Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 35 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 24

diz alguma coisa?

Ronnie explodiu na risada.

– Seu escroto da porra! – ele me deu um tapinha nos ombros. O olhar boçal

de seus olhos havia sido substituído por um aterrorizado que o fez parecer

mais jovem. –

Vai sair?

– Sim.

– Carol?

– Sim.

– Bom para você. Ela é uma gata. – para Ronnie, isto se aproximava de uma

sinceridade que vinha do fundo do coração.

– Você também, Ronnie.

– É. Claro. – olhando para mim pelo canto dos olhos ao invés de para

frente.

Tentando segurar o sorriso. – De um jeito ou de outro, acho que ambos

vamos nos ferrar bonito, não acha?

– É. Acho que isso resume bem a situação.

24

Estava quente, mesmo com o motor e o aquecedor desligados estava

quente, nós havíamos esquentado o carro por dentro com nossos corpos,

as janelas estavam tão borradas de vapor, que a luz do estacionamento

veio totalmente difusa, como a luz através de uma janela de banheiro de vidro cristalizado, e o rádio estava ligado, o Poderoso John Marshall

cantando as clássicas, The Humble Yet Nonetheless Mighty tocando The

Four Seasons e The Dovells, Jack Scott, Little Richard, e Freddie “Boom

Boom” Cannon, todos esses clássicos, e seu suéter estava aberto, e seu sutiã estava jogado no assento com uma alça pendendo, uma ina alça

branca, a tecnologia de sutiã naqueles dias ainda não havia dado seu

grande salto para frente, e, oh, cara, a pele dela era quente, seus mamilos

duros em minha boca, e ela ainda estava de calcinha, mas apenas

parcialmente, ela estava empurrada e dobrada em um lado, e eu primeiro

coloquei um dedo nela, e então dois dedos, Chuck Berry cantava “Johnny B.

Goode”, e The Royal Teens cantavam “Short Shorts”, e sua mãe estava

dentro do meu zíper, as mãos puxando o elástico do meu próprio “short shorts”, e eu podia sentir o cheiro dela, o perfume em seu pescoço e o suor

em sua testa bem abaixo de onde começavam seus cabelos, e eu podia

ouvi-las, ouvir o pulso vivo de sua respiração, sussurros desprovidos de

palavras em minha boca enquanto nos beijávamos, tudo isto com o assento

da frente de meu carro empurrado para trás ao máximo, sem que eu

pensasse em me ferrar nas preliminares ou a guerra no Vietnã, ou LBJ

usando colar de lores, ou Copas, ou qualquer coisa, apenas a desejando, a

desejando bem aqui e bem agora, e então de repente ela estava icando

ereta, e me fazendo icar ereto, ambas as mãos plantadas em meu peito, dedos soltos me empurrando de volta para o volante. Eu me movi na

direção dela novamente, deslizando uma de minhas próprias mãos em sua

coxa, e ela disse

“Pete, não”, em uma voz a iada e fechou as pernas, os joelhos se juntando forte o su iciente para você ouvir o barulho que izeram, o som de

fechadura que signi ica que a transa acabou, goste ou não. Eu não gostei, mas parei.

Eu encostei a cabeça na janela embaçada do lado do motorista, respirando

com di iculdade. Meu pau estava duro como ferro espetando a frente de

minha cueca, tão duro que doía. Isso iria terminar muito em breve,

nenhuma ereção dura para sempre, eu acho que Benjamin Disraeli disse isso (mas mesmo depois que a ereção se for, as bolas continuam ligadas). É

apenas um fato da vida de um cara.

Nós havíamos saído do cinema (um ilme de família horrível com Burt

Reynolds), mais cedo e viemos para o estacionamento Steam Plant com a

mesma coisa em nossas mentes. . ou assim eu esperava. Eu acho que foi a

mesma coisa, exceto que eu esperava por mais do que havia ganhado.

Carol puxou os lados do suéter, mas seu sutiã continuava pendendo no

assento e ela parecia insanamente desejável com seus seios tentando sair

dali, e metade de uma aréola visível na luz fraca. Ela estava com a bolsa aberta e estava procurando por seus cigarros com as mãos trêmulas.

– Uaaaau. – ela disse. Sua voz tremia tanto quanto as mãos. – Minha nossa.

– Você parece Brigitte Bardot com seu suéter aberto desse jeito. – eu disse

a ela.

Ela olhou para mim, surpresa, e, eu acho, feliz.

– Você realmente acha isso? Ou é só o cabelo loiro?

– O cabelo? Merda, não. É mais os. . – eu iz um gesto apontando para sua fronte. Ela olhou para baixo e riu. Ela não se cobriu mais, ou tentou puxar

mais os lados do suéter. Não tenho certeza se ela poderia, de qualquer

forma; ao que me lembre, o suéter estava maravilhosamente apertado.

– Havia um cinema rua acima quando eu era uma criança, o Asher Empire.

Está em ruínas agora, mas quando éramos crianças, Bobby, Sully-John, e

eu, parecia que eles sempre exibiam os ilmes dela. Eu acho que um deles,

E Deus Criou a Mulher, deve ter sido exibido lá milhares de vezes.

Eu cai no riso e tirei meus próprios cigarros do painel.

– Este sempre foi o terceiro ilme a ser exibido no drive-in de Gates Falls nas noites de Sexta e Sábado.

– Você já viu?

– Está brincando? Eu nem era permitido me aproximar do drive-in a não ser que fosse uma sessão dupla de ilmes da Disney. Eu acho que devo ter

assistido Tonka com Sal Mineo ao menos sete vezes. Mas eu me lembro dos

trailers. Brigitte em sua toalha.

– Eu não vou voltar para a faculdade. – ela disse, e acendeu um cigarro. Ela

falou tão calmamente que eu pensei que estivéssemos falando de velhos

ilmes, ou a meia-noite em Calcutá, ou o que quer que fosse necessário

para persuadir nossos corpos a irem dormir. Então minha cabeça deu um

clique.

– Você. . você não disse. .?

– Eu disse que não vou voltar depois do feriado. E não vai ser um Dia de Ação de Graças muito bom em casa, mas que diabos.

– Seu pai?

Ela balançou a cabeça, tragando o cigarro. Na luz de sua brasa, seu rosto

icava laranja e sombreando de cinza. Ela pareceu mais velha. Ainda linda, mas velha. No rádio Paul Anka cantava “Diana”. Eu o desliguei.

– Meu pai não tem nada a ver com isso. Eu vou voltar para Harwich.

Lembra-se que eu mencionei a amiga de minha mãe, Rionda?

Eu meio que lembrava, então assenti.

– Rionda tirou a foto que eu te mostrei, aquela de mim com Bobby e S-J. Ela

diz. . – Carol olhou para baixo, para sua saia, que ainda estava em sua maior parte levantada até a cintura e começou a mexer nela. Você nunca

pode dizer o que vai envergonhar uma pessoa; às vezes são as funções

orgânicas, às vezes é o comportamento sexual de seus parentes; às vezes o

comportamento exibido. E algumas vezes, é claro, é a bebida.

– Vamos colocar deste modo, meu pai não é o único na família Gerber com

problema com bebidas. Ele ensinou a minha mãe a como tocar o cotovelo, e ela era uma boa estudante. Por um longo tempo ela parou, ela foi para os encontros dos AA, eu acho, mas Rionda disse que ela começou de novo.

Então eu vou para casa. Eu não sei se posso tomar conta dela ou não, mas

eu vou tentar. Tanto pelo meu irmão quanto pela minha mãe. Rionda disse

que Ian não sabe se ele vai vir ou ir. É claro que ele nunca veio. – ela sorriu.

– Carol, talvez essa não seja uma boa idéia. Jogar fora seus estudos assim.

Ela olhou para mim furiosa.

– Quer conversar sobre jogar fora meus estudos? Sabe o que eu tenho ouvido sobre aquele jogo de Copas de merda no Chamberlain Três

ultimamente? Que todos no andar vão estar reprovados quando o Natal chegar, incluindo você. Penny Lang isse que ao começo do semestre da

Primavera não vai haver mais ninguém lá em cima, exceto aquele seu

monitor imbecil.

– Que nada. – eu disse. – É um exagero. Nate vai icar. Stokely Jones

também, se ele não quebrar o pescoço descendo as escadas alguma noite.

– Você age como se fosse engraçado. – ela disse.

– Não é engraçado. – eu disse. – Não, não foi engraçado.

– Então por que não pára?

Agora era eu quem estava começando a icar furioso. Ela havia me

empurrado e fechado as pernas, havia me dito que iria embora quando eu

inalmente estava começando a querê-la por perto, a precisar dela por

perto, ela havia me deixado com o que em breve seria um caso mundial de

bolas azuis. . e agora tudo se resume a mim.

Agora tudo se resume às cartas.

– Eu não sei por que eu não paro. – eu disse. – Por que não acha alguém que tome conta de sua mãe? Por que a amiga dela, Rawanda. .

– Ri-ow-da.

– . .toma conta dela? Quero dizer, é sua culpa que sua mãe seja uma

cachaceira?

– Minha mãe não é uma cachaceira! Não a chame assim!

– Bem, com certeza ela é alguma coisa, se vai largar a faculdade por conta

dela.

Se isso for sério, Carol, com certeza é alguma coisa.

– Rionda tem um trabalho e uma mãe própria para se preocupar. – Carol

disse. A raiva passara. Ela soou sem espírito e desanimada. Eu poderia me

lembrar da garota risonha que estivera ao meu lado, vendo os pedaços do

adesivo Goldwater do pára-choque lutuar pelo macadame, mas essa não

parecia ser a mesma garota para mim. – Minha mãe é minha mãe. Há

apenas Ian e eu para cuidar dela, e Ian quase não toma conta de si mesmo

na escola. Além disso, sempre há a UConn.

– Você quer informação? – eu perguntei a ela. Minha voz estava trêmula, espessa. – Eu vou te dar, quer queira quer não. Certo? Você está

despedaçando meu coração aqui. Essa é a informação. Você está

despedaçando meu maldito coração.

– Não estou. – ela disse. – Corações são fortes, Pete. Na maioria das vezes eles não se despedaçam. Na maioria das vezes eles apenas se dobram.

É, pode apostar, e Confúcio disse que a mulher é o que há de mais corrupto

e corruptível no mundo. Eu comecei a chorar. Não muito, mas houve

lágrimas sim. Foi mais por ter sido pego tão de surpresa, eu acho. E, está bem, talvez eu estivesse chorando por mim mesmo também. Porque eu

estava com medo. Eu estava levando bomba ou em perigo de levar em

todas as matérias, exceto uma, um dos meus amigos estava planejando

apertar o botão EJETAR, e não parecia que eu conseguiria parar de jogar cartas. Nada ia do jeito que eu esperava quando entrei na faculdade, e eu

estava aterrorizado.

– Eu não quero que você vá. – eu disse. – Eu te amo. – então eu tentei sorrir. – Só mais um pouco de informação, tá?

Ela olhou para mim com uma expressão que eu não pude ler, então

abaixou o vidro de sua janela e jogou seu cigarro fora. Ela fechou a janela

novamente e estendeu os braços para mim.

– Venha aqui.

Eu coloquei meu próprio cigarro no cinzeiro, que já estava cheio, e deslizei

para seu lado do assento. Para seus braços. Ela me beijou, e então me

olhou nos olhos.

– Talvez você me ame, e talvez não. Eu nunca tentaria evitar que uma

pessoa me amasse, eu posso lhe assegurar, porque nunca há amor o

bastante por aí. Mas você está confuso, Pete. Sobre a faculdade, sobre

Copas, sobre Annamarie, e sobre mim também.

Eu comecei a dizer que não estava, mas é claro que eu estava.

– Eu posso ir para a UConn. – ela disse. – Se minha mãe melhorar, eu irei para UConn. Se isso não funcionar, eu posso fazer cursinhos na Pennington

em Bridgeport, ou mesmo cursos da CED à noite em Stratford, ou Harwich.

Eu posso fazer essas coisas, eu tenho luxo para fazê-las, porque sou uma garota. Essa é uma boa época para ser uma garota, acredite em mim.

Lyndon Johnson percebeu isso.

– Carol. .

Ela pôs a mão gentilmente contra minha boca.

– Se você for reprovado em Dezembro, você está apto a cair em uma selva

no próximo Dezembro. Você precisa pensar nisso, Pete. É diferente de Sully. Ele acha que é certo, e ele quer ir. Você não sabe o que você quer ou o que pensa, e não vai enquanto você continuar a jogar aquelas cartas.

– Ei, eu tirei o adesivo do meu carro, não tirei? – soou idiota aos meus próprios ouvidos.

Ela não disse nada.

– Quando você vai?

– Amanhã à tarde. Eu tenho uma passagem para o ônibus das quatro horas

para Nova York. A parada para Harwich não é mais do que três quadras

da porta de minha casa.

– Você vai partir de Derry?

– Sim.

– Posso te levar à estação? Eu posso te pegar em seu dormitório às três.

Ela icou pensando nisso, e então assentiu. . mas eu vi uma sombra em seus

olhos. Foi di ícil de não ver, porque aqueles olhos eram normalmente tão abertos e puros.

– Seria bom. – ela disse. – Obrigada. E eu não menti para você, menti? Eu disse que poderia ser temporário.

Eu suspirei.

– É. Só que foi bem mais temporário do que eu esperava.

– Agora, Número Seis: Nós queremos. . informação.

– Vocês não terão. – era di ícil soar tão durão quanto Patrick McGoohan em

O

Prisioneiro quando você se sente deprimido, mas fiz meu melhor.

– Mesmo se eu pedir por favor? – ela pegou minha mão, a colocou dentro de seu suéter e a deixou em seu seio esquerdo. A parte de mim que

começava a desanimar voltou imediatamente a se iluminar.

– Bem. .

– Você já fez isso antes? Quero dizer, até o im? Essa é a informação que eu

quero.