Corações na Atlântida
Capítulo 21
tipo que te amadurecia.
– O que me diz, Pete? – ele perguntou. – Quer jogar um pouco?
– Talvez mais tarde. – eu disse, e comecei a descer pelo corredor. Stoke
Jones estava saindo do banheiro em um velho roupão surrado. Suas muletas deixavam marcas molhadas circulares no chão de linóleo
vermelho-escuro. Eu me perguntei como ele havia se saído no banheiro;
certamente não havia nenhum dos corrimões e apoios para aleijados que
mais tarde se tornaram obrigatórios em banheiros. Entretanto ele não
parecia que gostaria muito de discutir o assunto. Esse ou qualquer outro assunto.
– Como vai, Stoke? – eu perguntei.
Ele passou sem responder, com a cabeça abaixada, os cabelos pregados em
suas bochechas, o sabão e a toalha embaixo de um braço, murmurando
“mate-mate, mates-mate” sob sua respiração. Ele nem mesmo olhou para
mim. Diga o que quiser para Stoke Jones, você poderia depender dele se
quisesse receber o “vá se foder” do dia.
21
Carol já estava no Holyoke quando eu cheguei lá. Ela havia trazido duas caixas de leite da área onde as lixeiras estavam alinhadas e estava sentada
em uma delas, as pernas cruzada, fumando um cigarro. Eu sentei em outra,
pus meu braço ao redor dela, e a beijei. Ela pôs a cabeça em meu ombro por um momento, sem dizer nada. Isso não combinava com o jeito dela,
mas foi legal. Eu mantive meu braço ao redor dela e olhei para as estrelas.
A noite estava calma para aquela época tardia da estação, e muitas pessoas
(casais, em sua maioria) estavam passeando, tirando vantagem do clima.
Eu podia ouvir os murmúrios das conversas. Acima de nós, no salão de
jantar do Commons, um rádio estava tocando “Hang On, Sloopy”. Um dos
zeladores, eu suponho.
Carol levantou a cabeça inalmente e se afastou um pouco de mim (apenas
o su iciente para que eu soubesse que já poderia recolher o braço). Isso sim combinava com o jeito dela.
– Obrigada. – ela disse. – Eu precisava de um abraço.
– O prazer foi meu.
– Eu estou com um pouco de medo de encarar meu pai. Não realmente
apavorada, mas um pouco.
– Vai icar tudo bem. – não dizia isso porque eu realmente achava que
icaria, eu não poderia saber disso, mas é porque é isso que você tem que
dizer, não? Apenas o que você diz.
– Meu pai não é a razão de eu ter ido com Harry, George e o resto. Não é
uma grande rebelião Freudiana, ou qualquer coisa assim.
Ela jogou seu cigarro fora e o assistiu cuspir faíscas quando se chocou aos
tijolos da Trilha de Bennett. Então ela pegou sua bolsa, aninhada em seu colo, a abriu, achou sua carteira, a abriu, e folheou uma seleção de fotos presa naquelas pequenas janelas de celulóide. Ela parou, tirou uma, e
passou para mim. Eu me inclinei para ver à luz que caia das janelas do salão de jantar, onde os zeladores provavelmente estavam limpando os
andares.
A foto mostrava três crianças de onze ou doze anos, uma menina e dois
meninos.
Todos usavam camisas azuis com as palavras CLUBE STERLING nelas em
letras vermelhas e garrafais. Eles estavam em um estacionamento em
algum lugar, e seus braços estavam ao redor de cada um, uma pose de
“amigos para sempre” que era meio que bonita. A menina estava mo meio.
A menina era Carol, é claro.
– Qual deles é Sully-John? – eu perguntei. Ela olhou para mim, um pouco surpresa. . mas com o sorriso. De qualquer forma, eu achei que já sabia.
Sully-John seria aquele com os ombros largos, o sorriso aberto, o cabelo preto desarrumado. Me lembrou o cabelo de Stoke, embora o menino
obviamente houvesse passado um pente em sua cabeleira. Eu apontei para
ele.
– Este aqui, certo?
– É Sully. – ela concordou, então tocou o rosto do outro menino com uma unha.
Ele tinha queimaduras de sol, ao invés de um bronzeado. Seu rosto era mais estreito, os olhos um pouco juntos, o cabelo ruivo como uma cenoura
e cortado em escovinha que o fazia parecer uma criança na capa do
Saturday Evening Post de Norman Rockwell.
Havia uma leve ruga em sua testa. Os braços de Sully já eram musculosos
para uma criança; o outro menino tinha braços magros, braços de vareta.
Eles ainda provavelmente eram braços de vareta. Na mão que não
abraçava o ombro de Carol, ele usava uma grande luva marrom de
beisebol.
– Este aqui é Bobby. – ela disse. Sua voz mudou, de algum modo. Havia algo
nela que eu nunca havia ouvido antes. Seria dor? Mas ela ainda sorria. Se
era dor que ela sentia, porque sorria? – Bobby Gar ield. Ele foi meu
primeiro namorado. Meu primeiro amor, eu acho que você poderia dizer.
Ele e Sully eram melhores amigos naquela época. Não há muito tempo
atrás, em 1960, mas parece há muito tempo.
– O que aconteceu com ele? – de algum modo eu tinha certeza de que ela me diria que ele havia morrido, este menino com o rosto estreito e o cabelo
de escovinha ruivo como cenoura.
– Ele e a mãe se mudaram. Correspondemos-nos por um tempo, e então
perdemos contato. Sabe como as crianças são.
– Bela luva de beisebol.
Carol ainda tinha aquele sorriso. Eu podia ver as lágrimas que haviam
surgido em seus olhos enquanto estávamos sentados olhando para foto,
mas ainda sustentava aquele sorriso. Na luz branca das luzes fluorescentes
do salão de jantar, suas lágrimas pareceram prateadas, as lágrimas de uma
princesa de contos de fada.
– Era o objeto favorito de Bobby. Tem um jogador de beisebol chamado
Alvin Dark, certo?
– Houve um.
– Era o tipo de luva que Bobby tinha. Um modelo Alvin Dark.
– O meu era Ted Williams. Eu acho que minha mãe a vendeu há uns anos atrás.
– A de Bobby foi roubada. – Carol disse. Eu não tinha certeza de que ela ainda sabia que eu estava lá. Ela continuou a tocar aquele rosto estreito, levemente franzido com a ponta do dedo. Era como se ela houvesse
regressado ao seu próprio passado. Eu ouvi dizer que hipnólogos podem
fazer isso com bons objetos. – Willie a pegou.
– Willie?
– Willie Shearman. Eu o vi jogando bola com ela um ano depois, no Clube Sterling. Eu iquei tão furiosa. Minha mãe e meu pai estavam sempre
brigando nesta época, trabalhando no divórcio, eu acho, e eu icava furiosa
o tempo todo. Furiosa com eles, com meu professor de matemática, e com o
mundo todo. Eu ainda tinha medo de Willie, mas eu sentia mais raiva dele. .
e além disso, eu não estava sozinha, não naquele dia. Então eu marchei
direto para ele e disse que sabia que aquela era a luva de Bobby, e que ele
a devolveria para mim. Eu disse que tinha o endereço de Bobby em
Massachusetts e a mandaria para ele. Willie disse que eu estava louca, era
a luva dele, e ele me mostrou seu nome do lado. Ele havia apagado o de Bobby, ou o melhor que pôde, de qualquer forma, e escrito o seu onde o dele estivera. Mas eu ainda consegui ver o bby do Bobby.
Uma assustadora espécie de indignação havia penetrado em sua voz. A fez
soar mais jovem. E parecer mais jovem. Eu suponho que minha memória possa estar errada sobre isso, mas eu acho que não está. Sentado lá na ponta com a luz branca do salão de jantar, eu acho que ela parecia ter doze
anos. Treze no máximo.
– Entretanto ele não conseguiu apagar a assinatura de Alvin Dark no bolso,
ou escrever por cima. . e ele pintou. Vermelho escuro. Vermelho como
rosas. Então. . sabe de uma coisas? Ele se desculpou pelo que ele e seus dois amigos izeram comigo. Ele foi o único que fez isso, e acho que falou sério. Mas ele mentiu sobre a luva. Eu não acho que ele queria; era velha, e
o elástico estava soltando e parecia errada em sua mão, mas ele mentiu
para que pudesse ficar com ela. Eu não entendo o porquê. Nunca entendi.
– Não consigo te acompanhar nisso. – eu disse.
– E por que conseguiria? Está tudo confuso em minha mente e eu estava lá.
Minha mãe me disse uma vez que isso acontece com pessoas que
estiveram em acidentes ou lutas. Eu me lembro de algumas coisas muito
bem (na maioria as partes em que Bobby está envolvido), mas quase tudo
diverge do que as pessoas me disseram mais tarde. Eu estava no parque
no im da rua da minha casa, e estes três garotos vieram: Harry Doolin, Willie Shearman, e outro. Eu não consigo lembrar o nome do outro. Não
importa, de qualquer forma. Eles me espancaram. Eu tinha apenas onze
anos, mas isso não os parou. Harry Doolin me bateu com um bastão de
beisebol. Willie e o outro me seguraram para que eu não pudesse fugir.
– Um bastão de beisebol. Está brincando comigo?
Ela balançou a cabeça.
– No começo eles estavam brincando, eu acho, e então. . não estavam mais.
Meu braço foi deslocado. Eu gritei e acho que fugiram. Eu sentei lá, segurando meu braço, machucada demais, e. . chocada demais. . para saber
o que fazer. Ou talvez eu tentei me levantar e conseguir ajuda por mim mesma e não consegui. Então Bobby apareceu. Ele me ajudou a andar para
fora do parque e então me pegou e me carregou até o seu apartamento.
Subindo todo o caminho pela ladeira da Broad Street em um dos dias mais
quentes do ano. Ele me carregou nos braços.
Eu peguei a foto dela, a segurei contra a luz, e me inclinei. Ela era alguns poucos centímetros mais alta que ele, e mais larga nos ombros. Eu olhei para o outro menino, Sully. Ele do cabelo preto bagunçado, e o sorriso
americano. O cabelo de Stoke Jones; o sorriso de Skip Kirk. Eu podia ver Sully a carregando nos braços, com certeza, mas o outro menino. .
– Eu sei. – ela disse. – Ele não parece forte o su iciente, parece? Mas ele me
carregou. Eu comecei a desmaiar e ele me carregou. – ela pegou a foto de
volta.
– E enquanto ele fazia isso, esse garoto Willie, que ajudou a baterem em você, voltou e roubou a luva?
Ela assentiu.
– Bobby me levou ao seu apartamento. Havia um velho que vivia em um quarto no andar de cima, Ted, que parecia saber um pouco mais sobre
tudo. Ele colocou meu braço no lugar. Eu me lembro que ele me deu seu cinto parar morder quando o fez. Ou talvez fosse o cinto de Bobby. Ele disse que eu poderia capturar a dor, e eu o iz. Depois disso. . depois disso,
algo ruim aconteceu.
– Pior do que ser espancada com um bastão de beisebol?
– De certo modo. Eu não quero falar sobre isso. – ela enxugou as lágrimas
com uma mão, primeiro de um lado e depois do outro, ainda olhando para
a foto. – Mais tarde, antes dele e sua mãe se mudarem de Harwich, Bobby
espancou o garoto que usou o bastão. Harry Doolin.
Carol pôs a fotografia de volta em seu pequeno compartimento.
– O que eu me lembro de melhor nesse dia, a única coisa que valhe a pena lembrar, é que Bobby Gar ield me defendeu. Sully era maior, e Sully
poderia ter me defendido se ele estivesse lá, mas ele não estava. Bobby estava, e ele me carregou o caminho todo ladeira acima. Ele fez o que era certo. Foi a melhor coisa, a coisa mais importante, que alguém já fez por mim em minha vida. Você entende isso, Pete?
– Sim. Eu entendo.
Eu entendi outra coisa também: ela estava dizendo quase a mesma coisa
que Nate havia dito há menos de uma hora antes. . só que ela havia
marchado. Havia pego uma das placas e marchado com ela. É claro que
Nate Hoppenstand nunca havia sido espancado por três garotos que
começaram brincando e então decidiram que a coisa seria séria, a inal de contas. E talvez essa fosse a diferença.
– Ele me carregou ladeira acima. – ela disse. – Eu sempre quis dizer a ele o
quanto eu o amei por isso, e o quanto eu o amei por mostrar a Harry
Doolin que há um preço a se pagar por machucar pessoas, especialmente
as pessoas que são menores que você e que são inofensivas.
– Então você marchou.
– Eu marchei. Eu queria dizer a alguém o porquê. Eu queria dizer a alguém
que entenderia. Meu pai não iria, e minha mãe não poderia. Sua amiga Rionda me ligou e disse. . – ela não terminou, apenas icou lá sentada
mexendo em sua bolsinha.
– Disse o quê?
– Nada. – ela soou exausta e sem esperança. Eu queria beijá-la, ao menos pôr meu braço ao redor dela, mas eu tinha medo que isso estragasse o que
havia acabado de acontecer. Porque algo havia acontecido. Havia mágica em sua história. Não no meio, mas em algum ponto pelas pontas. Eu senti isso.
– Eu marchei, e eu acho que me juntarei ao Comitê da Resistência. Minha colega de quarto disse que eu enlouqueci. Eu nunca vou conseguir um
emprego se um comitê de grupo de estudantes izer parte dos meus
registros universitários, mas eu acho que vou fazê-lo.
– E seu pai? O que fará sobre ele?
– Que ele se foda.
Houve um momento meio chocante quando percebemos o que ela havia
acabado de dizer, e então Carol riu.
– Agora isso é Freudiano. – Ela se levantou. – Eu tenho que voltar e estudar.
Obrigada por vir até aqui, Pete. Eu nunca mostrei essa foto para ninguém.
Eu mesma não olhava para ela só Deus sabe há quanto tempo. Eu me sinto
melhor. Muito melhor.
– Bom. – eu me levantei. – Antes de entrar, você pode me ajudar com uma
coisa?
– Claro, o que é?
– Eu vou te mostrar. Não vai demorar.
Eu andei com ela pelo lado do Holyoke, e então começamos a subir a
ladeira atrás dele. Cem metros depois estava o estacionamento Steam
Plant, onde os estudantes tinham que usar identi icação (calouros,
universitários do segundo ano, a maioria novatos) para estacionar. Era o ponto principal para se transar quando icava frio, mas transar no meu
carro não era uma idéia que eu tinha naquela noite.
– Você contou a Bobby quem pegou sua luva? – eu perguntei. – Você disse
que escrevia para ele.
– Não vi motivo para isso.
Nós andamos em silêncio por um momento. Então eu disse:
– Eu vou terminar com Annmarie no Dia de Ação de Graças. Eu comecei a
ligar para ela, e então desliguei. Mas seu eu vou fazer, é melhor eu achar coragem para fazer isso cara a cara. – eu não percebi que havia chegado a
tal decisão, não conscientemente, mas parece que eu havia. Certamente não era algo que eu queria dizer apenas para agradar Carol.
Ela assentiu, passando pelas folhas em seus tênis, segurando sua bolsinha
em uma das mãos sem olhar para mim.
– Eu telefonei. Ligue para S-J e disse que estava vendo um cara.
Eu parei.
– Quando foi isso?
– Semana passada. – agora ela olhou para mim. Covinhas; lábio inferior
ligeiramente curvado; o sorriso.
– Semana passada? E você não me contou?
– Era assunto meu. – ela disse. – Meu e de Sully. Quero dizer, não é como se
ele viesse atrás de você com um. . – ela parou por tempo o su iciente para
ambos pensarmos com um bastão de beisebol e então continuou. – Que ele vai vir atrás de você, ou qualquer coisa assim. Vamos, Pete. Se vamos fazer
alguma coisa, então vamos logo.
Mas eu não vou passear de carro com você. Eu realmente tenho que
estudar.
– Nada de passeios.
Começamos a andar novamente. O estacionamento parecia grande para mim naqueles dias, centenas de carros estacionados em dúzias de ileiras
iluminadas pela luz da lua. Eu mal conseguia lembrar onde havia deixado o
velho Ford Wagon de meu irmão. Da última vez que eu voltei a U do M, o estacionamento estava três, talvez quatro vezes maior, com espaço para
milhares de carros ou mais. O tempo passa e tudo fica maior, exceto nós.
– Ei, Pete? – Ainda andando. Olhando para os tênis de novo, embora
estivéssemos no asfalto e não houvesse mais folhas para se pisar.
– Sim?
– Eu não quero que você termine com Annmarie por minha causa. Porque eu tenho a impressão de que seremos. . temporários. Certo?
– Claro. – o que ela me disse me fez infeliz, era ao que os cidadãos de Atlântida se referiam ao dizer putz grilla, mas isso realmente não me surpreendeu. – Eu acho que terá que ser assim.
– Eu gosto de você, e eu gosto de estar com você agora, mas é só gostar, isso é tudo, e é o melhor, para ser honesta. Então se quiser icar de boca fechada quando voltar para casa no feriado. .
– Tipo mantê-la em casa? Tipo como um estepe no caso de estourarmos um
pneu aqui na faculdade?
Ela pareceu espantada, e então riu.
– Touché. – ela disse.
– Touché pelo quê?
– Não faço idéia, Pete. . mas eu realmente gosto de você.
Ela parou, virou-se para mim, pôs os braços ao redor de meu pescoço.
Beijamos-nos por um tempo entre duas vagas de carro, nos beijamos até
que eu tive uma ereção bem decente, uma que eu tinha certeza de que
poderia sentir. Então ele me deu um último beijinho nos lábios, e
recomeçamos a andar.
– O que Sully disse quando você contou a ele? Eu não sei se deveria perguntar, mas. .
– Mas você quer informação. – ela disse em uma voz brusca, imitando o Número Dois. Então ela riu. Era o riso magoado. – Eu esperava que ele
icasse furioso, ou que talvez chorasse. Sully é grande e ele assusta os outros jogadores de beisebol com quem joga, mas seus sentimentos estão
sempre próximos da pele. O que eu não esperava era alívio.
– Alívio?
– Alívio. Ele estivera vendo esta garota em Bridgeport por um mês ou
mais. . só que a amiga de minha mãe, Rionda, disse que na verdade ela é uma mulher, talvez com vinte e quatro ou vinte e cinco.
– Soa como uma receita para um desastre. – eu disse, esperando soar
comedido e pensativo. Na verdade eu estava satisfeito. Claro que estava. E se o pobre e velho John Sullivan, com seu coração terno havia tropeçado numa letra de uma canção sertaneja de Merle Haggard, bem, quatrocentos