Corações na Atlântida
Capítulo 36
Stoke contou.
Eu achei que entendi a expressão no rosto de Nate. Depois da reunião, ele
disse.
Depois. Nate não sabia o que havia sido dito na reunião, porque Nate não estivera lá.
Nate não era um membro do Comitê da Resistência; Nate era estritamente
um garoto da calçada. Ele poderia concordar com os propósitos e táticas do
C.R. . mas ele tinha que pensar em sua mãe. E seu futuro como um dentista.
– Lesão na espinha? – o doutor perguntou. Mais vivo do que nunca.
– Acho que sim, é. – Nate disse.
– Tudo bem. – o doutor começou a fazer gestos para nos expulsar com as mãos como se fossemos um bando de gansos. – Voltem aos seus
dormitórios. Nós vamos cuidar bem dele.
Começamos a andar na direção da recepção.
– Por que vocês estavam rindo dele? – a enfermeira perguntou
subitamente. Ela estava ao lado do doutor com seu equipamento para tirar
a pressão. – Por que estão sorrindo agora? – ela soou irritada. Inferno, ela
soou furiosa. – O que há de tão engraçado na tragédia deste garoto?
Eu não achei que alguém responderia. Ficamos apenas ali olhando para o
chão, percebendo que estávamos mais próximos da quarta série do que
pensaramos. Mas alguém respondeu. Skip respondeu. Ele até olhou para ela enquanto o fez.
– Sua tragédia, senhora. – ele disse. – Era disso, você está certa. Foi sua tragédia que foi engraçada.
– Que terrível. – ela disse. Havia lágrimas de raiva saindo de seus olhos. –
Como vocês são terríveis.
– Sim, senhora. – Skip disse. – Acho que a senhora tem razão nisso também. – ele virou as costas para ele.
O seguimos de volta para a recepção, em um molhado e derrotado
grupinho. Eu não posso dizer que ser chamado de terrível foi o ponto mais
baixo de minha carreira universitária (“Se você puder se lembrar muito
dos anos sessenta, é porque você não estava lá”, disse uma vez um hippie
conhecido como Wavy Gravy), mas talvez tenha sido. A sala de espera
ainda estava vazia. O pequeno Joe Cartwright estava na cena agora, e tão verde quanto seu pai. Câncer pancreático foi o que levou Michael Landon
também. . ele e minha mãe tinham isso em comum.
Skip parou. Ronnie, de cabeça baixa, passou por ele na direção da porta, seguido por Nick, Billy, Lennie, e o resto.
– Esperem. – Skip disse, e eles se viraram. – Eu quero falar com vocês sobre uma coisa.
Reunimo-nos ao redor dele. Skip olhou uma vez na direção da porta que
levava à área de exames, veri icamos que estávamos sozinhos, e então ele
começou a falar.
36
Dez minutos depois, Skip e eu voltamos para o dormitório sozinhos. Os
outros haviam ido na frente. Nate icou conosco por um tempo, mas então
deve ter pegado aquela vibração de que eu queria falar em particular com
Skip. Nate sempre era bom em pegar vibrações. Aposto que ele é um bom dentista, que as crianças gostam particularmente dele.
– Estou farto de jogar Copas. – eu disse.
Skip ficou calado,
– Eu não sei se é tarde demais para recuperar minhas notas e manter
minha bolsa, mas eu vou tentar. E eu não me importo muito, de um jeito ou
de outro. A porra da bolsa não é o ponto.
– Não. Eles são o ponto, certo? Ronnie e o resto deles.
– Eu acho que eles são apenas parte disso. – estava tão frio lá fora que era
como se o dia houvesse virado noite (frio, úmido, e mau). Parecia que
nunca mais seria verão.
– Cara, sinto falta de Carol. Por que ela teve de ir?
– Eu não sei.
– Quando ele desabou, parecia um hospício lá no salão. – eu disse. – Não um dormitório de faculdade, mas uma porra de hospício.
– Você riu também, Pete. E eu também.
– Eu sei. – eu disse. Eu poderia não saber se estivesse sozinho, e Skip e eu
poderíamos não ter sabido se fossemos só nós dois, mas como você poderia
dizer? Você estava preso ao modo como as coisas se desenrolavam. Eu
continuava a pensar em Carol e naqueles garotos com o bastão de beisebol.
E eu pensei no jeito como Nate olhou para mim, como se eu fosse uma coisa
desprezível. – Eu sei, Andamos em silêncio por um momento.
– Eu posso viver com isso, eu acho. – eu disse. – Mas não quero acordar aos
quarenta com meus ilhos como era a faculdade e não poder me lembrar
de nada, exceto Ronnie Malenfant contando piadas de polonês, e aquele
pobre cuzão fodido do McClendon tentando se matar com aspirinas para
bebê. – Eu pensei em Stoke girando em sua muleta e senti vontade de rir;
pensei nele deitado e ensopado na mesa de exames na enfermaria e senti
vontade de chorar. E sabe de uma coisa? Foi, pelo que eu posso dizer, o
mesmo sentimento. – Eu apenas me sinto mal sobre isso. Sinto-me uma merda.
– Eu também. – Skip disse. A chuva caiu em nós, nos molhando e esfriando.
As luzes do Chamberlain Hall eram brilhantes, mas não particularmente
confortantes. Você poderia ver a lona amarela que os policiais haviam
tentado colocar, repousada na grama, e acima dela formas escuras das letras pintadas com spray. Elas estavam escorrendo na chuva; no dia