Corações na Atlântida
Capítulo 10
Bobby pegou o pote de dinheiro para comprar sua bicicleta. Ele pegou todo
o dinheiro e deixou o apartamento. Ele considerou deixar uma nota para
sua mãe, mas ele não o fez. Ela poderia ligar para HOusitonic 5-8337
novamente se o izesse, e dizer ao banana com a voz malvada o que seu
Bobby-O estava fazendo. Essa era um razão para não deixar uma nota. A
outra era que se ele pudesse avisar Ted a tempo, ele poderia ir com ele.
Agora Ted o deixaria ir com ele. E se os homens maus o matassem ou o seqüestrassem? Bem, estas coisas eram quase iguais a fugir, não eram?
Bobby deu uma olhada inal ao redor do apartamento, e enquanto ele
ouviu sua mãe roncar, ele sentiu um puxão involuntário em seu coração e
em sua mente. Ted tinha razão: apesar de tudo, ele a amava. Se havia um ka, amá-la era parte dele.
Ainda assim, ele esperava nunca mais vê-la.
– Adeus, Mamãe. – Bobby sussurrou. Um minuto depois ele corria a ladeira
da Broad Street abaixo na direção das profundezas das trevas, com uma
mão fechada ao redor do maço de dinheiro em seu bolso, para que nada
pudesse pular para fora dele.
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Semanas passariam sem correio (não para ele), e então haveria outro envelope com corações e ursinhos no verso, outra folha de papel de lado destacado, mais coisas sobre patins e piruetas e novos sapatos e como ela
estava com problemas em aprender frações. Cada carta era como uma
laborada respiração a mais de uma pessoa amada cuja morte agora parece
inevitável. Uma respiração a mais.
Até Sully-John lhe escreveu algumas cartas. Elas pararam no começo de
1961, mas Bobby estava admirado e comovido por Sully tentar. Na
caligra ia de um garotão e nos dolorosos erros ortográ icos, Bobby pode
imaginar algo aproximado de um adolescente de bom coração que iria
jogar esportes e fazer amor com líderes de torcida com igual alegria, um rapaz que iria se perder nos matagais das pontuações tão facilmente como
quando tentasse penetras nas linhas defensivas dos times adversários de
futebol. Bobby achou que ele poderia até mesmo ver o homem que
esperava para ser Sully nos anos setenta e oitenta, esperando por ele do modo como se espera um táxi chegar: um vendedor de carros que
eventualmente faz sua própria compra. John Honesto, é claro, Harwich
Chevrolet do John Honesto. Ele teria um grande estômago pendurado em
seu cinto e várias placas nas paredes de seu escritório e ele iria treinar jovens esportistas e começar cada discurso com Ouçam, rapazes e então iria para a igreja e marchar em paradas e estar no conselho da cidade e tudo mais. Seria uma boa vida, Bobby admitiu. . a fazenda e os coelhos ao invés das varas a iadas em ambas as pontas. Embora para Sully a vara
acabou icando à espera, a inal de contas; à espera na Província Dong Ha,
junto com a velha mamasan, aquela que nunca iria embora completamente.
***
Bobby tinha catorze anos quando o policial o pegou saindo da loja de
conveniência com seis grades de cerveja (Narragansett) e três maços de
cigarro (Chester ields, naturalmente; vinte e um grandes tabacos fazendo
vinte maravilhosos cigarros). Este era o policial loiro de A Vila dos Amaldiçoados.
Bobby disse ao policial que ele não havia arrombado, que a porta dos
fundos estava aberta e que ele havia entrado, mas quando o policial jogou
luz de lanterna na fechadura, ela estava metade quebrada e pendia na
velha madeira da porta. E quanto a isso? O policial perguntou, Bobby deu
de ombros. Sentando no carro (o policial deixou Bobby sentar no banco da frente com ele, mas não deixaria que Bobby fumasse se pedisse), o policial
começou a preencher um formulário. Ele perguntou ao carrancudo e
magro rapaz ao seu lado qual era o seu nome. Ralph, Bobby respondera.
Ralph Garfield.
Mas quando eles encostaram à frente da casa onde ele agora vivia com a mãe, (uma casa inteira com escadarias, os tempos eram bons), ele dissera
ao policial que mentira.
– Meu nome de verdade é Jack. – ele disse.
– Ah, mesmo? – disse o policial loiro de A Vila dos Amaldiçoados.
– Sim. – Bobby disse assentindo. – Jack Merridew Garfield. Sou eu.
***
As cartas de Carol Gerber pararam em 1963, que aconteceu de ser o ano
da primeira expulsão escolar de Bobby e também o ano de sua primeira
visita à Casa de Correção para Jovens de Massachusetts em Bedford. A
causa de sua visita havia sido a posse de cinco cigarros de maconha, que Bobby e seus amigos chamavam de palitinhos da alegria. Bobby foi
setenciado a noventa dias, os últimos trinta perdoados por bom
comportamento. Ele leu vários livros. Algumas das outras crianças o
chamavam de Professor. Bobby não se importava.
Quando saiu da Casa de Correção de “Bedfode”, o O icial Grandelle (o
O icial Juvenil de Danvers), veio até ele e perguntou se Bobby estava
pronto para se endireitar e agir de acordo. Bobby disse que estava, que havia aprendido sua lição, e por um tempo pareceu verdade. Então no
Outono de 1964 ele espancou um menino e o deixou tão mau que ele teve
que ir para o hospital e houve questões se ele iria ou não se recuperar completamente. O garoto não queria dar seu violão para Bobby, então
Bobby bateu nele e o pegou. Bobby estava tocando o violão (não muito bem) em seu quarto quando foi preso. Ele contou a Liz que havia
comprado o violão, um acústico Silvertone, em uma loja de penhores.
Liz estava de pé chorando no umbral enquanto o O icial Grandelle levava
Bobby à viatura policial estacionada no meio-fio.
– Eu vou lavar minhas mãos para você se você não parar! – ela gritou atrás dele.
– Estou falando sério! Eu vou!
– Pois faça. – ele disse, sentando-se atrás. – Vá em frente, mãe, lave-as agora e poupe seu tempo.
Dirigindo pelo centro, o Oficial Grandelle disse:
– Achei que você ia se endireitar e agir de acordo, Bobby.
– Eu também. – Bobby disse. Dessa vez ele pegou seis meses em “Bedfode”.
***
Quando ele saiu, ele pegou um trem e viajou de volta para casa. Quando
entrou em casa, sua mãe não veio para dar as boas vindas.
– Você recebeu uma carta. – ela disse de seu quarto escuro. – Está na sua
mesa.
O coração de Bobby começou a bater contra suas costelas assim que viu o
envelope. Os corações e os ursinhos haviam desaparecido (ela era velha
demais para eles agora), mas ele reconheceu a caligra ia de Carol no
mesmo instante. Ele pegou a carta e rasgou o envelope. Dentro havia uma
única folha de papel (com os lados destacados), e outro envelope, só que menor. Bobby leu a nota de Carol, a última que ele recebeu dela pelo resto
de sua vida, rapidamente.
Querido Bobby,
Como está. Eu estou bem. Você recebeu algo de seu velho amigo, aquele
que consertou meu braço daquela vez. Veio até mim porque eu
acho que ele não sabia onde você estava. Ele escreveu uma nota me pedindo para mandar junto. Então eu estou mandando. Diga oi para
sua mãe.
Nada de novas aventuras sobre piruetas. Nada de novidades sobre como ela estava se saindo em matemática. Nada de novidades sobre namorados,
tampouco, mas Bobby achou que ela provavelmente tivera alguns.
Ele pegou o envelope selado com as mãos moles e trêmulas. Seu coração
batendo mais forte do que nunca. Na frente, de caneta, estava escrita uma
única palavra: seu nome. Era a caligrafia de Ted. Ele soube na mesma hora.
Com a boca seca, sem perceber que seus olhos se enchiam de lágrimas
Bobby abriu o envelope, que não era maior do que aqueles que as crianças
mandavam no dia dos namorados na primeira série.
O que saiu primeiro foi o cheiro mais doce que Bobby já experimentara. O
fez pensar em como ele abraçava sua mãe quando era menor, o cheiro de
seu perfume e desodorante e as coisas que ela colocava no cabelo; fez com
que pensasse em como o Parque Commonwealth cheirava no verão; o fez
pensar em como as estantes da Biblioteca de Harwich cheiravam, fortes e
sombrias, e de algum modo explosivas. As lágrimas em seus olhos
começaram a cair em suas bochechas. Ele se acostumara a se sentir velho;
sentir-se novo de novo, sabendo que poderia fazê-lo, era um terrível
choque desorientador.
Não havia carta, nem nota, nem qualquer tipo de escritura. Quando Bobby
abriu o envelope o que choveu na superfície de sua mesa foram pétalas de
rosa, do vermelho mais escuro e profundo que já vira.
Sangue de coração, ele pensou, exaltado sem saber o porquê. No mesmo
instante, e pela primeira vez em anos, ele se lembrou de como era levar
sua mente para longe, como você podia colocá-la em liberdade. E mesmo enquanto ele pensava nisso ele sentiu seus pensamentos submergindo. As
pétalas de rosa brilhavam na superfície marcada de sua mesa como rubis,
como luz secreta jorrada pelo coração secreto do mundo.
Não só um mundo, Bobby pensou. Não só um. Há outros mundos além este,
milhões de mundo, todos girando no eixo da Torre.
E então ele pensou: Ele escapou deles novamente. Ele está livre novamente.
As pétalas não deixaram espaço para dúvidas. Elas eram todos os sim que
qualquer pessoa poderia precisar; todos os você-deve, todos os você-pode,
todos os é-verdade.
Aqui vão elas, estão parando, Bobby pensou, sabendo que havia ouvido essas palavras antes, sem se lembrar onde ou entendendo o motivo de ter
se lembrado delas agora. Sem se importar com isso, tampouco.
Ted estava livre. Não neste mundo e neste tempo, desta vez ele não havia
corrido em outra direção. . mas em outro mundo.
Bobby pegou várias pétalas fazendo uma concha com as mãos, cada uma
delas parecia pequenas moedas de seda. Ele as segurou como se estivesse
com as palmas cheias de sangue, então as levou até o rosto. Ele poderia ter
se afogado em seu aroma.
Ted estava nelas, Ted claro como dia com seu jeito engraçado de andar,
seu cabelo branco de bebê, e suas manchas amarelas de nicotina tatuadas
em seus dois primeiros dedos da mão direita. Ted e sua bagagem de
sacolas de papel.
Como no dia em que ele punira Harry Doolin por machucar Carol, ele ouviu
a voz de Ted. Até então ele pensara que havia sido sua imaginação. Desta
vez Bobby achou que havia sido real, algo que havia sido incorporado nas
pétalas e deixado para ele.