Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 46 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 35

Randy e Billy avançaram molhando tudo. Outros (três ou quatro atraídos

pelos gritos e borrifos, a maioria ainda do grupo de Copas do terceiro

andar), pegou Stoke também.

Nós o viramos desajeitadamente, provavelmente parecendo o mais ridículo

grupo de líderes de torcida, que por alguma razão praticava no meio da

chuva. Stoke havia parado de lutar. Ele repousou em nosso esforço com os

braços pendentes no outro lado, as palmas para cima, enchendo pequenas

poças de chuva. Ín imas cachoeiras caiam de sua jaqueta ensopada e pelas

calças. Ele me pegou e me carregou, Carol havia dito. Falando do garoto com o cabelo à escovinha, o garoto que havia sido seu primeiro amor.

Subindo todo o caminho pela ladeira da Broad Street em um dos dias mais quentes do ano. Ele me carregou nos braços. Ele me carregou nos braços . Eu não conseguia tirar a voz dela da cabeça. De certo modo nunca consegui.

– Para o dormitório? – Ronnie perguntou a Skip. – Nós o levaremos para o

dormitório?

– Caramba, não. – Nate disse. – Pare a enfermaria.

Já que havíamos conseguido tirá-lo da água (essa foi a parte mais difícil e já

estava para trás), a enfermaria fez sentido. Era um pequeno prédio de

tijolos além do Corredor de Bennett, não mais do que trezentos ou quatrocentos metros. Assim que saímos do caminho e fôssemos para a

estrada, a caminhada seria boa.

Então o levamos para a enfermaria, o levantamos por cima do ombro como

um herói morto sendo ceremonialmente removido do campo de batalha.

Alguns de nós ainda riam um pouco. Eu era um deles. Por uma vez vi Nate

olhando para mim como se eu fosse uma coisa desprezível, e tentei parar os sons que vinham de mim. Eu icava bem por um tempo, então eu me

lembrava dele girando no pivô de suas muletas (“ O Júri Olímpico da a ele. .

DEZ UNÂNIME!”), e então começava novamente.

Stoke apenas falou quando subimos o batente da porta da enfermaria.

– Deixem-me morrer. – ele disse. – Apenas uma vez em suas estúpidas

vidas egoístas façam alguma coisa que preste. Ponham-me no chão e

deixem-me morrer.

35

A sala de espera estava vazia, a televisão no canto exibia um velho episódio

d e Bonanza que ninguém assistia. Naqueles dias eles ainda não haviam inventado a manivela da cor ainda, e a cara de Papai Cartwright estava da

cor de um abacate.

Devemos ter soado como um bando de hipopótamos saindo de um buraco,

e a enfermeira em serviço veio correndo. Seguindo-a vinha um voluntário

(provavelmente um estudante trabalhador como eu), e um baixinho em um

casaco branco. Ele tinha um estetoscópio pendurado ao redor de seu

pescoço, e um cigarro espetado no canto de sua boca. Em Atlântida até os doutores fumavam.

– Qual o problema dele? – O doutor perguntou a Ronnie, ou porque Ronnie

tinha o semblante de líder, ou porque ele era o mais próximo.

– Saiu correndo pela Pista de Bennett enquanto ia para o Holyoke. –

Ronnie disse. – O maldito quase se afogou. – ele pausou, então adicionou: –

Ele é aleijado.

Como se para convencer o doutor, Billy Marchant acenou com uma das

muletas de Stoke. Aparentemente ninguém tinha se importado em

procurar a outra.

– Abaixa essa coisa, quer atravessar a porra do meu cérebro? – Nick

Prouty perguntou irritado, enquanto se abaixava.

– Que cérebro? – Brad respondeu, e nós rimos tanto que quase deixamos

Stoke cair.

– Me chupa, cuzão. – Nick disse, mas também estava rindo.

O doutor estava com o cenho franzido.

– Tragam-no para cá, e poupem-me de seu idioma sujo. – Stoke começou a

tossir novamente, um profundo som de ânsia de vômito. Você esperava ver

sangue e filamentos de tecido saindo de sua boca, a tosse era tão forte.

Carregamos Stoke até a enfermaria numa ila como se estivéssemos

dançando a conga, mas não conseguíamos passar pela porta daquele jeito.

– Deixe-me tentar. – Skip disse.

– Você vai deixá-lo cair. – Nate disse.

Ele foi para o lado de Stoke, então assentiu para mim à sua direita, e então

para Ronnie à sua esquerda.

– Abaixem-no. – Ronnie disse. Nós o izemos. Skip grunhiu assim que

recebeu o peso de Stoke, e eu vi as veias de seu pescoço aparecerem.

Então recuamos e Skip carregou Stoke para dentro do quarto e o deitou na

mesa de exames. O ino pedaço de papel cobrindo o couro icou

rapidamente ensopado. Skip recuou. Stoke estava olhando para ele, seu

rosto pálido como de um cadáver exceto por duas manchas coradas em

suas bochechas, vermelho como batom, aquelas manchas era. Água caia de

seu cabelo como um arroio.

– Sinto muito, cara. – Skip disse.

Stoke virou o rosto para o outro lado e fechou os olhos.

– Fora. – o doutor disse a Skip. Ele havia se livrado de seu cigarro em algum lugar. Ele olhou para nós, uma turma de talvez uma dúzia de

rapazes, a maioria sorrindo, todos pingando água no chão. – Alguém sabe a

natureza da deficiência dele?

Pode fazer a diferença no modo como vamos tratá-lo.

Eu pensei nas cicatrizes que havia visto, como ios emaranhados, mas não

disse nada. Eu não sabia de verdade. E agora aquela urgência incontrolável

de rir havia passado, eu me senti envergonhado demais para falar.

– É uma dessas coisas de aleijado, não é? – perguntou Ronnie. Quando

encarando um adulto, ele perdia toda a sua boçalidade. Ele soou incerto, talvez inquieto.

– Paralisia muscular ou distrofia cerebral.

– Seu palhaço. – Lennie disse. – É distrofia muscular e paralisia. .

– Ele esteve em um acidente de carro. – Nate disse. Todos nós olhamos

para ele.

Nate ainda parecia calmo e seguro, apesar da chuva que ele havia tomado.

Nesta tarde, ele estava usando uma touca do Colégio Fort Kent. O time de futebol do Maine inalmente havia feito um touchdown e libertado Nate do

boné; vamos nessa, Ursos Negros. Quatro anos atrás. Seu pai, sua mãe, e sua irmã mais velha foram mortos. Ele foi o único sobrevivente da família.

Houve silêncio. Eu olhei entre os ombros de Skip e Tony para a sala de exames.

Stoke ainda estava deitado na mesa, sua cabeça virada para o lado, os

olhos fechados. A enfermeira estava tirando sua pressão sangüínea. Suas

calças estavam levantadas acima de suas pernas, e eu pensei na parada do

Quatro de Julho, que costumávamos ter em Gates Falls quando eu era

criança. O Tio Sam viria correndo entre a banda da escola e os caras do

Santuário Anah em suas pequenas motocicletas, parecendo ter dez metros com seu grande chapéu azul, mas quando o vento soprava em suas pernas,

você percebia o truque. Era assim que as pernas de Stoke Jones pareciam

dentro de suas calças: um truque, uma piada cruel, pedaços de pau

serrados enfiados em dois tênis.

– Como você sabe disso? – Skip perguntou. – Ele te contou, Natie?

– Não. – Nate pareceu envergonhado. – Ele contou a Harry Swidrowski, depois da reunião do Comitê da Resistência. Eles. . nós, fomos para a Toca do Urso. Harry perguntou logo o que havia acontecido com suas pernas, e