Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 18 de 59

Páginas do PDF

Corações na Atlântida

Capítulo 7

Com a possibilidade da carta matadora apagada, Ronnie era durão.

Ainda assim, eu fui bem naquela manhã. Enquanto Hugh Brennan passou

dos cem no primeiro jogo, eu tinha trinta e três pontos, e Ronnie vinte e oito. Já passara dois ou três anos desde que eu jogara Copas pela última vez, era a primeira vez que eu jogava por dinheiro, e eu pensei que dois

mangos era um preço pequeno para tal inesperado entretenimento.

Aquela rodada custou a Ashley dois dólares e cinqüenta centavos; o

azarado Hugh teve que pagar três e sessenta. Pareceu que Ronnie havia

ganhado a grana para o encontro mais tarde a inal de contas, embora eu

achasse que a menina teria que ser uma baita fã de Bogart para lhe fazer

um boquete. Ou mesmo lhe dar um beijinho de boa noite.

Ronnie bufou como um corvo guardando um pedaço fresco de carne morta

na estrada.

– Consegui. – ele disse. – Sinto muito por vocês que não conseguiram, mas

eu consegui, Riley. É como na canção do The Doors, os homens não sabem,

mas as garotinhas entendem.

– Você é doente, Ronnie. – eu disse.

– Eu quero ir de novo. – Hugh disse. Eu acho que P.T. Barnum estava certo,

realmente há alguém como Hugh nascendo a cada minuto. – Eu quero meu

dinheiro de volta.

– Bem. – Ronnie disse, revelando seus dentes sujos em um grande sorriso.

– Eu estou disposto a lhe dar uma chance. – ele olhou para mim. – O que me diz, esportista?

Meu texto de geologia estava esquecido no sofá atrás de mim. Eu queria

meus vinte cinco centavos de volta, e alguns mais para lhe fazer

companhia. Mas o que eu mais queria era dar uma lição em Ronnie

Malenfant.

– Faça-as correr. – eu disse, e então, pela primeira vez de centenas, eu falei

as mesmas palavras que pronunciaria nas semanas problemáticas que

estavam para vir: – Começa passando pela esquerda ou pela direita?

– Novo jogo, passa pela direita. Que retardado. – Ronnie gargalhou, se

empertigou, e assistiu com felicidade enquanto as cartas voavam do

baralho. – Deus, eu amo este jogo!

7

O segundo jogo foi o que me pegou de verdade. Desta vez foi Ashley ao invés de Hugh quem saiu como um foguete na direção dos cem pontos,

entusiasticamente ajudado por Ronnie, que jogava A Puta na azarada

cabeça de Ash a cada oportunidade.

Eu lidei com a rainha apenas duas vezes no jogo. Na primeira vez eu a segurei por quatro vazas consecutivas quando eu poderia ter

bombardeado Ashley com ela.

Finalmente, quando eu já estava pensando que terminaria comendo a mim

mesmo, Ashley perdeu a saída para Hugh Brennan, que prontamente

jogou uma de ouro. Ele deveria saber que eu tinha o às daquele naipe,

desde o começo da mão, mas os Hughs do mundo pouco sabem. Sendo

assim, eu suponho, porque os Ronnies do mundo adoram jogar cartas com

eles. Eu coloquei a Puta no topo da vaza, segurei meu nariz e o apertei para

Hugh. Era assim que dizíamos “Toma essa!” nos velhos excêntricos anos

sessenta.

Ronnie fez uma careta.

– Por que fez isso? Você poderia ter acabado com aquele idiota! – ele

apontou para Ashley, que nos olhava vagamente.

– É, mas eu não sou tão estúpido. – eu dei um tapinha no marcador de pontos.

Ronnie já tinha trinta pontos; eu tinha trinta e quatro. Os outros dois estavam muito além disso. A questão não era qual dos amigos de Ronnie

perderia, mas qual dos dois que sabiam jogar o jogo venceria. – Eu não me

importaria de ver aqueles filmes do Bogie sozinho, saca, Queridinha.

Ronnie mostrou seus dentes questionáveis em um sorriso. Ele estava

jogando para uma multidão agora; nós havíamos atraído meia dúzia de

espectadores. Skip e Nate estavam entre eles.

– Quer jogar assim, não é? Certo. Afaste as nádegas, escroto; você está para

ser arrombado.

Duas mãos depois, eu o arrombei. Ashley, que começara a última mão com noventa e oito pontos, subiu aos céus com pressa. Os espectadores estavam

silenciosos como os mortos, esperando para ver se eu realmente poderia

bater Ronnie com seis (o número de copas que ele precisaria tomar, para

que eu pudesse ganhar por um).

Ronnie pareceu bem de primeira, jogando sob tudo que saia, icando longe

da própria saída. Quando você tem boas cartas baixas em Copas, você está

praticamente à prova de balas.

– Riley está frito! – ele informou a audiência. – Eu quero dizer

realmente tostado!

Eu também pensei isso, mas ao menos eu tinha a dama de espadas em

minha mão. Se eu pudesse jogá-la, eu venceria. Não faria Ronnie perder

tanto, mas faria os outros dois tossirem sangue: mais de cinco pratas cada

um. E eu conseguiria ver a cara de Ronnie mudar. Era isso o que eu mais queria, ver a boçalidade desaparecer para ver o desespero entrar. Eu

queria calar a boca dele.

E a casa caiu nas últimas três vazas. Ashley jogou um seis de copas. Hugh jogou o cinco. Eu joguei três. Eu vi o sorriso de Ronnie desaparecer

enquanto ele jogava o nove e tomava a vaza, isso fez sua pontuação cair três pontos. Ainda melhor, eu inalmente tinha a saída. Eu tinha o valete de

paus e a rainha de espadas na mão. Se Ronnie tivesse uma de paus baixa e

jogasse, eu comeria A Puta e teria que suportar sua boçalidade, o que seria

irritante. Mas por outro lado. .

Ele jogou cinco de ouro. Hugh jogou dois de ouro, vindo por baixo, e Ashley,

sorrindo de um modo enigmático que sugeria que ele não tinha idéia do

que caralho estava fazendo, jogou o às.

Silêncio total na sala.

Então, sorrindo, eu completei a vaza, a vaza de Ronnie, jogando a rainha de espadas no topo das outras três cartas. Houve um leve sussurro ao redor da mesa de joga, e quando eu olhei para cima vi meia dúzia de

espectadores se transformarem em quase uma dúzia. David Dearborn se

inclinou no umbral, os braços cruzados, franzindo o cenho para nós. Atrás

dele, no corredor, havia outra pessoa. Outra pessoa curvada em um par de

muletas.

Eu suponho que Dearie já havia checado seu livro de regras

usado, Regulamentos dos Dormitórios da Universidade do Maine, Edição

1966-1967 , e icou desapontado em não achar nada lá que fosse contra jogar cartas, mesmo que envolvesse aposta de dinheiro. Mas você deve

acreditar em mim que o desapontamento dele não era nada comparado ao

de Ronnie.

Há bons perdedores neste mundo, há os perdedores magoados, os

perdedores aborrecidos, perdedores provocadores, perdedores chorões. .

e então há o perdedor do tipo ilho da puta boçal. Ronnie era desse tipo.

Suas bochechas coraram e icaram roxas perto das cicatrizes. Sua boca se encolheu em uma sombra, e eu podia ver suas mandíbulas trabalhando

enquanto ele mastigava os lábios.

– Ora, ora. – Skip disse. – Olha só quem foi atingido pela merda.

– Por que fez isso. – Ronnie explodiu, ignorando Skip, ignorando todos na sala, exceto eu. – Por que fez isso, seu bostão escroto?

Eu estava estupefado pela pergunta, e deixe-me admitir isso,

absolutamente satisfeito pela sua fúria.

– Bem. – eu disse. – De acordo com Vince Lombardi, ganhar não é tudo, é a

única coisa. Pague, Ronnie.

– Você é um veado. – ele dsisse. – Uma maldita puta de bichas. Quem fez essa jogada?

– Ashley. – eu disse. – E se você quiser me chamar de trapaceiro, diga bem

alto.

Então eu vou dar a volta nessa mesa, te pegar antes que possa fugir, e te bater até você dizer basta.

– Ninguém vai bater em ninguém em meu andar! – Dearie disse

azedamente do umbral, mas todos o ignoraram. Eles estavam assistindo

Ronnie e eu.

– Eu não te chamei de trapaceiro, só perguntei quem fez a jogada. – Ronnie disse. Eu quase podia ver seu esforço para se controlar, para me engolir e

sorrir enquanto o fazia, mas havia lágrimas de fúria em seus olhos

(grandes, brilhantes e verdes, estes olhos eram a única coisa de bonita em

Ronnie), e sob os lóbulos das suas orelhas, os pontos de sua mandíbula iam

de inchaço ao relaxamento. Era como ver dois corações batendo nos lados

de seu rosto. – Quem dá a mínima, você me ganhou por dez pontos.

Cinqüenta centavos, bela merda.

Eu não fui um valentão no colégio, como Skip Kirk, debate e corrida eram minhas únicas atividades extracurriculares, e eu nunca disse a ninguém a

minha vida que bateria até dizer basta. Ronnie pareceu um bom lugar para se começar, entretanto, e Deus sabe que eu falei sério. Acho que todos

sabiam disso também. Havia uma grande panela de adrenalina adolescente

naquela sala; você podia sentir o cheiro, quase poderia provar. Parte de mim (grande parte) queria que ele me atacasse mais. Parte de mim queria

se engalfinhar com ele, queria arrebentar com ele.

Dinheiro apareceu na mesa. Dearie se aproximou, franzinho o cenho mais

do que nunca, mas ele não disse nada. . ao menos nada sobre isso. Ao invés

disso ele perguntou se alguém na sala havia melado sua porta de creme de

barbear, ou sabia quem tinha feito. Todos nós nos viramos e olhamos para

ele, e vimos que Stoke Jones havia ido passado pelo umbral quando Dearie

havia pisado na sala. Stoke se segurou nas muletas, nos assistindo com

seus olhos brilhantes.

Houve um momento de silêncio, e então Skip disse:

– Tem certeza de que talvez você não seja sonâmbulo e você mesmo o

tenha feito, David?

Uma explosão de risos foi liberada, e foi a vez de Dearie corar. A cor começou pelo seu pescoço e subiu até as bochechas e a testa, até as raízes

de seu cocuruto (nada de corte de cabelo aboiolado dos Beatles para

Dearie, muito obrigado).

– Passem a palavra de que é melhor que isso não aconteça de novo. –

Dearie disse. Fazendo sua própria imitação de Bogie sem perceber. – Eu

não vou ter minha autoridade ser feita de chacota.

– Oh, que se dane. – Ronnie murmurou. Ele havia pegado as cartas e as embaralhava desconsoladamente.

Dearie deu três passos na sala, pegou Ronnie pelos ombros de sua camisa

da Liga Ivy, e o puxou. Ronnie levantou-se por si mesmo para que a camisa

não rasgasse.

Ele não tinha muitas camisas boas; nenhum de nós tinha.

– O que disse, Malenfant?

Ronnie olhou em volta e viu o que eu imagino que passou o resto de sua vida vendo: nenhuma ajuda, nenhuma simpatia. Como sempre, ele estava

sozinho. E ele não tinha a menor idéia do porquê.

– Eu não disse nada. Não seja tão fodidamente paranóico, Dearborn.

– Desculpe-se.

Ronnie contorceu-se onde estava.

– Eu não disse nada, por que deveria me desculpar por nada?

– Desculpe-se de qualquer maneira. E eu quero ouvir uma desculpa

verdadeira.

– Oh, pare com isso. – Stoke Jones disse. – Todos vocês. Deveriam ver a si mesmos. Estupidez elevada a N potência.

Dearie olhou para ele surpreso. Todos nós estávamos surpresos, eu acho.

Talvez até mesmo Stoke estivesse.

– David, você só está puto porque alguém melou sua porta. – Skip disse.

– Você está certo. Eu estou puto. E eu quero um pedido de desculpas seu,

Malenfant.

– Solte-o. – Skip disse. – Ronnie só se irritou um pouco porque ele perdeu

por pouco. Ele não melou sua maldita porta.

Eu olhei para Ronnie para ver como ele lidava com a rara experiência de

ter alguém ao seu lado e vi um intrigante olhar verde, quase perplexidade.

Nesse momento eu tive quase certeza de que Ronnie havia melado a porta

de Dearie. Quem mais entre meus conhecidos poderia tê-lo feito?

Se Dearie houvesse notado aquela piscada de culpa, eu acredito que ele

chegaria à mesma conclusão. Mas ele estava olhando para Skip. Skip o

olhava de volta calmamente, e depois de alguns segundos para fazer

parecer (para si mesmo, não para o resto de nós) como se houvesse sido sua própria idéia, Dearie soltou a camisa de Ronnie. Ronnie sacudiu a si mesmo, alisou as rugas de seu ombro, então começou a pescar em seu

bolso algumas moedas para me pagar.

– Me desculpe. – Ronnie disse. – O que quer que te tenha emputecido, sinto

muito. Sinto muito pra caralho, sinto muito até meu rabo doer. Está bem?

Dearie recuou. Eu pude sentir a adrenalina; eu suspeite que Dearie

poderia sentir as ondas de desprezo rolando em sua direção claramente.

Até Ashley Rice, que parecia um urso retardado em um desenho animado,

olhava para Dearie de um modo nada amistoso, com seus olhos chatos. Era

um caso que o poeta Gary Snyder teria chamado de beisebol do má-carma.

Dearie era o monitor, strike um. Ele tentava governar nosso andar como se

fosse um acessório para seu amado programa CTOR, strike dois. E ele era

um veterano escroto nos tempos em que era acreditado que os veteranos deveriam intimidar os novatos como parte de seu trabalho. Strike três,

Dearie, você está fora.

– Espalhem a palavra que eu não vou tolerar qualquer merda colegial em

meu andar. – Dearie disse ( seu andar, dá pra agüentar?). Ele icou ereto como uma vareta em seu suéter da U do M e calças caqui

( amassadas calças caqui), embora fosse Sábado. – Isto não é o colégio, senhores; isto é o Chamberlain Hall da Universidade do Maine.

Seus dias de espiar garotas nuas em seus banheiros estão terminados. A

hora chegou para vocês se tornarem universitários.

Eu acho que existe uma razão para ter sido votado como o Palhaço da

Classe no Anuário de ’66 de Gates Falls. Eu juntei os calcanhares e iz uma

bela saudação britânica, do tipo com a palma da mão quase para fora.

– Sim, senhor! – eu gritei. Houve risos nervosos do público, uma gargalhada

grosseira de Ronnie, e um sorriso de Skip. Skip encolheu os ombros, sobrancelhas erguidas, mãos para o alto. Viu o que conseguiu? ele dizia. Aja como um idiota e é assim que as pessoas te tratam . Eloqüência perfeita, eu acho, quase sempre vem muda.

Dearie olhou para Skip, também mudo. Então olhou para mim. Sua cara

não tinha expressão, estava quase morta, mas eu desejei ter perdido meu

impulso de engraçadinho. O problema é, para os engraçadinhos natos, o

impulso, em nove de dez vezes, acontece antes que o cérebro possa

engatar a primeira marcha. Eu aposto nisso nos velhos dias, onde

cavaleiros eram carecas, e lacaios da corte eram pendurados pelas bolas

de cabeça para baixo. Você não lê sobre isso em Morte D’Arthur , mas eu acho que deve ser verdade (ria dessa, seu ilho da puta). Em todo caso, eu sabia que acabara de fazer um inimigo.

Dearie girou em um círculo quase perfeito e saiu marchando para fora do

salão comunal. A boca de Ronnie se desenhou em um sorriso que fez sua

cara feia icar mais feia ainda; o semblante de um vilão em uma peça de melodrama. Ele fez um gesto de punheta para as costas eretas de Dearie que se afastavam. Hugh Brennan riu um pouco, mas ninguém mais riu.