Corações na Atlântida
Capítulo 29
fazendo.
Quando eu terminei, eu segurei a jaqueta e dei uma olhada. Na fraca luz branca da luz luorescente, o que eu desenhei pareceu ruim, declaratório,
e de certa forma infantil:
Mas eu gostei. Eu gostei daquele ilho da puta. Eu ainda não tinha certeza do que achava da guerra mesmo naquele momento, mas eu gostei muito da
pegada de passarinho. E eu senti que inalmente poderia ir dormir;
desenhá-la havia pedido muito de mim, de qualquer forma. Eu esvaziei
meu copo de leite e subi as escadas com a jaqueta sob o braço. Eu a en iei
no armário e me deitei. Eu pensei em Carol colocando minha mão dentro de seu suéter, e o gosto de seu hálito em minha boca. Eu pensei em como havia sido apenas nós atrás das janelas embaçadas de meu velho Station
Wagon, talvez nosso melhor momento. E pensei em como rimos vendo
pedaços do adesivo Goldwater saírem voando pelo estacionamento Steam
Plant. Eu pensava nisso quando adormeci.
Eu levei minha jaqueta customizada de volta para a faculdade na Segunda-
Feira dentro de minha maleta. Apesar de suas dúvidas sobre a guerra do
Sr. Johnson e do Sr.
McNamara, minha mãe tivera várias perguntas sobre a pegada de
passarinho, e eu não tinha respostas para dar, ainda não.
Eu me senti equipado ao usar a jaqueta, e eu estava. Eu derramei cerveja e
cinzas de cigarro nela, vomitei nela, sangrei nela, fui atacado com gás
lacrimogêneo em Chicago enquanto a usava e gritava que “o mundo todo
estava assistindo!” o mais alto que podia. Garotas choraram nas letras GF
costuradas na parte da frente (em meu último ano escolar aquelas letras
icaram cinza ao invés de brancas), e uma garota se deitou nela enquanto fazíamos amor. Fizemos sem proteção, então provavelmente há um traço
de sêmen no tecido também. Na época em que deixei os Acres do LSD em
1970, o sinal de paz que eu havia desenhado na cozinha de minha mãe era
apenas uma sombra. Mas a sombra permanecia. Outros poderiam não vê-
la, mas eu sempre soube o que ela era.
29
Voltamos à faculdade na Segunda-Feira depois da Ação de Graças nesta
ordem: Skip às cinco (ele vivia em Dexter, de nós era o que morava mais próximo da faculdade), eu às sete, e Nate por volta das nove.
Eu liguei para o Franklin Hall mesmo antes de abrir a mala. Não, a garota
no balcão disse, Carol Gerber não havia voltado. Ela estava plenamente
relutante em dizer mais, mas eu a convenci. Havia dois cartões rosa de SAÍ
DA ESCOLA no balcão, ela disse. Um deles tinha o nome de Carol e o número do quarto nele.
Eu a agradeci e desliguei. Fiquei lá por um minuto, embaçando a janela da
cabine com a fumaça de meu cigarro, então me virei. Pelo corredor pude
ver Skip sentado em uma das mesas de jogos, pegando algumas cartas.
Eu às vezes me pergunto se as coisas teriam sido diferentes se Carol
houvesse voltado, ou mesmo se eu teria uma chance de alcançar Skip antes
que o salão do terceiro andar o fizesse. Entretanto, eu não consegui.
Eu iquei lá na cabine telefônica, fumando um Pall Mall e sentindo pena de
mim mesmo. Então pelo caminho, alguém gritou: “Oh, merda, não! Eu não ACREDITO nessa porra!”.
Ao que Ronnie Malenfant (de onde eu estava na cabine ele estava fora de
minha vista, mas sua voz era tão inconfundível como um som de uma serra
rasgando um pinheiro) berrou alegremente: “ Uau, olhem para isso: Randy Echolls pega a Puta mais rápida da era pós-Ação de Graças!”
Não entre lá, eu disse a mim mesmo. Você está absolutamente fodido se o fizer, fodido de uma vez por todas.
Mas é claro que eu fui. As mesas estavam cheias, mas havia outros três caras, Billy Marchan, Tony DeLucca, e Hugh Brennan, de pé. Poderíamos
pegar um canto, se quiséssemos.
Skip tirou os olhos de sua mão e me deu um “toca aqui” no ar esfumaçado.
– Bem-vindo de volta à sala dos loucos, Pete.
– Ei! – Ronnie disse, olhando em volta. – Olhem quem está aqui! O único cuzão neste lugar que quase consegue jogar um jogo! Onde esteve,
Risadinha?
– Lewiston. – eu disse. – Fodendo a tua mãe.
Ronnie cacarejou, suas bochechas espinhentas ficando vermelhas.
Skip olhava para mim seriamente, e talvez houvesse algo em seus olhos.
Não posso dizer com certeza. O tempo passa, Atlântida afunda mais e mais no oceano, e você tem uma tendência a romantizar. A miti icar. Talvez eu tenha visto que ele havia desistido, que ele pretendia icar aqui e jogar cartas e então ir para o que quer que houvesse em seguida; talvez ele
estivesse me dando permissão para ir em minha própria direção. Mas eu
tinha dezoito anos, e era como Nate em mais aspectos do que eu gostaria de admitir. Eu também nunca tive um amigo como Skip. Skip era
destemido, Skip dizia que se fodam as outras palavras, quando Skip ia
comer no Palácio, as garotas não tiravam os olhos dele. Ele era o tipo de ímã de gatas que Ronnie apenas seria em seus sonhos mais deprimidos.
Mas Skip também tinha uma falha dentro dele, algo como um pedaço de
osso que pode, depois de anos sendo inofensivo, atravessar seu coração ou
obstruir seu cérebro. Ele sabia disso também. Mesmo então, com o colégio
grudado em mim como uma placenta, mesmo então quando ele ainda
pensava que de algum modo acabaria ensinando no colégio ou treinando
times de beisebol, ele sabia. E eu o amava. Sua aparência, seu sorriso, seu
andar e modo de falar. Eu o amava, e eu não iria deixá-lo.
– Então. – eu disse para Billy, Tony, e Hugh. – Vocês querem aprender uma
lição?
– Níquel por ponto! – Hugh disse, rindo como um maníaco. Merda, ele era um maníaco. – Vamos nessa! Embaralhe e passe!
Logo estávamos no canto, todos os quatro fumando furiosamente enquanto
as cartas voavam. Eu lembro do estudo desesperado que tivera no feriado;
de minha mãe me dizendo que garotos que não davam duro nos estudos
morriam na guerra. Eu me lembro destas coisas, mas elas parecem tão
distantes quanto fazer amor com Carol em meu carro enquanto The
Platters cantavam “Twilight Time”.
Eu olhei para cima uma vez e vi Stoke Jones no umbral, curvado em suas muletas e olhando para nós com seu usual e distante desdém. Seu cabelo
negro estava mais grosso do que nunca, enrolado de um modo louco sobre
suas orelhas e pesado contra o colarinho de seu suéter. Ele fungava
firmemente, seu nariz escorria, e seus olhos lacrimejavam, mas não parecia
mais doente do que estava antes do feriado.
– Stoke! – eu disse. – Como vai?
– Oh, bem, quem sabe. – ele disse. – Melhor do que você, talvez.
– Junte-se a nós, Matador, pega um banquinho. – Ronnie disse. – Nós te ensinamos como jogar.
– Você não sabe de nada que eu queria aprender. – Stoke disse, e saiu batendo as muletas ao chão. Nós ouvimos suas muletas pararem e um
breve acesso de tosse.
– Aquela bicha aleijada me ama. – Ronnie disse. – Ele só não sabe como demonstrar.
– Eu vou te mostrar uma coisa se não sacar logo essas malditas cartas. –
Skip disse.
– Estou com tanto medo, estou com medinho. – Ronnie disse imitando o
Hortelino em uma voz que apenas ele achava legal. Ele pousou a cabeça no
ombro de Mark St. Pierre para demonstrar o quão assustado ele estava.