, batia neles com a toalha no chuveiro, os acusava de apoiar as metas do Reverendo Martin Luther Tição (a quem, Ronnie lhe diria, dirigiu

para protestar em seu Jaguar), pegava o dinheiro deles, e responderia

qualquer pedido de jogo com um “minha bunda na sua cara, otário”. Eles

amavam Ronnie a despeito de tudo isso. . por causa de tudo isso. Eles o amavam porque ele era tão. . universitário.

Ronnie me pegou agarrou ao redor do pescoço e tentou me levar para fora

do salão para falar comigo em particular. Eu, que não tinha tanto respeito assim por ele e estava um pouco enojado pela selva de aroma que saia de

suas axilas, peguei seus dedos, os puxei, e removi sua mão.

– Não faça isso, Ronnie.

– Oh, cara, oh, tá, tá, tá! Apenas venha aqui um minuto, beleza? E pare com

isso, isso dói! Além disso, é a mão com que eu punheto! Jesus! Porra!

Eu soltei sua mão (pensando se ele a lavava depois de bater uma) mas o deixei me levar para fora do salão. Aqui ele me pegou pelos braços, falando

seriamente, com seus olhos remelentos bem abertos.

– Estes caras não sabem jogar. – ele disse em um sussurro con idencial. –

Eles são uma dupla de retardados, Petesky, mas eles amam o jogo. Amam pra porra, saca?

Eu não amo, mas diferente deles, eu sei jogar. E também eu estou duro e tem uns ilmes do Bogart no cinema hoje à noite no Hauck. Se eu puder

tirar uns dois mangos deles. .

– Filmes do Bogart? Seria um deles A Nave da Revolta?

– Isso mesmo, A Nave da Revolta e O Falcão Maltês, Bogie em seu melhor, olhando para você, queridinha. Se eu puder ganhar daqueles dois amebas, eu posso ir.

Se eu conseguir quatro mangos, posso chamar uma cona do Franklin para

ir comigo, talvez ganhar um boquete depois. – Esse era Ronnie, sempre

romântico. Eu tinha uma imagem dele como Sam Spade em O Falcão Maltês,

dizendo a Mary Astor para largar e engolir. A idéia foi o bastante para fazer meu diafragma inchar.

– Mas tem um grande problema, Pete. Copas de três jogadores é arriscado.

Quem ousa acertar a lua quando você tem aquela maldita carta sobrando

para se preocupar?

– Como você está jogando? O jogo termina aos cem, todos os perdedores

pagam ao vencedor?

– Sim. E se você entrar, eu te darei metade. E também lhe darei o que você perdeu. – ele me iluminou com um sorriso inocente.