Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 4 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 3

– Pode checar o quadro de avisos de lá também?

– Claro.

– Bom até agora, muito bom. Agora, sabe aqueles desenhos de amarelinha

que as crianças desenham na calçada?

Bobby assentiu.

– Procure pelos que tem estrelas ou luas, ou ambas desenhadas próximas

a eles, normalmente desenhadas a giz de outra cor. Procure por ios de

pipas pendurados em linhas telefônicas. Não as próprias pipas, apenas

seus fios. E. .

Ted pausou, carrancudo, pensativo. Enquanto ele tirava um Chester ield do

pacote na mesa e o acendia, Bobby pensou bem racionalmente, bem

claramente, e sem o menor sinal de medo: Ele é maluco, sabia. Maluco de pedra.

Sim, é claro, como poderia duvidar disso? Ele apenas esperava que Ted

pudesse ser tão cuidadoso quanto doido. Porque se sua mãe ouvisse Ted

falando coisas desse tipo, ela nunca deixaria Bobby se aproximar dele

novamente. De fato, ela provavelmente mandaria os caras com as redes de

borboleta. . ou pedir que o velho e bom Don Biderman o fizesse por ela.

– Sabe o relógio na praça da cidade, Bobby?

– Sim, claro.

– Pode ser que ele comece a badalar nas horas erradas, ou entre as horas.

Procure também por reportagens sobre pequenos atos de vandalismo em

igrejas nos jornais.

Meus amigos detestam igrejas, mas nunca fazem nada tão ultrajante; eles

gostam de manter, perdoe o trocadilho, um per il mau. Há outros sinais de que eles estão por perto, mas não há necessidade de te sobrecarregar.

Pessoalmente eu acredito que os cartazes são as pistas mais seguras.

– “Se você vir Ginger, por favor traga-a para casa.”

– Exatamente isso que. .

– Bobby? – Era a voz de sua mãe, seguida do barulho arranhado de seus tênis de Sábado. – Bobby, você está aqui em cima?

3

O Poder de uma Mãe. Bobby Cumpre seu Trabalho.

“Ele Está te Tocando?”. O Último Dia Letivo.

Bobby e Ted trocaram olhares de culpa. Ambos sentavam em seus

respectivos lados da mesa, como se houvessem feito algo de louco, ao invés

de falar algo de louco.

Ela vai perceber que estamos tramando algo , Bobby pensou com medo. Está por toda minha cara.

– Não. – Ted disse a ele. – Não está. Esse é o poder dela sobre você, que você acredite nisso. É o poder de uma mãe.

Bobby olhou para ele, atônito. Você leu minha mente? Você acabou de ler minha mente?

Agora sua mãe estava quase no corredor do terceiro andar e não havia tempo para resposta, mesmo se Ted quisesse dar uma. Mas não havia

mostras em seu rosto de que ele teria respondido mesmo se houvesse tempo. E Bobby então começou a duvidar do que havia ouvido.

Então sua mãe abriu a porta, olhando de seu ilho para Ted, e de volta para

seu filho, seus olhos eram avaliadores.

– Então aqui está você a inal. – ela disse. – Meu Deus, Bobby, você não me

ouviu te chamar?

– Você chegou aqui antes que eu tivesse chance de dizer qualquer coisa, mãe.

Ela bufou. Sua boca fez um pequeno e inexpressivo sorriso: seu sorriso

social automático.

Seus olhos foram e voltaram entre eles, foram e voltaram, procurando por

algo fora do lugar, algo que ela não gostasse, algo errado.

– Eu não ouvi você chegar.

– Você estava adormecida na cama.

– Como está passando hoje, Sra. Garfield? – Ted perguntou.

– Bem como sempre.

Seus olhos continuaram seu movimento de ida e vinda. Bobby não tinha

idéia do que ela procurava, mas aquela expressão de culpa deveria ter

sumido de sua face. Se ela a houvesse visto, ele já saberia; ele saberia que

ela sabia.

– Gostaria de uma garrafa de refresco? – Ted perguntou. – Não é muito, mas está gelado.

– Isso seria bom. – Liz disse. – Obrigada. – Ela veio até eles e sentou do lado

de Bobby à mesa da cozinha. Ela o afagou distraidamente na perna,

observando Ted enquanto ele abria sua pequena geladeira e tirava o

refresco. – Ainda não está quente aqui, Sr. Brattigan, mas eu lhe garanto

que vai ficar em um mês. É melhor arranjar um ventilador.

– É uma boa idéia. – Ted derramou o líquido em um copo de vidro limpo, então permaneceu em frente à geladeira, segurando o copo na luz,

esperando a espuma abaixar. Para Bobby ele pareceu como um cientista

em um comercial de TV, um daqueles caras obcecado com Marca X e

Marca Y e como Rolaids consumiam cinqüenta e sete vezes mais o ácido

estomacal em excesso, incrível, mas verdade.

– Não preciso de um copo cheio, assim está bem. – ela disse um pouco

impaciente. Ted trouxe o copo a ela e ela o levantou. – Aqui vai. – Ela tomou

um gole e fez uma careta como se tivesse bebido cachaça, ao invés de

refresco. Então ela observou por cima do copo enquanto Ted sentava, tirava as cinzas de seu cigarro, e en iava o cigarro de volta ao canto de sua

boca.

– Vocês estão tão suspeitos quanto ladrões. – ela observou. – Sentados aqui

na mesa da cozinha, bebendo refresco. Estranho, penso eu. Sobre o que

conversaram hoje?

– Sobre o livro que o Sr. Brautigan me deu. – Bobby disse. Sua voz soou natural e calma, uma voz sem segredos escondidos. – O Senhor das Moscas.

Eu não pude entender se o inal era feliz ou triste, então pensei em vir perguntá-lo.

– Mesmo? E o que ele disse?

– Que eram ambos. Então me disse para pensar nisso.

Liz riu sem muito humor.

– Eu leio mistérios, Sr. Brattigan, e salvo meus pensamentos para a vida real.

Mas é claro que agora já estou aposentada.

– Não. – Ted disse. – Obviamente você está no apogeu da vida.

Ela lhe deu aquele olhar elogiar-não-vai-te-levar-a-lugar-algum. Bobby o conhecia bem.

– Eu também ofereci a Bobby um pequeno trabalho. – Ted contou. – Ele

concordou em aceitá-lo. . com a sua permissão, é claro.

As sobrancelhas dela franziram à menção de trabalho, e suavizaram à

menção de permissão. Ela voltou-se para Bobby e lhe deu um pequeno

afago em seus cabelos ruivos, um gesto tão incomum para Bobby, que seus

olhos esbugalharam um pouco.

Seus olhos nunca abandonaram Ted enquanto ela o fazia. Não só ela não

con iava no homem, Bobby percebeu, mas ela provavelmente nunca iria confiar nele.

– Que tipo de trabalho você tem em mente?

– Ele quer que eu. .

– Silêncio. – ela disse, e ainda mantinha seus olhos espreitando por sobre o copo, nunca deixando Ted fora de vista.

– Eu gostaria que ele lesse o jornal para mim, talvez às tardes. – Ted disse,

e explicou como seus olhos já não eram mais os mesmos e como ele tinha piorado o problema todos os dias forçando a vista. – Mas ele gostava de estar atualizado, estes eram tempos muito interessantes, a Sra. Gar ield

não achava? E ele gostaria de estar atualizado com as colunas também,

Stewart Alsop e Walter Winchell e coisas do tipo.

Winchell era um fofoqueiro, é claro, mas eram fofocas interessantes, a Sra.

Garfield não concordava?

Bobby ouviu, icando cada vez mais tenso mesmo sabendo pelo rosto de

sua mãe e sua postura, mesmo no jeito em que ela bebia o refresco, que ela

acreditava no que Ted lhe dizia. Até aí tudo bem, mas e se Ted apagasse de

novo? Apagasse e começasse e tagarelar sobre homens maus em casacos

amarelos ou ios de pipas pendurados em postes telefônicos, a todo tempo olhando para o nada?

Mas nada disso aconteceu. Ted terminou dizendo que ele gostaria de saber

como os Dodgers estavam indo (Maury Wills, especialmente) mesmo eles

tendo ido para Los Angeles. Ele disse isto com um ar de quem está

determinado a falar a verdade, mesmo que a verdade seja um pouco

embaraçosa. Bobby pensou que era um belo toque.

– Acho que está tudo bem. – sua mãe disse (quase com má vontade, Bobby

pensou). – De fato, parece ser bom. Gostaria de poder ter um trabalho bom

assim.

– Aposto que você é excelente em seu emprego, Sra. Garfield.

Ela o iluminou com aquele seco olhar de que elogios não funcionarão outra

vez.

– Vai ter que lhe pagar um extra, se quiser que ele faça as palavras cruzadas para você. – ela disse, se levantando, e embora Bobby não

houvesse entendido a observação, ele icou atônito pela sensação de

crueldade nela, como um pedaço de vidro dentro de um marshmallow. Era

como se ela quisesse fazer piada com a visão problemática de Ted e seu intelecto ao mesmo tempo; como se ela o quisesse machucar por ser bom

para seu ilho. Bobby continuava envergonhado por enganá-la e

aterrorizado que ela pudesse descobrir, mas agora ele estava satisfeito. .

quase radiante. Ela mereceu. – Ele é bom em palavras cruzada, meu

Bobby.

Ted sorriu.

– Tenho certeza que sim.

– Vamos descer, Bob. É hora de dar descanso ao Sr. Brattigan.

– Mas. .

– Eu acho que gostaria de me deitar um pouco, Bobby. Estou com um

pouco de dor de cabeça. Fico satisfeito que tenha gostado de O Senhor das

Moscas. Você pode começar seu trabalho amanhã, se preferir, com a página

principal do jornal de Domingo.

Eu vou avisá-lo de antecedência, vai ser uma prova de fogo.

– Está bem.

Mamãe já estava do lado de fora do quarto de Ted. Bobby estava atrás

dela.

Então ela olhou para trás e olhou para Ted por sobre a cabeça de Bobby.

– Por que não vão para a varanda? – ela perguntou – O ar fresco vai fazer

bem a ambos. Melhor do que esse quarto abafado. E eu também poderei

ouvi-los, da sala de estar.

Bobby achou que alguma mensagem estava passando entre eles. Não via

telepatia exatamente. .

– É uma boa idéia. – Ted disse. – A varanda seria adorável. Boa tarde, Bobby.

Boa tarde, Sra. Garfield.

Bobby chegou perto de dizer ‘té mais, Ted e substituiu por “Até logo, Sr.

Brautigan” no último momento. Ele seguia para as escadas, sorrindo

vagamente, com uma transpirante sensação de alguém que acaba de evitar

um acidente horrível.

Sua mãe hesitou.

– Há quanto tempo está aposentado, Sr. Brattigan? Se posso perguntar.

Bobby havia quase decidido que ela não errava o nome de Ted de

propósito; agora ele pensava de outro modo. Ela fazia de propósito. Claro que fazia.

– Três anos. – ele esmagou o cigarro no cinzeiro de lata já lotado e

imediatamente acendeu outro.

– O que te faria ter. . sessenta e oito?

– Sessenta e seis para falar a verdade. – sua voz continuou suave e aberta, mas Bobby tinha uma idéia de que ele não se importava com estas

perguntas. – Fui premiado com a aposentadoria com totais bene ícios há

dois anos. Por razões médicas.

Não pergunte o que ele tem de errado, mãe , Bobby gemeu em sua própria cabeça. Não se atreva.

Ela não fez isso. Ao invés disso, ela perguntou o que ele havia feito em Hartford.

– Contagem. Eu trabalhava como fiscal de contas públicas.

– Bobby e eu achávamos que era algo a ver com educação. Contagem.

Parece algo de muita responsabilidade.

Ted sorriu. Bobby achou que havia algo de horrível sobre isso.

– Em vinte anos eu usei três calculadoras. Se isso é responsabilidade, Sra.

Gar ield, ora sim. . eu era responsável. Apeneck Sweeney estica as pernas; (N.T. – Começo do poema “Sweeney among the Nightingales”

de T.S. Eliot. No original, “Apeneck Sweeney spreads his knees”. ) o datilógrafo põe um disco no gramofone com uma mão automática.

– Eu não entendi.

– É só o meu modo de dizer que trabalhei por anos em um trabalho que nunca pareceu significar muito.

– Pode ter signi icado muito se você tinha uma criança para alimentar,

abrigar e criar. – ela olhou para ele com seu queixo levemente empinado, o

olhar signi icava que se Ted quisesse discutir sobre isso, ela estaria pronta.

Então ela iria brigar com ele, se essa fosse a vontade dele.

Ted, Bobby icou aliviado em descobrir, não queria brigar ou chegar perto

disso.

– Imagino que a senhora esteja certa, Sra. Garfield. Inteiramente.

Ela manteve por mais um momento o queixo empinado, como se

perguntasse se ele tinha certeza, lhe dando tempo para mudar de idéia.

Quando Ted não disse mais nada, ela sorriu. Era seu sorriso da vitória.

Bobby a amava, mas de repente ele estava também cansado dela. Cansado

de seus olhares, seus ditados, suas idéias inflexíveis.

– Obrigado pela bebida, Sr. Brattigan. Estava muito gostosa. – e com isso, ela levou o ilho até as escadas. Quando desceram até o segundo andar, ela

largou sua mão e foi pelo resto do caminho na sua frente.

Bobby pensou que eles iriam discutir seu novo trabalho até a hora do

jantar, mas não aconteceu. Sua mãe parecia agora longe, seus olhos

estavam distantes. Ele teve que pedir duas vezes por um pedaço de bolo

de carne, e mais tarde naquela noite, quando o telefone tocou, ela pulou do

sofá de onde estavam vendo TV e o atendeu. Ela pulou para ele como Ricky

Nelson fez quando o seu tocou em Ozzie & Harriet. Ela ouviu, disse alguma coisa, e então voltou para o sofá e sentou.

– Quem era? – Bobby perguntou.

– Ligação errada. – Liz disse.

***

Naquele ano de sua vida Bobby Gar ield ainda esperava pelo sono com a

con iança bem-vinda de uma criança: atrás dele, os sapatos estavam

espalhados nos cantos da cama, as mãos en iadas no frescor sob o

travesseiro, os cotovelos abaixo dele.

Na noite seguinte em que Ted falou com ele sobre os homens maus (e não

se esqueça dos carros deles, seus grandes carros com pintura

extravagante), Bobby icou deitado nesta posição com o lençol até a

cintura. A luz da lua caiu em seu pequeno peito de criança, repartida em quatro pelas sombras que faziam as travessas da janela.

Se ele houvesse pensado nisso (ele não havia), ele iria esperar que os

homens maus de Ted se tornassem mais reais assim que ele estivesse

sozinho no escuro, só com o barulho de seu relógio e os murmúrios do

noticiário da madrugada na TV da sala para fazê-lo companhia. Era assim

que sempre acontecia a ele (era fácil rir do Frankenstein no Shock Theater,

ingir que estava para desmaiar e gritar “Ohhh, Frankie!”, quando o mostro

aparecesse, principalmente se Sully-John estivesse cochilando).

Mas no escuro, depois que S-J começasse a roncar (ou pior, se Bobby

estivesse só), a criatura do Dr. Frankenstein parecia muito ser. . não

exatamente real, mas. . possível.

Essa sensação de possibilidade não se juntou aos homens maus de Ted. Se

muito, a idéia de que pessoas poderiam se comunicar umas com as outras

via cartazes de animais perdidos parecia mais louca no escuro. Mas não

uma loucura perigosa.

Bobby não achava que Ted estava realmente, profundamente louco, de

qualquer forma; só um pouco esperto demais para seu próprio bem,

especialmente porque ele tinha tantas poucas coisas com que ocupar seu

tempo. Ted era um pouco. . bem. . puxa, um pouco o quê? Bobby não conseguia achar a palavra. Se a palavra excêntrico houvesse ocorrido a ele, ele a teria agarrado com prazer e alívio.

Mas. . parecia que ele estava lendo minha mente. O que dizer sobre isso?

Oh, ele estava enganado, era tudo, errado sobre o que pensou ouvir. Ou

talvez Ted houvesse lido sua mente, lido com aquela essencialmente

desinteressante maneira adulta, descascando a culpa de sua cara como

decalque úmido de um pedaço de vidro.

Deus sabe que sua mãe sempre poderia fazer isso. . ao menos até ontem.

Mas. .

Mas nada. Ted era um cara legal que sabia muito sobre livros, mas ele lia mentes tanto quanto Sully-John Sullivan era um mágico, ou seria um dia.

– É tudo ilusão. – Bobby murmurou. Ele tirou suas mãos de debaixo do

travesseiro, e as cruzou nos pulsos sacudindo-as. A sombra de um

passarinho voou pela luz da lua em seu peito.

Bobby sorriu, fechou os olhos, e adormeceu.

***

Na manhã seguinte ele sentou na varanda e leu vários artigos em voz alto do jornal Harwich Sunday. Ted encarrapitou-se no banquinho que lá havia,

ouvindo em silêncio e fumando Chester ields. Atrás dele e à sua esquerda,

as cortinas se agitaram na janela aberta da sala frontal dos Gar ield. Bobby

imaginou sua mãe sentada em uma cadeira onde era mais bem iluminado,

com uma cesta de costura ao seu lado, ouvindo e fazendo bainhas em saia

(as bainhas vão icar baratas de novo, ela lhe disse uma ou duas semanas antes; suba seu preço em um ano, tire os pontos de costura na primavera

seguinte e elas icam baratas novamente, tudo porque um bando de

almofadinhas em Nova York e Londres diz que deve ser assim, e a razão

dela se importar com isso, ela não sabia). Bobby não tinha idéia se ela estava realmente lá ou não, as janelas abertas e as cortinas agitadas não queriam dizer nada, mas ele imaginou mesmo assim. Quando ele era um

pouco mais novo, ocorreu a ele que ele sempre a imaginou lá, do lado de fora, naquela parte da sala onde as sombras eram muito espessas para se

ver devidamente.

Os artigos esportivos que ele lia eram interessantes (Maury Wills estava

arrebentando), mas não gostou tanto assim dos informativos, as colunas

das opiniões eram chatas e incompreensíveis, cheia de frases como

“responsabilidade iscal” e “indicadores de economia de uma natureza de

recessão”. Mesmo assim, Bobby não se importava de lê-las. Ele estava

fazendo seu trabalho, a inal, ganhando dinheiro, e um bocado de trabalhos

eram chatos ao menos por algum tempo. “Você tem que trabalhar para

comprar seus cereais”, sua mãe havia dito depois de ter icado até tarde no

escritório do Sr. Biderman. Bobby estava orgulhoso só de poder fazer sua

boca falar uma frase como “indicadores de economia de uma natureza de

recessão”. Além disso, o outro trabalho, o trabalho secreto, surgiu da idéia

louca de Ted de que existiam alguns homens que estavam em sua

perseguição, e Bobby teria se sentido estranho de receber dinheiro por

fazer esse trabalho; teria sido como se ele estivesse fazendo Ted de bobo de alguma forma, mesmo que essa houvesse sido a idéia do próprio Ted

em primeiro lugar.

Isso ainda era parte de seu trabalho, embora, loucura ou não, ele começou

a fazê-lo naquela manhã de Domingo. Bobby andou pelo bloco enquanto sua mãe dormia, procurando por homens maus em casacos amarelos, ou

sinais deles. Ele viu um número de coisas interessantes: na Colony Street uma mulher discutia com seu marido sobre algo, os dois estavam cara a

cara como o Gorgeous George e o Haystacks Calhoun (N.T. – Lutadores famosos de luta-livre nos anos 60. ) antes do começo de uma luta

explosiva; uma criança na Avenida Asher jogando pedras; adolescentes

com os lábios grudados uns nos outros fora da loja de variedades do Spicer

na esquina da Commonwealth com a Broad; um furgão com o interessante

slogan

“GOSTOSO PARA SUA BARRIGA” escrito em uma lateral, mas ele não viu

casacos amarelos ou anúncios de animais perdidos em postes telefônicos;

nem um único fio de pipa pendendo em um único fio telefônico.

Ele parou na loja do Spicer para comprar uma bala e olhou o quadro de aviso, que era dominado de fotos das candidatas a Miss Rhenigold deste

ano. Ele viu dois cartões oferecendo carros para venda, mas nenhum deles

estava de cabeça para baixo.

Havia outro que dizia “VENDE-SE PISCINA DE QUINTAL, BEM

PRESERVADA, SUA CRIANÇAS VÃO ADORAR”, e esta estava entortada, mas

Bobby achou que se estava apenas entortada então não contava.

Na Avenida Asher ele viu um grande Buick estacionado ao lado do

hidrante, sua cor era verde-garrafa e Bobby não achou que estava

quali icado como gritante e vulgar a exceção de escotilhas nas laterais da capota e do gradeado, que parecia como uma boca zombeteira de um

bagre de cromo.

Na Segunda-Feira ele continuou a procurar por homens maus em seu

caminho para a escola. Ele não viu nada. . mas Carol Gerber, que estava andando com ele e S-J, o viu procurar. Sua mãe tinha razão, Carol era muito

esperta.

– Tem algum agente comunista atrás de nós? – ela perguntou.

– Como é?

– Você continua a olhar pra todo canto. Até atrás de você; Por um momento

Bobby pensou em falar sobre para que Ted o havia contratado, então

decidiu que seria uma má idéia. Poderia ser uma boa se ele acreditasse

que havia realmente algo para se procurar, três pares de olhos ao invés de

um, incluindo os olhos a iadíssimos de Carol, mas ele não o fez. Carol e

Sully-John sabiam que seu trabalho era ler para Ted o jornal todo dia, e estava tudo bem. Era o bastante. Se ele contasse sobre os homens maus,

poderia parecer que ele estava fazendo piada do assunto, de algum modo.

Uma traição.

– Comunistas? – Sully perguntou, olhando ao redor. – É, eu os vejo, eu os vejo!

– ele fez aquele barulho esquisito com a boca novamente (era seu

favorito). Então ele cambaleou, largou sua pistola invisível, e apertou o peito. – Eles me pegaram!

Atingiram-me feio! Vão sem mim! Diga a Rose que eu a amo!

– Vou dizer isso pra minha tia gorda. – Carol disse lhe dando uma

cotovelada.

– Estou procurando pelos garotos do St. Gabe, é só. – Bobby disse.

Isso era plausível; os garotos do St. Gabriel estavam sempre pegando no pé

das crianças do primário enquanto iam para escola, os assustando com a

bicicleta, gritando que os garotos eram maricas, que as garotas eram

“saidinhas”. . o que Bobby tinha certeza do que signi icava meninas que

beijavam de língua e deixavam que tocassem em seus peitos.

– Não, aqueles palermas não aparecessem até mais tarde. – disse Sully-

John. – No momento eles estão todos em casa colocando suas correntes e

penteando o cabelo para trás como Bobby Rydell.

– Não xingue. – Carol disse, e lhe deu uma nova cotovelada.

Sully-John pareceu magoado.

– Quem xingou? Eu não xinguei.

– Sim, você xingou.

– Eu não, Carol.

– Você sim.

– Não senhora, eu não.

– Sim senhor, você xingou, você disse palerma.

– Isso não é um palavrão! Palermas signi ica bobos! – S-J olhou para Bobby

como se pedindo ajuda, mas Bobby estava olhando para a Avenida Asher,

onde um Cadillac a cruzava lentamente. Era grande, e ele supôs que fosse

um pouco brilhante, mas não era como qualquer um Cadillac? Este era

pintado em um marrom claro conservativo e não pareceu mau para ele.

Além disso, a pessoa no volante era uma mulher.

– É? Mostre-me uma foto de um palerma na enciclopédia e eu vou

acreditar em você.

– Eu deveria ter dar um empurrão. – Sully disse amavelmente. – Te

mostrar quem é o chefe. Eu Tarzan, você Jane.

– Eu Carol, você Cabeça-Dura. Pega. – Carol passou três livros, aritmética, Aventuras na Leitura, e Uma Casa na Pradaria, nas mãos de S-J. – Carregue meus livros porque você xingou.

Sully-John pareceu mais magoado do que nunca.

– Por que eu deveria carregar seus estúpidos livros mesmo que tivesse xingado, o que eu não fiz?

– É uma penitência. – Carol disse.

– O que bulhufas é uma penitência?

– Mentir por fazer alguma coisa errada. Se você xingar ou mentir, você tem

que cumprir uma penitência. Um dos meninos do St. Gabe me disse isso.

Willie é o nome dele.

– Você não deveria falar com eles. – Bobby disse. – Eles podem ser maus. –

ele sabia disso por experiência própria. Logo após as férias de Natal

acabarem, três meninos do St. Gabe o perseguiram rua abaixo na Broad

Street, ameaçando que iriam bater nele porque ele havia “olhado torto”

para eles. Eles realmente o teriam feito, Bobby pensou, se o líder não

houvesse escorregado na lama e caído de joelhos. Os outros tropeçaram

nele, dando a Bobby tempo o su iciente para voar para a grande porta do 149 e trancá-la. Os meninos do St. Gabe icaram vigiando do lado de fora por um tempo, então se foram depois de prometer a Bobby que eles o

“veriam mais tarde”.

– Eles não são todos assim, alguns deles são legais. – Carol disse. Ela olhou

para Sully-John, que carregava seus livros, e escondia um riso com uma

mão. Você poderia fazer S-J fazer qualquer coisa se falasse rápido e soasse

seguro de si. Seria mais gentil se Bobby carregasse os livros dela, mas não

adiantaria nada se ele não pedisse para ela.

Talvez algum dia ele o izesse; ela estava otimista quanto a isso. Enquanto

isso, era bom andar entre eles em uma manhã ensolarada. Ela olhou de

relance para Bobby, que olhava para a amarelinha desenhada na calçada.

Ele era tão fofo, e nem mesmo sabia disso. De alguma maneira essa era a coisa mais fofa de todas.

***

A última semana de aula passou como sempre passou, com uma lentidão

enlouquecedora. Naqueles primeiros dias de Junho, Bobby pensou que o

cheiro de cola na biblioteca estava quase forte o su iciente para enjoar uma minhoca, e geogra ia pareceu durar dez mil anos. Quem se importava

com o quanto de tinta havia no Paraguai?

Na hora do recreio, Carol falou sobre como ela iria para a fazenda de seus tios Cora e Ray na Pensilvânia por uma semana em Julho; S-J falou da

semana no acampamento que ele havia ganhado e como ele iria atirar

lechas em alvos e passear de canoa por todos os dias em que ele estivesse

lá. Bobby, por sua vez, falou a eles sobre o grande Maury Wills, que poderá

atingir um recorde por roubar bases que nunca seria quebrado enquanto

vivessem.

Sua mãe icava cada vez mais preocupada, pulando quando o telefone

tocava e então correndo para ele, icando acordada até o noticiário da

madrugada (e às vezes, Bobby suspeitava, até que o ilme do Corujão

terminasse), e apenas beliscando a comida. Às vezes ela tinha longas e

intensas conversas no telefone com suas costas curvadas e sua voz baixa

(como se Bobby quisesse bisbilhotar suas conversas). Às vezes ela ia ao

telefone, começava a ligar para algum número, e então o colocava de volta

no gancho e voltava para o sofá.

Em uma destas ocasiões Bobby perguntou a ela se ela havia esquecido o

número para qual queria ligar.

– Parece que eu me esqueci de um monte de coisas. – ela murmurou. –

Deixe de ser abelhudo, Bobby-O.

Ele deve ter percebido mais e icaria mais preocupado ainda, ela estava

emagrecendo e tinha voltado ao hábito do cigarro novamente depois de

parar por dois anos, se ele não tivesse várias coisas para ocupar sua

mente. A melhor coisa era o cartão da biblioteca de adulto, que parecia um

presente melhor, um presente mais inspirado, a cada vez que ele usava.

Bobby sentiu que havia um bilhão de livros de icção-cientí ica na seção

dos adultos que ele queria ler. Tome Isaac Asimov como exemplo. Sob o

nome de Paul French, o Sr. Asimov escreveu livros de icção-cientí ica para

crianças sobre um piloto espacial chamado Lucky Starr, e eles eram muito

bons. Sob seu próprio nome ele havia escrito outros livros, ainda melhores.

Ao menos três deles eram sobre robôs.

Bobby adorava robôs, Robby o Robô em O Planeta Proibido era um dos seus personagens favoritos de todos os tempos, em sua opinião, era

totalmente puto de legal, e os do Sr. Asimov eram quase tão bons quanto.

Bobby achou que gastaria muito tempo com eles no verão a frente. (Sully chamava este grande escritor de Isaac Chatomov, mas é claro que Sully era

quase totalmente ignorante sobre livros).

Indo para a escola ele procurou pelos homens em casacos amarelos, ou

sinais deles; indo para a biblioteca depois da escola ele fez o mesmo. Como

a escola e biblioteca eram em direção opostas, Bobby sentiu que ele estava

cobrindo uma boa parte de Harwich. Ele nunca esperou ver qualquer

homem mau, é claro. Depois do jantar, na longa luz da tarde, ele iria ler o jornal para Ted, ou na varanda, ou na cozinha de Ted. Ted havia seguido o

conselho de Liz Gar ield e arranjou um ventilador, e a mãe de Bobby não pareceu mais preocupada que Bobby lesse para o “Sr. Brattigan” lá fora na

varanda. Um pouco disso era por causa de sua crescente preocupação com

seus próprios problemas adultos, Bobby sentiu, mas talvez ela também

estivesse começando a con iar em Ted um pouco mais. Não que con iança

fosse o mesmo que gostar. Não que isso houvesse vindo fácil.

Uma noite enquanto eles estavam no sofá assistindo Wyatt Earp, sua mãe se virou para Bobby quase ferozmente e disse, “Ele está te tocando?”

Bobby entendeu o que ela estava perguntando, mas não porque ela estava

tão nervosa.

– Ora, claro. – ele disse. – Ele me dá uns tapinhas nas costas de vez em quando, e uma vez enquanto eu lia o jornal para ele e errei uma palavra realmente longa três vezes seguidas ele me deu um cascudinho na cabeça.

Mas ele não estava zangado ou bateu com força. Eu não acho que ele é

forte o bastante para isso. Por quê?

– Deixe pra lá. – ela disse. – Ele é bom, eu acho. Tem a cabeça nas nuvens,

sem dúvida, mas ele não parece um. . – ela saiu da linha do pensamento, observando a fumaça de seu cigarro Kool levantar no ar da sala de estar.

Saiu da ponta em uma faixa pálida e cinzenta e então desapareceu, fazendo

Bobby pensar no jeito que os personagens de O Anel ao Redor do Sol do Sr.

Simak desapareciam em uma espiral para outros mundos. Finalmente ela

virou-se para ele e disse:

– Se em alguma vez ele te tocar de uma maneira que você não goste, você

vem aqui e me diga. Imediatamente. Ouviu?

– Claro, mãe. – havia algo em seu olhar que o fez lembrar de uma vez em

que ele perguntou a ela como uma mulher sabia que ela teria um bebê. Ela

sangra todo mês , sua mãe disse. Se não sangrar, ela sabe, porque o sangue vai se transformar no bebê.

Bobby queria ter perguntado de onde o sangue sairia quando não

houvesse um bebê sendo feito (ele se lembrou de um sangramento no

nariz que sua mãe tivera uma vez, mas nenhum outro exemplo de

sangramento materno). Seu semblante, entretanto, o fez deixar o assunto

de lado. Ela tinha o mesmo semblante agora.

Na verdade havia tido outros toques: Ted poderia ter passado a mão em

seus cabelos, meio que o afagando; ele algumas vezes amassava o nariz de

Bobby gentilmente entre os nós dos dedos dizendo Fale Novamente! se Bobby errasse a pronúncia de uma palavra; se falassem ao mesmo

momento ele engancharia um de seus mindinhos em um dos mindinhos de

Bobby e diria Boa sorte, boa vontade, boa vida, sem má sina. Em breve

Bobby estaria dizendo com ele, seus mindinhos enganchados, e suas vozes soando como quando as pessoas pediam para passar o sal, ou quando se

cumprimentavam.

Apenas uma vez Bobby se sentiu desconfortável quando Ted o tocou.

Bobby havia acabado de ler o último artigo do jornal que Ted queria ouvir,

algum colunista tagarelando sobre como não havia nada de errado com

Cuba que a boa e velha empresa gratuita Americana não pudesse resolver.

A noite já estava escurecendo o céu. Na Colony Street, o cão Bowser da Sra.

O’Hara latiu e latiu, ou-ou-ou, o som era perdido e de algum modo devaneador, mais parecendo algo relembrado do que algo que acontecia

naquele momento.

– Bem. – disse Bobby, dobrando o jornal e se levantando. – Eu acho que vou dar uma volta pelo bloco e ver o que eu tenho que ver. – ele não queria dizer isso de supetão, mas ele queria que Ted soubesse que ele

ainda estava procurando pelos homens maus em casacos amarelos.

Ted também se levantou e se aproximou dele. Bobby icou entristecido em

ver medo no rosto de Ted. Ele não queria que Ted acreditasse tanto nos homens maus, não queria que Ted fosse tão louco.

– Volte antes de escurecer, Bobby. Nunca me perdoarei se algo lhe

acontecer.

– Eu terei cuidado. E eu voltarei antes de escurecer.

Ted semi-ajoelhou (ele era velho demais para conseguir se ajoelhar

completamente, Bobby pensou) e segurou Bobby pelos ombros. Ele trouxe

Bobby para frente até que suas testas se encostassem. Bobby podia sentir

o hálito de cigarro de Ted e o ungüento em sua pele, ele lambuzava suas juntas com Musterole porque elas doíam.

Estes dias elas doíam mesmo com o clima quente, ele disse.

Estar tão perto de Ted não era assustador, mas meio ruim, mesmo assim.

Você podia ver que se Ted não estava totalmente velho agora, ele estaria em breve. Ele provavelmente adoeceria também. Seus olhos estavam

lacrimosos. Os cantos de sua boca tremiam um pouco. Era muito ruim que

ele tivesse que icar aqui em cima no terceiro andar sozinho, Bobby

pensou. Se ele tivesse uma esposa ou coisa assim, ele poderia nunca ter tido essa pulga atrás da orelha sobre os homens maus. É claro, se ele

tivesse uma esposa, Bobby talvez nunca houvesse lido O Senhor das

Moscas. Um jeito egoísta de se pensar, mas ele não pode evitar.

– Nenhum sinal deles, Bobby?

Bobby balançou a cabeça.

– E você não sente nada? Nada aqui? – ele tirou sua mão direita do ombro

esquerdo de Bobby e tocou em sua própria testa, onde repousavam duas

veias azuladas, pulsando suavemente. Bobby negou com a cabeça. – Ou

aqui? – Ted puxou o canto de seu olho direito. Bobby negou novamente. –

Ou aqui? – Ted tocou seu estômago. Pela terceira vez Bobby balançou a

cabeça.

– Certo. – Ted disse e sorriu. Ele deslizou sua mão esquerda para a parte de trás do pescoço de Bobby. – Você me diria se sentisse, não é? Você não

tentaria. . oh, eu não sei. . me poupar de emoções?

– Não. – Bobby disse. Ele gostava das mãos de Ted em seu pescoço e não gostava ao mesmo tempo. Era onde um cara em um ilme colocava a mão

bem antes de beijar uma garota. – Não, eu falaria, esse é o meu trabalho.

Ted assentiu. Ele lentamente tirou sua mão e a deixou cair. Ele se levantou,

usando a mesa para suporte e fazendo uma careta quando um joelho

estalou fazendo barulho.

– Sim, você me diria, você é um bom garoto. Pode ir, vá fazer seu passeio.

Mas vá pela calçada, Bobby, e volte antes de escurecer. Você tem que ter cuidado nestes dias.

– Eu terei cuidado. – e começou a descer as escadas.

– Se você os vir. .

– Eu correrei.

– É. – na luz fraca, a cara de Ted icou assombrosa. – Como se o inferno estivesse atrás de você.

Então não tinha havido toques, e talvez os medos de sua mãe se

justi icassem de um jeito, talvez houvesse tido muitos toques, e alguns

deles do tipo errado. Não errados de qualquer modo que ela pensasse,

talvez, mas ainda assim eram errados. Ainda assim eram perigosos.

Na Quarta-Feira antes das férias de verão, Bobby viu uma linha vermelha

presa na antena de TV de alguém na Colony Street. Ele não pode dizer com

certeza, mas parecia notavelmente com um io de pipa. Bobby estacou. Ao

mesmo tempo seu coração acelerou até que batesse do jeito que batia

quando ele apostava corrida contra Sully-John de casa até a escola.

É uma coincidência se aquilo for um fio de pipa, ele disse a si mesmo, só uma coincidência nojenta. Você sabe disso, não sabe?

Talvez. Talvez ele soubesse. Ele quase tinha acreditado nisso, de qualquer

forma, quando a escola o libertou para o verão na Sexta-Feira. Bobby

voltou para casa sozinho naquele dia; Sully-John havia se voluntariado

para icar e ajudar a devolver os livros para a estante e Carol estava indo

para a casa de Tina Lebel para a festa de aniversário de Tina. Logo antes de cruzar a Avenida Asher e começar a descer a ladeira da Broad Street, ele viu uma amarelinha desenhada na calçada em giz púrpura. Parecia

com isso:

– Oh, Cristo, não. – Bobby sussurrou. – Você tem que estar brincando.

Ele icou semi-ajoelhando como um escoteiro da cavalaria em um ilme de faroeste, sem perceber as crianças passando por ele, indo para suas casas,

algumas andando, outras em bicicletas, outras em skates, Francis Utterson

e seus dentes podres em seu patinete vermelho-ferrugem, buzinando alto

para o céu enquanto passeava. Eles quase não o percebiam; A Grande

Folga havia acabado de começar, e quase todos estavam hipnotizados pelas

possibilidades.

– Oh não, oh não. Eu não acredito, você tem que estar brincando. – Ele itou a estrela e a lua crescente, que estavam desenhadas em giz amarelo, não púrpura, e quase as tocou, então puxou sua mão de volta. Um pedaço de

linha vermelha presa em uma antena de TV não signi icava nada. Mas

quando você adicionava isso, ainda poderia ser coincidência? Bobby não

sabia. Ele só tinha onze anos e havia zilhões de coisas que ele não sabia.

Mas ele estava com medo. . com medo que. .

Ele se levantou e olhou em volta, meio que esperando ver uma longa linha

de carros brilhantes demais descendo a Avenida Asher, rodando

lentamente do jeito que os carros fazem quando estão seguindo um carro

fúnebre no cemitério, com seus faróis acesos no meio do dia. Meio que

esperando ver homens em casacos amarelos parados sob a marquise do

Asher Empire ou na frente da Taverna do Sukey, fumando Camels e o

observando.

Sem carros. Sem homens. Apenas crianças voltando da escola para casa. Os

primeiros do St. Gabe, notáveis em seu uniforme de calças e camisas

alaranjadas, eram visíveis entre eles.

Bobby virou-se e voltou três blocos acima da Avenida Asher, preocupado

demais sobre o que ele havia visto riscado na calçada para se preocupar com os garotos mal-humorados do St. Gabe. Não havia nada nos postes

telefônicos da avenida, mas alguns cartazes fazendo propaganda da Noite de Bingo no Salão da Paróquia do St.