Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 30 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 19

como havia surgido.

– Nate está bem. – eu disse. – Ele só tem algumas idéias engraçadas, é só.

– Algumas idéias comunistas engraçadas é o que ele tem. – Hugh Brennan

disse.

Seu irmão mais velho estava na Marinha e mais recentemente, ele ouviu,

no Mar Sul da China. Hugh não tinha utilidade para paci istas. Como um

Republicano Goldwater eu deveria sentir o mesmo, mas eu começara a me

afeiçoar a Nate. Eu tinha todo o tipo de sabedoria enlatada, mas nenhum argumento real a favor da guerra. . nem tempo para pensar em algum. Eu

estava ocupado demais estudando sociologia, que se dane a política

estrangeira dos Estados Unidos.

Eu tenho certeza de que aquela foi a noite em que eu quase liguei para Annmarie Soucie. A cabine telefônica do outro lado do salão estava vazia, eu tinha um bolso cheio de trocados de minha última vitória nas guerras de Copas, e eu de repente decidi que A Hora Havia Chegado. Eu disquei o

número dela pela memória (embora eu tive que pensar por um momento

nos últimos quatro dígitos, era 8146 ou 8164?) e en iei setenta e cinco centavos quando o operador pediu. Eu deixei o telefone tocar uma única

vez e então desliguei o telefone com força no gancho e peguei minhas

moedas quando as ouvi voltar.

18

Um dia ou dois depois (antes do Dia das Bruxas), Nate recebeu um álbum

de um cara a quem eu havia ouvido apenas vagamente: Phil Ochs. Um

popular, não do tipo sertanejo que aparecia no Hootenanny. A capa do

álbum, que mostrava um trovador sentado de modo relaxado em uma

calçada de Nova York, contrastava estranhamente com as outras capas dos

álbuns de Nate (Dean Martin parecendo bêbado em um terno, Mitch Miller com seu sorriso de “cante comigo”, Diane Renee em sua blusa curta e seu

boné de marinheiro). O disco de Ochs se chamava I Ain’t Marchin’ Anymore , e Nate o tocou várias vezes enquanto os dias se tornavam curtos e frios. Eu

mesmo o coloquei para tocar, e Nate não pareceu se importar.

Havia uma espécie de ira abafada na voz de Ochs. Eu suponho que eu

gostei porque na maior parte do tempo eu mesmo me sentia abafado. Ele

era como Dylan, mas menos complicado em sua expressão e mais claro em

sua fúria. A melhor canção do álbum (e a mais encrenqueira), era a canção

título. Nesta canção Ochs não apenas sugeria mas ia direto ao ponto e dizia

que a guerra não valia a pena, a guerra nunca valia a pena. Mesmo quando

valia, ela não valia a pena. Esta idéia, junto com a imagem de um homem se

afastando de Lyndon e sua obsessão vietnamita a centenas de milhares de

quilômetros, excitou minha imaginação de um jeito que não tinha nada a

ver com história, política ou pensamentos racionais. Eu devo ter matado

um milhão de homens e agora eles me querem de volta, mas eu não vou

marchar mais, Phil Ochs cantava através do falante do pequeno fonógrafo

de Nate. Apenas pare com isso, em outras palavras.

Pare de fazer o que eles dizem, pare de fazer o que eles querem, pare de

jogar o jogo deles. É um jogo velho, e neste A Puta está caçando você.

E talvez para provar que você fala sério, você deveria começar a usar o símbolo de sua resistência, algo que outros no começo desconfiarão e então

talvez corram para ele em seguida. Dois dias depois do Dia das Bruxas,

Nate Hoppenstand nos mostrou qual seria esse símbolo. Descobrir

começou com uma daquelas sobras de jornal deixadas no salão do terceiro

andar.

19

– Filho da puta, olhe só para isso. – Billy Marchant disse.

Harvey Twiller estava embaralhando as cartas na mesa de Billy, Lennie Doria estava somando o placar atual, e Billy estava aproveitando a oportunidade para dar uma rápida olhada no jornal, seção local. Kirby

McClendon (com a barba crescida; alto e com um tique nervoso, a caminho

de seu encontro romântico com aquelas aspirinas para bebê) se inclinou

para ver.

Billy se afastou dele, abanando uma mão a frente de seu rosto.

– Jesus, Kirb, quando foi a última vez que você tomou um banho? No Dia de

Ação de Graças? Dia da Independência?

– Deixe-me ver. – Kirby disse, ignorando-o. Ele tomou o jornal para si. –

Porra, é o Matador!

Ronnie Malenfant se levantou tão rápido que sua cadeira caiu, alarmado

pela idéia de que Stoke era matéria de jornal. Quando garotos da faculdade

apareciam no Derry News (exceto nas páginas de esporte, é claro) era

porque eles estavam encrencados. Outros se juntaram ao redor de Kirby,

Skip e eu entre eles. Era Stokely Jones III, isso é certo, e não apenas ele. No

fundo, seus rostos quase invisíveis, mas não completamente perdidos, na

multidão de pontos. .

– Cristo. – Skip disse. – Eu acho que aquele é Nate. – ele soou divertido e espantado.

– E ali está Carol Gerber na frente dele. – eu disse em uma voz engraçada e

chocada. Eu conhecia a jaqueta com o COLÉGIO HARWICH nas costas; eu

conhecia o cabelo loiro pendendo sobre o colarinho da jaqueta em um rabo

de cavalo; eu conhecia o jeans desbotado. E eu conhecia aquele rosto.

Mesmo que estivesse virado para o lado e sombreado por uma placa que

dizia SAIAM DO VIETNÃ AGORA!, eu conhecia aquele rosto.

– Essa é a minha namorada.

Foi a primeira vez que a palavra namorada saiu de minha boca amarrada ao nome de Carol, embora eu estivesse pensando nela daquele jeito há

algumas semanas.

POLÍCIA ACABA COM PROTESTO, a legenda da foto dizia. Nenhum nome foi

divulgado. De acordo com a história que a acompanhava, uma dúzia mais

ou menos de protestantes da Universidade do Maine havia se reunido em frente do Prédio Federal no centro de Derry. Eles carregavam placas e

marcharam ao redor da estrada do escritório do Serviço Seletivo por uma

hora cantando músicas e entoando frases, algumas obscenas. A polícia

havia sido chamada e no começo apenas icara de prontidão, pretendendo

permitir que a demonstração seguisse seu ritmo, mas então um grupo

oposto dos manifestantes apareceu (a maioria deles trabalhadores de

construções em seus horários de folga). Eles começaram a entoar suas

próprias frases, e embora o jornal não tenha mencionado se eram

obscenos ou não, eu posso imaginar que havia sido feito convites para

voltar à Rússia, sugestões de onde os manifestantes poderiam en iar suas

placas quando não as estivessem usando, e apontamentos de direções para

o cabeleireiro mais próximo.

Quando os protestantes começaram a contra-atacar os trabalhadores, e os

trabalhadores começaram a jogar pedaços de fruta de suas lancheiras nos

protestantes, a polícia entrou em ação. Citando a falta de permissão dos protestantes (os policiais de Derry aparentemente nunca haviam ouvido

falar do direito dos Americanos de protestar paci icamente), eles cercaram

a garotada e os levou para a estação policial na Witcham Street. Lá eles foram apenas liberados.

– Nós só queríamos levá-los para longe da má atmosfera. – um policial

disse. – Se eles voltarem lá, eles são mais idiotas do que parecem.

A foto não era realmente muito diferente daquela tirada no Anexo Leste durante o protesto contra a Coleman Chemicals. Mostrava os policiais

levando os protestantes para longe enquanto trabalhadores de

construções (um ano mais tarde eles estariam pregando pequenas

bandeiras americanas em seus capacetes) zombavam, sorriam e sacudiam

os punhos. Um policial estava congelado no ato de pegar o braço de Carol;

Nate, atrás dela, não havia chamado a atenção deles, aparentemente. Mais

dois policiais escoltavam Stoke Jones, que estava de costas para a câmera,

mas era inconfundível com aquelas muletas. Se mais alguma informação

que pudesse ajudar na identi icação fosse necessária, havia a pegada de

passarinho desenhada nas costas de seu casaco.

– Olhem pra este idiota de merda! – Ronnie gritou (Ronnie, que havia se ferrado em duas das quatros últimas rodadas das preliminares, tinha um

nervo que chamava a todos de idiota de merda). – Como se ele não tivesse nada de melhor pra fazer!

Skip o ignorou. Eu também. Para nós qualquer barulho que Ronnie izesse

já estava decrescendo para a insigni icância, não importava o assunto. Nós

estávamos fascinados por ver Carol. . e Nate Hoppenstand atrás dela,

assistindo enquanto os manifestantes eram levados. Nate, chique como

sempre em sua camisa da Liga Ivy e jeans com bainha e dobras, Nate

próximo aos trabalhadores que zombava com seus punhos erguidos, mas

totalmente ignorado por eles. Ignorado pelos policiais também.

Nenhum dos grupos sabia que meu colega de quarto se tornara um fã do

subversivo Sr. Phil Ochs.

Eu corri para a cabine de telefone e liguei para o Franklin Hall, no segundo

andar. Alguém no salão atendeu quando eu perguntei por Carol, a menina

disse que Carol não estava lá, que ela havia ido para a biblioteca estudar com Libby Sexton.

– É Pete quem fala?

– Sim. – eu disse.

– Tem um recado aqui para você. Ela deixou na mesa. – essa era uma

prática comum nos dormitórios naquele tempo. – Aqui diz que ela vai te

ligar mais tarde.

– Está certo. Obrigado.

Skip estava do lado de fora da cabine, se mexendo impacientemente

enquanto me esperava. Descemos o corredor para ver Nate, mesmo

sabendo que ambos perderíamos nossos lugares nas mesas onde

estivemos jogando. Neste caso, a curiosidade subjugou a obsessão.

O rosto de Nate não mudou muito quando lhe mostramos o jornal e lhe

perguntamos sobre a demonstração do dia anterior, mas seu rosto nunca

mudava muito.

De qualquer forma, eu senti que ele estava infeliz, talvez angustiado. Eu não conseguia entender a razão disso, a inal tudo havia acabado bem;

ninguém havia ido em cana ou tivera seu nome estampado no jornal.

Eu acabara de decidir que estava lendo demais sua quietude habital

quando Skip quebrou o silêncio.

– Que bicho te mordeu?

Havia uma espécie de preocupação rude em sua voz. O lábio inferior de

Nate tremeu e então se irmou ao som disso. Ele se inclinou na super ície de sua mesa (a minha já estava entulhada de coisas) e pegou um lencinho

da caixa onde ele guardava seu gravador. Ele asoou o nariz

demoradamente e com força. Quando acabou estava sob controle

novamente, mas eu podia ver a tristeza abafada em seus olhos. Parte de

mim, uma parte malvada, estava feliz por ver isto. Feliz em perceber que você não tinha que virar um viciado em Copas para ter algum problema.

A natureza humana pode ser tão miserável às vezes.

– Eu fui de carona com Stoke e Harry Swedrowski e alguns outros caras. –

Nate disse.

– Carol estava com você? – eu perguntei.

Nate balançou a cabeça.

– Eu acho que ela estava no bando de George Gilman. Havia cinco carros lotados de nós. – eu não conhecia George Gilman, mas isso não me impediu

de mirar um dardo de ciúme doentio nele. – Harry e Stoke estão no Comitê

da Resistência.

Gilman também. De qualquer forma, nós. .

– Comitê da Resistência? – Skip perguntou. – O que é isso?

– Um clube. – Nate disse, e suspirou. – Eles acham que é algo mais,

especialmente Harry e George, eles são os que realmente põem o fogo na

lenha, mas é só mais um clube, como Os Mascarados do Maine, ou O

Esquadrão Dinâmico.

Nate disse que ele mesmo só havia ido porque era uma Terça-Feira e ele

não tinha nenhuma aula durante a tarde daquele dia. Ninguém deu ordens; ninguém entoou juramentos de lealdade, ou lençóis assinados; não

havia pressão de verdade em marchar e nada do fervor paramilitar que

rastejou nos movimentos anti-guerra mais tarde. Carol e os garotos com ela

estiveram rindo e se empurrando com suas placas quando deixaram o

estacionamento, de acordo com Nate. (Rindo. Rindo com George Gilman. Eu

joguei mais um daqueles dardos ciumentos cheios de germes).

Quando chegaram ao Prédio Federal, algumas pessoas demonstraram,

marchando em círculos em frente à porta do escritório do Serviço Seletivo,

e algumas outras nada izeram. Nate era uma dessas pessoas que icaram

paradas. E ele nos contou isso, com sua leve habitual fechada em outra breve cãibra de algo que poderia ser angústia de verdade em um rapaz

não tão firme.

– Eu quis marchar com eles. – ele disse. – No caminho eu esperava

marchar com eles. Era tão excitante, seis de nós nos ajeitamos no Saab de

Harry Swidrowski. Uma viagem de verdade. Hunter McPhail. . vocês o

conhecem?

Skip e eu balançamos a cabeça. Eu acho que ambos estávamos surpresos

de descobrir que o proprietário de Meet Trini Lopez e Diane Renee Sings Navy Blue tinha uma espécie vida secreta, incluindo conexões do tipo que as pessoas atraíam tanto policiais como a mídia.

– Ele e George Gilman começaram o Comitê. De qualquer forma, Hunter

segurava as muletas de Stoke para fora da janela do Saab porque ela não

conseguia caber dentro do carro e nós cantamos “I Ain’t Marching

Anymore”, e eu falei de como nós realmente poderíamos parar a guerra se

um número su iciente de nós se unisse. E foi isso, todos nós falamos de coisas como essa, exceto Stoke. Ele ficou bem quieto.

Então, eu pensei. Até mesmo com eles, ele ica quieto. . exceto,

provavelmente, quando ele decidir dar um pouco de credibilidade em sua

ordem. Mas Nate não estava pensando em Stoke; Nate estava pensando em

Nate. Com os pés congelados em uma inexplicável recusa de carregar seu

coração para onde ele claramente quisera ir.

– Por todo caminho eu estava pensando, “eu vou marchar com eles, eu vou

marchar com eles porque é o certo. . ao menos eu acho que é o certo. . e se

alguém vier para cima de mim, eu não serei violento, como aqueles caras que ficaram sentados.

Aqueles caras ganharam, talvez ganhemos também”. – ele olhou para nós.

– Quero dizer, nunca foi uma dúvida em minha cabeça. Sacam?

– Sim. – Skip disse. – Eu saquei.

– Mas quando chegamos lá, não consegui ir. Eu ajudei a passar as placas que diziam PAREM A GUERA e PARA FORA DO VIETNÃ AGORA, e TRAGA

OS RAPAZES PARA CASA. . Carol e eu ajudamos a Stoke carregar a sua,

para que ele pudesse marchar e ainda usar suas muletas. . mas eu não

consegui pegar uma para mim.

Eu iquei do lado da calçada com Bill Shadwick e Kerry Morin, e uma

menina chamada Lorlie McGinnis. . ela é minha parceira no Laboratório de

Botânica. . – ele pegou o jornal das mãos de Skip o estudou, como se para con irmar novamente que sim, aquilo tudo havia acontecido; o dono de

Rinty e o namorado de Cindy realmente havia ido em uma demonstração

anti-guerra. Ele suspirou e então largou o jornal no chão. Isso foi tão diferente do que ele era que me doeu a cabeça.

– Eu pensei em marchar com eles. Quero dizer, por que mais eu iria?

Descer até Orono nunca foi, vocês sabem, uma dúvida em minha mente.

Ele olhou para mim, meio que suplicando. Eu assenti como se houvesse

entendido.

– Mas então não consegui. E não sei o porquê.

Skip sentou ao lado dele na cama. Eu achei o álbum de Phil Ochs e o

coloquei no fonógrafo. Nate olhou para Skip, e então olhou para outro lado.

As mãos de Nate eram pequenas e limpas em comparação ao resto dele,

exceto pelas unhas. As unhas estavam roídas pra caramba.

– Certo. – ele disse como se Skip houvesse perguntado algo em voz alta. –

Eu sei o porquê. Eu tinha medo que eles fossem preso e que eu fosse preso

com eles. Que minha foto estivesse no jornal, sendo preso e meus pais

veriam. – houve uma longa pausa. O pobre velho Nate estava tentando

dizer o resto. Eu segurei a agulha acima da primeira linha do disco que

girava, esperando para ver se ele conseguiria. Finalmente ele o fez. – Que minha mãe veria.

– Está tudo bem, Nate. – Skip disse.

Eu acho que não. – Nate respondeu com a voz trêmula. – Eu realmente

acho que não. – ele não encarava Skip nos olhos, apenas icou sentado ali em sua cama com suas costelas proeminentes e sua pele alvamente

americana dentro de seu pijama e seu boné de calouro, olhando para baixo

para suas cutículas esfrangalhadas. – Eu não gosto de discutir sobre a

guerra. Harry gosta. . e Lorlie. . George Gilman, droga, você não consegue fazê-lo se calar quando esse é o assunto, e a maioria dos outros no Comitê

são do mesmo jeito. Mas quando o assunto é falar, eu sou mais como Stoke

do que como eles.

– Ninguém é como Stoke. – eu disse. Eu relembrei o dia em que o encontrei

na Trilha de Bennett. Por que não pega leve? Eu havia perguntado. Porque não me come?

O Sr. Credibilidade havia respondido.

Nate ainda estudava suas cutículas.

– O que eu acho é que Johnson está mandando garotos americanos para lá

para morrer por nenhum motivo. Não é imperialismo ou colonialismo,

como Harry Swidrowski acredita, não é nenhum ismo de qualquer forma.

Johnson apenas resolveu misturar Davy Crockett e Daniel Boone junto com

os New York Yankees em sua cabeça, isso é tudo. E se eu penso nisso, é minha obrigação dizer isso. É minha obrigação tentar parar isso. Foi isso que eu aprendi na igreja, na escola, até mesmo nos malditos Escoteiros da

América. Você supostamente deveria icar de pé. Se você vir que algo de errado está acontecendo, como um cara grande batendo em uma criança,

você deveria icar de pé e ao menos tentar pará-lo. Mas eu tinha medo de

que minha mãe visse a foto de mim sendo preso e chorasse.

Nate levantou a cabeça e nós vimos que ele chorava. Só um pouco; olhos e

pálpebras molhados, nada mais do que isso. Mas para ele isso era um caso

grave.