Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 23 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 12

Era tão bonitinho que eu quase ri. Ao invés disso eu me inclinei e a beijei.

Ela me beijou de volta com prazer e entusiasmo. Não havia línguas se

tocando, mas era um beijo meticuloso e investigativo do mesmo jeito.

Quando ela recuou, suas bochechas estavam coradas e seus olhos

brilhavam. – Boa noite. Obrigada pelo filme.

– Quer fazer de novo?

– Eu terei que pensar nisso. – ela disse. Ela estava sorrindo, mas seus olhos

estavam sérios. Eu suponho que o namorado dela estava em sua cabeça;

eu sei que Annmarie estava na minha. – Talvez seja melhor você pensar

nisso também. Eu te vejo Segunda-Feira na cozinha. O que você tem?

– Almoço e jantar.

– Eu tenho café-da-manhã e almoço. Então te vejo no almoço.

– Coma mais feijões do Maine. – eu disse. Isso a fez rir. Ela entrou. Eu a assisti entrando, icando do lado de fora com meu colarinho para cima e

minhas mãos no bolso, o cigarro nos lábios, me sentindo como Bogie. Eu a

vi dizer algo para uma garota na mesa da recepção e então correr para as

escadas, ainda rindo.

Eu voltei para Chamberlain sob a luz da lua, determinado a assumir um

compromisso sério com as geossinclinais.

12

Eu só fui ao salão do terceiro andar para pegar meu livro de geologia; eu juro que é verdade. Quando eu cheguei lá, cada mesa (mais uma ou duas

que poderiam ter sido roubadas de outro andar) estava ocupada por um

quarteto de tolos que jogavam Copas. Havia até mesmo um grupo no canto,

sentando de pernas cruzadas e olhando intensamente para suas cartas.

Eles pareciam praticamente de ioga com dor de barriga.

– Estamos caçando A Bocetuda! – Ronnie Malenfant berrou para o salão

inteiro ouvir. – Vamos pegar essa puta, garotos!

Eu peguei meu livro de geologia no sofá onde havia estado o dia todo

(alguém havia sentado nele, o empurrando para a fenda no meio do sofá,

mas aquele bebê era grande demais para se esconder totalmente), e olhei

para ele do modo como você poderia olhar para algum artefato cujo

propósito é desconhecido. No auditório do Hauch, sentado ao lado de Carol

Gerber, esta louca festa de cartas parecia apenas um sonho. Agora era

Carol quem parecia um sonho, Carol com suas covinhas e seu namorado

com o nome de um pugilista. Eu ainda tinha seis pratas em meu bolso e era

um absurdo me sentir desapontado só porque não havia vaga para mim

em qualquer um dos jogos que estavam acontecendo.

Estudar, era isso o que eu tinha que fazer. Fazer amizade com as

geossinclinais.

Eu acamparia no salão do segundo andar, ou talvez achar um canto quieto

no porão.

Justo quando eu estava saindo com meu exemplar de Geologia

Histórica sob o braço, Kirby McClendon largou as cartas e chorou, “Que se

danei isso! Estou falido!

Tudo porque eu não paro de ser acertado com esta maldita rainha de

espadas! Eu vou dar a vocês bilhetes IOU (N.T. – Do original “I Owe U”

que é um cartão dado para uma pessoa a quem se deve pagar uma dívida eventualmente. ). Eu juro por Deus que estou completamente

falido.

Ele passou por mim sem olhar para trás, abaixando a cabeça enquanto

passava pela porta. Eu sempre achei que ser alto deste jeito deveria ser algum tipo de maldição.

Um mês depois Kirby estaria falido em um sentido muito maior, tirado da Universidade por seus pais aterrorizados depois de um chilique mental e

uma tentativa de suicídio imbecil. Não foi a primeira vítima da Copasmania

naquele Outono, nem a última, mas foi a única a tentar se apagar comendo

duas garrafas de aspirina para bebê sabor laranja.

Lennie Doria nem mesmo se importou em olhar para ele. Ele olhou para

mim ao invés disso.

– Quer sentar, Riley?

Uma breve, mas genuína, batalha pela minha alma começou. Eu precisava

estudar. Eu havia planejado estudar, e por um rapaz ajudado

inanceiramente, esse era um bom plano, certamente mais sensível do que

sentar aqui nesta sala cheia de fumaça e adicionando minha própria quota

com meus Pall Malls.

Então eu disse “Claro, por que não?”, e sentei e joguei Copas até quase de

manhã. Quando eu inalmente voltei para meu quarto, Nate estava deitado

em sua cama lendo a Bíblia. Esta era a última coisa que ele fazia antes de ir

dormir. Esta era sua terceira viagem através do que ele sempre chamava

de A Palavra de Deus, ele me disse.

Ele havia chegado ao Livro de Neemias. Ele olhou para mim com uma

expressão de calmo inquérito, um olhar que nunca mudava muito. Agora

que eu penso a respeito, Nate nunca mudou muito. Ele ia ser dentista, e icou por isso mesmo; junto com seu último cartão de Natal estava uma foto

de seu novo consultório em Houlton. Na foto havia os três Magos ao redor

de um berço de palha no jardim coberto de neve. Atrás de Maria e José você podia ler a placa da porta: NATHANIEL HOPPENSTAND, DOS.

Ele se casou com Cindy. Eles ainda estão casados, e têm três ilhos, agora já

crescidos.

Eu imagino que Rinty morreu e foi substituído.

– Você venceu? – Nate perguntou. Ele falou no mesmo tom de voz que

minha esposa alguns anos depois, quando eu voltava para casa meio

bêbado depois das noites de pôquer às terças.

– Na verdade sim. – eu havia chegado à mesa onde Ronnie estivera

jogando e havia perdido três dos meus seis dólares restantes, então fui

para outra onde os consegui de volta, e alguns outros. Mas eu nunca

cheguei nem perto das geossinclinais ou dos mistérios das placas

tectônicas.

Nate estava vestindo pijamas vermelho e branco. Ele foi, eu acho, a única

pessoa com quem eu dividi um quarto na faculdade, seja homem ou mulher, que vestia pijamas.

É claro que ele era também aquele que possuía o disco da Diane Renee.

Enquanto eu comecei a me despir, Nate deslizou para debaixo das cobertas

e apagou a luz de sua lamparina de estudar.

– Conseguiu estudar geologia? – ele perguntou enquanto as sombras

engoliam metade do quarto.

– Estou em boa forma. – eu disse. Anos depois, quando eu voltei de um daqueles jogos de pôquer e minha mulher me perguntou o quão bêbado

eu estava, e eu disse “só um pouquinho”, no mesmo tom de voz dopado.

Eu pulei para minha própria cama, apaguei minha própria lamparina, e

dormi quase que imediatamente. Eu sonhei que jogava Copas. Ronnie

Malenfant estava jogando; Sotke Jones estava parado no umbral do salão,

inclinado sobre suas muletas e olhando para mim, olhando para todos nós,

com aquele severo olhar de desaprovação de um Puritano de

Massachusetts. Em meu sonho havia um enorme monte de dinheiro na

mesa, centenas de dólares reunidos em moedas de cinco e de uma, notas, e até mesmo um cheque ou dois. Eu olhei para isso, e de volta para o umbral.