Corações na Atlântida
Capítulo 33
continuei a olhar lá para fora, esperando ver David Dearborn e alguns de
seus amigos de caqui olhando para o lado norte do dormitório, talvez
discutindo se deveriam ir atrás de Stoke Jones com suas carabinas, ou
apenas perseguí-lo com suas baionetas. É claro que eles não fariam nada
assim. Eles poderiam gritar “Mate o congue! Vá EUA!” enquanto faziam
exercícios no campo de futebol, mas Stoke era um aleijado. Eles icariam
felizes apenas por ver sua amada bunda comunista ser presa e levada da Universidade do Maine.
Eu não queria que isso acontecesse, mas eu não via como não iria. Stoke tivera uma pegada de passarinho nas costas de seu casaco desde o começo
da faculdade, muito antes do resto de nós saber do que se tratava, e Dearie
soubesse. Além disso, Stoke iria admitir. Ele lidava com Dean e as
perguntas dos Diretores Disciplinares do mesmo como que lidava com
suas muletas: a toda velocidade.
E de qualquer modo, a coisa toda pareceu distante, tá? Do modo como as aulas pareceram. Do modo como Carol pareceu, agora que eu entendia que
ela realmente havia ido embora. O modo como o conceito de ser
arrebatado e jogado para morrer na selva pareceu. O que parecia real e
imediato era caçar aquela Puta má, ou acertar a luta, ou qualquer um em sua mesa com vinte e seis pontos numa tacada só. O que parecia real era Copas.
Mas então, algo aconteceu.
33
Por volta das quatro horas, o granizo se transformou em chuva, e pelas
quatro e meia, começou a ficar escuro, nós podíamos ver a Pista de Bennett
estava sobre dez centímetros de água. A maior parte da Trilha parecia um
canal. Abaixo da água estava uma espécie de gelatina de gelo que derretia.
O ritmo dos jogos diminuiu enquanto assistíamos os infelizes que trabalhavam sair de seus dormitórios para trabalhar no Palácio das
Planícies. Alguns deles (os mais espertos), cortavam caminho pela encosta
da subida, fazendo seus caminhos pela neve que derretia rapidamente. Os
outros foram pelas estradas, escorregando e deslizando em suas
super ícies traiçoeiramente geladas. Um nevoeiro grosso começou a subir
do chão molhado, fazendo icar mais di ícil para as pessoas verem para
onde iam. Um cara do King encontrou uma garota do Franklin onde os
caminhos se encontravam. Quando começaram a andar pela Trilha de Bennett juntos, o rapaz escorregou e se agarrou à menina. Eles quase
foram ao chão juntos, mas conseguiram se equilibrar. Todos nós
aplaudimos.
Na minha mesa começamos a mostrar as cartas. O amigo astucioso de
Ronnie, Nick passou uma mão de incríveis treze cartas, talvez a melhor
oportunidade que eu tenha tido. Era uma oportunidade de acertar a lua:
seis copas altas e nenhuma baixa, o rei e a rainha de espadas, mais outras
cartas dos outros dois naipes também; ninguém espera que você acerte a
lua em uma situação onde você não pode aumentar sua mão original.
Lennie Doria jogou O Otário para nos pegar desprevenidos. Ronnie
imediatamente jogou um ás, se livrando do ás de espadas. Ele achou que
foi uma boa.
Eu também; minhas duas cartas de espadas eram agora ambas
vencedoras. A rainha valia treze pontos, mas se eu pegasse todas as copas,
eu não teria que comer estes pontos; Ronnie, Nick e Lennie teriam.
Eu deixei Nick jogar. Nós jogamos mais três rodadas, primeiro Nick, e então
Lennie que minou o jogo de ouros, e então eu peguei o dez de copas
misturando em uma mão.
– Corações foram partidos e Riley come o primeiro. – Ronnie caçoou
alegremente. – Você está acabado, caipira!
– Talvez. – eu disse. E talvez, eu pensei, Ronnie Malenfant estaria rindo pelo outro lado da cara. Com um acerto de sucesso, eu poderia fazer o
idiota do Nick Prouty ultrapassar os cem pontos e custar a Ronnie um jogo
que ele estava para ganhar.
Três rodadas depois o que eu estava fazendo se tornou quase óbvio. Como
eu esperava, o sorriso de Ronnie se transformou na expressão que eu mais
gostava de ver em sua cara: o beicinho mal humorado.
– Você não pode. – ele disse. – Eu não acredito. Não contra uma mão
dessas.
Você não tem a porra das cartas. – mas ainda assim ele sabia que era
possível. Estava em sua voz.
– Bem, vejamos. – eu disse, e joguei o ás de copas. Eu estava correndo em
terreno aberto agora, mas por que não? Se as copas fossem jogadas
calmamente, eu poderia vencer o jogo. – Vamos ver o que nós. .
– Olhem! – Skip chamou da mesa mais próxima da janela. Sua voz
ostentava descrença e uma espécie de medo. – Jesus Cristo, é o porra do Stokely!
O jogo parou. Todos nos levantamos de nossa cadeira para olhar pela
janela para o mundo escuro e gotejante abaixo de nós. O quarteto de
garotos no canto se levantou para ver. As velhas lamparinas de ferro da Trilha de Bennett jogavam fracos raios de eletricidades no chão coberto
pelo nevoeiro, me fazendo pensar em Londres, na Tyne Streetm e em Jack,
o Estripador. De seu lugar na colina, o Holyoke Commons pareceu mais
com um navio do que nunca. Sua forma acenava enquanto a chuva escorria
pelas janelas do salão.
– Maldito Matador, lá fora nesta merda. . eu não acredito nisso. – Ronnie disse.
Stoke desceu o caminho rapidamente que levava para a entrada norte do
Chamberlain, até ao lugar onde os caminhos de asfalto se juntavam na
parte mais baixa da Pista de Bennett. Ele usava seu velho casaco, e estava
claro que ele não acabara de vir do dormitório; o casaco estava ensopado.
Mesmo através da janela molhada podíamos ver o sinal de paz em suas
costas, tão negro quando as palavras que agora estavam parcialmente
cobertas por um quadrado da lona amarela (se é que ela ainda estava de pé). Seu cabelo rebelde estava encharcado e submisso.
Stoke nunca olhou na direção de seu PRESIDENTE ASSASSINO de gra ite,
apenas seguiu com suas muletas na direção da Trilha de Bennett. Ele ia
mais rápido do que eu o já vira se mover, prestando nenhuma atenção
para a chuva, o nevoeiro que surgia, ou a lama sob suas muletas. Ele
queria cair? Ele estava desa iando a maldita a fazê-lo cair? Eu não sei.
Talvez ele estivesse muito aprofundado em seus pensamentos para ter
qualquer idéia do quão rápido ele ia, ou o quão ruim eram as condições. De
qualquer forma, ele não iria muito longe se não pegasse leve.
Ronnie começou a rir, e o som se espalhou pelo caminho como pequenas chamas se espalhando pela palha seca. Eu não queria me juntar, mas não
consegui evitar. E, eu vi, nem Skip. Parcialmente porque a risada era
contagiosa, mas porque era realmente engraçado. Eu sei como isso soa
cruel, claro que sei, mas eu já cheguei longe demais para não contar a verdade sobre aquele dia. . e este dia, quase meia vida depois.
Porque ainda parece engraçado para mim, e eu ainda sorrio quando eu
penso em como ele estava parecendo, um relógio frenético de brinquedo
em um velho casaco, escalando a lama através da chuva com suas muletas
espalhando água por onde ele passava. Você sabia o que ia acontecer, você simplesmente sabia, e essa era a parte mais engraçada de todas. . a pergunta era só o quão longe ele conseguiria ir antes de capotar
inevitavelmente.
Lennie estava urrando com uma mão apertada contra o rosto, olhando
entre seus dedos espalhados, seus olhos piscando. Hugh Brennan estava
segurando sua barriga não ignorável e zurrando como um burro, quando
ele quase caiu, mas conseguiu manter seu equilíbrio balançado. Todos nós
aplaudimos.
Mark St. Pierre berrava descontroladamente e dizia que iria se mijar nas calças, que havia bebido muita Coca-Cola e que iria molhar a calça toda. Eu
ria tanto que não consegui segurar minhas cartas; os nervos de minha mão
direita morreram, meus dedos relaxaram, e aquelas últimas cartas
vencedoras lutuaram até meu colo. Minha cabeça latejava e meu pulmão
estava cheio.
Stoke chegou no fundo do declive, onde a Trilha começava. Lá ele parou
por alguma razão, e deu um louco giro parecendo se segurar em uma
muleta. A outra muleta ele segurou como se fosse uma metralhadora, como
se em sua mente ele estivesse pichando o campus inteiro. . Matem os
congues! Estripem os monitores! Detonem os CDFs!
– Eeeee. . o júri Olímpico dá a ele. . DEZ UNÂNIME! – Tony DeLucca falou em uma perfeita imitação de um narrador esportivo. Era o toque inal; o lugar
virou uma bagunça na mesma hora. Cartas voaram por todos os lugares,
cinzeiros foram jogados, e um de vidro (a maioria era apenas de alumínio)
quebrou. Alguém caiu da cadeira e começou a rolar no chão, berrando e
chutando. Cara, nós simplesmente não conseguíamos parar de rir,
– É isso! – Mark berrou. – Acabei de ensopar minhas calças! Não consegui
evitar! – atrás dele Nick Prouty ia até a janela de joelhos, com as lágrimas descendo pelo seu rosto em chamas e suas mãos para cima, o gesto
indizível de alguém que implora para que parem de fazer tal coisa, parem
antes que estoure a porra do meu cérebro bem aqui.
Skip se levantou, virando sua cadeira. Eu me levantei, rindo até chorar, nos
seguramos um no outro e olhamos pela janela com nossos braços
agarrados nas costas do outro. Abaixo, sem saber que estava sendo
assistido e causando um ataque de risos em duas dúzias mais ou menos de
jogadores de cartas enlouquecidos, Stoke Jones ainda estava,
incrivelmente, de pé.
– Vai Matador! – Ronnie começou a cantar. – Vai Matador! – Nick se juntou
a ele. Ele havia alcançado e batia a testa nela, ainda rindo.
– Vai, Matador!
– Vai, garotão!
– Vai nessa!
– Manda brasa, Matador! Acaba com eles!
– Sebo nas muletas, chefão!
– Vai seu maldito Matador!
Era igual a uma última jogada de futebol, exceto que todos cantavam Vai, Matador, ao invés de Segure essa linha ou Bloqueie esse chute. Quase todo mundo; eu não cantava, eu não acho que Skip estivesse, tampouco, mas nós
ríamos. Ríamos tanto quanto os outros.
De repente eu pensei na noite em que Carol e eu nos sentamos nas lixeiras
ao lado do Holyoke, a noite em que ela havia me mostrado sua foto com seus amigos de infância. . e então me contou a história do que aqueles
outros garotos haviam feito a ela.
O que haviam feito com o bastão de beisebol. No começo eles estavam brincando, eu acho, Carol havia dito. E então eles tinham começado a rir?
Provavelmente, é. Porque era isso que você fazia quando estava brincando,
se divertindo, você ria.
Stoke parou onde estava por um momento, se segurando nas muletas com
a cabeça abaixada. . e então ele atacou a colina como um Fuzileiro Naval chegando em terra irme em Tarawa. Ele seguiu pela Trilha de Bennett,
espalhando água por todo o canto com suas muletas voadoras; era como
assistir um coelho com raiva.
O canto icou ensurdecedor: VAI, MATADOR! VAI, MATADOR! VAI,
MATADOR!
No começo eles estavam brincando, ela disse onde nos sentamos, fumando
nossos cigarros. Mas então ela estava chorando, lágrimas prateadas com a
luz branca do salão de jantar acima de nós. No começo eles estavam
brincando. . e então não estavam mais.
Aquele pensamento terminou a piada de Stoke para mim, eu juro para
você que sim. E ainda assim eu ainda não conseguia parar de rir.
Stoke conseguiu chegar em um terço do caminho acima na direção do
Holyoke, onde os tijolos agora eram quase visíveis de novos, antes que
inalmente a lama escorregadia o pegasse. Ele plantou as muletas longe
demais do seu corpo, longe demais para aquelas condições úmidas, e
quando ele se balançou para frente, ambas as muletas voaram de suas
mãos. Sua pernas subiram como as pernas de um ginasta fazendo um
movimento fabuloso na barra de equilíbrio, e ele caiu de costas com um
tremendo borrifo. Conseguimos ouvir mesmo do salão do terceiro andar.
Foi o toque final perfeito.
O salão parecia um hospício onde todos os internos haviam caído no chão por causa de alguma comida envenenada ao mesmo tempo. Cambaleamos sem direção, rindo e segurando nossas gargantas, nossos olhos brotavam
lágrimas. Eu me segurava em Skip porque minhas pernas já não
conseguiam me segurar; meus joelhos pareciam feitos de macarrão. Foi a
maior crise de riso que eu tive em toda a minha vida, a maior que tive desde então, eu acho, e ainda assim eu continuava em pensar em Carol
sentada lá ao meu lado na lixeira, as pernas cruzadas, um cigarro na mão,
a foto na outra, Carol dizendo Harry Doolin me bateu. Willie e o outro me seguraram para que eu não pudesse fugir. . no começo eles estavam brincando, eu acho, e então. . não estavam mais.
Lá fora na Trilha de Bennett, Stoke tentou se sentar. Ele tirou a parte superior de seu corpo fora da água. . e então deitou, completamente, como
se a água gelada e lamacenta fosse uma cama. Ele levantou ambas as mãos
para o céu num gesto quase invocatório, então as deixou cair novamente.
Foi cada rendição já dada somada em três movimentos: deitar, levantar os
braços, e o duplo borrifo que izeram quando caíram nos lados. Foi o foda-
se definitivo, façam o que quiser, eu desisto.
– Vamos. – Skip disse. Ele ainda ria, mas também estava completamente
sério.
Eu podia ouvir a seriedade em sua voz risonha e vê-la em sua face
contorcida histericamente. Eu estava feliz por ela estar assim, Deus eu
estava feliz. – Vamos, antes que o maldito filho da puta se afogue.
Skip e eu corremos pela porta do salão ombro a ombro e descemos o
terceiro andar, batendo um no outro como bolas de liperama, encostando,
quase sem controle, enquanto Stoke estava lá no caminho. A maioria dos
outros nos seguiu. O único que eu tenho certeza de que não foi, foi o Mark;
ele foi para o quarto trocar suas calças mijadas.
Encontramos com Nate no segundo andar, quase o atropelamos. Ele estava
lá com os braços cheios de livros em um saco plástico, olhando para nós com algum alarme.