Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 53 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 42

escrito uma cola ou duas para ele, embora eu não tenha certeza disso). O

nome do segundo cara era Harvey Brundage, e ele foi a primeira pessoa a

dizer “Uau, cara, putz grilla!” em minha presença.

Juntos, Skip e eu fomos ao Decano de Artes e Ciências (não tinha chance de

nós irmos para Garretsen, não depois da reunião de Novembro no

auditório do Chamberlain), e derramamos os problemas que encarávamos.

Tecnicamente nenhum de nós pertencia à A e ao S (N.T. – Aqui o “A” se refere à Ásia, e o “S” ao Vietnã (que visto pelo mapa mundi tem

oformado desta mesma letra). ); como calouros, ainda não éramos

aceitáveis para sermos adultos, mas o Decano Randle nos ouviu. Ele recomendou que fossemos a cada um de nossos professores explicar o

problema. . mais ou menos nos jogar à misericórdia deles.

Nós izemos isso, envergonhados em cada minuto do processo; um dos

fatores que nos fez poderosos amigos naqueles anos foi ser criado pelas

mesmas idéias ianques, uma delas era que você não pode pedir por ajuda

a não ser que realmente precise, e talvez nem assim. A única coisa que nos

fez atravessar essa rodada embaraçosa de ligações foi o sistema de

amizade. Quando Skip estava com seus professores eu esperei por ele no

corredor, fumando um cigarro após o outro. Quando era minha vez, ele

esperava por mim.

Como um grupo, os professores foram mais simpáticos do que eu teria

imaginado; a maioria nos ajudou a não só passar, mas passar com notas

boas o bastante para manter nossas bolsas. Apenas o professor de cálculo

de Skip foi completamente ignorante, e Skip estava indo bem nessa para

patinar sem ter qualquer tipo de ajuda especial. Anos mais tarde eu percebi que para muitos dos professores era mais uma questão moral do

que acadêmica: eles não queriam ler o nome de seus estudantes na lista de

mortos na guerra e se perguntarem se foram parcialmente culpados por

isso; a diferença entre um D e um C- poderia ser também a diferença entre

um garoto que pudesse ouvir e ver, e uma sentada com os sentidos

perdidos em um hospital de veteranos de guerra em algum lugar.

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Depois de um desses encontros, e com os exames do im do semestre se

aproximando, Skip foi a Toca do Urso para se encontrar com seu tutor de Antropologia para uma seção de café e estudos. Eu tinha que lavar pratos

em Holyoke. Quando a esteira inalmente parou de funcionar naquela

tarde, eu voltei ao dormitório para continuar os estudos. Eu parei na

entrada para checar meu correio, e havia um pacote rosa nele.

O pacote vinha em um papel marrom com um cordão, mas animado com

adesivos de Natal de sinos e velas. O endereço do remetente me acertou no estômago como um soco pesado: Carol Gerber, 172, Broad Street, Harwich,

Connecticut.

Eu não havia tentado ligar para ele, e não só porque eu estava ocupado tentando salvar meu rabo. Eu não acho que percebi a razão até ver o nome

dela naquele pacote.

Eu havia me convencido que ela havia voltado para Sully-John. Que na

noite em que izemos amor em meu carro enquanto as músicas clássicas

tocavam era uma história antiga para ela agora. Que eu era uma história antiga.

Phil Ochs estava tocando no som de Nate, mas Nate estava dormindo em

sua cama com uma cópia da Newsweek aberta sobre seu rosto. O General William Westmoreland estava na capa. Eu sentei em minha mesa, o pacote

na minha frente, toquei no cordão, e então parei. Meus dedos tremiam.

Corações são fortes , ela havia dito. Na maioria das vezes eles não se despedaçam. Na maioria das vezes eles apenas se dobram. Ela estava certa, é claro. . mas o meu doía enquanto eu sentava olhando para o pacote de

Natal que ela havia me mandado; doía muito. Phil Ochs estava tocando, mas

minha mente estava ouvindo uma música mais clássica e doce. Em minha

mente eu ouvia os The Platters.

Eu desamarrei o cordão, rasguei a ita, e removi o papel marrom, e

eventualmente libertei uma caixinha branca. Dentro dela estava um

presente embrulhado em um papel vermelho e brilhante e uma ita de

cetim. Havia também um envelope quadrado com meu nome escrito nele

com sua caligrafia familiar. Eu abri o envelope e tirei o cartão (quando você

se importa o bastante para mandar o melhor, e tudo mais). Havia locos de

neve de alumínio, anjos de alumínio tocando trombetas de alumínio.

Quando eu abri o cartão, um recorte de jornal caiu no presente que ela havia me mandado. Era um jornal chamado Harwich Journal. Na margem

do topo, acima do título da notícia, Carol havia escrito: Desta vez eu consegui. . Coração Púrpuro! Não se preocupe, 5 pontos na sala de emergência e depois eu já estava de volta em casa para o jantar.

O título da história dizia: 6 FERIDOS, 14 PRESOS QUANDO UM

PROTESTO SE TRANSFORMA EM BRIGA. A foto era de um contraste forte

em comparação ao do Derry News onde todos, até mesmo os policiais e os trabalhadores que haviam começado seu próprio protesto, pareciam meio

que relaxados. Na foto do Harwich Journal, as pessoas pareciam à lor da pele, confusas, e há mais ou menos dois mil anos luzes de estarem

relaxadas. Havia caras fortes com tatuagens em seus braços malhados, e

caretas odiosas em seus rostos; havia garotos de cabelo longo olhando de volta para eles em fúria desa iante. Um deles estava com os braços

levantados na direção de um trio de homens como se dissesse Vamos,

querem um pedaço de mim? Havia policiais entre os dois grupos, parecendo

preocupados e tensos.

À esquerda (Carol havia desenhado uma seta nesta parte da foto, como seu

eu não pudesse ver), havia uma jaqueta familiar com um COLÉGIO

HARWICH escrita nas costas. Mas uma vez seu rosto estava virado, mas

desta vez na direção da câmera ao invés de para longe dela. Eu conseguia

ver o sangue escorrendo pela sua bochecha mais claramente do que

queria. Ela poderia desenhar setas engraçadas e escrever todos os

comentários aliviantes que quisesse na margem; eu não estava

impressionado. Aquilo não era xarope de chocolate em seu rosto. Um

policial a segurava por um braço. A garota na foto do jornal não parecia se

importar com isso ou com o fato de que estava sangrando (como se ela

soubesse que sua cabeça sangrava naquela hora). A garota na foto do jornal

sorria. Em uma de suas mãos estava uma placa que dizia PAREM COM A

MATANÇA. A outra mão estava apontada para a câmera, os primeiros dois

dedos fazendo um V. V de vitória, eu pensei, mas é claro que não era. Em 1969, o V ia com a pegada de passarinho, do mesmo modo que o bacon ia

com os ovos.

Eu li o texto do recorte, mas não havia nada particularmente interessante.

Protestos. . contra-protestos. . epítetos. . pedras jogadas. . algumas brigas. .

polícia chegando na cena. O tom da história era elevado e enojado e

patroneava tudo ao mesmo tempo; me lembrou como Ebersole e Garretsen

haviam estado naquela noite no auditório. Vocês rapazes me desapontaram .

Todos, exceto três dos protestantes, haviam sido presos e liberados mais

tarde naquele dia, o jornal não publicou o nome de ninguém, então

presumidamente eles tinham menos de vinte e um.

Sangue em seu rosto. E ainda assim ela sorria. . triunfante, na verdade. Eu

me toquei que Phil Ochs estava cantando (I must have killed a million men, and now they want me back again) e eu tive um calafrio na espinha.

Eu virei o cartão. Ele ostentava os típicos sentimentos rimados; eles sempre

falam da mesma coisa, não é? Feliz Natal, com certeza espero que você não

morra no Ano Novo. Eu mal os li. No lado em branco virado para o verso, ela havia me escrito uma nota. Era longa o su iciente para usar a maior parte do espaço em branco.

Querido Número Seis,

Eu só “queria” te desejar o mais feliz dos Natais, e te dizer que eu estou bem.

Eu não vou voltar para a faculdade, embora eu esteja me associando a um certo tipo de escola (veja o recorte de jornal), e espero retornar eventualmente, provavelmente no Outono do semestre do próximo ano.

Minha mãe não vai muito bem, mas ela está tentando, meu irmão está se ajeitando. Rionda ajuda também. Eu vi Sully algumas vezes, mas não é a mesma coisa. Ele vem assistir TV a noite e somos como estranhos. .

ou talvez o que eu realmente quero dizer é que somos como velhos conhecidos em trens que vão em direções opostas.

Sinto saudades, Pete. Acho que nossos trens vão em direções opostas também, mas nunca esquecerei do tempo que passamos juntos. Foi a coisa mais doce e a melhor (especialmente a última noite). Você pode me escrever se quiser, mas eu meio que desejo que você não o izesse. Pode não ser bom para nenhum de nós. Isso não signi ica que eu não me importo ou quero me lembrar, mas ao contrário.

Lembra-se daquela noite que eu te mostrei aquela foto e te falei de como fui espancada? Como meu amigo Bobby cuidou de mim? Ele tinha um livro naquele verão. O homem do andar de cima deu a ele. Bobby disse quer foi o melhor livro que ele já havia lido. Não que signi ique muito quando se tem onze anos, eu sei, mas eu o vi de novo na biblioteca do colégio em meu último ano e o li, só para ver como era. E eu achei que foi muito bom. Não o melhor livro que eu li, mas muito bom. Eu achei que você gostaria de uma cópia.

Embora tenha sido escrito há vinte anos, eu meio que penso que é sobre o Vietnã. Mesmo se não for, é cheio de informação.

Eu te amo, Pete. Feliz Natal.