Corações na Atlântida
Capítulo 35
Randy e Billy avançaram molhando tudo. Outros (três ou quatro atraídos
pelos gritos e borrifos, a maioria ainda do grupo de Copas do terceiro
andar), pegou Stoke também.
Nós o viramos desajeitadamente, provavelmente parecendo o mais ridículo
grupo de líderes de torcida, que por alguma razão praticava no meio da
chuva. Stoke havia parado de lutar. Ele repousou em nosso esforço com os
braços pendentes no outro lado, as palmas para cima, enchendo pequenas
poças de chuva. Ín imas cachoeiras caiam de sua jaqueta ensopada e pelas
calças. Ele me pegou e me carregou, Carol havia dito. Falando do garoto com o cabelo à escovinha, o garoto que havia sido seu primeiro amor.
Subindo todo o caminho pela ladeira da Broad Street em um dos dias mais quentes do ano. Ele me carregou nos braços. Ele me carregou nos braços . Eu não conseguia tirar a voz dela da cabeça. De certo modo nunca consegui.
– Para o dormitório? – Ronnie perguntou a Skip. – Nós o levaremos para o
dormitório?
– Caramba, não. – Nate disse. – Pare a enfermaria.
Já que havíamos conseguido tirá-lo da água (essa foi a parte mais difícil e já
estava para trás), a enfermaria fez sentido. Era um pequeno prédio de
tijolos além do Corredor de Bennett, não mais do que trezentos ou quatrocentos metros. Assim que saímos do caminho e fôssemos para a
estrada, a caminhada seria boa.
Então o levamos para a enfermaria, o levantamos por cima do ombro como
um herói morto sendo ceremonialmente removido do campo de batalha.
Alguns de nós ainda riam um pouco. Eu era um deles. Por uma vez vi Nate
olhando para mim como se eu fosse uma coisa desprezível, e tentei parar os sons que vinham de mim. Eu icava bem por um tempo, então eu me
lembrava dele girando no pivô de suas muletas (“ O Júri Olímpico da a ele. .
DEZ UNÂNIME!”), e então começava novamente.
Stoke apenas falou quando subimos o batente da porta da enfermaria.
– Deixem-me morrer. – ele disse. – Apenas uma vez em suas estúpidas
vidas egoístas façam alguma coisa que preste. Ponham-me no chão e
deixem-me morrer.
35
A sala de espera estava vazia, a televisão no canto exibia um velho episódio
d e Bonanza que ninguém assistia. Naqueles dias eles ainda não haviam inventado a manivela da cor ainda, e a cara de Papai Cartwright estava da
cor de um abacate.
Devemos ter soado como um bando de hipopótamos saindo de um buraco,
e a enfermeira em serviço veio correndo. Seguindo-a vinha um voluntário
(provavelmente um estudante trabalhador como eu), e um baixinho em um
casaco branco. Ele tinha um estetoscópio pendurado ao redor de seu
pescoço, e um cigarro espetado no canto de sua boca. Em Atlântida até os doutores fumavam.
– Qual o problema dele? – O doutor perguntou a Ronnie, ou porque Ronnie
tinha o semblante de líder, ou porque ele era o mais próximo.
– Saiu correndo pela Pista de Bennett enquanto ia para o Holyoke. –
Ronnie disse. – O maldito quase se afogou. – ele pausou, então adicionou: –
Ele é aleijado.
Como se para convencer o doutor, Billy Marchant acenou com uma das
muletas de Stoke. Aparentemente ninguém tinha se importado em
procurar a outra.
– Abaixa essa coisa, quer atravessar a porra do meu cérebro? – Nick
Prouty perguntou irritado, enquanto se abaixava.
– Que cérebro? – Brad respondeu, e nós rimos tanto que quase deixamos
Stoke cair.
– Me chupa, cuzão. – Nick disse, mas também estava rindo.
O doutor estava com o cenho franzido.
– Tragam-no para cá, e poupem-me de seu idioma sujo. – Stoke começou a
tossir novamente, um profundo som de ânsia de vômito. Você esperava ver
sangue e filamentos de tecido saindo de sua boca, a tosse era tão forte.
Carregamos Stoke até a enfermaria numa ila como se estivéssemos
dançando a conga, mas não conseguíamos passar pela porta daquele jeito.
– Deixe-me tentar. – Skip disse.
– Você vai deixá-lo cair. – Nate disse.
Ele foi para o lado de Stoke, então assentiu para mim à sua direita, e então
para Ronnie à sua esquerda.
– Abaixem-no. – Ronnie disse. Nós o izemos. Skip grunhiu assim que
recebeu o peso de Stoke, e eu vi as veias de seu pescoço aparecerem.
Então recuamos e Skip carregou Stoke para dentro do quarto e o deitou na
mesa de exames. O ino pedaço de papel cobrindo o couro icou
rapidamente ensopado. Skip recuou. Stoke estava olhando para ele, seu
rosto pálido como de um cadáver exceto por duas manchas coradas em
suas bochechas, vermelho como batom, aquelas manchas era. Água caia de
seu cabelo como um arroio.
– Sinto muito, cara. – Skip disse.
Stoke virou o rosto para o outro lado e fechou os olhos.
– Fora. – o doutor disse a Skip. Ele havia se livrado de seu cigarro em algum lugar. Ele olhou para nós, uma turma de talvez uma dúzia de
rapazes, a maioria sorrindo, todos pingando água no chão. – Alguém sabe a
natureza da deficiência dele?
Pode fazer a diferença no modo como vamos tratá-lo.
Eu pensei nas cicatrizes que havia visto, como ios emaranhados, mas não
disse nada. Eu não sabia de verdade. E agora aquela urgência incontrolável
de rir havia passado, eu me senti envergonhado demais para falar.
– É uma dessas coisas de aleijado, não é? – perguntou Ronnie. Quando
encarando um adulto, ele perdia toda a sua boçalidade. Ele soou incerto, talvez inquieto.
– Paralisia muscular ou distrofia cerebral.
– Seu palhaço. – Lennie disse. – É distrofia muscular e paralisia. .
– Ele esteve em um acidente de carro. – Nate disse. Todos nós olhamos
para ele.
Nate ainda parecia calmo e seguro, apesar da chuva que ele havia tomado.
Nesta tarde, ele estava usando uma touca do Colégio Fort Kent. O time de futebol do Maine inalmente havia feito um touchdown e libertado Nate do
boné; vamos nessa, Ursos Negros. Quatro anos atrás. Seu pai, sua mãe, e sua irmã mais velha foram mortos. Ele foi o único sobrevivente da família.
Houve silêncio. Eu olhei entre os ombros de Skip e Tony para a sala de exames.
Stoke ainda estava deitado na mesa, sua cabeça virada para o lado, os
olhos fechados. A enfermeira estava tirando sua pressão sangüínea. Suas
calças estavam levantadas acima de suas pernas, e eu pensei na parada do
Quatro de Julho, que costumávamos ter em Gates Falls quando eu era
criança. O Tio Sam viria correndo entre a banda da escola e os caras do
Santuário Anah em suas pequenas motocicletas, parecendo ter dez metros com seu grande chapéu azul, mas quando o vento soprava em suas pernas,
você percebia o truque. Era assim que as pernas de Stoke Jones pareciam
dentro de suas calças: um truque, uma piada cruel, pedaços de pau
serrados enfiados em dois tênis.
– Como você sabe disso? – Skip perguntou. – Ele te contou, Natie?
– Não. – Nate pareceu envergonhado. – Ele contou a Harry Swidrowski, depois da reunião do Comitê da Resistência. Eles. . nós, fomos para a Toca do Urso. Harry perguntou logo o que havia acontecido com suas pernas, e