Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 21 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 10

sabia. Embora ele estivesse na Faculdade de Educação e provavelmente

destinado a ensinar história e treinar times de beisebol no bom e velho Colégio Dexter até cair morto por causa de um ataque do coração aos

cinqüenta e nove anos, Skip, por direito, deveria ter se saído bem em

artes. .

provavelmente teria se ele não tivesse vindo de cinco gerações de

fazendeiros que diziam “aié” e “purque” e “ela iria sorri e bejá um porcu”.

Ele era apenas o segundo ou terceiro de sua larga família (sua religião, Skip dissera uma vez, era Alcoolismo Irlandês) a ir para uma faculdade. O

clã dos Kirk poderia visualizar um professor na família (ou quase), mas

não um pintor ou um escultor. E aos dezoito, Skip não conseguia ver mais longe do que sua família via. Ele só sabia que não cabia muito bem no buraco em que estava tentando entrar, e isso o deixou a lito. Isso o fez andar por outros quartos que não fossem o dele, checar os LPs, e criticar o

gosto musical de quase todo mundo.

Em 1969 ele tinha uma idéia melhor de quem e o que ele era. Aquele foi o

ano em que ele fez uma família vietnamita de papel machê que pegou fogo no im da excursão de paz em frente a Biblioteca Fogler enquanto os The Youngbloods cantavam “Get Together” com alguns ampli icadores

emprestados e hippies batucavam como guerreiros de uma tribo depois de

uma caçada. Você percebe como as coisas estão bagunçadas em minha

mente? Foi Atlântida, isso eu sei com certeza, bem lá fundo do oceano. A família de papel queimou, os hippies protestaram gritando “Napalm!

Napalm! Merda dos céus!” enquanto dançavam, e depois os valentões e os

rapazes das fraternidades começaram a jogar coisas. Ovos primeiro.

Depois pedras.

Não foi uma família de papel machê que fez Carol rir e se afastar da esteira naquela noite de Outono de 1966; foi um homem com uma ereção feito de cachorro-quente de pé no topo da Montanha de Feijões Cozinhados do

Holyoke Commons. Uma pequena salsicha projetava-se alegremente de um

buraco apropriado. Em sua mão estava uma bandeirinha da Universidade

do Maine, em sua cabeça um pedaço de tecido azul que imitava o boné dos

calouros. Na parte da frente da travessa, cuidadosamente escrito com

pedaços de pão de milho, estava a mensagem COMA MAIS FEIJÕES

DO MAINE!

Uma boa galeria de trabalhos artísticos comestíveis rolou pela esteira

durante meu tempo na cozinha do Palácio, mas eu acho que esse foi o

melhor de todos. Stoke Jones sem dúvida chamaria isso de perda de tempo,

mas eu acho que neste caso ele estaria errado. Qualquer coisa com o poder

de ainda te fazer rir trinta anos depois não era perda de tempo. Eu acho que uma coisa como esta está bem perto da imortalidade.

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Eu sai às seis e meia, andei pela rampa atrás da cozinha com um último saco de lixo, e o larguei em um dos quatro lixeiros alinhados atrás do Commons como carrinhos de aço.

Quando eu me virei, vi Carol Gerber e mais alguns garotos parados na

esquina do prédio, fumando e assistindo a lua surgir. Os outros dois

começaram a andar enquanto eu me aproximava, puxei meus Pall Malls do

bolso da jaqueta.

– Ei, Pete, coma mais feijões do Maine. – Carol disse, e riu.

– É. – acendi meu cigarro. Então, sem remoer muito sobre isso, eu falei: –

Tem uns dois ilmes do Bogart sendo exibidos no Hauck hoje à noite. Eles começam às sete.

Temos tempo de chegar lá. Gostaria de ir?

Ela deu uma tragada, sem responder por um momento, mas ela estava

sorrindo e eu sabia que ela diria sim. Mais cedo, tudo o que eu queria era voltar para o salão do terceiro andar e jogar Copas. Agora que eu estava longe do jogo, entretanto, o jogo pareceu muito menos importante. Estivera

eu irritado o bastante para dizer algo sobre bater em Ronnie Malenfant até

ele dizer basta? Parecia que sim (a memória estava clara o su iciente), mas

estar parado ali fora no vento frio com Carol, icou di ícil para mim

entender o motivo de tê-lo feito.

– Eu tenho um namorado lá na minha cidade. – ela disse finalmente.

– Isso é um não?

Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo. A fumaça de seu cigarro percorreu

seu rosto. Seu cabelo, livre das redes que as garotas tinham que usar na cozinha, esvoaçou lentamente por cima de seu cenho.

– Isso é informação. Lembra daquele programa O Prisioneiro? “Número Seis, nós queremos. . informação.”

– Eu tenho uma namorada lá na minha cidade. – eu disse. – Mais

informação.

– Eu tenho outro trabalho, ensinar matemática. Eu prometi passar uma

hora da noite com esta garota no segundo andar. Cálculo. Geometria. Ela

nunca consegue aprender e vive reclamando, mas são seis dólares por

hora. – Carol riu. – Isto está icando bom, estamos trocando informações

como loucos.

– Mas não parece bom para Bogie. – eu disse. Eu não estava preocupado.

Eu sabia que iríamos ver Bogie. Eu acho que eu também sabia que haveria

um romance em nosso futuro. Isso me causou uma estranha sensação leve,

uma sensação que me fazia levitar.

– Eu poderia ligar para Esther do Hauck e dizer que a ensinaria às dez ao

invés de às nove. – Carol disse. Esther era um caso triste. Ela nunca saia. O

que ela mais fazia era sentar com seu cabelo em tranças e escrever cartas para casa sobre como era di ícil a faculdade. Poderíamos ver o primeiro

filme pelo menos.

– Parece bom. – eu disse.

Começamos a andar na direção do Hauck. Aqueles eram os dias, está certo;

e você não tinha que contratar uma babá, colocar o cachorro pra fora,

alimentar o gato, ou ativar o alarme contra ladrões. Você apenas ia em

frente.

– Isso é tipo um encontro? – ela perguntou depois de algum tempo.

– Bem. – eu disse. – Acho que poderia ser. – nós estávamos passando pelo

Anexo Leste agora, e outros garotos estavam enchendo os caminhos, indo

na direção do auditório.

– Bom. – ela disse. – Porque eu deixei minha bolsa em meu quarto. Não posso pagar.

– Não se preocupe, estou rico. Tirei a sorte grande jogando cartas hoje.

– Pôquer?

– Copas. Você conhece?

– Está brincando? Eu ganhei três semanas no Acampamento Winiwinaia no

Lago George no verão em que iz doze anos. Acampamento da ACM

(acampamento das crianças pobres, minha mãe dizia). Chovia

praticamente todo dia, e tudo o que fazíamos era jogar Copas e caçar a Puta. – seus olhos vagavam longe, do jeito que acontece quando as pessoas

tropeçam em velhas memórias como num sapato na escuridão. –

Ache a dama de preto. Cherchez la femme noire.

– Esse é o jogo, está certa. – eu disse, sabendo que por um momento eu não

estava lá com ela. Então ela voltou, me deu um sorriso, e tirou seus cigarros

do bolso de seu jeans. Nós fumávamos vários naquela época. Todos nós.

Naquela época você podia fumar nas salas de espera dos hospitais. Eu disse a minha filha isso e no começo ela não acreditou em mim.