Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 6 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 5

trocadas por notas, e as notas iam parar no catálogo? Não havia como ele saber de uma coisa dessas, mas enquanto estava ali deitado em sua cama,

ouvindo “Earth Angel” substituir “Twilight Time”, ele sabia que o catálogo estava lá.

Ele sabia porque ela sabia, e isso havia cruzado o fronte da mente dela. E

na roda gigante ele sabia que Carol queria que ele a beijasse novamente porque esse havia sido seu primeiro beijo de verdade dado por um menino

e ela não estava prestando muita atenção; havia acontecido antes mesmo

dela perceber. Mas saber disso não era a mesma coisa que prever o futuro.

– Não, foi apenas leitura de mentes. – ele sussurrou, e então sentiu o corpo tremer, como se suas queimaduras houvessem se transformado em gelo.

Cuidado, Bobby-O, se não tiver cuidado vai acabar tão maluco quanto Ted com seus homens maus.

Ao longe, na praça da cidade, o relógio começou a badalar a décima hora.

Bobby virou a cabeça e olhou para o relógio-alarme em seu criado-mudo. O

Big Ben mostrou que era nove e cinqüenta e dois.

Tudo bem, então o relógio da cidade é um pouco mais rápido, ou o meu é um pouco mais lento. Grande coisa. Vamos dormir.

Ele não achou que poderia fazer isso ao menos por um tempo, mas havia

sido um dia cheio: discussões com sua mãe, dinheiro ganho com apostas de

cartas, beijos no topo de uma roda gigante. E ele começou a deslizar em um

pensamento prazeroso.

Talvez ela seja minha namorada, Bobby pensou. Talvez ela seja minha namorada, afinal de contas.

Com o último badalo prematuro do relógio da praça ainda sumindo no ar,

Bobby adormeceu.

5

Bobby Lê o Jornal. Marrom, com o Peito Branco.

Uma Grande Chance para Liz. Acampamento Broad Street.

Uma Semana Difícil. Indo para Providence.

Na Segunda-Feira, depois que sua mãe havia saído para trabalhar, Bobby

subiu as escadas para ler o jornal para Ted (embora seus olhos estivessem

bons o bastante para ele fazer isso sozinho, Ted disse que gostava do som

da voz de Bobby e o luxo de alguém ler para ele enquanto ele se

barbeava). Ted estava em seu pequeno banheiro com a porta aberta, tirando a espuma de seu rosto, enquanto Bobby tentava ler algumas das

várias manchetes das várias seções.

– “A GUERRA DO VIETNÃ COMEÇA A SE INTENSIFICAR?”

– Antes do café da manhã? Obrigado, mas não.

– “CARRINHOS SEQÜESTRADOS, HOMEM LOCAL PRESO?”

– Leia o primeiro parágrafo, Bobby.

– “Quando a polícia apareceu em sua residência na Pond Lane ontem à

noite, John T. Anderson de Harwich contou a eles sobre seu passatempo,

que ele diz ser colecionar carrinhos de supermercados. ‘Ele estava muito

interessado no assunto’, disse o Policial Kirby Malloy do Distrito de Polícia

de Harwich, ‘mas não estávamos totalmente satisfeitos com sua defesa de

que havia conseguido alguns de seus carrinhos honestamente’. Acontece

que Malloy ‘acertara na mosca’. Dos mais de cinqüenta carrinhos no

quintal do Sr. Anderson, pelo menos vinte haviam sido roubados do

A&P de Harwich e da Mercearia Total. Ainda havia alguns carrinhos do mercado IGA em Stansbury.”

– Basta. – Ted disse, lavando a lâmina sob a água quente, e então

levantado-a até seu pescoço coberto de espuma. – Humor negro de uma

cidade pequena em resposta aos patéticos atos de roubos compulsivos.

– Eu não te entendo.

– O Sr. Anderson parece um homem que sofre de uma neurose, um problema mental, em outras palavras. Você acha que problemas mentais

são engraçados?

– Puxa, não. Eu me sinto mal pelas pessoas que icam com os parafusos

soltos.

– Fico feliz de ouvi-lo dizer isso. Eu já conheci pessoas cujos parafusos não

estavam apenas soltos, mas completamente desaparecidos. Boas pessoas,

na verdade.

Normalmente eles são patéticos, algumas vezes inspiradores, e ocasionalmente assustadores, mas eles não são engraçados. CARRINHOS

SEQÜESTRADOS, deveras.

O que mais temos?

– “ESTRELA MORTA EM ACIDENTE NAS ESTRADAS DA EUROPA?”

– Credo, não.

– “YANKEES ADQUIREM INFIELDER (N.T. – Um In ielder é uma posição

de um jogador no beisebol, que ica parado em um dos quatro pontos

defensivos no campo. ) EM TROCA COM SENADORES?”

– Nada do que os Yankees fazem com os Senadores me interessa.

– “ALBINI SABOREIA RÓTULO DE DESFAVORITO?”

– Sim, por favor, leia essa.

Ted ouviu bem enquanto barbeava o pescoço meticulosamente. Mesmo

Bobby achou-se fascinado pela história, que não era sobre Floyd Patterson,

ou Ingemar Johansson, a inal de contas (Sully chamava o sueco peso-

pesado de “Ingemaricas”), mas ele leu cautelosamente, não obstante. A luta

de doze rounds entre Tommy

‘Hurricane’ Haywood e Eddie Albini estava marca para a noite de Quarta-

Feira da semana seguinte no Madison Square Garden. Ambos os lutadores tinham bons recordes, mas a idade era considerada importante, talvez o

fator mais e icaz: Haywood, vinte e três anos contra os trinta e seis de Eddie Albini, e um grande favorito. O vencedor pode ter uma chance ao

título de pesos pesados deste Outono, provavelmente em tempo de Richard

Nixon ganhar a Presidência (a mãe de Bobby disse que isso com certeza

aconteceria, uma boa coisa, não importa que Kennedy fosse Católico, ele

era jovem demais, e apto a ficar de cabeça quente).

No artigo, Albini disse que entendia a razão de não ser considerado

favorito, ele estava aparecendo pouco e algumas pessoas achavam que ele

era passado por ter perdido por nocaute técnico contra Sugar Boy Masters

na última luta. E é claro, ele sabia que Haywood o ultrapassava e deveria

ser considerado mais entendido, mesmo sendo tão jovem. Mas ele estava treinando duro, Albini disse, pulando corda, e lutando com um cara que se

movia e lutava como Haywood. O artigo era cheio de palavras como jogo e

determinado, Albini era descrito como sendo “cheio de garra”. Bobby poderia dizer que o jornalista achou que Albini iria sair na porrada com ele, e sentiu pena dele. Hurricane Haywood não estava à disposição para

falar com o repórter, mas seu agente, um cara chamado I. Kleindienst (Ted

disse a Bobby como se pronunciava esse nome), disse que provavelmente

seria como a última luta de Eddie Albini. ‘Ele teve seu dia, mas seu dia já acabou’, I. Kleindienst disse. ‘Se Eddie continuar de pé ao sexto round eu vou mandar meu garoto direto pra cama sem o jantar’.

– Irving Kleindienst é um ka-mai. – Ted disse.

– Um o quê? – Bobby perguntou.

– Um tolo. – Ted estava olhando para a janela na direção do som do cão da

Sra. O’Hara. Não totalmente apagado do jeito que ele ficava, mas distante.

– Você o conhece? – Bobby perguntou.

– Não, não. – Ted disse. Ele primeiro pareceu assustado com a idéia, e então estarrecido. – Conhece a laia dele.

– Parece pra mim que esse Albini vai virar papa.

– Nunca se sabe. É isso que faz a coisa ser interessante.

– O que quer dizer?

– Nada. Leia os quadrinhos, Bobby. Eu quero Flash Gordon. E me diga o

que Dale Arden está vestindo.

– Por quê?

– Porque eu acho que ela é um pedaço de mau caminho. – Ted disse, e

Bobby caiu na gargalhada. Ele não pode evitar. Algumas vezes Ted era

uma peça rara.

***

No dia seguinte, no caminho de volta do Clube Sterling, aonde tinha preenchido os restos dos formulários para a temporada de verão de

beisebol, Bobby avistou um cartaz impresso cuidadosamente pregado a um

olmo no Parque Commonwealth.

POR FAVOR, AJUDE-NOS A ACHAR PHIL!

PHIL é o nosso WESLH CORGI!

PHIL tem 7 ANOS DE IDADE!

PHIL é MARROM, com o PEITO BRANCO!

Seus OLHOS são BRILHANTES E INTELIGENTES!

As PONTAS DE SUAS ORELHAS são PRETAS!

Ele lhe trará uma BOLA se você disser RÁPIDO PHIL!

LIGUE PARA HOusitonic 5-8337!

(OU)

TRAGA-O para o número 745 na Avenida Highgate!

Lar da FAMÍLIA SAGAMORE!

Não havia fotos de Phil.

Bobby icou olhando para o cartaz por um bom tempo. Parte dele queria

correr para casa e contar para Ted, não só sobre isso, mas também sobre a

lua crescente e a estrela que ele havia visto riscadas ao lado da amarelinha

na calçada. Outra parte dele pensou que havia vários tipos de coisas

postadas no parque, ele podia ver uma propaganda de um concerto na

praça da cidade postada em outro olmo bem do outro lado de onde ele

estava, e ele seria louco se contasse a Ted sobre isso. Estes dois pensamentos brigaram entre si até parecerem dois bastões se esfregando

um no outro e seu cérebro correr risco de pegar fogo.

Eu não vou pensar nisso, ele disse a si mesmo, afastando-se do cartaz. E

quando uma voz do fundo de sua mente, uma voz perigosamente adulta,

protestou que ele estava sendo pago para pensar em coisas como esta, para falar sobre coisas como esta, Bobby mandou a voz se calar. E a voz se

calou.

Quando chegou em casa, sua mãe estava sentada na cadeira da varanda

novamente, desta vez remendando as mangas de um vestido. Ela olhou

para Bobby e ele viu a pele inchada abaixo de seus olhos, as pálpebras avermelhadas. Ela tinha um lenço dobrado em uma das mãos.

– Mãe. .

O que há de errado? foi como ele pensou em terminar. . mas terminar não seria sábio. Provavelmente causaria problemas. Bobby não tinha mais a

percepção que teve no dia da viagem ao Savin Rock, mas ele a conhecia, o

jeito que ela olhava para ele quando estava estressada, o jeito como a mão

com o lenço icava tensa, quase se transformando em um punho, o jeito

que ela inspirava e sentava-se ereta, pronta para lhe dar uma luta se você

quisesse ir contra ela.

– O que é? – ela perguntou. – Tem alguma outra coisa na cabeça além do cabelo?

– Não. – ele disse. Sua voz soou envergonhada e estranhamente tímida

para seus próprios ouvidos. – Eu estava no Clube Sterling. As inscrições para o beisebol estão abertas. Eu sou um Lobo neste verão de novo.

Ela assentiu e relaxou um pouco.

– Tenho certeza de que você será um Leão no próximo ano. – ela tirou sua

cesta de costura da cadeira e colocou-a no chão, então deu um tapinha no

lugar agora vazio. – Sente aqui ao meu lado um minuto, Bobby. Eu tenho algo para lhe contar.

Bobby sentou com uma sensação de trepidação, ela estivera chorando,

a inal, e ela soava um tanto grave, mas acabou não sendo nada de grave, pelo menos não pelo que ele entendeu.

– O Sr. Biderman, Don, me convidou para ir com ele e o Sr. Cushman e o Sr.

Dean para um seminário em Providence. É uma grande chance para mim.

– O que é um seminário?

– Uma espécie de conferência, as pessoas se juntam para aprender sobre

um assunto e discuti-lo. A deste é Corretagem nos Anos Sessenta. Eu iquei

muito surpresa por Don me convidar. Bill Cushman e Curtis Dean, é claro que sabia que eles iriam, eles são corretores. Mas para Don pedir a mim. . –

ela vagou pelos pensamentos por um momento, então se virou para Bobby

e sorriu. Ele achou que era um sorriso genuíno, mas icava estranho com

as pálpebras avermelhadas. – Eu tenho desejado me tornar uma corretora

há um bom tempo, e agora isto, vindo do nada. . é uma grande chance para

mim, Bobby, e poderia significar uma grande mudança para nós.

Bobby sabia que sua mãe queria ser corretora. Ela tinha livros sobre o

assunto e lia um pouco deles quase toda noite, principalmente as partes

sublinhadas. Mas se era uma chance tão grande assim, por que tinha que

fazê-la chorar?

– Ora, isso é bom. – ele disse. – Super legal. Espero que você aprenda muito.

Quando vai ser?

– Próxima semana. Nós quatro sairemos cedo na manhã de Terça-Feira e

voltaremos Quinta-Feira à noite por volta das oito. Todos os encontros

serão no Hotel Warwick, e é onde icaremos. Don reservou os quartos. Eu

não estive em um hotel por doze anos, eu acho. Estou um pouco nervosa.

Estar nervosa faz você chorar? Bobby pensou. Talvez, se você for um

adulto, especialmente uma adulta.

– Eu quero que você pergunte a S-J se você pode icar com ele da Terça-Feira até a noite da Quarta-Feira. Tenho certeza que a Sra. Sullivan. .

Bobby balançou a cabeça.

– Não vai dar.

– E por que não? – Liz o itou com um olhar feroz. – A Sra. Sullivan nunca

se importou de ficar com você antes. Você não fez nada para irritá-la, fez?

– Não, mãe. É só que S-J ganhou uma semana no Acampamento Winnie. – o som da frase quase o fez sorrir, mas ele segurou. Sua mãe ainda estava o itando com um olhar feroz. . e não havia um tipo de pânico naquele olhar?

Pânico ou algo assim?

– O que é o Acampamento Winnie? Do que está falando?

Bobby explicou sobre o prêmio de S-J e a semana gratuita no

Acampamento Winiwinaia e como a Sra. Sullivan iria visitar seus pais em

Wisconsin ao mesmo tempo, planos que já estavam agora inalizados, o

Grande Cão Cinzento e tudo mais.

– Droga, como sempre, sou azarada. – sua mãe disse. Ela quase nunca

xingava.

Dizia que xingar e falar o que ela chamava de “papo sujo” eram a

linguagem dos ignorantes. Agora ela fez um punho e bateu no braço da

cadeira. – Mas que droga!

Ela sentou por um momento, pensando. Bobby também. Sua única outra

amiga próxima na rua era Carol, e ele duvidava que sua mãe ligasse para

Anita Gerber para perguntar se ele poderia icar lá. Carol era uma garota,

e de algum modo isso fazia a diferença quando se tratava de dormir em

casas alheias. Uma da amigas de sua mãe? A coisa era que ela não tinha nenhuma. . exceto Don Biderman (e talvez os outros dois que iam ao

seminário em Providence). Já era muita familiaridade se ela desse “oi” para

as pessoas enquanto voltavam do supermercado ou quando iam para o

cinema na Sexta-Feira à noite; também não havia parentes, ao menos

nenhum que Bobby conhecesse.

Como pessoas viajando em estradas convergentes, Bobby e sua mãe

gradualmente pensavam nas mesmas coisas. Bobby chegava lá primeiro,

só por um segundo ou dois.

– E quanto a Ted? – ele perguntou, e então quase tapou a boca com a mão.

Na verdade ela já havia saído de seu bolso.

Sua mãe assistiu a mão voltar ao lugar com um retorno de seu velho e

cínico meio-sorriso, aquele que ela usava quando dispensava ditados como

Você tem que comer um monte de terra antes de morrer e Dois homens

olharam através das grades da prisão, um viu a lama e o outro viu as estrelas, e claro, sua favorita, A vida não é justa.

– Você acha que eu não sei que você o chama de Ted quanto estão juntos?

– ela perguntou. – Você deve achar que eu estou tomando pílulas para

idiotas, Bobby-O. – ela sentou e olhou para a rua. Um Chrysler de Nova York passou vagarosamente, piscoso, com suas saias traseiras, e realçado

em cromo. Bobby assistiu ele sumir de vista. O

homem por trás do volante era velho e grisalho e vestia uma jaqueta azul.

Bobby pensou que ele provavelmente era normal. Velho, mas não mau.

– Talvez desse certo. – Liz disse en im. Ela falou pensativamente, mais para

si mesmo do que para seu filho. – Vamos falar com Brautigan e ver.

Seguindo-a escada acima para o terceiro andar, Bobby icou pensando há

quanto tempo ela havia aprendido a dizer o nome de Ted corretamente.

Uma semana? Um mês.

Desde o começo, Dumbo, ele pensou. Desde o primeiríssimo dia.

***

A idéia inicial de Bobby era que Ted icaria em seu próprio quarto no

terceiro andar enquanto Bobby icava no seu apartamento no primeiro

andar; ambos deixariam as portas abertas, e se algum deles precisasse de

alguma coisa, era só falar.

– Eu não acredito que os Kilgallens ou os Proskys gostariam de te ouvir gritar pelo Sr. Brautigan às três da manhã porque teve pesadelos. – Liz disse azedamente. Os Kilgallens e os Proskys tinham dois pequenos

apartamentos no segundo andar; Liz e Bobby não tinham amizade com

nenhum deles.

– Eu não terei pesadelos. – Bobby disse, profundamente humilhado por ser

tratado como uma criancinha. – Quero dizer, carambolas.

– Poupe-me. – disse sua mãe. Eles estavam sentados na mesa da cozinha

de Ted, os dois adultos fumavam. Bobby tinha uma gasosa à sua frente.

– Não é uma boa idéia. – Ted lhe disse. – Você é um bom garoto, Bobby, responsável e maduro, mas onze anos é muito pouco para dar conta de si

mesmo, eu acho.

Bobby achou bem mais fácil ser chamado de jovem demais por seu amigo

do que por sua mãe. Ele também tinha que admitir que seria bem

assustador acordar depois da meia-noite e ir ao banheiro sabendo que ele

era a única pessoa no apartamento. Ele poderia fazê-lo, ele não tinha dúvidas disso, mas sim, seria assustador.

– E quanto ao sofá? – ele perguntou. – É só puxá-lo que ele vira uma cama,

não é? – eles nunca haviam usado-o para isso, mas Bobby tinha certeza

que sua mãe havia lhe dito isso uma vez. Ele estava certo, e isso resolveu o

problema. Ela provavelmente não queria que Bobby icasse em sua cama

(e deixar “Brattigan” fora de vista), e ela realmente não queria que Bobby icasse aqui neste quarto tão quente do terceiro andar, disso ele tinha

certeza. Ele percebeu que ela estava procurando tanto por uma solução

que havia passado batido pela mais óbvia.

Então icou decidido que Ted passaria as noites da Terça-Feira e Quarta-

Feira da semana seguinte no sofá-cama da sala de estar dos Gar ield.

Bobby estava excitado com a perspectiva: ele teria dois dias só para si (três contando a Quinta-Feira), e haveria alguém com ele à noite, quando as coisas icavam assustadoras. Não uma babá, mas um amigo adulto. Não

era a mesma coisa de Sully-John ir ao Acampamento Winnie por uma

semana, mas já dava para o gasto. Acampamento Broad Street , Bobby pensou, e quase riu alto.

– Nós nos divertiremos. – Ted disse. – Eu farei minha famosa caçarola de feijões. – ele se aproximou de Bobby e bagunçou seu cocuruto.

– Se vai cozinhar feijões seria inteligente usar isso. – sua mãe disse, e apontou com seus dedos que seguravam o cigarro para o ventilador de

Ted.

Ted e Bobby riram. Liz Gar ield deu seu meio-sorriso cínico, acabou seu

cigarro, e o colocou no cinzeiro de Ted. Quando ela o fez, Bobby novamente

notou o inchado de suas pálpebras.

Enquanto Bobby e sua mãe desciam as escadas de volta ao seu

apartamento, Bobby se lembrou do cartaz visto no parque, o Corgi desaparecido que lhe traria uma BOLA se você dissesse RÁPIDO PHIL. Ele

deveria contar a Ted sobre o cartaz. Ele deveria contar a Ted sobre tudo.

Mas se ele izesse isso e Ted deixasse o 149, quem icaria com ele na

próxima semana? O que aconteceria no Acampamento Broad Street, dois

amigos comendo a famosa caçarola de feijões do Ted no jantar (e talvez em

frente a TV, o que sua mãe raramente permitia) e então icando acordado

até tarde?

Bobby fez uma promessa a si mesmo: ele iria contar tudo para Ted na

próxima Sexta-Feira, depois que sua mãe voltasse da conferência ou

seminário ou o que quer que fosse. Ele faria um relatório completo e Ted faria o que precisasse fazer. Ele poderia até mesmo continuar onde estava.

Com esta decisão, a mente de Bobby incrivelmente se limpou, e quando ele

viu o cartão de “À VENDA” de cabeça para baixo no quadro de avisos da Mercearia Total dois dias depois (sobre uma máquina que secava e lavava

pratos), ele conseguiu tirá-lo do pensamento quase imediatamente.

***

Não obstante, aquela foi uma semana di ícil para Bobby Gar ield, muito

di ícil mesmo. Ele viu mais dois cartazes de animais perdidos, um no centro

e outro na Avenida Asher, meio quilômetro depois do Asher Empire (o

bloco em que ele vivia já não era mais o bastante; ele acabou indo mais longe e mais longe em suas viagens diárias de escoteiro). E Ted começou a

ter aqueles estranhos momentos de apagão com mais freqüência. Eles

duravam mais quando vinham também. Às vezes ele falava enquanto

estava naquele distante estado dos pensamentos, e nem sempre em Inglês.

Quando ele falava em Inglês, o que ele dizia nem sempre fazia sentido. Na

maior parte do tempo Bobby achou que Ted era um dos mais sãos,

espertos, agradáveis caras que ele já havia conhecido. Mas quando

apagava, era assustador. Ao menos sua mãe não sabia disso. Bobby não

achou que ela icaria feliz com a idéia de deixá-lo com um cara que às vezes capotava na realidade e começava a falar coisas sem sentido em

Inglês ou em outra língua qualquer.

Em um destes lapsos, quando Ted não fez nada por quase um minuto e

meio a não ser olhar para o vazio, sem dar resposta às questões cada vez

mais agitadas de Bobby, ocorreu a Bobby que talvez Ted não estivesse dentro de sua própria cabeça, mas em algum outro mundo, que ele havia

saído da Terra do mesmo jeito que as pessoas em O Anel ao Redor do Sol que descobriram que poderiam seguir as espirais nas cabeças das

crianças para ir aonde queriam.

Ted estivera segurando um Chester ield entre os dedos enquanto apagara;

as cinzas aumentaram e eventualmente caíram na mesa. Quando a brasa

começou a crescer e a se aproximar das juntas curvadas de Ted, Bobby

tirou-o gentilmente e o amassara no transbordante cinzeiro quando Ted

finalmente voltou.

– Fumando? – ele perguntou com uma carranca. – Diabos, Bobby, você é

jovem demais para fumar.

– Eu só o estava apagando para você. Eu achei que. . – Bobby deu de

ombros, subitamente envergonhado.

Ted olhou para seus dois primeiros dedos de sua mão direita, onde havia uma mancha amarela permanente da nicotina. Ele riu (um latido curto com

absolutamente zero de humor). – Achou que eu iria me queimar, não foi?

Bobby assentiu.

– O que você pensa quando se desliga desse jeito? Para onde você vai?

– É di ícil de explicar. – Ted respondeu, e então pediu a Bobby para ler o horóscopo.

Pensar sobre os transes de Ted o distraia. Não falar sobre as coisas que Ted o pagava para vigiar o distraia ainda mais. Como resultado, Bobby,

ordinariamente um bom rebatedor, rebateu quatro vezes em um jogo

matinal dos Lobos no Clube Sterling.

Ele também perdeu quatro jogos de Batalha Naval seguidos para Sully, na

casa de S-J na Sexta-Feira, quando choveu.

– O que tem de errado com você? – Sully perguntou. – Essa é a terceira vez

que você atira em um lugar que você já atirou antes. E também eu tenho que praticamente berrar em seu ouvido para você me responder. O que

há?

– Nada. – foi o que ele disse. Tudo. Foi o que ele sentiu.

Carol também perguntou a ele algumas vezes na semana se ele estava

bem; a Sra. Gerber perguntou se ele estava sem comer; Yvonne Loving

quis saber se ele havia contraído mono (N.T. – Mononucleose

Infecciosa, também conhecida com “Doença do Beijo”. ), e riu

histericamente até que pareceu em perigo de explodir.

A única pessoa que não percebeu o estranho comportamento de Bobby foi

sua mãe. Liz Gar ield estava muito preocupada com sua viagem à

Providence, falando ao telefone de noite com o Sr. Biderman ou com um

dos dois com quem ia (Bill Cushman era um deles; Bobby não conseguia se

lembrar do nome do outro cara), ou espalhando suas roupas em sua cama

até que ela icasse quase coberta, balançando a cabeça ao vê-las, furiosa, e

então as devolvendo ao guarda-roupa, marcando uma hora para fazer o

cabelo e então ligando para a moça novamente para perguntar se poderia

adicionar uma manicure. Bobby nem mesmo tinha certeza do que era uma

manicure. Ele tinha que perguntar a Ted.

Ela pareceu excitada com os preparativos, mas também havia algo de

sombrio nela. Ela era como um soldado pronto para invadir a praia inimiga,

ou um soldado pára-quedista que em breve estaria pulando para fora do avião e aterrissando atrás das linhas inimigas. Uma de suas conversas

noturnas ao telefone pareceu ser uma discussão de sussurros (Bobby

tinha uma idéia de que seria o Sr. Biderman, mas não tinha certeza).

No Sábado, Bobby entrou em seu quarto e a viu olhando para dois

vestidos, vestidos inos, um com alças nos ombros e outro sem alças, como

uma roupa de banho. As caixas que estavam no chão estavam cheias de

papel toalha.

Sua mãe estava parada à frente de seus vestidos, olhando para baixo na

direção deles com uma expressão que Bobby nunca havia visto: olhos

grandes, sobrancelhas juntas, bochechas pálidas e tensas coloridas com

rouge. Uma mão estava em sua boca, e ele podia ouvir sons de ossos

batendo enquanto ela roia as unhas. Um Kool ardia em fogo lento em um

cinzeiro na cômoda, aparentemente esquecido. Seus grandes olhos iam de

um vestido ao outro.

– Mãe? – Bobby perguntou, e ela literalmente pulou no ar. Então ela se virou para ele, com sua boca puxada em uma careta.

– Jesus Cristo! – ela quase rosnou. – Não sabe bater? – Ele se desculpou e começou a sair do quarto. Sua mãe nunca havia lhe dito nada sobre bater

antes.

– Mãe, você está bem?

– Ótima! – ela olhou o cigarro, o pegou, e o fumou furiosamente. Ela exalou

com tanta força que Bobby quase esperou ver a fumaça sair de seus

ouvidos, nariz e boca. – Estaria melhor se eu pudesse achar um vestido de

festa que não me deixasse parecendo Elsie, a Vaca. Eu já vesti tamanho

seis, sabia disso? Antes de casar com seu pai, meu tamanho era seis. Agora

olhe para mim! Elsie, a Vaca! (N.T. – Mascote da Borden, uma marca americana que produz leite e creme. ) Uma Moby Dick!

– Mãe, você não está gorda. Na verdade ultimamente você parece. .

– Saia, Bobby. Por favor, deixe sua mãe em paz. Eu estou com dor de

cabeça. –

Naquela noite ele a ouviu chorar novamente. No dia seguinte ele a viu

cuidadosamente colocando um dos vestidos em sua bagagem (o de alças).

O outro voltou para a caixa da loja: VESTIDOS DA LUCIE DE BRIDGEPORT

estava escrito na frente em uma escrita elegante e marrom.

Na noite da Segunda-Feira, Liz convidou Ted Brautigan para jantar com

eles.

Bobby adorava o bife de sua mãe, e normalmente pedia por mais, mas

desta vez ele teve que se esforçar para engolir um único pedaço. Ele estava

aterrorizado de que Ted pudesse entrar em transe causando um chilique

em sua mãe.

Seus temores provaram-se sem fundamentos. Ted falou prazerosamente

sobre sua infância em Nova Jersey e, quando a mãe de Bobby perguntou

sobre seu trabalho em Hartford. Para Bobby ele pareceu menos

confortável falando sobre contas do que velhas histórias sobre seus

passeios de trenó quando era criança, mas sua mãe não aparentou notar.

Ted pediu por um segundo pedaço de bife.

Quando o jantar havia terminado e a mesa estava limpa, Liz deu a Ted uma

lista de números de telefones, incluindo o do Dr. Gordon, do escritório do diretor do Clube Sterling, e do hotel Warwick.

– Se houver algum problema, eu quero saber. Certo?

Ted assentiu.

– Certo.

– Bobby? Alguma preocupação? – ela pôs sua mão brevemente em sua testa, do jeito que fazia quando ele reclamava que estava se sentindo febril.

– Nenhuma. Nós nos divertiremos a valer. Não é, Sr. Brautigan?

– Oh, chame-o de Ted. – Liz quase repreendeu. – Se ele vai dormir em

nossa sala de estar, eu acho que é melhor chamá-lo de Ted também. Posso?

– Deveras pode. Deixe que seja Ted de agora em diante.

Ele sorriu. Bobby achou era um sorriso doce, aberto e amigável. Ele não entendeu como alguém poderia resistir a ele. Mas sua mãe podia e o fez.

Mesmo agora, enquanto devolvia um sorriso a Ted, ele viu a mão com o

lencinho contraindo-se e soltando-se naquele velho e familiar gesto de

ansioso desprazer. Um de seus ditados favoritos veio à mente de Bobby: Eu

confiarei nele (ou nela) quando conseguir levantar um piano.

– E de agora em diante eu sou Liz. – ela estendeu a mão através da mesa e

eles se cumprimentaram como pessoas que estavam se vendo pela

primeira vez. . exceto que Bobby sabia que a idéia de sua mãe sobre Ted Brautigan já estava feita. Se ela não estivesse contra a parede, ela nunca teria confiado Bobby a ele. Nem em um milhão de anos.

Ela abriu a bolsa e tirou um envelope branco.

– Tem dez dólares aqui. – ela disse, entregando o envelope a Ted. – Os rapazes vão querer comer fora ao menos uma noite, eu imagino, Bobby

gosta do Café Colony, se estiver tudo bem para você, e talvez queiram ir ao

cinema também. Eu não sei o que mais pode acontecer, mas é melhor deixar uma reserva, não acha?

– Sempre melhor estar são do que desanimado. – Ted concordou,

guardando o envelope com cuidado em seu bolso da frente. – Mas eu não

espero que gastemos todos os dez dólares em três dias, vamos Bobby?

– Puxa, não, não vejo como poderíamos.

– Se não os desperdiçar, não vão precisar. – Liz disse, em um de seus favoritos, quase empatado com o tolo e seu dinheiro logo se separam . Ela tirou um cigarro do maço na mesa ao lado do sofá e o acendeu com uma mão que não estava muito firme. –

Você rapazes ficarão bem. Provavelmente vão se divertir mais do que eu.

Olhando para as unhas esfrangalhadas e roídas dela, Bobby pensou, Pode apostar que sim.

***

Sua mãe e os outros iam à Providence no carro do Sr. Biderman, e às sete

horas da manhã seguinte Liz e Bobby Gar ield estavam parados na

varanda, esperando que ele chegasse. O ar tinha aquele vago silêncio

matinal que signi ica que os dias quentes de verão chegaram. Da Avenida

Asher veio um estrondo de um pesado trânsito que anunciava que as

pessoas estavam indo trabalhar, mas aqui embaixo na Broad só havia os

ocasionais carros e caminhões de entrega. Bobby podia ouvir os barulhos

dos irrigadores, e do outro lado do bloco, os intermináveis latidos de

Bowser. Bowser soava sempre do mesmo jeito, não importando se era

Junho ou Janeiro; para Bobby Garfield, Bowser parecia um deus imutável.

– Você não tem que esperar aqui fora comigo, sabe disso. – Liz disse. Ela vestia um casaco claro e fumava um cigarro. Ela usava mais maquiagem do

que o normal, mas Bobby achou que ainda podia detectar sombras sob

seus olhos, ela havia passado mais uma noite em claro.

– Eu não me importo.

– Espero que esteja tudo bem, em deixá-lo com ele.

– Eu queria que você não se preocupasse. Ted é um cara legal, mãe.

Ela fez um barulho de impaciência.

Surgiu uma centelha de cromo do fundo da colina enquanto o Mercury do

Sr.

Biderman (não vulgar, exatamente, mas um grande carro do mesmo modo)

virava na rua deles pela Commonwealth e subia a colina na direção do 149.

– Lá está ele, lá está ele. – disse sua mãe, soando nervosa e excitada. Ela se

inclinou. Dê-me um beijo, Bobby. Eu não quero te beijar e borrar meu

batom.

Bobby pôs sua mão no braço dela e suavemente beijou sua bochecha. Ele

cheirou seu cabelo, o perfume que ela usava, seu pó de maquiagem; ele

nunca mais a beijaria com aquele amor, sem sombras novamente.

Ela lhe deu um vago e pequeno sorriso, não olhando para ele, e sim para o

carrão do Sr. Biderman, que deslizou com graça pela rua e encostou ao

meio- io na frente da casa. Ela pegou suas duas malas (duas pareciam

muito para dois dias, Bobby pensou, embora ele achasse que o vestido

chique havia tomado uma boa parte do espaço em uma delas), mas ele já

as havia pegado pelas alças.

– Essas são muito pesadas, Bobby, você vai acabar tropeçando

– Não. – ele disse. – Não vou.

Ela lhe deu um olhar distraído, então acenou para o Sr. Biderman e foi para o carro, com o salto-alto estalando. Bobby a seguiu, tentando não

fazer careta por causa do peso das malas. . o que ela havia colocado nelas,

roupas ou tijolos?

Ele as levou para a calçada sem ter que parar e descansar, pelo menos. O

Sr. Biderman havia saído do carro, primeiro dando um beijo casual na

bochecha de sua mãe, então tirando a chave para abrir a mala do carro.

– Como vai, garotão, como vai essa força? – O Sr. Biderman sempre

chamava Bobby de “garotão”. – Traga-as para cá e eu as colocarei no carro.

As mulheres sempre têm que cuidar de tudo, não é? Bem, você conhece o velho ditado, não se pode viver com elas, não se pode atirar nelas fora do

estado de Montana. – ele arreganhou os dentes em um sorriso que fez

Bobby pensar em Jack em O Senhor das Moscas. – Quer que eu carregue uma delas?

– Eu já as peguei. – Bobby disse. Ele marchou com di iculdade perante a vigília do Sr. Biderman, os ombros doíam, a parte de trás de seu pescoço estava quente e começava a suar.

O Sr. Biderman abriu a mala, pegou as malas das mãos de Bobby, e as

colocou junto com o resto da bagagem. Atrás deles, sua mãe olhava pela

janela traseira e falava com os outros dois homens com quem iam. Ela riu

de alguma coisa que um deles disse.

Para Bobby o riso soou tão real quanto uma perna de madeira.

O Sr. Biderman fechou a mala e olhou para Bobby. Ele era um homem

estreito com uma cara grande. Suas bochechas estavam sempre

ruborizadas. Você podia ver o escalpo róseo nos caminhos deixados pelos

dentes de seu pente. Ele usava pequenos óculos redondos com aros

dourados. Para Bobby o sorriso dele parecia tão real quanto o riso de sua

mãe.

– Vai jogar um pouco de beisebol neste verão, garotão? – Don Biderman se

colocou em posição de rebatedor e rebateu com um taco imaginário. Bobby

achou que ele parecia um banana.

– Sim, senhor. Eu sou um dos Lobos do Clube Sterling. Eu esperava entrar

nos Leões, mas. .

– Bom. Bom. – O Sr. Biderman estava olhando para o relógio, o grande

Twist-O-Flex Ed ouro era deslumbrante à luz da manhã, e então deu um

tapinha de leve na bochecha de Bobby. Bobby teve que fazer um esforço

consciente para não recuar do toque. – Então, temos que por este vagão de

trem para andar! Cuide-se, garotão.

Obrigado por emprestar sua mãe.

Ele se virou e acompanhou Liz até o outro lado do passageiro do Mercury.

Ele fez isso com uma das mãos pressionada contra as costas dela. Bobby gostou ainda menos disso do que vê-lo dar um beijo na bochecha dela. Ele

espiou os engomadinhos no banco de trás (Dean era o nome do outro cara, ele se lembrou, bem a tempo de vê-los dando acotoveladas uns nos outros).