Corações na Atlântida
Capítulo 28
Ele assentiu, colocou a jarra ao lado da geladeira, e então pareceu que estava pronto para derramar o chá por toda a mesa e nos pés.
– Deixe-me fazer isso para você. – eu disse. – Certo?
Ele não respondeu, mas se afastou para que eu pudesse encher o copo. Eu
coloquei três quartos no copo e coloquei na sua mãe, então devolvi a jarra para geladeira.
– Está bom, papai?
Nada. Ele apenas icou lá com o copo seguro em ambas as mãos, do jeito que as crianças seguram, bebendo pequenos goles. Eu esperei, e decidi
que ele não iria responder, e tirei a minha maleta do canto. Eu havia jogado
meus livros em cima de minhas roupas, e agora os havia tirado.
– Estudando na primeira noite de folga. – papai disse, me assustado, eu quase esqueci que ele estava lá. – Horrível.
– Bem, estou meio que pra trás em algumas matérias. Os professores são
mais rápidos do que os do colégio.
– Faculdade. – ele disse. Uma longa pausa. – Você está na faculdade.
Aquilo quase parecia uma pergunta, então eu disse:
– Isso mesmo, papai.
Ele icou lá um pouco mais, parecendo me assistir enquanto eu tirava meus
livros e cadernos. Talvez ele estivesse assistindo. Ou talvez estivesse
apenas ali. Você não tinha como dizer, não com certeza. Finalmente ele
começou a ir na direção da porta, o pescoço esticado, aquela mão defensiva
levantada, sua outra mão, aquela com o copo de chá vermelho nela, agora
fechada contra seu peito. Na porta ele parou. Sem olhar ao redor, ele disse:
– Você está melhor sem aquela menina Soucie. Todos os Soucie têm
temperamento ruim. Você pode vesti-los, mas não pode agradá-los. Você
pode arranjar coisa melhor.
Ele saiu, segurando seu copo de chá contra o peito.
28
Antes de meu irmão e sua esposa chegarem de Nova Gloucester, eu realmente estudei, já havia lido metade do assunto de Sociologia, e
quarenta páginas de Geologia, todas em três horas que esquentaram meu
cérebro. Quando eu parei para fazer café, eu comecei a sentir pequenos
iapos de esperança. Eu estava para trás, desastrosamente para trás, mas
não fatalmente para trás. Eu me senti como um jardineiro esquerdo que persegue uma bola de cabo a rabo até a parede do campo esquerdo; ele
ica lá olhando para cima, mas sem desistir, sabendo que a bola vai sair do
campo, mas sabendo que se ele ajustar seu pulo para o momento certo, ele
pode pegá-la. Eu poderia fazer isso.
Se, assim fosse, eu poderia ficar longe do salão do terceiro andar no futuro.
Às dez e vinte e cinco meu irmão, que nunca vai a lugar algum quando o sol ainda está no céu se puder fazê-lo, chegou. Sua esposa de oito meses, glamorosa em um casaco de pele de marta, trazia um pudim; Dave tinha
um vidro de manteiga de amendoim. Apenas meu irmão de todas as
pessoas do planeta pensaria em transportar manteiga de amendoim pelas
estradas do condado para o jantar de Ação de Graças. Ele é um cara legal,
Dave, mais velho do que eu por seis anos, e em 1966 um contador para
uma pequena rede de hambúrgueres com meia dúzia de lojas no Maine e
em Nova Hampshire. Em 1996 havia oitenta lojas, e meu irmão, junto com
três parceiros, comprou a companhia. Ele vale três milhões de dólares (no
papel, pelo menos), e construiu um viaduto triplo. Um viaduto por milhão, eu acho que você poderia dizer.
Logo em seguida mamãe chegou do encontro das senhoras, suja de
farinha, feliz com o trabalho bem feito, e emocionada por ter ambos os
ilhos em sua casa. Houve muito sentimentalismo. Nosso pai sentou no canto ouvindo sem dizer nada. . mas ele sorria, seus estranhos olhos, com grandes pupilas, indo do rosto de Dave para o meu, e então de volta para o
de Dave. Era na verdade para nossas vozes que seus olhos respondiam, eu
suponho. Dave quis saber onde estava Annmarie. Eu disse que Annmarie e
eu havíamos decidido dar um tempo. Dave começou a perguntar se isso
significava que nós. .
Antes que ele pudesse terminar a pergunta, sua mãe e esposa deram a ele
um feminino cutucão que signi ica agora não, colega, agora não . Olhando para os olhos de minha mãe, eu imaginei que ela teria suas próprias
perguntas para mais tarde.
Provavelmente algumas delas. Mamãe queria informação. As mães sempre
querem.
Fora o fato de ser chamado de escroto de merda por Annmarie e imaginar
de tempos em tempos como Carol Gerber estava passando (a maior parte
se ela havia mudado de idéia sobre voltar para a escola e se ela estava compartilhando sua Ação de Graças com o velho soldado Sully-John),
aquele foi um ótimo feriado. A família inteira aparecia uma vez ou outra na
quinta ou na sexta, parecia, andando pela casa e roendo coxas do peru,
assistindo jogos de futebol na TV e comemorando as grandes jogadas,
cortando lenha para o fogão (na noite de Domingo mamãe tinha lenha o
bastante para aquecer o Franklin o inverno inteiro, se ela quisesse).
Depois do jantar comemos uma torta e jogamos palavras embaralhadas.
Mas o mais divertido de tudo foi a briga que Dave e Katie tiveram pela casa
que eles estavam planejando comprar, e Katie jogou um prato Tupperware
de sobras no meu irmão. Eu havia levado algumas porradas de Dave pelos
anos, e eu gostei de ver o pote de plástico de salada de frutas batendo no
lado de sua cabeça. Cara, aquilo foi engraçado.
Mas debaixo de todas as coisas boas, a felicidade comum que você sente
quando sua família inteira está lá, estava meu medo do que aconteceria
quando eu voltasse às aulas. Eu achei uma hora para estudar na noite de Quinta-Feira, depois que a geladeira havia sido entupida de sobras e
pratos e todos haviam ido para cama, e mais duas horas na manhã de
Sexta-Feira, quando houve uma calmaria entre Dave e Katie, suas
diferenças temporariamente resolvidas, retirada do que eu imagino que
tenha sido uma “soneca” barulhenta Eu ainda sentia que poderia me
recuperar, (sabia, na verdade), mas eu também sabia que não poderia
fazer isso sozinho, ou com Nate. Eu tinha que me juntar com alguém que entendesse aquela atração suicida do terceiro andar, ou como o sangue
surgia quando alguém começava a jogar espadas num esforço para forçar
a Puta.
Alguém que entendesse a alegria primitiva de socar em Ronnie la femme noire.
Teria que ser Skip, eu pensei. Mesmo se Carol voltasse, ela nunca seria
capaz de entender do mesmo modo. Tinha que ser Skip e eu, nadando para fora da água profunda na direção da costa. Eu pensei que se icássemos
juntos, poderíamos sair dessa. Não que eu me importasse tanto com ele. Sei
que soa egoísta, mas é a verdade. No Sábado do feriado de Ação de Graças
eu iz várias pesquisas em minha alma e entendi que eu me preocupava
mais comigo, tomando cuidado com o Número Seis. Se Skip quisesse me
usar, tudo bem. Porque eu com certeza queria usá-lo.
Ao meio-dia do Sábado eu já havia lido Geologia o bastante para saber que
eu precisava de ajuda em alguns conceitos, e rápido. Haveria apenas mais
dois grandes períodos de testes no semestre: uma rodada de preliminares,
e então as provas inais. Eu teria que me sair muito bem em ambas se
quisesse manter minha bolsa escolar.
Dave e Katie foram embora por volta das sete da noite de Sábado, ainda se
brigando (mas com mais bom humor) sobre a casa que planejavam
comprar em Pownal.
Eu fui me sentar à mesa da cozinha e comecei a ler sobre sanções grupais
no meu livro de Sociologia. O que pareceu era que até os nerds tinha
alguma cabeça para cagar em cima. Um conceito deprimente.
Em algum momento eu percebi que não estava sozinho. Eu olhei para cima
e vi minha mãe parada lá em seu velho avental rosa, seu rosto
fantasmagórico com creme rejuvenescedor. Eu não fiquei surpreso por não
ouvi-la; depois de vinte e cinco anos na mesma casinha, ela sabia onde
estavam todas as partes do piso que rangiam. Eu pensei que ela inalmente
chegara para suas perguntas sobre Annmarie, mas aconteceu que o amor
de minha vida era a última coisa em sua mente.
– O quão encrencado você está, Peter?
Eu pensei em mais ou menos cem diferentes respostas, e então escolhi a
verdade.
– Eu realmente não sei.
– É alguma coisa em particular?
Desta vez eu não disse a verdade, e olhando para trás eu percebo como foi
contar aquela mentira: alguma parte de mim, alienígena aos meus melhores interesses, mas muito poderosa, ainda era reservada ao direito
de marchar como um sapo na direção de um penhasco. . e além dele.
Sim, mamãe, o salão do terceiro andar é o problema, as cartas são o problema, só algumas partidas é o que eu sempre digo a mim mesmo, e quando eu olho para o relógio já é meia noite e meia e eu estou cansado demais para estudar. Inferno, sem vontade alguma para estudar. Fora jogar Copas, tudo o que eu realmente fiz neste Outono foi perder minha virgindade.
Se eu ao menos pudesse ter dito a primeira parte disso, eu acho que icaria tentando adivinhar o nome de Rumpelstiltskin (N.T. – Um duende de conto de fadas dos irmãos Grimm, conhecido por seus pactos
arriscados com pessoas desesperadas, em troca de algo que a
princípio não parece ter importância. Entretanto, a dívida pode ser perdoada pelo duende, se a pessoa com quem ele fez o terrível pacto
adivinhe seu nome todo. ) e gritá-lo bem alto. Mas eu não disse nada disso. Eu disse que estava em um ritmo razoável na faculdade; que eu
tinha que rede inir o que estudar signi icava, aprender alguns novos
hábitos. Mas eu ainda poderia conseguir. Com certeza poderia.
Ela icou lá por mais um instante, seus braços cruzados e suas mãos
enterradas nos bolsos de seu avental, ela parecia meio que com uma
mandarina chinesa quando ficava desse modo; e então ela disse:
– Eu sempre te amarei, Pete. Seu pai também. Ele não diz, mas ele sente.
Ambos sentimos. Sabe disso.
– Sim. – eu disse. – Eu sei disso. – eu me levantei e a abracei. Câncer pancreático foi o que a levou. Esse foi rápido ao menos, mas não o bastante.
Mas acho que nenhum deles é quando acontece a alguém que você ama.
– Mas você tem que dar duro em seus estudos. Rapazes que não têm dado
duro neles morrem na guerra. – ela sorriu. Não havia muito humor nisso. –
Você provavelmente sabe disso.
– Ouvi rumores.
– Você ainda está crescendo. – ela disse, empinando a cabeça.
– Eu acho que não.
– Sim. Ao menos um centímetro desde o verão. E seu cabelo! Por que não corta o seu cabelo?
– Eu gosto do jeito que ele está.
– Está grande como o de uma garota. Pegue meu conselho, Pete, corte seu
cabelo. Fique decente. Você não é um daqueles Rolling Stones ou Herman’s
Hermit, afinal de contas.
Eu cai na gargalhada. Não pude evitar.
– Eu gosto do jeito que ele está.
– Está grande como o de uma garota. Pegue meu conselho, Pete, corte seu
cabelo. Fique decente. Você não é um daqueles Rolling Stones ou Herman’s
Hermit, afinal de contas.
– Vou pensar nisso, mamãe, certo?
– Faça isso. – ela me deu outro forte abraço, então me soltou. Ela parecia cansada, mas eu achei que ela parecia linda. – Eles estão matando os
garotos do outro lado do mar. – ela disse. – No começo eu achei que havia
uma boa razão para isso, mas seu pai diz que é loucura e eu não tenho certeza de que ele esteja errado. Estude muito.
Se você precisar de um extra para livros ou tutores, nós damos um jeito.
– Obrigado, mamãe. Você é um doce.
– Não. – ela disse. – Apenas uma velha com os pés cansados. Eu vou para a
cama.
Estudei por mais uma hora, então todas as palavras começaram a dobrar e
a triplicar na frente de meus olhos. Eu fui para cama mas não pude dormir.
Toda vez que eu tentava adormecer, eu me via pegando uma mão de Copas
examinando-a. Finalmente eu deixei meus olhos abrirem e apenas iquei
olhando para o teto. Rapazes que não têm dado duro neles morrem na guerra, minha mãe havia dito. E Carol disse que essa era uma boa época
para ser garota, Lyndon Johnson via isso.
Estamos caçando A Puta!
Passa pela esquerda ou pela direita?
Jesus Cristo, o escroto do Riley está acertando a lua!
Vozes em minha cabeça. Vozes parecendo penetrá-la por cada molécula de
ar.
Parar de jogar parecia a única solução sã para meus problemas, mas
mesmo com o salão do terceiro andar a milhas de distâncias ao norte de onde eu estava deitado, eu ainda estava algemado ao jogo, algemas estas
que pouco tinha a ver com sanidade ou racionalidade. Eu tinha acumulado
doze pontos no super torneio; apenas Ronnie, com quinze, estava na minha
frente. Eu não conseguia ver como poderia desistir destes doze pontos,
apenas sair de cena, e deixar o cabeça de vento do Malenfant com o
caminho livre. Carol havia me ajudado a manter Ronnie em um tipo de
perspectiva, me permitindo vê-lo como o gnomo feio, burro, e complexado
que era. Agora ela se fora. .
Ronnie também se vai em breve , a voz da razão interpôs. Se ele durar até o fim do semestre será o maior dos milagres. Você sabe disso.
Verdade. No ínterim, Ronnie não tinha nada exceto Copas, não é? Ele era tosco, gordo, e tinha os braços inos, um velho esperando para acontecer.
Ele usava um disfarce para ao menos esconder parcialmente seus
sentimentos massivos de inferioridade. Suas histórias sobre garotas eram
ridículas. Ele também não era muito inteligente, como alguns dos garotos
em perigo de serem reprovados (Skip Kirk, por exemplo). Copas e
boçalidade eram as únicas coisas em que Ronnie era bom, pelo que eu
posso dizer até hoje, então por que não apenas sair de cena e deixá-lo correr as cartas e correr sua boca enquanto ele puder?
Porque eu não queria, eis o motivo. Porque eu queria tirar aquele sorriso idiota de sua fuça espinhenta, e silenciar seus risos extravagantes. Era
mau, mas era a verdade.
Eu gostava mais de Ronnie quando ele estava irritado, quando ele me
olhava com seu cabelo cheio de gel caído em sua testa, e seu lábio puxado.
Também havia o próprio jogo. Eu amava jogar. Eu nem mesmo conseguia parar de pensar nisso aqui, na minha cama de infância, então como eu
conseguiria icar longe do salão quando voltasse? Como eu poderia ignorar
Mark St. Pierre gritando para que eu me apressasse, pois tinha um lugar vago, com todos zerados no placar e o jogo começando? Cristo!
Eu ainda estava acordado quando o relógio cuco na sala abaixo de mim
cantou que eram duas horas. Eu me levantei, joguei meu velho roupão
xadrez no criado-mudo, e desci as escadas. Fiz um copo de leite e sentei-me à mesa da cozinha para beber. Não haviam luzes ligadas exceto a
luorescente acima do fogão, nenhum som exceto o dos móveis rangendo e
os roncos suaves de meu pai em seu quarto. Eu me senti meio
desorientado, como se a combinação de peru e as guloseimas houvesse
liberado um pequeno terremoto em minha cabeça. E seria o Dia de São
Nunca antes que eu pegasse no sono por ali.
Eu acabei olhando para a entrada. Lá, pendurada em um dos ganchos
acima da caixa de madeira estava minha jaqueta do colégio, a com um
grande GF branco na frente, uma letra em cada lado. Nada mais do que as
iniciais; eu não fui muito de esportes. Quando Skip me perguntou, pouco
tempo depois de termos nos conhecido na faculdade, se eu tivesse dito
alguma coisa, eu diria que para mim o M era de Masturbação (eu seria do
time principal, a punheta sem tirar as calças era minha especialidade). Skip
riu até chorar, e talvez tenha sido aí que começamos nossa amizade. Na
verdade, eu acho que poderia ter dito que o D seria de debate, ou
dramaturgia, mas eles não letras para essas coisas, dão? Não naquela
época e nem hoje.
O colégio parecia longe no passado para mim naquela noite, quase que
como em outro sistema planetário. . mas havia a jaqueta, um presente de aniversário de meus pais no ano em que completei dezesseis. Eu fui até lá
e a tirei do gancho. A apertei contra o rosto e cheirei seu aroma,
lembrando do quinto ano com o Sr. Mezensik, o aroma amargo do
apontador de lápis, as garotas sussurrando e rindo, os gritos fracos do lado
de fora onde os garotos tinham aula de educação ísica e jogavam o que os
esportistas chamavam de Vôlei Terapêutico. Eu vi que o lugar onde
estivera a jaqueta no gancho continuava saliente com um tipo de covinha; a
maldita coisa talvez não houvesse sido usada, até mesmo por minha mãe,
para sair para pegar a correspondência em suas saídas noturnas, desde
Abril ou Maio passado.
Eu pensei em Carol congelada coberta de pontinhos no jornal, seu rosto
sombreado por uma placa que dizia PARA FORA DO VIETNÃ AGORA!, seu
rabo de cavalo deitado sobre o colarinho de sua própria jaqueta escolar. . e
eu tive uma idéia.
Nosso telefone, um dinossauro da Bakelite com um discador rotativo,
estava na mesa da sala de estar. Na gaveta abaixo dele estava a lista
telefônica de Gates Falls, o livro de endereços de minha mãe, e uma
bagunça de objetos. Um deles era um piloto negro. Eu o levei de volta para
a mesa da cozinha e sentei novamente. Coloquei minha jaqueta escolar no
meu colo, e então usei o piloto para fazer uma grande pegada de
passarinho nas costas. Enquanto trabalhava senti a tensão nervosa saindo
de meus músculos. Ocorreu a mim que eu poderia dar qualquer letra que eu quisesse para mim mesmo, e de fato era quase isso que eu estava