Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 58 de 59

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Corações na Atlântida

Sombras Celestiais da Noite Estão Caindo

Dieffenbaker supôs. Não em mesas de trégua, mas em alas de câncer, e

cafeterias do escritório, e em engarrafamentos. Guerras morriam um

pedaço por vez, cada pedaço era algo que caia como uma memória, que se

perdia como um eco que desaparece em colinas onde venta. No im das

contas até a guerra levantou sua bandeira branca. Ou ao menos ele

esperava isso. Ele esperava que no im das contas, até mesmo a guerra houvesse se rendido.

1999: Vamos lá, seu bastardo, venha para casa.

SOMBRAS CELESTIAIS DA

NOITE ESTÃO CAINDO

Em uma tarde no último verão antes do ano 2000, Bobby Gar ield voltou

para Harwich, Connecticut. Ele foi ao Cemitério West Side primeiro, onde o

verdadeiro serviço memorial da família Sullivan aconteceu. O velho Sully-

John ganhara uma boa multidão; a história do Post os atraíra em enxames.

Várias crianças choraram assustadas quando a guarda de honra da Legião

Americana disparou suas armas. Depois do serviço do enterro havia a

recepção no Salão de Veteranos Americanos local. Bobby icou por lá

tempo o bastante para comer um pedaço de bolo e beber um copo de café,

e dar um oi ao Sr. Oliver, mas ele não viu ninguém que conhecia, e havia lugares que ele gostaria de ir enquanto ainda havia luz do dia. Ele não havia voltado a Harwich em quase quarenta anos.

O Shopping Nutmeg se erguia onde estivera o St. Gabriel de Aprendizado

Superior e Escola Secundária. A velha diretoria agora era um

estacionamento. A linha do trem continuava a passar pela praça, mas os

postes de suporte de pedra do viaduto estavam cobertos de pichações, e a

banca no quiosque do Sr. Burton havia sido fechada à tábua. Ainda havia relvas entre a Avenida River e o Housatonic, mas os patos haviam desaparecido. Bobby se lembrou de uma vez em que jogara um desses

patos em um homem de terno (improvável, mas verdade). Te dou duas

pratas se me deixar te chupar , o homem havia dito, e Bobby havia lançado o pato nele. Ele conseguia sorrir pensando nisso agora, mas aquele banana o

assustara pra caramba, e por vários motivos.

Havia um grande armazém rosa da UPS (N.T. – Sigla da United Parcel Service, uma companhia de serviço de correio. ) onde estivera uma vez

o Asher Empire.

Mais longe na direção de Bridgeport, onde a Avenida Asher se dissipava na Praça dos Puritanos, o Willian Penn Grille também se fora, substituído por

uma Pizza Uno. Bobby pensou em ir lá, mas não muito seriamente. Seu

estômago agora era cinqüentão, exatamente como o resto dele, e não mais

lidava muito bem com pizza.

Exceto que essa não era a verdadeira razão. Seria fácil demais imaginar

coisas, essa era a verdadeira razão; muito fácil alucinar carros grandes e vulgares, as pinturas tão brilhantes que pareciam uivar. Então ele havia

dirigido de volta para a Harwich, propriamente dita, e maldito ele fosse se

o Café Colony ainda não estivesse onde sempre estivera, e maldito ele fosse

se eles ainda não tinham cachorro-quente grelhado no menu. Cachorros-

quentes eram tão ruins quanto pizza, talvez piores, mas pra que diabos o Prylosec servia a inal, se não para aquela ocasional caminhada

gastronômica rumo à pista das memórias? Ele engoliu um, e colocou dois

cachorros-quentes para segui-lo. Eles ainda vinham naquela cartolina

cheia de gordura, e tinham o gosto do céu.

Ele desceu os cachorros-quentes com uma torta a la mode, então saiu e foi

até seu carro por um momento. Ele decidiu deixá-lo onde estava, havia

apenas mais duas paradas que ele gostaria de fazer, e ambas icavam

perto o bastante para ir caminhando. Ele pegou a bolsa de academia do assento do passageiro e passou lentamente pela Spicer, que agora havia

evoluído para uma loja da 7-Eleven, com bombas de gás na fronte. Vozes

vieram até ele enquanto ele passava, vozes fantasmas de 1960, vozes das

gêmeas Sigsby.

Mamãe e papai estão brigando.

Mamãe disse para ficarmos longe.

Por que fez isso, seu burro velho Bobby Garfield?

Burro velho Bobby Gar ield, sim, aquele era ele. Ele poderia ter icado mais

esperto com o passar dos anos, mas provavelmente nem tanto.

Na metade da subida da ladeira da Broad Street, ele espiou uma

amarelinha meio apagada na calçada. Ele desceu em um joelho e olhou-a

atentamente à luz da tarde, seguindo os quadrados com a ponta dos dedos.

– Senhor? Você está bem? – era uma jovem mulher com uma sacola da 7-Eleven nos braços. Ela estava olhando para Bobby tanto com preocupação

quanto com desconfiança.

– Estou bem. – ele disse, se levantando e limpando as mãos. Ele estava mesmo.

Nem uma única lua ou estrela ao lado da amarelinha, quanto menos um

cometa. Nem havia visto qualquer cartaz de animal perdido em seu passeio

na cidade. – Estou bem.

– Bem, bom para você. – a jovem mulher disse, e se apressou em seu

caminho.

Ela não sorriu. Bobby assistiu-a ir embora, e então ele mesmo começou a andar, imaginando o que havia acontecido às gêmeas Sigsby, onde elas

estavam agora. Ele se lembrou de Ted Brautigan falando sobre tempo uma

vez, chamando-o de velho careca trapaceiro.

Até que ele realmente viu o número 149 na Broad Street, Bobby não tinha percebido o quanto tinha certeza de que ele havia se tornado uma

locadora, ou uma lanchonete, ou talvez um condomínio. Ao invés disso,

ainda era a mesma coisa, exceto pela decoração que agora era cor de

creme ao invés de verde. Havia uma bicicleta na varanda, e ele pensou em

quão desesperado ele estiveram para comprar uma bicicleta naquele

último verão em Harwich. Ele até tinha um pote para guardar dinheiro,

com uma etiqueta que dizia DINHEIRO PARA BICICLETA, ou alguma coisa

assim.

Mais vozes fantasmas enquanto ele icava parado ali com sua sombra

aumentando na rua.

Se fossemos os Gotrocks, você não teria que pegar do seu pote da bicicleta se

você quisesse levar sua namorada à montanha-russa.

Ela não é minha namorada! Ela não é minha namorada!

Em sua memória ele havia dito isso em voz alta para sua mãe, na verdade

ele havia gritado para ele. . mas ele duvidava da certeza dessa memória.

Ele não tivera o tipo de mãe a quem você pode gritar. Não se você quisesse

manter seu escalpo no lugar.

E além disso, Carol havia sido sua namoradinha, não? Ela havia sido.

Ele tinha mais uma parada para fazer antes de voltar ao carro, e depois de

uma última e longa olhada para a casa onde ele havia vivido com sua mãe

até Agosto de 1960, Bobby voltou a descer a ladeira da Broad Street,

balançando a sacola de academia em uma mãe.

Houve mágica naquele verão, mesmo à idade dos cinqüenta não há dúvida

sobre isso, mas ele não mais sabia de que tipo ela havia sido. Talvez ele tivesse experimentado o tipo de infância de Ray Bradbury que tantas

crianças de cidades pequenas tinham, ou ao menos se lembrado de terem; do tipo onde o mundo real e o dos sonhos às vezes se sobrepunham,

criando um tipo de mágica.

Sim, mas. . bem. .

Houve as pétalas de rosa, é claro, as que haviam sido mandadas por Carol. .

mas elas signi icaram alguma coisa? Uma vez pareceu que sim, para o

solitário e quase perdido garoto que ele havia sido, pareceu que sim, mas aquelas pétalas de rosa se foram. Ele as havia perdido por volta da época

em que havia visto a fotogra ia daquela casa queimada em Los Angeles, e percebera que Carol Gerber estava morta.

Sua morte não só cancelou a idéia de mágica, mas, pareceu a Bobby, o

próprio propósito da infância. Que havia de bom nisso se ela te levava a tais coisas? Olhos ruins e pressão sangüínea ruim era uma coisa; idéias

ruins, sonhos ruins, e inais ruins eram outra. Por um tempo você gostaria

de dizer a Deus, ah, qual é, Garotão, pára com isso.

Você perdia sua inocência quando crescia, tá, todo mundo sabe disso, mas

você tinha que perder sua esperança também? Que havia de bom em

beijar uma menina na roda gigante aos onze anos se você estava fadado a

abrir um jornal onze anos depois e ver que ela havia sido queimada até a

morte em uma casinha imunda em uma ordinária ruazinha sem saída? Que

havia de bom em se lembrar se seus belos olhos alarmados, ou de como o

sol brilhara em seu cabelo?

Ele teria dito tudo isso e mais há uma semana, mas então um pedaço dessa

velha mágica o alcançara e o tocara. Vamos lá, ela havia sussurrado. Vamos lá, Bobby, vamos lá, seu bastardo, venha para casa. Então aqui estava ele, de volta a Harwich. Ele havia honrado seu velho amigo. Ele havia dado a si mesmo um pequeno tour pela sua velha cidade (e sem se perder uma

única vez), e agora era quase hora de ir. Ele tinha, entretanto, mais uma parada antes de fazê-lo.

Era hora do jantar, e o Parque Commonwealth estava quase vazio. Bobby

andou ao lado da grade atrás da prata da casa do Campo B, enquanto três jogadores vadios passavam por ele indo para outra direção. Dois estavam

carregando os equipamentos em grandes bolsas vermelhas; o terceiro

carregava um som de onde The Offspring tocava no último volume. Todos

os três rapazes lhe deram olhares descon iados, ao que Bobby não se

surpreendeu. Ele era um adulto na terra das crianças, vivendo em um

tempo onde coisas como ele eram suspeitas. Ele evitou piorar as coisas por

assentir para eles ou acenar e dizer algo idiota como “como foi o jogo, galera?” Eles continuaram a seguir seu caminho.

Ele icou com os dedos enganchados no arame da grade, assistindo a luz

vermelha da tarde se inclinar pela grama do campo, re letindo do placar e

das placas que diziam FIQUEM NA ESCOLA e POR QUE ACHAM QUE ELES

TE CHAMAM DE DEMENTES. E novamente ele sentiu aquela sensação

esbaforida de mágica, a sensação do mundo como uma camada ina

esticada em algo mais, algo tão brilhante quanto escuro. As vozes estavam

em todo o lugar agora, girando como linhas no topo.

Não me chame de estúpida, Bobby-O

Você não deveria bater em Bobby, ele não é como esses homens.

Um doce de verdade, garoto, ele tocava aquela canção do Jo Stafford.

É o ka. . e ka é destino.

Eu te amo, Ted. .

– Eu te amo, Ted. – Bobby disse as palavras, não em voz alta, mas

tampouco as sussurrando. Tentando as deixar no meio. Ele nem mesmo

conseguia se lembrar da aparência de Ted Brautigan, não com clareza real

(apenas os Chester ields, e as intermináveis garrafas de refresco), mas

dizê-las ainda o fazia se sentir aquecido.

Havia outra voz aqui também. Quando ela falou, Bobby sentiu suas lágrimas ferroarem os cantos de seus olhos pela primeira vez desde que

havia voltado.

Eu não me importaria de ser um mágico quando crescer, Bobby, sabia? Viajar

por aí com um parque de diversões ou um circo, usar um terno preto e uma

cartola. .

– E tirar coelhos e outras merdas da cartola. – Bobby disse se afastando do

Campo B. Ele riu, enxugou os olhos, então passou uma mão no topo de sua

cabeça.

Nada de cabelo lá; ele havia perdido a última parte dele no tempo

marcado, cerca de quinze anos atrás. Ele cruzou um dos caminhos

(cascalho em 1960, agora asfalto, marcado com pequenos avisos de

APENAS BICICLETAS, NADA DE PATINS!) e sentou em um dos bancos,

possivelmente o mesmo em que se sentara no dia em que Sully havia lhe

convidado para ir ao cinema, e Bobby recusara, querendo terminar

O Senhor das Moscas, ao invés disso. Diretamente à frente havia um pequeno bosque.

Bobby tinha total certeza de que havia sido aquele onde Carol o havia

levado e ele começara a chorar. Ela o fez para que ninguém o visse

choramingar como um bebê.

Ninguém exceto ela. Ela o havia segurado nos braços enquanto ele

chorava? Ele não tinha certeza, mas ele achou que sim. O que ele mais se lembrava claramente era de como os garotos do St. Gabe haviam quase

batido neles mais tarde. A amiga da mãe de Carol os havia salvado. Ele não

conseguia se lembrar do nome dela, mas ela havia chegado no último

segundo. . que nem o Fuzileiro chegou bem a tempo de salvar Ralph no im

de O Senhor das Moscas.

Rionda, esse era o nome dela. Ela disse que iria contar tudo ao padre, e que o padre contaria tudo para os pais deles.

Mas Rionda não estava por perto quando esses garotos encontraram Carol

de novo. Teria Carol queimado em Los Angeles se Harry Doolin e seus

amigos houvessem deixado-a em paz? Você não poderia dizer com certeza, mas Bobby achou que a resposta era provavelmente não. E mesmo agora

ele sentiu suas mãos se fechando enquanto pensava: Mas eu te peguei,

Harry, não peguei? Sim, deveras.

Tarde demais, entretanto. Naquele momento tudo estava mudado.

Ele abriu a bolsa de academia, remexeu, e tirou um rádio de pilha. Não era

tão grande quanto o som que havia acabado de passar por ele, mas grande

o bastante para seus propósitos. Tudo o que ele tinha a fazer era ligá-lo; já

estava sintonizado no WKND, o Lar Sulista dos Clássicos de Connecticut.

Troy Shondell estava cantando

“This Time”. Para Bobby tudo bem.

– Sully. – ele disse, olhando para o bosque. – Você foi um bastardo legal e

tanto.

Detrás dele, muito formalmente, uma mulher falou.

– Se ficar xingando, eu não ando com você.

Bobby se virou tão rapidamente que o rádio caiu de sua mão para a grama.

Ele não podia ver o rosto da mulher; ela não era nada exceto uma silhueta

com o céu vermelho espalhado em seus lados. Ele tentou falar, mas não

conseguiu. Sua respiração estava congelada e sua língua estava presa no

céu de boca. Lá longe em seu cérebro, uma voz meditou: então é assim que

você se sente quando vê um fantasma.

– Bobby, você está bem?

Ela se moveu rápido, rodeando o banco, e a luz vermelha do pôr-do-sol o beijou em cheio nos olhos quando ela o fez. Bobby engasgou, levantou uma

mão, fechou os olhos. Ele cheirou o perfume. . ou era a grama de verão? Ele

não sabia. E quando ele abriu seus olhos de novo, ele não pôde ver nada, exceto a forma da mulher; havia uma tatuagem verde em sua visão

causada pela luz do sol, cobrindo o rosto dela.

– Carol? – ele perguntou. Sua voz estava rouca e trêmula. – Bom Deus, é mesmo você?

– Carol? – a mulher perguntou. – Eu não conheço nenhuma Carol. Meu nome é Denise Schoonover.

Sim era ela. Ela tinha apenas onze anos da última vez que a vira, mas ele sabia.

Ele esfregou os olhos freneticamente. Do rádio na grama, o DJ disse “Essa é

a WKND, onde seu passado é sempre presente. Aqui vai Clyde McPhatter,

com sua “A Lover’s Question”.

Você sabia que se ela estivesse viva, ela viria. Você sabia disso.

É claro; não era por isso que ele havia vindo? Com certeza não por Sully, ou

não só por Sully. E ainda assim ao mesmo tempo ele tinha tanta certeza de

que ela estava morta. No momento em que vira a foto da casa queimada

em Los Angeles, ele tivera certeza. E como isso machucou seu coração, não

por não vê-la há quarenta anos, correndo pela Avenida Commonwealth,

mas como se ela houvesse permanecido sua amiga, tão perto quanto uma

ligação de telefone, ou um passeio na rua.

Enquanto ele ainda tentava expulsar o verde tatuado em sua visão, a

mulher o beijou firmemente na boca, e então sussurrou em seu ouvido:

– Eu tenho que ir pra casa, eu tenho que fazer a salada. O que é isso?

– A última coisa que você me disse quando éramos crianças. – ele

respondeu, e olhou para ela. – Você veio. Você está viva e você veio.

A luz do pôr-do-sol caiu no rosto dela, e a visão tatuada começou a

melhorar o bastante para que ele a visse. Ela estava linda apesar de uma cicatriz que começava no canto de seu olho direito e corria pela sua

bochecha em um formato cruel de um anzol. .

ou talvez por causa disso. Havia pequenas marcas de pés de galinha ao

lado de seus olhos, mas não havia rugas em sua testa, ou formando um

parêntese acima de sua boca sem batom.

O cabelo dela, Bobby viu maravilhado, estava quase inteiramente grisalho.

Como se lendo sua mente, ela o alcançou e tocou sua cabeça careca.

– Sinto muito. – ela disse. . mas ele achou ter visto a velha alegria dançante em seu olhos. – Você tinha os cabelos mais bonitos. Rionda costumava dizer

que ele era metade da razão pela qual eu me apaixonara.

– Carol. .

Ela abaixou a mão e pôs os dedos em sua boca. Havia cicatrizes em sua mão também, Bobby viu, e seu dedo mindinho estava deformado, quase

derretido. Eram cicatrizes de queimaduras.

– Eu te disse, eu não conheço ninguém chamada Carol. Meu nome é Denise.

Como naquela velha canção de Randy and the Rainbows? – ela cantou um

pedaço dela.

Bobby a conhecia bem. Ele conhecia todas as clássicas. – Se fosse checar minha carteira de identidade, veria Denise Schoonover em todos os

lugares. Eu te vi no enterro.

– Eu não te vi.

– Eu sou boa em não ser vista. – ela disse. – É um truque que alguém me ensinou há muito tempo. O truque de ser uma sombra. – ela estremeceu um pouco.

Bobby havia lido sobre pessoas que estremeciam (a maioria em péssimos

livros), mas ele nunca havia visto uma realmente. – E quando se trata de multidões, eu sou boa em icar o mais longe possível. Pobre e velho Sully-John. Você se lembra do Bo-lo Bouncer dele?

Bobby assentiu, começando a sorrir.

– Eu me lembro de uma vez que ele tentou bancar o sabichão, e bater bolinha entre as pernas, entre os braços, e atrás das costas. Ele acertou as

próprias bolas em cheio, e quase nos matamos de rir. Um bando de garotas

chegou, você era uma delas, tenho certeza, querendo saber o que estava

acontecendo, e nós não dissemos. E vocês ficaram bem irritadas.

Ela sorriu, uma mão cobrindo a boca, e nesse velho gesto Bobby pôde ver a

criança que ela havia sido com completa clareza.

– Como você soube que ele morreu? – Bobby perguntou.

– Li no New York Post . Havia um daqueles horríveis títulos que é a especialidade deles. SENTIDO, ele dizia. E tinha fotos dele. Eu vivo em

Poughkeepsie, onde o Post está regularmente disponível. – ela pausou. – Eu

ensino em Vassar.

– Você ensina em Vassar e lê o Post.

Ela deu de ombros, sorrindo.

– Todos têm seus vícios. E quanto a você, Bobby? Você leu no Post?

– Eu não leio o Post. Ted me disse. Ted Brautigan.

Ela apenas ficou lá olhando para ele, seu sorriso desaparecendo.

– Você se lembra de Ted?

– Eu achei que nunca mais poderia usar meu braço, e Ted o consertou

como mágica. É claro que eu me lembro dele. Mas Bobby. .

– Ele sabia que você estaria aqui. Eu pensei nisso no instante em que abri o

pacote, mas eu não acho que acreditei até te ver. – ele a tocou com a inocência de uma criança pelas marcas de sua cicatriz do rosto. – Você

conseguiu isso em L.A., não foi?

O que houve? Como você escapou?

Ela balançou a cabeça.

– Eu não falo sobre essas coisas. Eu nunca falei sobre o que aconteceu naquela casa. Eu nunca irei. Aquela foi uma vida diferente. Aquela foi uma garota diferente. Aquela garota morreu. Ela era muito jovem, muito

idealista, e ela foi enganada. Lembra-se daquele homem das cartas no

Savin Rock?

Ele assentiu, sorrindo um pouco. Ele pegou sua mão e ela a apertou.

– Aqui vão elas, estão parando, todas belas, descansando. O teste começou.

Seu nome era McCann ou McCausland, ou qualquer coisa assim.

– O nome não importa. O que importa é que ele sempre deixava você pensar que sabia onde a rainha estava. Ele sempre te deixava pensar que

você poderia ganhar. Certo?

– Certo.

– A garota se envolveu com um homem assim. Um homem que sempre

movia as cartas um pouco mais rápido do que você achava que ele poderia.

Ele estava procurando por algumas crianças confusas, furiosas, e ele as

achou.

– Ele tinha um casaco amarelo? – Bobby perguntou. Ele não sabia se ele estava brincando ou não.

Ela olhou para ele, franzinho a testa levemente, e ele entendeu que ela não

se lembrava dessa parte. Ele havia falado para ela sobre os homens maus?

Ele achou que sim, ele achou que havia dito a ela sobre tudo, mas ela não

lembrava. Talvez o que acontecera em L.A. havia queimado alguns pedaços

de sua memória. Bobby podia conceber uma coisa assim acontecendo. E

isso não exatamente a faria única, faria?

Muitas pessoas de sua idade trabalhavam muito para esquecer quem eles

haviam sido, e no que haviam acreditado durante estes anos entre o

assassinato de John Kennedy em Dallas e o assassinato de John Lennon em

Nova York.

– Esquece. – ele disse. – Continue.

Ela balançou a cabeça.

– Eu já disse tudo sobre essa parte. Tudo o que eu posso. Carol Gerber morreu na Bene it Street em Los Angeles. Denise Schoonover vive em

Poughkeepsie. Carol odiava matemática, não podia nem entender frações,

mas Denise ensina matemática.

Como poderiam ser a mesma pessoa? É uma idéia ridícula. Caso encerrado.

Eu quero saber o que você quis dizer sobre Ted. Ele não pode estar vivo ainda, Bobby. Ele teria mais de cem anos. Bem mais.

– Eu não acho que isso signi ique muito quando se é um Sapador. – Bobby

disse.

Nem signi icava muito na WKND, onde Jimmy Gilmer agora cantava “Sugar

Shack”

com um acompanhamento que soava como peidos.

– Um Sapador? O que é. .

– Eu não sei, e não importa. – Bobby disse. – Mas essa parte importa, então

escute com atenção. Certo?

– Certo.

– Eu vivo em Filadél ia. Eu tenho uma esposa adorável que é uma fotógrafa

pro issional, três ilhos crescidos adoráveis, um adorável velho cão com

problemas nos quadris e uma boa disposição, e uma velha casa que está

sempre desesperada por reformas. Minha esposa diz que isso acontece

porque o homem que sempre faz os sapatos das crianças está descalço e

porque a casa do carpinteiro sempre tem um teto rachado.

– É isso que você é? Um carpinteiro?

Ele assentiu.

– Eu vivo em Redmont Hills, e quando eu me lembro de comprar um jornal, o Inquirer da Fila é o único que eu compro.

– Um carpinteiro. – ela meditou. – Eu sempre achei que você acabaria

sendo um escritor, ou coisa assim.

– Eu também. Mas eu passei por um período onde achei que acabaria na

Prisão Estadual de Connecticut e isso nunca aconteceu, então eu acho que as coisas têm um jeito de se equilibrarem.

– O que havia no pacote que você mencionou? E o que isso tem a ver com

Ted?

– O pacote veio pela FedEx, de um cara chamado Norman Oliver. Um

banqueiro. Ele era o executor de Sully-John. Isto estava dentro dele.

Ele se curvou para sua bolsa de academia e tirou uma velha luva de beisebol surrada. Ele o depositou no colo da mulher sentada ao seu lado no

banco. Ela a tocou uma vez e olhou para o nome pintado na lateral.

– Meu Deus. – ela disse. Sua voz estava chocada.

– Eu não vejo esse bebê desde o dia em que te encontrei naquelas árvores

com seu braço deslocado. Suponho que alguma criança apareceu, a viu na

grama, e apenas a pegou. Embora ela não estivesse em boa forma mesmo

naquela época.

– Willie roubou. – ela disse, quase sem produzir som. – Willie Shearman.

Eu achei que ele era legal. Você vê como eu era tola com as pessoas?

Mesmo naquela época.

Ele olhou para ela com surpresa silenciosa, mas ela não viu seu olhar; ela estava olhando para a luva modelo Alvin Dark, com os nós desgastados e

que de algum modo ainda segurava tudo no lugar. E ela icou feliz e

comovida do mesmo modo que ele, quando abriu a caixa e viu o que estava

lá: ela ergueu a luva de beisebol na direção de seu rosto e cheirou o doce

aroma de couro e óleo. Só que ele a havia colocando em sua mão primeiro, sem nem mesmo pensar. Era uma coisa que um jogador de beisebol tinha

que fazer, uma coisa de criança, automático como respirar. Norman Oliver

deve ter sido uma criança em algum momento, mas aparentemente nunca

havia sido um jogador, porque ele não havia achado o pedaço de papel

en iado no último dedo da luva, o dedo com o arranhão profundo. Bobby

foi aquele quem achou o papel. A unha de seu mindinho cutucou contra o

papel e provocou um barulho de amassado.

Carol abaixou a luva novamente. Grisalha, ou não grisalha, ela parecia

jovem de novo, e totalmente viva.

– Me conte.

– Estava na mão de Sully quando o acharam morto sentado em seu carro.

Seus olhos icaram maiores e redondos. Naquele instante ela não apenas

pareceu aquela garotinha que havia ido na roda gigante com ele no Savin Rock; ela era aquela garotinha.

– Olhe ali perto da assinatura de Alvin Dark. Você vê?

A luz estava desaparecendo mais rápido agora, mas ela viu mesmo assim.

BG

1464 ESTRADA DUPONT CIRCLE

REDMONT HILLS, PENSILVÂNIA

ZONA 11

– Seu endereço. – ela murmurou. – Seu endereço atual.

– Sim, mas olhe para isso. – ele apontou para as palavras ZONA 11. – Os correios pararam de zonear correspondências nos anos sessenta. Eu

chequei. Ou Ted não sabia ou havia esquecido.

– Talvez ele tenha colocado assim de propósito.

Bobby assentiu.

– É possível. De qualquer forma, Oliver leu o endereço e me mandou a luva. Ele disse que não havia necessidade de pôr um objeto velho assim no

inventário. Ele queria mesmo era que eu soubesse que Sully havia

morrido, se eu já não soubesse, e que iria haver um serviço memorial em Harwich. Eu acredito que ele queria que eu viesse para poder ouvir a

história da luva. Eu não pude ajudá-lo tanto com isso, entretanto. Carol, tem

certeza de que Willie. .

– Eu o vi a usando. Eu falei para ele devolver para que eu pudesse te mandar, mas ele não devolveu.

– Você acha que ele a deu para Sully-John mais tarde.

– Deve ter dado. – ainda assim não pareceu verdade para ela, de alguma forma; ela sentiu que a verdade poderia ser mais estranha do que isso. A atitude de Willie quanto à luva já havia sido estranha por si só, embora ela

não pudesse se lembrar exatamente como.

– De qualquer forma. – ele disse, batendo no endereço na luva. – É a

caligra ia de Ted. Tenho certeza. Então eu coloquei a mão dentro da luva, e achei alguma coisa. É por isso que eu vim de verdade.

Ele se curvou para a bolsa de academia uma terceira vez. O vermelho

estava desaparecendo da luz agora; o resto do dia estava desaparecendo

em um rósea, a cor das rosas silvestres. O rádio, ainda na grama, tocava

“Don’tcha Just Know It”, de Huey “Piano” Smith & the Clowns.

Bobby tirou um pedaço de papel amassado. Parecia notavelmente branco e

novo.

Ele o passou para Carol.

Ela o segurou contra a luz, e levemente longe de seu rosto. Seus olhos, Bobby viu, não estavam tão bons quanto antes.

– É a página título de um livro. – ela disse, e então riu. – O Senhor das Moscas, Bobby! O seu favorito!

– Olhe no fundo da página. – ele disse. – Leia o que está lá.

– Faber & Faber, LTDA. . 24, Praça Russell. . Londres. – ela olhou para ele de modo duvidoso.

– É de uma edição de capa mole da Faber publicada em 1960. – Bobby

disse. –

Está na traseira. Mas olhe para ela, Carol! Está nova em folha. Eu acho que

o livro da qual essa página veio pode ter estado em 1960 há apenas

algumas semanas. Não a luva, ela estava bem mais surrada quando eu a encontrei, mas a página título sim.

– Bobby, nem todos os velhos livros icam amarelos se você cuidar bem

deles. Mesmo os velhos de capa mole podem. .

– Vire-o. – ele disse. – Dê uma olhada no outro lado.

Carol assim fez. Impresso abaixo da linha que dizia Todos os direitos reservado s estava isto: Diga a ela que ela foi tão corajosa quanto uma leoa.

– Foi aí que eu soube que tinha que vir porque ele achou que você estaria

 

aqui, que você ainda estava viva. Eu não podia acreditar, era mais fácil acreditar nele do que acreditar. . Carol? O que há de errado? É essa coisa bem no fundo? O que é essa coisa bem no fundo?

Ela estava chorando agora, chorando muito, segurando a página título

destacada em sua mão e olhando para o que havia sido colocado no verso,

apertado no pequeno espaço em branco abaixo das condições de venda

estava isso:

– O que significa isso? Você sabe? Sabe, não sabe?

Carol balançou a cabeça.

– Não importa. É especial para mim, é só. Especial para mim do jeito que essa luva é especial para você. Para um velho, ele com certeza sabe

apertar os botões certos, não é?

– Eu acho que sim. Talvez seja isso que os Sapadores fazem.

Ela olhou para ele. Ela ainda estava chorando, mas não estava, Bobby

achou, verdadeiramente infeliz.

– Bobby, por que ele faria isso? E como ele sabia que nós viríamos?

Quarenta anos é tempo demais. As pessoas crescem, elas crescem e

deixam as crianças que foram para trás.

– Deixam mesmo?

Ela continuou a olhar para ele no dia que escurecia. Além deles, as

sombras do bosque se aprofundaram. Lá, onde ele havia chorado certo dia,

e a encontrado ferida no outro, a escuridão quase chegara.

– Às vezes um pouco da mágica permanece por aí. – Bobby disse. – É isso

que eu acho. Viemos porque ainda ouvimos algumas das vozes certas. Você

as ouve? As vozes?

– Às vezes. – ela disse, quase relutantemente. – Às vezes eu ouço.

Bobby pegou a luva dela.

– Pode me dar licença por um segundo?

– Claro.

Bobby foi até o bosque, se agachou para passar pelos galhos baixos, e

colocou sua velha luva na grama para cima encarando o céu escuro. Então

ele voltou para o banco e sentou-se ao lado de Carol novamente.

– Aquele é o lugar a qual ela pertence. – ele disse.

– Alguma criança vai aparecer amanhã e pegá-la, sabe disso, não sabe? –

ela riu e enxugou os olhos.

– Talvez. – ele concordou. – Ou talvez ela desapareça. De volta para o lugar

de onde quer que tenha vindo.

Enquanto os últimos resquícios de róseo se transformavam em cinza, ela

pôs a cabeça no ombro dele, e ele pôs um braço ao redor dela. Eles icaram

sentados desse jeito sem falar, e pelo rádio aos seus pés, The Platters começou a cantar.