Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 11 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 10

Bobby pegou o pote de dinheiro para comprar sua bicicleta. Ele pegou todo

o dinheiro e deixou o apartamento. Ele considerou deixar uma nota para

sua mãe, mas ele não o fez. Ela poderia ligar para HOusitonic 5-8337

novamente se o izesse, e dizer ao banana com a voz malvada o que seu

Bobby-O estava fazendo. Essa era um razão para não deixar uma nota. A

outra era que se ele pudesse avisar Ted a tempo, ele poderia ir com ele.

Agora Ted o deixaria ir com ele. E se os homens maus o matassem ou o seqüestrassem? Bem, estas coisas eram quase iguais a fugir, não eram?

Bobby deu uma olhada inal ao redor do apartamento, e enquanto ele

ouviu sua mãe roncar, ele sentiu um puxão involuntário em seu coração e

 

em sua mente. Ted tinha razão: apesar de tudo, ele a amava. Se havia um ka, amá-la era parte dele.

Ainda assim, ele esperava nunca mais vê-la.

– Adeus, Mamãe. – Bobby sussurrou. Um minuto depois ele corria a ladeira

da Broad Street abaixo na direção das profundezas das trevas, com uma

mão fechada ao redor do maço de dinheiro em seu bolso, para que nada

pudesse pular para fora dele.

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Semanas passariam sem correio (não para ele), e então haveria outro envelope com corações e ursinhos no verso, outra folha de papel de lado destacado, mais coisas sobre patins e piruetas e novos sapatos e como ela

estava com problemas em aprender frações. Cada carta era como uma

laborada respiração a mais de uma pessoa amada cuja morte agora parece

inevitável. Uma respiração a mais.

Até Sully-John lhe escreveu algumas cartas. Elas pararam no começo de

1961, mas Bobby estava admirado e comovido por Sully tentar. Na

caligra ia de um garotão e nos dolorosos erros ortográ icos, Bobby pode

imaginar algo aproximado de um adolescente de bom coração que iria

jogar esportes e fazer amor com líderes de torcida com igual alegria, um rapaz que iria se perder nos matagais das pontuações tão facilmente como

quando tentasse penetras nas linhas defensivas dos times adversários de

futebol. Bobby achou que ele poderia até mesmo ver o homem que

esperava para ser Sully nos anos setenta e oitenta, esperando por ele do modo como se espera um táxi chegar: um vendedor de carros que

eventualmente faz sua própria compra. John Honesto, é claro, Harwich

Chevrolet do John Honesto. Ele teria um grande estômago pendurado em

seu cinto e várias placas nas paredes de seu escritório e ele iria treinar jovens esportistas e começar cada discurso com Ouçam, rapazes e então iria para a igreja e marchar em paradas e estar no conselho da cidade e tudo mais. Seria uma boa vida, Bobby admitiu. . a fazenda e os coelhos ao invés das varas a iadas em ambas as pontas. Embora para Sully a vara

acabou icando à espera, a inal de contas; à espera na Província Dong Ha,

junto com a velha mamasan, aquela que nunca iria embora completamente.

***

Bobby tinha catorze anos quando o policial o pegou saindo da loja de

conveniência com seis grades de cerveja (Narragansett) e três maços de

cigarro (Chester ields, naturalmente; vinte e um grandes tabacos fazendo

vinte maravilhosos cigarros). Este era o policial loiro de A Vila dos Amaldiçoados.

Bobby disse ao policial que ele não havia arrombado, que a porta dos

fundos estava aberta e que ele havia entrado, mas quando o policial jogou

luz de lanterna na fechadura, ela estava metade quebrada e pendia na

velha madeira da porta. E quanto a isso? O policial perguntou, Bobby deu

de ombros. Sentando no carro (o policial deixou Bobby sentar no banco da frente com ele, mas não deixaria que Bobby fumasse se pedisse), o policial

começou a preencher um formulário. Ele perguntou ao carrancudo e

magro rapaz ao seu lado qual era o seu nome. Ralph, Bobby respondera.

Ralph Garfield.

Mas quando eles encostaram à frente da casa onde ele agora vivia com a mãe, (uma casa inteira com escadarias, os tempos eram bons), ele dissera

ao policial que mentira.

– Meu nome de verdade é Jack. – ele disse.

– Ah, mesmo? – disse o policial loiro de A Vila dos Amaldiçoados.

– Sim. – Bobby disse assentindo. – Jack Merridew Garfield. Sou eu.

***

As cartas de Carol Gerber pararam em 1963, que aconteceu de ser o ano

da primeira expulsão escolar de Bobby e também o ano de sua primeira

visita à Casa de Correção para Jovens de Massachusetts em Bedford. A

causa de sua visita havia sido a posse de cinco cigarros de maconha, que Bobby e seus amigos chamavam de palitinhos da alegria. Bobby foi

setenciado a noventa dias, os últimos trinta perdoados por bom

comportamento. Ele leu vários livros. Algumas das outras crianças o

chamavam de Professor. Bobby não se importava.

Quando saiu da Casa de Correção de “Bedfode”, o O icial Grandelle (o

O icial Juvenil de Danvers), veio até ele e perguntou se Bobby estava

pronto para se endireitar e agir de acordo. Bobby disse que estava, que havia aprendido sua lição, e por um tempo pareceu verdade. Então no

Outono de 1964 ele espancou um menino e o deixou tão mau que ele teve

que ir para o hospital e houve questões se ele iria ou não se recuperar completamente. O garoto não queria dar seu violão para Bobby, então

Bobby bateu nele e o pegou. Bobby estava tocando o violão (não muito bem) em seu quarto quando foi preso. Ele contou a Liz que havia

comprado o violão, um acústico Silvertone, em uma loja de penhores.

Liz estava de pé chorando no umbral enquanto o O icial Grandelle levava

Bobby à viatura policial estacionada no meio-fio.

– Eu vou lavar minhas mãos para você se você não parar! – ela gritou atrás dele.

– Estou falando sério! Eu vou!

– Pois faça. – ele disse, sentando-se atrás. – Vá em frente, mãe, lave-as agora e poupe seu tempo.

Dirigindo pelo centro, o Oficial Grandelle disse:

– Achei que você ia se endireitar e agir de acordo, Bobby.

– Eu também. – Bobby disse. Dessa vez ele pegou seis meses em “Bedfode”.

***

Quando ele saiu, ele pegou um trem e viajou de volta para casa. Quando

entrou em casa, sua mãe não veio para dar as boas vindas.

– Você recebeu uma carta. – ela disse de seu quarto escuro. – Está na sua

mesa.

O coração de Bobby começou a bater contra suas costelas assim que viu o

envelope. Os corações e os ursinhos haviam desaparecido (ela era velha

demais para eles agora), mas ele reconheceu a caligra ia de Carol no

mesmo instante. Ele pegou a carta e rasgou o envelope. Dentro havia uma

única folha de papel (com os lados destacados), e outro envelope, só que menor. Bobby leu a nota de Carol, a última que ele recebeu dela pelo resto

de sua vida, rapidamente.

Querido Bobby,

Como está. Eu estou bem. Você recebeu algo de seu velho amigo, aquele

que consertou meu braço daquela vez. Veio até mim porque eu

acho que ele não sabia onde você estava. Ele escreveu uma nota me pedindo para mandar junto. Então eu estou mandando. Diga oi para

sua mãe.

Nada de novas aventuras sobre piruetas. Nada de novidades sobre como ela estava se saindo em matemática. Nada de novidades sobre namorados,

tampouco, mas Bobby achou que ela provavelmente tivera alguns.

Ele pegou o envelope selado com as mãos moles e trêmulas. Seu coração

batendo mais forte do que nunca. Na frente, de caneta, estava escrita uma

única palavra: seu nome. Era a caligrafia de Ted. Ele soube na mesma hora.

Com a boca seca, sem perceber que seus olhos se enchiam de lágrimas

Bobby abriu o envelope, que não era maior do que aqueles que as crianças

mandavam no dia dos namorados na primeira série.

O que saiu primeiro foi o cheiro mais doce que Bobby já experimentara. O

fez pensar em como ele abraçava sua mãe quando era menor, o cheiro de

seu perfume e desodorante e as coisas que ela colocava no cabelo; fez com

que pensasse em como o Parque Commonwealth cheirava no verão; o fez

pensar em como as estantes da Biblioteca de Harwich cheiravam, fortes e

sombrias, e de algum modo explosivas. As lágrimas em seus olhos

começaram a cair em suas bochechas. Ele se acostumara a se sentir velho;

sentir-se novo de novo, sabendo que poderia fazê-lo, era um terrível

choque desorientador.

Não havia carta, nem nota, nem qualquer tipo de escritura. Quando Bobby

abriu o envelope o que choveu na superfície de sua mesa foram pétalas de

rosa, do vermelho mais escuro e profundo que já vira.

Sangue de coração, ele pensou, exaltado sem saber o porquê. No mesmo

instante, e pela primeira vez em anos, ele se lembrou de como era levar

sua mente para longe, como você podia colocá-la em liberdade. E mesmo enquanto ele pensava nisso ele sentiu seus pensamentos submergindo. As

pétalas de rosa brilhavam na superfície marcada de sua mesa como rubis,

como luz secreta jorrada pelo coração secreto do mundo.

Não só um mundo, Bobby pensou. Não só um. Há outros mundos além este,

milhões de mundo, todos girando no eixo da Torre.

E então ele pensou: Ele escapou deles novamente. Ele está livre novamente.

As pétalas não deixaram espaço para dúvidas. Elas eram todos os sim que

qualquer pessoa poderia precisar; todos os você-deve, todos os você-pode,

todos os é-verdade.

Aqui vão elas, estão parando, Bobby pensou, sabendo que havia ouvido essas palavras antes, sem se lembrar onde ou entendendo o motivo de ter

se lembrado delas agora. Sem se importar com isso, tampouco.

Ted estava livre. Não neste mundo e neste tempo, desta vez ele não havia

corrido em outra direção. . mas em outro mundo.

Bobby pegou várias pétalas fazendo uma concha com as mãos, cada uma

delas parecia pequenas moedas de seda. Ele as segurou como se estivesse

com as palmas cheias de sangue, então as levou até o rosto. Ele poderia ter

se afogado em seu aroma.

Ted estava nelas, Ted claro como dia com seu jeito engraçado de andar,

seu cabelo branco de bebê, e suas manchas amarelas de nicotina tatuadas

em seus dois primeiros dedos da mão direita. Ted e sua bagagem de

sacolas de papel.

Como no dia em que ele punira Harry Doolin por machucar Carol, ele ouviu

a voz de Ted. Até então ele pensara que havia sido sua imaginação. Desta

vez Bobby achou que havia sido real, algo que havia sido incorporado nas

pétalas e deixado para ele.