Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 33 de 59

Páginas do PDF

Corações na Atlântida

Capítulo 22

milhões de Chineses Vermelhos não dariam a mínima, e para mim isso

valia em dobro.

Havíamos quase chegado ao meu carro. Era só mais uma lata velha entre

outras, mas, cortesia do meu irmão, era minha.

– Ele tem mais coisas na mente do que seu novo interesse amoroso. – Carol

disse. – Ele vai entrar no Exército quando terminar o colégio em Junho. Ele

já falou com o recrutador e se alistou. Ele mal pode esperar para ir ao Vietnã e começar a fazer o mundo seguro para a democracia.

– Você teve uma briga com ela por causa da guerra?

– Não. Do que adiantaria? E, além disso, o que eu falaria para ele? Que para mim tudo se resume a Bobby Gar ield? Que todas as coisas que Harry

Swidrowski, George Gilman e Hunter McPhail dizem não são nada

comparadas ao fato de que Bobby me carregou pela ladeira da Broad

Street? Sully pensaria que eu estou maluca.

Ou diria que é porque eu sou esperta demais. Sully sente pena de pessoas

que são espertas demais. Ele diz que ser inteligente demais é uma doença.

E talvez ele tenha razão. Eu meio que o amo, você sabe. Ele é doce. Ele também é o tipo de cara que precisa de alguém para cuidar dele.

E eu espero que ele ache esse alguém, eu pensei. Contanto que não seja você.

Ela olhou julgando o meu carro.

– Certo. – ela disse. – É feio, e precisa desesperadamente ser lavado, mas é

um transporte. A pergunta é: o que estamos fazendo aqui, quando eu

deveria estar lendo a história de Flannery O’Connor?

Eu tirei minha faca de bolso e a abri.

– Tem uma lixa na bolsa?

– Pra falar a verdade eu tenho. Nós vamos lutar? Número Dois e Número

Seis vão ao estacionamento Steam Plant?

– Pare de bancar a espertinha. Apenas pegue-a e me siga.

Quando chegamos à traseira do Station Wagon, ela estava rindo, não o riso

magoado, mas aquele ataque de risos que eu ouvi pela primeira vez

quando o homem de cachorro-quente excitado de Skip havia vindo pela

esteira na cozinha. Ela finalmente entendeu por que estávamos lá.

Carol tirou um lado do adesivo do pára-choque; eu tirei o outro;

encontramo-nos no meio. Então assistimos os pedaços voarem pelo

macadame. Au revoir, AuH2O-4-USA. Adeusinho, Barry. E nós rimos. Cara, nós simplesmente não conseguíamos parar de rir.

22

Alguns dias depois, meu amigo Skip, que havia chegado à faculdade com a

cultura política de um molusco, colocou um cartaz no seu lado do quarto que dividia com Brad Whiterspoon. Ele mostrava um homem de negócios

sorridente em um terno de três peças. Uma mão estava estendida em um

cumprimento. A outra estava escondida atrás de suas costas, mas alguma coisa lá estava pingando sangue entre seus sapatos.

GUERRA é UM BOM NEGÓCIO, o cartaz dizia. INVISTA SEU FILHO.

Dearie ficou horrorizado.

– Então você é contra o Vietnã agora? – ele perguntou quando o viu. Abaixo

de sua truculência queixuda eu acho que nosso amado monitor estava

realmente chocado com o cartaz. Skip, a inal, havia sido um jogador de

beisebol de primeira classe no colégio. Era esperado que ele jogasse

beisebol na faculdade também. Havia sido cortejado tanto pela Delta Tau

Delta quanto por Phi Gama, as fraternidades desportivas.

Skip não era um doido com os olhos de sapo como George Gilman, nem aleijado como Stoke Jones (Dearie Dearborn havia se rendido a chamar

Stoke de “Matador”).

– Ei, tudo o que esse cartaz quer dizer é que há várias pessoas lucrando com um banho de sangue. – Skip disse. – A McDonnell-Douglas. A Boeing.

GE. Dow Chemical e Coleman Chemicals. A maldita Coca-Cola. E muito mais.

Os olhos de Dearie transmitiam (ou tentavam) a idéia de que ele havia

pensado nestes assuntos mais profundamente do que Skip Kirk jamais iria.

– Deixe-me perguntar uma coisa, você acha que nós deveríamos recuar e

deixar o Tio Ho tomar aquele lugar?

– Eu não sei o que eu acho. – Skip disse. – Ainda não. Eu só comecei a me interessar pelo assunto há umas duas semanas. Eu ainda estou me

atualizando.

Isso foi às sete e meia da manhã, e um pequeno grupo se juntou na porta

de Skip para ir às aulas das oito horas. Eu vi Ronnie (mais Nick Prouty; a este ponto, os dois se tornaram inseparáveis), Ashley Rice, Lennie Doria, Billy Marchant, talvez quatro ou cinco outros. Nate estava inclinado na

porta do 302, vestindo uma camisa e seu pijama.

Nas escadarias, Stoke Jones se curvava em suas muletas. Ele

aparentemente havia seguido seu caminho e se virado para monitorar a

discussão.

Dearie continuou.

– Quando os vietcongues chegarem ao Vietnã do Sul, as primeiras coisas

que irão procurar são pessoas usando cruci ixos, medalhas de São

Cristovão, medalhas de Maria, qualquer coisa desta natureza. Católicos são

mortos. Pessoas que acreditam em Deus são mortas. Acha mesmo que

deveríamos recuar enquanto comunistas matam as pessoas que acreditam

em Deus?