Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 50 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 39

limpavam esse tipo de bagunça).

– Todas as copas altas, hein? Que ruim que não podemos checar e ver.

– É. Ruim demais. – eu comecei a andar novamente.

– Você vai ser passado para trás nos “match points”! – ele gritou atrás de

mim. – Sabe disso, não sabe?

– Pode icar com os meus, Ronnie. Eu não os quero mais. – eu nunca mais

joguei outra mão de Copas na faculdade. Muitos anos mais tarde eu ensinei

o jogo aos meus ilhos, e aprenderam como patos nadando na lagoa. Nós

temos um torneio na nossa cabana de verão todo Agosto. Não há “match

points”, mas há um troféu da Copa Atlante, uma copa adorável. Eu a venci

em um ano, e a mantive em minha mesa onde podia vê-la. Eu acertei a lua

duas vezes na rodada do campeonato, mas em nenhuma deles eu tinha a

mão de cartas presas. Como meu velho colega de faculdade, Ronnie

Malenfant, disse certa vez, ninguém acerta a lua com uma mão presa. Seria

o equivalente a esperar que Atlântida ressurgisse do oceano, com suas

palmeiras balançando.

38

Às oito horas daquela noite, Skip Kirk estava na minha mesa aprofundado em meus textos sobre antropologia. Suas mãos estavam perfurando seu

cabelo, como se estivesse com uma má dor de cabeça. Nate estava em sua

mesa, estudando botânica. Eu estava deitado em minha cama, duelando

com meu velho amigo de Geologia. No som, Bob Dylan cantava: “She was

the funniest woman I ever seen, the great-grandmother of Mr. Clean”.

Houve uma grave batida na porta: pou-pou. Então era assim que a Gestapo

deve ter invadido as casas dos Judeus em 1938 e 1939.

– Reunião com os estudantes do andar! – Dearie chamou. – Reunião com os

estudantes do andar às nove horas! Presença obrigatória!

– Oh, Cristo. – eu disse. – Queimem os papéis secretos e comam o rádio.

Nate desligou Dylan, e ouvimos Dearie avançar no salão, repetindo seu

pou-pou e gritando sobre a reunião. A maioria dos quartos em que ele ia provavelmente estavam vazios, mas sem problema; ele encontraria seus

ocupantes no salão, caçando A Puta.

Skip estava olhando para mim.

– Eu te disse. – ele disse.

39

Cada dormitório em nosso complexo foi construído ao mesmo tempo, e

cada um tinha uma grande área inferior no porão, como também os salões

no centro de cada andar. Havia uma TV que exibia esportes no im de

semana e uma novela de vampiros chamada Sombras Escuras durante a semana; uma cantina no canto com meia dúvida de máquina que vendiam

comes e bebes; uma mesa de pingue-pongue e alguns jogos de xadrez.

Também havia uma área com um pódio à frente de várias ileiras de

cadeiras de madeira. Nós tivemos uma reunião lá no começo do ano, onde

Dearie explicou as regras do dormitório e as terríveis conseqüências

inspeções de quartos que não fossem satisfatórias. Eu teria que dizer que

inspeções de quartos era o passatempo favorito de Dearie. Isso e o CTOR, é claro.

Ele postou-se atrás do pequeno pódio de madeira, onde havia pousado

uma pasta ina. Eu suponho que continha suas anotações. Ele ainda estava

vestido em suas roupas úmidas e sujas. Ele também parecia exausto pelo

dia em que passara cavando e jogando areia na neve, mas ele também

parecia excitado. . “ligado” é como diríamos um ou dois anos depois.

Dearie estivera só em sua primeira reunião dos estudantes do andar;

desta vez ele tinha companhia. Sentado contra a parede verde, com as

mãos fechadas sobre o colo e os joelhos encostados, estava Sven Garretsen,

o Decano dos Homens. Ele não disse quase nada durante a reunião, e

pareceu benigno mesmo quando a coisa icou feia. De pé, ao lado de

Dearie, vestindo um casaco negro sobre seu terno cinza, e com um ar de vamos-cumprir-esta-missão, estava Ebersole, o Diretor Disciplinar.

Depois que havíamos sentado em nossas cadeiras e apagado nossos

cigarros, Dearie olhou por cima do ombro para Garretsen, então para

Ebersole. Ebersole lhe deu um sorriso.

– Vai lá, David. Por favor. Eles são seus garotos.

Eu me senti muito irritado. Eu posso ser várias coisas, incluindo um imbecil

que riu de um aleijado que caiu na chuva, mas eu não era o garoto de Dearie.

Dearie agarrou-se ao pódio e olhou para nós solenemente, talvez pensando

(bem longe na parte de sua mente reservada expressamente para sonhos

devaneadores), que viria um dia quando ele poderia se dirigir aos seus

subalternos desta maneira, mandando algumas tropas em Hanoi se

moverem.

– Jones não está aqui. – ele disse inalmente. Soou solene e tolo, como uma

frase em um filme do Charles Bronson.

– Ele está na enfermaria. – eu disse, e iquei feliz pela cara de surpresa de

Dearie. Ebersole pareceu surpreso também. Garretsen apenas continuou a

olhar para o além, como um homem que fumou uma erva da boa.

– O que houve com ele? – Dearie perguntou. Isto não estava no roteiro (ou o que ele havia escrito ou o que ele e Ebersole preparam juntos), e Dearie

começou a estranhar. Ele também segurava o pódio com mais forço, como se com medo que ele pudesse voar dali.

– Caiu e bum. – Ronnie disse, e se empertigou quando as pessoas ao seu redor começaram a rir. – Também acho que ele pegou uma pneumonia, ou

bronquite dupla, ou coisa assim. – ele pegou o olhar de Skip e eu achei que

Skip havia assentido levemente. Esse era o show de Skip, não de Dearie, mas se tivéssemos sorte, se Stoke tivesse sorte, os três lá da frente da sala nunca saberiam disso.

– Conte-me isso do começo. – Dearie disse. Suas rugas aumentaram. Foi

desse jeito que ele icou depois de descobrir que sua porta havia sido

melada de creme de barbear.

Skip disse a Dearie, e aos novos amigos de Dearie, como havíamos visto

Stoke indo na direção do Palácio das Planícies pelas janelas do salão do terceiro andar, como ele havia caído na água, como havíamos resgatado-o,

e o levado até a enfermaria, como o doutor disse que Stoke era um pobre

doente. O doutor não havia dito tal coisa, mas ele não precisava. Aqueles de

nós que tocaram a pele de Stoke sabiam que ele estava com febre, e todos

nós ouvimos aquela horrível tosse. Skip não disse nada sobre o quão

rápido Stoke estava se movendo, como se ele quisesse matar o mundo todo

e então se matar depois, ele não disse nada sobre como rimos, sobre como

Mark St. Pierre rira tanto que mijara nas calças.

Quando Skip terminou, Dearie olhava vacilante para Ebersole. Ebersole

olhou de volta com suavidade. Atrás dele, “Decano” Garretsen continuava

com seu sorrisinho budista. A conclusão era simples. Era o show de Dearie.

Era melhor que ele tivesse um show para fazer.

Dearie respirou fundo e olhou de volta para nós.

– Nós acreditamos que Stokely Jones foi responsável pelo ato de

vandalismo e obscenidade pública que foi perpetrado no lado norte do

Chamberlain Hall em alguma hora pela manhã que não sabemos.

Eu estou te contando exatamente o que ele disse, não estou inventando

nenhuma única palavra. Exceto a parte “Se tornou necessário destruir a

vila para salvá-la”, esse foi talvez o mais sublime exemplo de apresentação que eu já ouvi na minha vida.

Eu acredito que Dearie esperasse que nós gritássemos “ohs” e “ahs”, como extras na sala da corte no im de um Perry Mason, onde as revelações

começam a vir rápido e sem dó. Ao invés disso, icamos em silêncio. Skip observou com atenção, e quando ele viu Dearie respirar fundo mais uma

vez para o próximo pronunciamento, ele disse:

– O que faz você pensar que foi ele, Dearie?

Embora eu não tenha completa certeza (eu nunca perguntei a ele), eu

acredito que Skip tenha usado o apelido propositalmente, para fazer

Dearie cair de seu salto. De qualquer forma funcionou. Dearie estava

pronto para se descontrolar, olhou para Ebersole, e recalculou suas

opções. Uma linha vermelha estava saindo de seu colarinho.

Eu a assisti subir, fascinado. Era um pouco como assistir um desenho da Disney onde o Pato Donald está tentando controlar seu temperamento.

Você sabe que ele não vai conseguir; o suspense vem por não se saber o quanto ele pode manter o semblante da razão.

– Eu acho que você sabe a resposta, Skip. – Dearie inalmente disse. –

Stokely Jones usa um casco com um símbolo muito particular em suas

costas. – ele pegou a pasta que trazia, removeu a capa de papel, olhou para

ela, e então a virou para que nós todos pudéssemos ver também. Nenhum

de nós icou surpreso pelo que havia lá. – Este símbolo. Foi inventado pelo Partido Comunista pouco depois do im da Segunda Guerra Mundial.

Signi ica “vitória através de in iltração”, e é normalmente chamada de Cruz

Quebrada pelos subversivos. Também icou bem popular em grupos

radicais nativos como os Muçulmanos Negros e os Panteras Negras. Já que

este símbolo era visível no casco de Stoke Jones bem antes de aparecer na lateral de nosso dormitório, eu realmente acho di ícil que é necessário um

engenheiro da NASA para entender que foi. .

– David, isso é merda! – Nate disse, se levantando. Ele estava pálido e tremia, mas era de raiva, não de medo. Eu já tinha ouvido-o dizer merda em público antes? Eu acho que não.

Garretsen deu seu sorriso benigno para meu colega de quarto. Ebersole

levantou as sobrancelhas, expressando seu interesse educado. Dearie

parecia espantado. Eu suponho que a última pessoa de quem ele esperava

problemas era Nate Hoppenstand.

– Esse símbolo é baseado em um semáforo Britânico, e signi ica desarmamento nuclear. Foi inventado por um famoso ilósofo Britânico. Eu

acho que ele era até cavalheiro. Dizer que foram os Russos que o

inventaram! Pelo amor de Deus! É isso que te ensinam no CTOR? Merda

como essa?

Nate olhava para Dearie furioso, suas mãos plantadas em sua cintura.

Dearie icou boquiaberto, agora completamente derrubado de seu salto.

Sim, eles haviam ensinado isso a ele no CTOR, e ele havia engolido o

gancho, linha, e isca. Te fazia pensar o que mais esses garotos do CTOR

estavam engolindo.s

– Tenho certeza que estes fatos sobre a Cruz Quebrada são muito

interessantes. – Ebersole cortou suavemente. – E certamente é uma

informação que vale a pena ter, se for verdade, é claro. .

– É verdade. – Skip disse. – Bert Russell, não Joe Stalin. Garotos ingleses usavam esse símbolo há cinco anos quando marcharam em protesto por

causa dos submarinos americanos operando fora dos portos nas Ilhas

Britânicas.

– Pode crer, porra! – Ronnie gritou, e socou o ar. Um ano depois mais ou menos, os Panteras (que nunca tiveram muito uso com o sinal da paz de Bertrand Russell, pelo que eu sei) faziam a mesma coisa em suas reuniões.

E, é claro, vinte anos depois mais ou menos, todos nós, os bebês limpinhos

dos

anos

sessenta,

fazíamos

em

concertos

de

rock.

Bruuuuuuuuuuuuuuuuuuce! Bruuuuuuuuuce!

– Vai lá, garotão! – Hugh Brennan berrou, rindo. – Vai, Skip! Vai, grande Nate!

– Cuidado com o que fala enquanto o Decano está aqui! – Dearie berrou

para Ronnie.

Ebersole ignorou a profanidade e a conversa sobre a cruz. Ele manteve seu

interessado, e cético olhar treinado em meu colega de quarto, e em Skip.

– Mesmo se tudo isso for verdade. – ele disse. – Ainda temos um problema,

não é? Eu acho que sim. Nós temos um ato de vandalismo e uma

obscenidade pública. Isso vem em uma era onde as pessoas que pagam

seus impostos olham para a juventude da Universidade com olhos ainda mais críticos. E esta instituição depende das pessoas que pagam impostos,

cavalheiros. Eu acho que cabe a nós. .

– Pensar sobre isso! – Dearie gritou subitamente. Suas bochechas estavam

quase roxas agora; sua testa icou cheia de pontos vermelhos, como

estigmas, e bem entre seus olhos uma grande veia pulsava rapidamente.

Antes que Dearie pudesse dizer mais (e ele claramente tinha mais a dizer), Ebersole pôs uma mão em seu peito, o calando. Dearie pareceu murchar.

Ele teve sua chance e a estragou. Mais tarde ele talvez dissesse a sim mesmo que foi porque ele estava cansado demais; enquanto jogávamos

cartas o dia inteiro em nosso salão quente e confortável, e fazendo buracos

em nosso futuro, Dearie estava do lado de fora, tirando a neve e jogando areia nas calçadas para que os professores de psicologia não caíssem e

quebrassem suas bacias. Ele estava cansado, um pouco lento para sacar, e

de qualquer forma, aquele escroto do Ebersole não lhe deu uma chance

justa para provar si mesmo.

Tudo isso provavelmente não ajudava muito com o que estava acontecendo

naquele momento: ele havia sido jogado de lado. O adulto estava de volta no comando. Papai iria consertar tudo.

– Eu acho que cabe a nós todos identi icar o rapaz que fez isso, e ver que

ele seja punido com alguma severidade. – Ebersole continuou. Na maior

parte do tempo era para Nate que ele olhava; por mais incrível que tenha

parecido para mim naquele dia, ele havia identi icado Nate Hoppenstand

como o centro da resistência que ele sentia na sala.

Nate, Deus abençoe seus molares e dentes sábios, era muito mais do que

da laia de Ebersole. Ele continuou sentado com suas mãos em seus quadris,

e seus olhos nunca vacilaram, ele deixou que Ebersole tirasse os dele.

– E como você propõe que façamos isso? – Nate perguntou?

– Qual o seu nome, jovem? Por favor.

– Nathan Hoppenstand.

– Bem, Nathan, eu acho que o infrator já foi apontado, não acha? – Ebersole

falou de um modo paciente, como um professor. – Ou mesmo se apontou. É

de meu conhecimento que esse rapaz, Stokely Jones, tem andado por aí

fazendo comercial do símbolo da Cruz Quebrada desde. .

– Pare de chamá-lo assim. – Skip disse, e eu pulei de susto com a fúria em

sua voz. – Não é nada quebrado! É um maldito sinal de paz!

– Qual é o seu nome, senhor?

– Stanley Kirk. Skip para os amigos. Você pode me chamar de Stanley. –

houve alguns risos baixos de tensão nessa hora, que Ebersole

aparentemente não ouviu.

– Bem, Sr. Kirk, sua reclamação é notável, mas não muda o fato de que Stokely Jones (e apenas Stokely Jones) tem desenhado um símbolo

particular por todo o campus desde o primeiro dia do semestre. O Sr.

Deaborn me diz que. .

– O “Sr. Dearborn” nem mesmo sabe o que esse sinal de paz é ou de onde

veio, então eu acho que você não seria muito sábio de con iar no que ele fala até agora.

Acontece que eu tenho um sinal de paz desenhado nas costas de minha

própria jaqueta, Sr. Ebersole. Então como você sabe que não fui eu quem fez a pichação? – disse Nate.

A boca de Ebersole caiu. Não muito, mas o bastante para estragar seu

sorriso simpático e seu semblante de propaganda de revista. E “Decano”

Garretsen fez uma careta, como se fosse apresentado a um conceito de que

não conseguia entender. Apenas os mais sortudos conseguem ver um bom

político ou administrador de faculdade ser pego completamente de

surpresa. Esses momentos são um tesouro. Eu guardei aquele em meu baú,

e vejo que ele ainda está lá hoje em dia.

– É uma mentira! – Dearie disse. Ele soou mais ferido do que furioso. – Por

que você mentiria assim, Nate? Você é última pessoa no Três que eu

esperava que. .

– Não é uma mentira. – Nate disse. – Vá até meu quarto e tire o casaco de

meu armário se não acredita em mim. Cheque.

– É, e cheque o meu enquanto faz isso. – eu disse, me levantando próximo a Nate. – Minha velha jaqueta escolar. Você não pode deixar de vê-la. É

aquela com o sinal de paz nas costas.

Ebersole nos estudou com seus olhos levemente estreitos. Então ele

perguntou:

– Exatamente quando vocês colocaram esses chamados sinais de paz nas

costas de suas jaquetas, rapazes?

Desta vez Nate mentiu. Eu o conhecia bem o su iciente naquela época para

saber que doeu nele. . mas ele o fez como um campeão.

– Setembro.

Foi o bastante para Dearie. Ele icou nuclear é como meus próprios ilhos poderiam expressar, só que isso não seria exato. Dearie icou Pato Donald.

Ele não icou pulando de raiva, batendo os braços e grasnando wak-wak-waugh-wak como Donald faz quando está louco de raiva, mas ele deu um uivo de fúria e bateu na testa com o centro de sua palma. Ebersole o

segurou de novo, desta vez pegando-o pelo braço.

– Quem é você? – Ebersole perguntou. Mais curto do que cortês agora.

– Pete Riley. Eu coloquei um sinal de paz nas costas da minha jaqueta

porque eu gostei de como pareceu na de Stoke. Também para provar que

eu tenho várias grandes perguntas sobre o que estamos fazendo lá no

Vietnã.

Dearie se esquivou de Ebersole. Seu queixo tremia, seus lábios puxados

para trás o bastante para mostrar uma galeria completa de dentes.

– Ajudando nossos aliados é o que estamos fazendo, seu idiota! – ele berrou.

– Se você é estúpido demais para enxergar isso por si próprio, eu suponho

que você entre na Aula Introdutória de História Militar do Coronel

Andersen! Ou talvez você seja só mais um covarde que não tem. .

– Silêncio, Sr. Dearborn. – disse Garretsen. Sua calma era de algum modo mais barulhenta do que os gritos de Dearie. – Esse não é um lugar para debates sobre política estrangeira, nem a hora para xingamentos pessoais.

Muito pelo contrário.

Dearie deixou cair sua cara em chamas, estudou o chão, e começou a

morder os próprios lábios.

– E quando, Sr. Riley, você colocou o sinal de paz em sua jaqueta? –

Ebersole perguntou. Sua voz permanecia cortês, mas havia um olhar feio

em seus olhos. Ele sabia agora, eu acho, que Stoke iria escapar, e Ebersole

estava muito infeliz sobre isso. Dearie era uma pequena mudança em comparação a esse cara, que em 1966 era um tipo novo nos campus de

faculdade da América. O tempo chama pelos homens, Lao-Tsé disse, e o im

dos anos sessenta chamou por Charles Ebersole. Ele não era um educador,

era um regulador secundário em relações públicas.

Não minta para mim , seus olhos diziam. Não minta para mim, Riley. Porque se você mentir e eu descobrir, te transformo em uma salada.

Mas que diabos. Eu já estaria fora em 15 de Janeiro, de qualquer forma; no

Natal de 1967 eu provavelmente estaria em Phu Bai, esquentando o lugar

para Dearie.

– Outubro. – eu disse. – O desenhei na minha jaqueta por volta do Dia de Colombo.

– Eu a desenhei em minha jaqueta e em alguns suéteres. – Skip disse. –

Todas essas coisas no meu quarto. Eu vou mostrar a vocês, se quiserem.

Dearie, ainda olhando para o chão, e vermelho até as raízes do cabelo,

balançava a cabeça monotonamente para frente e para trás.

– Eu tenho duas em meus suéteres também. – Ronnie disse. – Não sou

pacifista, mas é um sinal legal. Eu gosto dele.

Tony DeLucca disse que também tinha um atrás de seu suéter.

Lennie Doria disse a Ebersole e Garretsen que ele havia rabiscado-o nas

últimas páginas de vários livros; também estava na frente de seu caderno

de anotações. Ele os mostraria, se eles quisessem ver.

Brad Whiterspon havia desenhado um em seu boné de calouro. O boné

estava no fundo de seu armário em algum lugar, provavelmente embaixo das cuecas que ele se esquecera de levar para casa para sua mãe lavar.

Nick Prouty disse que havia desenhado os sinais de paz em seus álbuns

favoritos: Meet the Beatles e Wayne Fontana and the Mindbenders.

Vários outros disseram que tinham o sinal de paz em seus livros, objetos, ou roupas. Todos clamavam ter feito isso antes da descoberta da

mensagem em gra ite no lado norte do Chamberlain Hall. Em um toque

inal surreal, Hugh se levantou, icou ao lado das cadeiras, e subiu as

pernas de seu jeans, para que pudéssemos ver suas meias amarelas

atléticas escalando suas canelas cabeludas. Um sinal da paz havia sido

desenhado em ambas as meias com o piloto que a Sra. Brennan havia

mandado para a faculdade com seu bebezinho. . era provavelmente a

primeira vez que a maldita coisa havia sido usada no semestre inteiro.

– Então você entende. – Skip disse num tom de o show acabou. – Poderia ser qualquer um de nós.

Dearie levantou a cabeça lentamente. Tudo o que sobrara de sua

vermelhidão era uma única mancha sobre seu olho esquerdo. Parecia uma

bolha.

– Por que estão mentindo para ele? – ele perguntou. Ele esperou, mas

ninguém respondeu. – Nenhum de vocês tinha um sinal de paz em

qualquer lugar antes da folga de Ação de Graças, eu juro, e aposto que a maioria de vocês nunca havia visto nada assim antes de hoje à noite. Por que estão mentindo para ele?

Ninguém respondeu. O silêncio se perpetuou. Nele, cresceu uma sensação

de poder, uma força inequívoca que todos nós sentimos. Mas a quem ela pertencia? A eles ou a nós? Não havia como dizer. Todos esses abis depois

ainda não há como dizer realmente.

Então Garretsen foi até o pódio. Dearie se afastou sem nem mesmo parecer

vê-lo. O Decano olhou para nós com um pequeno e alegre sorriso.

– Isso é tolice. – ele disse. – O que o Sr. Jones escreveu na parede foi tolice,

e essas mentiras são mais tolice ainda. Digam a verdade, homens.

Confessem.

Ninguém disse uma palavra.

– Vamos falar com o Sr. Jones esta manhã. – Ebersole disse. – Talvez depois

que o façamos, alguns de vocês possam mudar um pouco de suas histórias.

– Oh, cara, eu não con iaria em muita coisa do que Stoke lhe dissese. – Skip

disse.

– Certo, o velho Matador é doido como um rato de esgoto. – Ronnie disse.

Houveram estranhas risadas mescladas com afeição.

– Rato de esgoto! – Nick berrou, com os olhos brilhando. Ele estava tão feliz

quanto um poeta que inalmente achou a palavra que procurava. – Rato de

esgoto, é, esse é o Velho Matador! – E, no que provavelmente era o último

triunfo lunático do dia sobre discursos racionais, Nick Prouty fez uma

estranhamente perfeita imitação do Frangolino.

– Eu sou galo, eu não sou um rato, br-ur-r, sou um gato, não sou um galo, digo. . o rapaz icou doido, br-u-bru, sabe cumé, perdeu o parafuso, ô diacho,

br-u-bru.

Nick gradualmente percebeu que Ebersole e Garretsen estavam olhando

para ele, Ebersole com desprezo, Garretsen com quase interesse, como se

uma nova bactéria houvesse surgido através das lentes de um

microscópio. .