Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 43 de 59

Páginas do PDF

Corações na Atlântida

Capítulo 32

31

Tom Huckabee vivia no King, o outro complexo de dormitórios masculino.

Becka Aubert vivia no Franklin. Eles estavam mais íntimos nas últimas três

ou quatro semanas, e isso incluía comer juntos. Eles voltavam do café-damanhã naquela manhã de neve de Novembro quando eles viram alguma

coisa impressa no lado norte do Chamberlain Hall. Esse era o lado que

icava de frente para o resto do campus. . que icava de frente para o

Anexo Leste em particular, onde grandes corporações faziam suas

entrevistas de emprego.

Eles se aproximaram, saindo do caminho e pisando na neve (dez

centímetros de neve haviam caído).

– Olhe. – Becka disse, apontando para a neve. Havia excêntricas marcas ali,

não pegadas, mas marcas de algo arrastado, e profundos buracos correndo

em linhas por fora. Tom Huckabee disse que elas o lembraram as marcas

feitas por pessoas andando esquis com aquelas varas nas mãos. Nenhum

deles imaginou que alguém usando muletas poderia ter feito aquelas

marcas. Nenhum deles.

Eles se aproximaram da lateral do dormitório. As letras eram grandes e

negras, mas naquele momento a neve era tão pesada que eles tiveram que

se aproximar bem mais da parede antes que conseguissem ler as palavras,

que haviam sido gravadas por alguém com uma lata de tinta em spray. . e

muito puto, considerado a aparência da mensagem. Novamente, nenhum

 

deles pensou que alguém tentando escrever uma mensagem com tinta em spray ao mesmo tempo em que tentava se segurar em suas muletas não

conseguiria escrever a mensagem de um jeito muito reto.

A mensagem dizia:

32

Eu tenho lido que muitos criminosos (talvez os grandes criminosos) na

verdade querem ser apanhados. Eu acho que esse foi o caso de Stoke

Jones. O que quer que ele tenha vindo procurar na Universidade do Maine,

ele não estava encontrando. Eu acredito que ele decidiu que era hora de partir. . e se ele ia, ele iria fazer o maior gesto que um cara de muletas poderia fazer antes de partir.

Tom Huckabee contou a dúzias de garotos sobre o que estava pichado em

nosso dormitório; e o mesmo fez Becka Aubert. Uma das pessoas a quem

ela contou foi Marjorie Stuttenheimer. Marjorie se tornou uma igura e

tanto no campus em 1969, como fundadora e presidente dos Cristões da

Faculdade da América. A CFA dava suporte à guerra no Vietnã e a cabine

deles no Memorial da União vendia pequenos buttons para lapela em

forma de bandeira que Richard Nixon fizera tão popular.

Eu tinha que trabalhar na hora do almoço Quinta-Feira, no Palácio das

Planícies, e embora eu desistisse das aulas, nunca passou pela minha

cabeça desistir de meu emprego (eu não fui feito deste modo). Eu dei meu

assento no salão para Tony DeLucca e fui para o Holyoke por volta das

onze horas para começar meu trabalho de lavar pratos. Eu vi um grupo

bem cheio de estudantes reunidos na neve, olhando para algo do lado

norte de meu dormitório. Eu fui ver, li a mensagem, e no mesmo instante soube quem a pichara.

Na Estrada de Bennett, um sedan azul da Universidade do Maine e um dos dois carros de polícia da Universidade estavam estacionados no caminho

que levava à porta lateral do Chamberlain. Margie Stuttenheimer estava lá, parte de um pequeno grupo que consistia em quatro policiais do campus, o

“Decano dos Homens”, e Charles Ebersole, o Diretor Disciplinar da

Universidade.

Havia talvez cinqüenta pessoas na multidão quando eu me juntei a eles;

nos cinco minutos em que eu iquei lá esfregando o pescoço, o número

subiu para setenta e cinco. Quando eu havia terminado meu expediente de

uma e quinze e voltei para o Chamberlain, havia provavelmente duzentas

pessoas reunidas em pequenos grupos. Eu suponho que seja di ícil de

acreditar que uma simples pichação tenha atraído tanta atenção,

especialmente num dia de merda como aquele, mas estamos falando de um

mundo muito diferente, um onde nenhuma revista da América (exceto,

muito ocasionalmente, Popular Photography ) mostraria um nu tão nu que os pêlos púbicos da pessoa icariam à mostra, onde nenhum jornal se

atreveria a sequer sussurrar sobre a vida sexual de qualquer igura

política. Isso foi antes de Atlântida afundar; isso foi muito antes em um mundo onde pelo menos um comediante era preso por dizer “foda”

em público, e onde outro observava no The Ed Sullivan Show que você podia espetar o dedo, mas não dedar seu espeto. Era um mundo onde

algumas palavras ainda chocavam.

Sim, nós conhecíamos foda. É claro que sim. Nós dizíamos foda o tempo todo: foda-se, foda-se seu cão, vá ter uma foda na porra duma cama, foda-se o pato, ei, foda-se tua irmã, o resto de nós fodeu. Mas lá, escrito em letras pretas de um metro e meio, estavam as palavras FODA-SE JOHNSON.

Foda-se o Presidente dos Estados Unidos! E PRESIDENTE ASSASSINO!

Alguém havia chamado o Presidente dos Estados Unidos da América de assassino! Não podíamos acreditar.

Quando eu voltei de Holyoke, o outro carro da polícia do campus havia

chegado e havia seis policiais (quase toda a maldita força, eu calculei), tentando colocar uma grande lona amarela em cima da mensagem. A

multidão murmurou, então começou a vaiar. Os policiais olharam para eles, irritados. Um gritou para que eles apartassem, para irem embora, que eles

tinham todos os lugares para ir. Isso poderia ser verdade, mas

aparentemente a maioria deles gostava de icar lá, porque a multidão não diminuiu muito.

O policial segurando a ponta esquerda da lona escorregou na neve e caiu de cara.

Alguns espectadores aplaudiram. O policial que havia escorregado olhou

na direção do som com uma expressão do mais negro dos ódios

momentaneamente congestionando sua face, e para mim foi aí que as

coisas realmente começaram a mudar, quando as gerações inalmente

começaram a avançar.

O policial que havia escorregado se virou para o outro lado, e começou a lutar com o pedaço de lona novamente. No im eles conseguiram cobrir o

primeiro sinal de paz e o FODA-SE de FODA-SE JOHNSON! E assim que a

palavra realmente má havia sido coberta, a multidão começou a apartar. A

neve estava mudando para um granizo e icar por ali havia se tornado

desconfortável.

– É melhor não deixar os policiais verem as costas de sua jaqueta. – Skip disse, e eu olhei em volta. Ele estava ao meu lado em um suéter com capuz,

suas mãos dentro dos bolsos da frente. Seu hálito saiu de sua boca em

plumas congeladas; seus olhos nunca deixaram os policiais do campus e a

parte da mensagem que ainda estava descoberta: JOHNSON! PRESIDENTE

ASSASSINO! TIRE-NOS DO VIETNÃ

AGORA! – Eles vão achar que foi você. Ou eu.

Sorrindo um pouco, Skip se virou. Nas costas de seu suéter, desenhado em

tinta vermelha brilhante estava outra daquelas pegadas de passarinho.

– Jesus. – eu disse. – Quando você fez isso?

– Esta manhã. – ele disse. – Eu vi o de Nate. – ele deu de ombros. – Era legal demais para não copiar.

– Eles não vão achar que fomos nós. Nem por um minuto.

– Não, eu suponho que não.

A única pergunta era por que eles ainda não estavam interrogando Stoke. .

não que eles tivessem que fazer muitas perguntas para tirar a verdade

dele. Mas se Eversole, o Diretor Disciplinar, e Garretsen, o “Decano dos Homens”, não estavam falando com ele era apenas porque eles ainda não haviam falado com. .

– Onde está Dearie? – eu perguntei. – Você sabe? – O granizo caia forte agora, atingindo as árvores e machucando cada centímetro de pele

exposta.

– O jovem e heróico Sr. Dearborn está jogando areia na neve das calçadas

e estradas com uma dúzia ou mais de seus amiguinhos do CTOR. – Skip

disse. – Nós os vimos do salão. Eles estavam dirigindo por ai em um

caminhão de verdade do exército.

Malenfant disse que os pintos deles icarão tão duros que não poderão

dormir por cima deles por uma semana. Achei que essa foi boa, para

Ronnie.

– Quando Dearie voltar. .

– É, quando ele voltar. – Skip deu de ombros, como se para dizer que

estava além de nosso controle. – Enquanto isso, vamos sair dessa poça de policiais e jogar cartas, o que me diz?

Eu queria dizer muitas coisas sobre muitas coisas. . mas novamente eu não

o fiz.

Eu voltei para dentro, e ao meio-dia o jogo estava a todo vapor novamente.

Havia cinco sub-jogos de quatro mãos acontecendo, o salão estava azul com

a fumaça, e alguém havia trazido um fonógrafo para que pudéssemos ouvir

os Beatles e os Stones. Alguém mais havia feito um disco só com “96 Tears”

e ele girou por uma hora sem parar: chore, chore, chore. As janelas davam uma boa visão da Fuga de Bennett e da Caminhada de Bennett, e eu