Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 13 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 2

também). )

1

Quando eu cheguei na Universidade do Maine em 1966, ainda havia um

adesivo Goldwater rasgado e meio apagado, mas perfeitamente legível

(AuH2O-4-USA), no velho Station Wagon que eu herdara de meu irmão.

Quando eu deixei a Universidade em 1970, eu não tinha mais carro. O que

eu tinha era uma barba, cabelos que batiam nos ombros, e uma mochila

com um adesivo que dizia RICHARD NIXON é UM CRIMINOSO DE GUERRA.

O button no colarinho de minha jaqueta jeans dizia EU NÃO SOU UM FILHO

AFORTUNADO. A faculdade era sempre um tempo de mudança, eu acho, a

última grande convulsão da infância, mas eu duvido que tenham havido

mudanças de tanta magnitude como aquelas enfrentadas pelos estudantes

que chegaram aos seus campus no fim dos anos sessenta.

A maioria de nós não fala muito sobre aqueles anos agora, não porque não

nos lembramos deles, mas porque a linguagem que falávamos naquela

época se perdeu. Quando eu tento falar sobre os anos sessenta (mesmo

quando eu tento pensar neles), eu sou tomado pelo horror e pela

hilaridade. Eu vejo calças de boca de sino e Sapatos da Terra. Eu fumo maconha e patchuli, incenso e menta. E eu escuto Donovan Leitch cantando

sua doce e estúpida canção sobre o continente de Atlântida, letras que

parecem profundas para mim nas vigílias noturnas, quando eu não consigo

dormir. Quanto mais velho eu ico, mais di ícil é esquecer e superar a

estupidez daquela canção, e me segurar em sua doçura. Eu tenho que

lembrar a mim mesmo que naquela época éramos menores, menores o su iciente para vivermos nossas brilhantes e coloridas vidas embaixo dos cogumelos, o tempo todo acreditando que eles eram árvores, uma proteção

do céu que nos protege. Eu sei que isso não tem qualquer sentido real, mas

é o melhor que eu posso fazer: saudar Atlântida.

2

Eu terminei meu último ano vivendo fora do campus, nos Acres do LSD,

nas cabanas apodrecidas lá perto do rio Stillwater, mas quando eu cheguei

à U do M em 1966, eu vivia no Chamberlain Hall, que era parte de um

complexo de três dormitórios: Chamberlain (para homens), King (homens),

e Franklin (mulheres). Também havia o salão de jantar, o Holyoke

Commons, que icava um pouco longe dos dormitórios (mas não tanto),

talvez uns duzentos metros, mas parecia longe nas noites de inverno, ou

quando o vento estava forte, e a temperatura icava abaixo de zero. Longe

o bastante para o Holyoke ser conhecido como o Palácio das Planícies.

Eu aprendi muito na faculdade, pouco disso dentro da sala de aula. Eu

aprendi a como beijar uma garota e pôr uma camisinha ao mesmo tempo

(uma necessária, mas freqüentemente negligenciada habilidade).

Como beber uma lata de meio litro de cerveja sem vomitar, como ganhar

uma grana extra em meu tempo livre (escrevendo trabalhos de pesquisa

para garotos com mais dinheiro do que eu, o que seria a maioria deles), como não ser um Republicano, mesmo eu tendo vindo de uma longa

linhagem deles, como ir para as ruas com uma placa acima da cabeça,

cantando Um, dois, três, quatro, não vamos lutar na porra da sua guerra e Ei, e i , LBJ (N.T. – Iniciais do Presidente americano Lyndon Baines Johnson (1963-1969). ) sabe quantas crianças você matou hoje . Eu aprendi que você deveria icar a favor do vento do gás lacrimogêneo e respirar

lentamente em um lenço, ou em uma bandana, se não tivesse um. Eu

aprendi que quando os cassetetes entrassem em cena, você deveria se

jogar no chão, encolher os joelhos até o peito, e cobrir a parte de trás de sua cabeça com suas mãos. Em Chicago, em 1968, eu aprendi que os tiras

podem te bater bonito não importa o quanto você se proteja Mas antes que eu aprendesse essas coisas, eu aprendi sobre os prazeres e perigos de

Copas. Havia dezesseis quartos que comportavam trinta e dois garotos no

terceiro andar do Chamberlain Hall no Outono de 1966; em Janeiro de

1967, dezenove destes garotos ou haviam se mudado, ou haviam sido

reprovados, vítimas de Copas. A coisa nos varreu naquele Outono como

uma onda virulenta de gripe. Apenas três dos rapazes no Terceiro estavam

completamente imunes, eu acho. Um era o meu colega de quarto, Nathan

Hoppenstand. Outro era David “Dearie” Dearborn, o monitor do andar.

O terceiro era Stokely Jones III, que em breve seria conhecido pelos

cidadãos de Chamberlain Hall como “Matador”. Às vezes eu acho que é

sobre Matador que eu quero lhes falar; às vezes eu acho que é sobre Skip

Kirk (mais tarde conhecido como Capitão Kirk, é óbvio), que foi o meu

melhor amigo durante aqueles anos; às vezes eu acho que é sobre Carol.

Constantemente eu acredito que é sobre os próprios anos sessenta que eu

quero falar, embora isso sempre tenha parecido impossível para mim. Mas

antes que eu fale de qualquer uma dessas coisas, é melhor eu contar a

vocês sobre Copas.

Skip disse uma vez que Uíste é Bridge para viciados, e Copas é Bridge para

os verdadeiros viciados. Você não vai obter qualquer argumento de mim, embora isso meio que fuja do ponto. Copas é divertido, esse é o ponto, e quando você joga por dinheiro (um níquel por ponto era a aposta normal

em Chamberlain Três), ele rapidamente se torna uma coisa compulsiva. O

número ideal de jogadores é quatro.

Todas as cartas são repartidas e então jogadas em turnos. Cada mão

equivale a um total de vinte e seis pontos: treze copas por ponto, e a rainha de espadas (que nós chamávamos de A Puta), valia treze pontos sozinha. O