Corações na Atlântida
Capítulo 7
– Quem é o manda-chuva, xará? – ele perguntou a Bobby, e então sorriu.
Bobby sorriu de volta. O garoto da pasta com o taco fez um revólver com os
dedos e apontou para Bobby. Bobby fez o mesmo apontando para o rapaz.
O garoto assentiu como que dizendo Isso aí, meu chapa, você é o manda-chuva, ambos somos e então cruzou a rua, estalando os dedos da mão livre
e acompanhando a música em sua cabeça.
Ted olhou para a rua em uma direção, e então para a outra. Na frente deles, três crianças negras brincavam na cascata que saia de um hidrante
parcialmente aberto. Pelo caminho que eles haviam vindo, dois jovens (um
branco, e outro talvez Porto Riquenho) tiravam as calotas de um velho
Ford, trabalhando com a rápida seriedade de doutores fazendo uma
operação. Ted olhou para eles, suspirou, e então olhou para Bobby.
– O Canto do Bolso não é lugar para criança, mesmo no meio do dia, mas eu
não vou te deixar no meio da rua. Vamos. – Ele tomou Bobby por uma mão
e o levou para dentro.
7
No Canto do Bolso. A Camisa Oferecida.
Fora do Willian Penn. A Felina Francesa do Sexo.
O que atingiu Bobby primeiro foi o cheiro de cerveja. Estava tão
impregnado como se o pessoal estivesse bebendo desde os dias em que as
pirâmides ainda estavam em fase de planejamento. Em seguida havia o
som da TV, não exibindo Bandstand, mas uma das novelas da noite
(“Programas de Oh, John, Oh, Marsha”, era como sua mãe as chamava), e
do clique das bolas de sinuca. Só depois que estas coisas foram registradas,
que seus olhos fizeram seus próprios ajustes, porque eles precisavam fazê-
lo. O lugar era muito escuro.
E era grande, Bobby viu. À direita deles havia um arco, e além dele uma sala que parecia quase interminável. A maioria das mesas de sinuca estava
coberta, mas algumas continuavam em brilhantes ilhas de luz por onde os
homens andavam languidamente, pausando a todo instante para se
inclinarem e jogarem. Outros homens, mais di íceis de ver, sentados
encostados na parede, observavam. Um deles tinha os sapatos engraxados.
Eles pareciam custar mil dólares.
À frente havia uma grande sala cheia de liperamas: um bilhão de luzes
vermelhas e laranjas gaguejavam cores doentes em uma placa que dizia SE
VOCÊ QUEBRAR A MESMA MÁQUINA DUAS VEZES TERÁ QUE SAIR. Um
jovem usando outro chapéu panamá – jogava na Patrulha da Fronteira,
apertando os botões freneticamente. Um cigarro pendia em seu lábio
inferior, a fumaça subia pelo seu rosto e pelas espirais de seu cabelo
penteado para trás. Sua jaqueta estava amarrada ao avesso a sua cintura.
À esquerda da entrada estava o bar. Era de lá que vinha o som da TV e o
cheiro da cerveja. Três homens estavam sentados lá, todos cercados de
banquinhos vazios, curvados sobre suas canecas. Eles não pareciam com
aqueles homens felizes que bebiam nas propagandas; para Bobby eles
pareceram as pessoas mais solitárias do mundo. Ele não entendia a razão
deles ao menos não se juntarem e conversarem um pouco.
Perto deles estava a mesa. Um homem gordo veio da porta atrás dela, e por
um momento Bobby pôde ouvir o som baixo de um rádio tocando. O gordo
tinha um cigarro na boca e vestia uma camisa com desenhos de palmeiras.
Ele estalava os dedos como o manda-chuva com a maleta com o taco, e sob
seu hálito ele cantava assim:
“Chu-chu-tchau, Chu-chu-ca-tchau-tcha ”, Bobby reconheceu a melodia:
“Tequila” dos The Champs.
– Quem é você, xará? – o gordo perguntou a Ted. – Eu não te conheço. E ele
não pode entrar aqui, de qualquer forma. Não sabe ler? – ele apontou o dedão gordo com a unha encardida para outra placa, esta pregada na
mesa: TENHA 21 OU DÊ O FORA!
– Você não me conhece, mas eu acho que você conhece Jimmy Girardi. –
Ted disse educadamente. – Ele me disse que você era o homem para se
tratar. . se você for Len Files.
– Sou Len. – o homem disse. E de supetão ele pareceu bem mais amigável.
Ele levantou uma mão tão branca e fofa que parecia as luvas que Mickey, Donald e Pateta usavam nos desenhos. – Você conhece Jimmy Gee, hein?
Maldito seja Jimmy Gee! Ora, o avô dele está lá atrás engraxando. Ele tem engraxado seus sapatos pra caramba ultimamente. – Len Files deu a Ted
uma piscadela. Ted sorriu e apertou a mão do homem.
– É o seu ilho? – Len perguntou, curvando-se na mesa para dar uma
melhor olhadela em Bobby. Bobby podia sentir o cheiro de cigarro no hálito dele, o suor de seu corpo. O colarinho de sua camisa estava salpicado
de caspas.
– Ele é um amigo. – Ted disse, e Bobby achou que poderia de fato explodir
de felicidade. – Eu não queria deixá-lo lá fora.
– É, a não ser que queira pagar um resgate por ele. – Len Files concordou.
– Você me lembra alguém, garoto. Quem mesmo?
Bobby balançou a cabeça, um pouco assustado em parecer com alguém
que Len Files poderia conhecer.
O homem gordo pouco prestou atenção no gesto de Bobby. Ele já estava
ereto e olhava para Ted.
– Eu não posso ter crianças aqui, Sr. ?
– Ted Brautigan. – ele ofereceu a mão. Len Files a apertou.
– Você sabe como é, Ted. As pessoas em negócios como o meu tem os tiras
na traseira.
– É claro. Mas ele vai ficar bem aqui, não vai Bobby?
– Claro. – disse Bobby.
– E nosso assunto não vai demorar muito. Mas é um bom assunto, Sr. Files. .
– Len.
Len, é claro, Bobby pensou. Só Len. Porque aqui era o submundo.
– Como eu disse, Len, este é um bom negócio que eu quero fazer. Eu acho
que você concordará.
– Se você conhece Jimmy Gee, sabe que não negocio por moedas. – Len
disse. – Eu deixo as moedas para os negros. Do que estamos falando aqui?
Patterson-Johansson?
– Albini-Haywood. No Garden amanhã a noite?
Os olhos de Len se abriram mais. Então suas bochechas gordas e barbadas se abriram em um sorriso.
– Putz grila. Nós precisamos desenvolver essa idéia.
– Certamente que precisamos.
Len Files deu a volta na mesa, pegou Ted pelo braço, e o levou até a sala de
sinuca. Então parou e se virou.
– É de Bobby que te chamam em casa, xará?
– Sim, senhor. – Sim, senhor, Bobby Gar ield, ele teria dito em qualquer outro lugar. . mas ali era o submundo e ele achou que apenas Bobby
resolveria o caso.
– Bem, Bobby, sei que estes liperamas parecem bons para você, e você
provavelmente tem uns centavos no bolso, mas faça o que Adão não fez e resista à tentação. Pode fazer isso?
– Sim, senhor.
– Não vou demorar. – Ted lhe disse, e então permitiu que Len Files o
levasse pelo arco e até a sala de sinucas. Eles passaram pelos homens nas
cadeiras altas, e Ted parou pra falar com aquele que tinha os sapatos
engraxados. Próximo ao avô de Jimmy Gee, Ted Brautigan parecia jovem. O
velho olhou para ele e Ted disse algo; os dois homens riram na cara de cada um. O avô de Jimmy Gee tinha um bom riso forte para um velho. Ted
usou as duas mãos para dar tapinhas carinhosos nas bochechas dele. Isso
fez o velho rir ainda mais. Então Ted deixou Len levá-lo até a alcova
coberta por uma cortina que ficava após os outros homens sentados.
Bobby icou onde estava como se tivesse criado raízes, mas Len não havia
dito nada sobre não poder dar uma espiada em volta, então ele o fez, em todas as direções.
As paredes eram cobertas por cartazes sobre cervejas e calendários que
mostravam garotas seminuas. Uma delas subia em uma cerca em uma
paisagem do interior. Outra saia de um Packard com a saia quase
totalmente arreganhada mostrando a cinta-liga.
Atrás da mesa havia mais placas, a maioria delas expressando conceito negativo (SE NÃO GOSTAR DA NOSSA CIDADE PROCURE UM CALENDÁRIO,
NÃO MANDE UM MENINO FAZER O TRABALHO DE UM HOMEM, NÃO
EXISTE COISA COMO ALMOÇO GRÁTIS, NÃO ACEITAMOS CHEQUES,
NÃO
ACEITAMOS
CRÉDITOS,
LENÇOS
PARA
CHORAR
NÃO
SERÃO PROVIDENCIADOS PELA GERÊNCIA) e um grande botão vermelho
de CHAMAR A POLÍCIA.
Suspensos ao teto, presos em ganchos empoeirados, estavam pacotes de
celofane, alguns marcados como RAIZ DE GISENGUE DO AMOR ORIENTAL
e outras como PRAZER ESPANHOL. Bobby imaginou se aqueles eram
algum tipo de vitaminas. Por que eles venderiam vitaminas em um lugar
como esse?
O jovem na sala cheia de liperamas bateu no lado do Patrulha da
Fronteira, recuou, e deu o dedo à máquina. Então ele seguiu até a entrada
enquanto ajustava seu chapéu. Bobby fez uma arma com os dedos e
apontou para ele. O jovem pareceu surpreso, então sorriu e apontou de
volta enquanto saia para a porta. Ele deslaçou os braços de sua jaqueta enquanto o fez.
– Não se podem usar jaquetas da turma aqui. – ele disse, notando a
curiosidade de Bobby. – Não se pode nem mostrar suas malditas cores.
Regras da casa.
– Oh.
O jovem sorriu e levantou a mão. Desenhado em azul nas costas dela
estava um tridente de diabo.
– Mas eu tenho a marca, irmãozinho. Viu?
– Pode crer. – Uma tatuagem. Bobby transbordava de inveja. O garoto
percebeu; sua boca se alargou em um sorriso cheio de dentes brancos.
– Malditos Diablos, ‘ mano. A melhor turma. Malditos Diablos mandam nas
ruas.
Todos os outros são maricas.
– As ruas do submundo.
– Puta submundo bem aqui, o que mais tem lá? Deixa a festa rolar,
amiguinho.
Eu gosto de você. Você tem uma boa aparência. Mas esse seu cabelo à
escovinha é uma droga. – A porta se abriu, houve um sopro de ar quente e
barulho das ruas, e então o rapaz se fora.
Uma pequena cesta de palha na mesa chamou a atenção de Bobby. Ele
icou na ponta dos pés para poder ver. Ela estava cheia de chaveiros com corrente de plástico, vermelhas, azuis e verdes. Bobby pegou um para
poder ler a inscrição em dourado: O CANTO DO BOLSO. BILHAR. SINUCA.
FLIPERAMAS. KENMORE 8-2127.
– Vá em frente, garoto, pegue-o.
Bobby levou tamanho susto que quase derrubou a cesta de chaveiros no
chão. A mulher havia vindo pela mesma porta que Len Files, e ela era
ainda maior, quase tanto quanto a gorda do circo, mas ela era leve em seus
passos como uma bailarina; Bobby olhou para cima e ela simplesmente
estava lá, agigantando-se perante ele. Ela era a irmã de Len, tinha que ser.
– Me desculpe. – Bobby balbuciou, devolvendo o chaveiro que havia
pegado e empurrando a cesta de volta para o canto da mesa com as pontas
dos dedos. Ele teria conseguido empurrá-la para o canto mais longe se a mulher gorda não o houvesse parado com uma mão. Ela estava sorrindo, e
não parecia nem um pouco furiosa, para o que Bobby
icou
tremendamente aliviado.
– Sério, não estou sendo sarcástica, pegue um. – ela segurou um dos
chaveiros.
O plástico era verde. – São apenas coisinhas baratas, mas são de graça. Nós
os distribuímos para propaganda. Como caixas de fósforo, sabe, embora eu
não pudesse dar uma caixa de fósforos para uma criança. Você não fuma,
não é?
– Não senhora.
– Isso é um bom começo. Fica longe das bebidas também. Aqui. Pegue. Não recuse as coisas de graça deste mundo, garoto, não há muitas delas por aí.
Bobby pegou o chaveiro de plástico verde.
– Obrigado, senhora. É muito legal. – ele pôs o chaveiro no bolso, sabendo
que teria que se livrar dele, se sua mãe achasse tal coisa, ela não icaria feliz. Ela tinha umas vinte perguntas, como Sully diria. Talvez trinta.
– Qual é o seu nome?
– Bobby.
Ele esperou para ver se ela perguntaria qual era seu sobrenome e icou
secretamente feliz quando ela não o fez.
– Sou Alanna. – ela estendeu uma mão incrustada de anéis. Eles brilharam
como as luzes dos fliperamas. – Está aqui com seu pai?
– Com meu amigo. – Bobby disse. – Acho que ele está fazendo uma aposta
na luta de Haywood-Albini.
Alanna pareceu alarmada e encantada ao mesmo tempo. Ela se inclinou
com um dedo em seus lábios vermelhos. Ela fez um som de “shhh” para
Bobby, e soprou um forte cheiro de licor junto.
– Não diga “aposta” aqui. – ela o advertiu. – Este é um salão de bilhar.
Sempre se lembre disso e você ficará bem.
– Certo.
– Você é um diabinho bonitão, Bobby. E você parece. . – ela parou. – Eu conheço seu pai? Isso seria possível?
Bobby balançou a cabeça, mas não totalmente certo disso, para Len ele
também parecia alguém.
– Meu pai está morto. Ele morreu há muito tempo. – ele sempre adicionava
essa parte para que as pessoas não ficassem comovidas.
– Qual era o nome dele? – mas antes que ele pudesse dizer, Alanna Files
disse sozinha, a coisa saiu de sua boca pintada como uma palavra mágica. –
Era Randy?
Randy Garrett, Randy Greer, algo assim?
Por um momento Bobby icou tão espantado que não conseguiu falar. Foi
como se todo o ar de seus pulmões houvesse sido sugado.
– Randall Garfield. Mas como. .
Ela riu satisfeita, seus seios cresceram.
– Bem, a maior parte por conta de seu cabelo. Mas também a sardas. . e isso aqui também, anjinho. . – ela se inclinou e Bobby pode ver o topo de seus seios alvos e macios que pareciam dois grandes barris de água. Ela deslizou um dedo suavemente até seu nariz.
– Ele vinha aqui jogar sinuca.
– Não. Ele não era muito assíduo. Ele bebia cerveja. E às vezes. . – ela fez um gesto rápido, querendo dizer que ele também jogava cartas. Isso fez
Bobby pensar em McQuown.
– É. – Bobby disse. – Ele nunca teve uma interna para seqüência que não gostasse, ou pelo menos foi isso que eu ouvi dizer.
– Não sei sobre isso, mas ele era um cara legal. Ele poderia vir aqui em uma Segunda-Feira à noite, quando o lugar está parecendo um cemitério, e
em meia hora mais ou menos ele estava fazendo todo mundo rir. Ele tocava
aquela canção de Jo Stafford. Não consigo lembrar o nome, e fazia Lennie ligar a jukebox. Era um doce de verdade, garoto, é disso que eu mais me lembro dele; um homem gentil de cabelos ruivos é uma comodidade rara.
Ele não pagaria uma bebida a um bêbado, era uma das condições dele, mas
ele tiraria a camisa do próprio corpo e te ofereceria. Tudo o que tinha que
fazer era pedir.
– Mas ele perdeu um monte de dinheiro, eu acho. – Bobby disse. Ele não podia acreditar que estava tendo esta conversa, que ele havia encontrado
alguém que havia conhecido seu pai. Ainda assim ele imaginou que um
monte de descobertas acontecia assim, por completo acidente. Você só
tinha que seguir sua vida, se preocupando com seus próprios assuntos, e então do nada o passado te derrubaria.
– Randy? – ela pareceu surpresa. – Não. Ele vinha aqui tomar uns drinques
talvez umas três vezes por semana, sabe, se acontecesse de ele estar por perto. Ele estava no ramo de corretagem ou seguros ou vendas ou algumas
dessas coisas. .
– Corretagem. – Bobby disse. – Ele era corretor.
– . .e havia um escritório por aqui que ele visitava. Para propriedades
industriais, eu acho, se era corretagem. Tem certeza de que o ramo dele não era suprimentos medicinais?
– Não, era corretagem.
– Engraçado como sua memória funciona. – ela disse. – Algumas coisas
icam claras, mas a maioria desaparece e o verde se torna azul. De
qualquer forma todos esses negócios que envolvem homens de paletós
sumiram daqui. – ela balançou a cabeça tristemente.
Bobby não estava interessado em como a vizinhança havia sumido.
– Mas quando ele jogava, ele perdia. Ele sempre tentava encher as internas
para seqüências e coisas assim.
– Sua mãe te disse isso?
Bobby ficou em silêncio.
Alanna deu de ombros. Coisas interessantes aconteciam na parte da frente de seu corpo enquanto ela o fazia.
– Bem, isso é entre você e ela. . e, ei, talvez seu pai aparecesse em outros lugares. Tudo o que eu sei é que aqui ele apenas sentava uma vez ou duas
por mês com caras que ele conhecia, jogava até meia-noite, talvez, e então
ia para casa. Se ele tirasse a sorte grande, ou o azar, eu provavelmente lembraria. E eu não lembro, então ele provavelmente icava no meio termo
na maior parte das noites em que jogava. O que, à propósito, faz dele um grande jogador de pôquer. Melhor do que aqueles lá atrás. – ela apontou
com os olhos na direção onde Ted e seu irmão haviam ido.
Bobby olhou para ela com crescente confusão. Seu pai não nos deixou
exatamente bens de vida, sua mãe gostava de dizer. Havia o seguro de vida
expirado, o monte de contas não pagas; Pouco eu sabia, sua mãe havia dito
naquela Primavera, e Bobby estava começando a achar que isso servia
para ele também: pouco eu sabia.
– Ele era um rapaz tão bonito, o seu pai. – Alanna disse. – Nariz de Bob Hope e tudo mais. Acho que essa é uma vantagem sua, você puxou isso
dele. Tem namorada?
– Sim, senhora.
Teriam sido as contas não pagas apenas icção? Seria possível? Teria sido a
apólice de seguro de vida descontada e guardada, talvez em um banco ao
invés de entre as páginas de um catálogo da Sears? Era um pensamento
horrível, de alguma forma.
Bobby não podia imaginar por que sua mãe iria querer que ele pensasse
que seu pai era ( um homem mau, um homem mau de cabelos ruivos) um sacana se ele realmente não o era, mas havia algo na idéia que pareceu. .
verdade. Ela poderia se irritar, essa era a coisa mais certa sobre sua mãe.
Ela poderia icar tão irritada. E então ela poderia dizer qualquer coisa. Era possível que seu pai, a quem sua mãe nunca havia, na memória de Bobby, chamado de “Randy”, houvesse oferecido camisas demais para pessoas
demais e conseqüentemente isso fez Liz Gar ield icar irritada. Liz Gar ield
não oferecia camisas, não as do seu próprio corpo, nem as de qualquer
lugar. Você tinha que poupar suas camisas neste mundo, porque a vida
não era justa.
– Qual é o nome dela?
– Liz. – ele se sentiu tonto, do jeito que se sentia saindo de um cinema escuro e entrando na luz do dia.
– Que nem Liz Taylor. – ela pareceu satisfeita. – É um nome bonito para uma namorada.
Bobby riu, um pouco envergonhado.
– Não, minha mãe se chama Liz. O nome da minha namorada é Carol.
– Ela é bonita?
– Um pedaço de mau caminho. – ele disse, sorrindo e passando a mão de um lado para o outro. Ele sentiu-se alegre quando Alanna urrou em um
riso. Ela alcançou a mesa, a carne acima de seu braço balançando como um
maço de dinheiro, e apertou sua bochecha. Doeu um pouco, mas ele gostou.
– Gracinha de garoto! Posso te dizer uma coisa?
– Claro, o que é?
– Só porque um homem gosta de jogar cartas, isso não faz dele Átila, o Huno.
Sabe disso, não sabe?
Bobby assentiu hesitantemente, e então mais firmemente.
– Sua mãe é sua mãe, eu não digo nada contra a mãe dos outros porque eu
amo a minha própria, mas nem todas as mães aprovam cartas ou sinucas,
ou. . lugares como este. É um ponto de vista, mas é só o que é. Entendeu a
pintura?
– Sim. – Bobby disse. E de fato ele havia entendido a pintura. Ele se sentiu
muito entrando, como rindo e chorando ao mesmo tempo. Meu pai esteve aqui, ele pensou. Isso pareceu, ao menos naquele momento, muito mais importante do que qualquer outra mentira que sua mãe já havia lhe
contado. Meu pai esteve aqui, ele até pode ter ficado exatamente aqui onde eu estou agora. – Fico feliz de parecer com ele. – ele disse abruptamente.
Alanna assentiu, sorrindo.
– Logo você entrar aqui, vindo das ruas. Quais são as chances?
– Eu não sei. Mas obrigado por me contar sobre ele. Obrigado mesmo.
– Ele tocaria a canção de Jo Stafford à noite toda, se você deixasse. – Alanna
disse. – Então, não vá sair por aí ao relento.
– Não, senhora.
– Não, Alanna.
Bobby sorriu.
– Alanna.
Ela soltou um beijo para ele como sua mãe fazia às vezes, e riu quando Bobby ingiu pegá-lo. Então ela voltou a sair pela porta. Bobby podia ver o
que parecia com uma sala de estar além dela. Havia uma grande cruz em
uma parede.
Ele meteu a mão no bolso, enganchou o chaveiro com um dedo (ele era, ele
pensou, uma lembrancinha especial de sua visita ao submundo), e
imaginou-se pedalando Broad Street abaixo em uma Schwinn da Western
Auto. Ele ia em direção ao parque. Ele usava um chapéu panamá marrom
en iado na cabeça. Seu cabelo era longo e estava penteado para trás em
um rabo de pato, nada de cabelo à escovinha, não mais, xará. Presa à sua cintura estava uma jaqueta com suas cores nela; atrás de sua mão estava uma tatuagem azul, gravada fundo para toda eternidade. Do lado de fora
do Campo B, Carol esperava por ele. Ela estaria vendo ele pedalar, ela
estaria pensando Oh, seu garoto doido , enquanto ele dava voltas em um círculo fechado, espalhando cascalho na direção dos tênis brancos dela (mas não neles). Doido, sim. Um ciclista barra-pesada e um conquistador
malvado.
Len Files e Ted estavam voltando agora, ambos pareciam felizes. Len, de
fato, parecia com um gato que acabara de comer um canário (como a mãe
de Bobby geralmente dizia). Ted parou para dar outra, breve, palavra com
o velho, que assentiu e sorriu. Quando Ted e Len voltaram à entrada, Ted
foi na direção da cabine telefônica ao lado da porta. Len pegou seu braço e
o conduziu até a mesa.
Enquanto Ted ia ligar, Len mexeu no cabelo de Bobby.
– Eu sei quem você parece. – ele disse. – Veio até mim enquanto eu estava
lá atrás. Seu pai era. .
– Gar ield. Randy Gar ield. – Bobby olhou para Len, que parecia muito com a irmã, e então pensou em como era estranho e meio que maravilhoso ser
ligado daquele jeito com seus parentes de sangue. Ser tão ligado que
mesmo as pessoas que não te conhecem poderiam às vezes te reconhecer
no meio de uma multidão. – Você gostava dele, Sr. Files?
– Quem, Randy? Claro, ela era um doido de primeira. – Mas Len Files
pareceu um pouco vago. Ele não havia percebido o pai de Bobby do mesmo
jeito que sua irmã, Bobby decidiu; Len provavelmente não se lembraria da
canção de Jo Stafford, ou como Randy Gar ield te ofereceria uma camisa do
próprio corpo. Ele não daria uma bebida a um bêbado; ele não faria isso. –
Seu amigo é legal também. – Len continuou, agora mais entusiasmado. – Eu
gosto da classe alta, e a classe alta gosta de mim, mas eu não recebo apostadores de verdade como ele com freqüência. – ele virou-se para Ted,
que estava caçando miopemente na lista telefônica. – Tente o Circle Taxi.
KEnmore 6-7400.
– Obrigado. – Ted disse.
– Não tem de quê. – Len passou por Ted e entrou pela porta atrás da mesa.
Bobby teve outra breve visão da sala de estar e da grande cruz. Quando a
porta fechou, Ted olhou para Bobby e disse:
– Você aposta quinhentos paus em uma luta, e você não tem que usar o
telefone público como o resto dos fregueses. Que negócio, hein?
Bobby sentiu como se todo o vento houvesse sido sugado dele.
– Você apostou quinhentos dólares em Hurricane Haywood?
Ted tirou um Chester ield do seu maço, o pôs na boca, e o acendeu com um
sorriso.
– Bom Deus, não. – ele disse. – Foi em Albini.
Depois de ter chamado o táxi, Ted levou Bobby ao bar e pediu dois
refrescos.
Ele não sabe que eu não gosto muito desse refresco , Bobby pensou. De
algum modo isso pareceu ser outra peça do quebra-cabeça, o quebra-cabeça de Ted. Len os serviu, não falando nada sobre se Bobby deveria ou
não estar sentado em um bar, ou como ele era um menino legal, mas
impregnava o lugar com sua minoridade; aparentemente uma ligação
grátis não era tudo o que quinhentos dólares apostados poderiam te
conseguir. E
nem mesmo o excitamento da aposta poderia tirar a atenção de Bobby por
muito tempo de certa senhora que roubou muito do seu prazer ao ouvir
sobre seu pai não ser um safado, a inal de contas. A aposta havia sido feita
para conseguir dinheiro su iciente para uma viagem. Ted estava de
partida.
***
O táxi era da Checker com um grande banco traseiro. O motorista estava
profundamente absorvido pelo jogo dos Yankees no rádio, ao ponto de às
vezes querer discutir com os comentaristas.
– Files e sua irmã conheciam seu pai, não é? – Não era realmente uma
pergunta.
– Sim. Especialmente Alanna. Ela achou que ele era realmente um cara
legal. –
Bobby parou. – Mas não é o que minha mãe pensa.
– Imagino que sua mãe tenha visto um lado dele que Alanna Files nunca
viu. –
Ted respondeu. – Mais de um. Pessoas são como diamantes, Bobby. Elas
têm muitos lados.
– Mas mamãe disse. . – Era complicado demais. Ela nunca havia dito nada de verdade, apenas meio que sugeriu. Ele não sabia como dizer a Ted que
sua mãe também tinha lados, e alguns deles faziam ser di ícil de acreditar
naquelas coisas que ela nunca disse de verdade. E quando você chegava
até aí, o quanto ele realmente gostaria de saber? Seu pai estava morto
a inal de contas. Sua mãe não estava, e ele tinha que conviver com ela. . e ele tinha que amá-la. Ele não tinha mais ninguém para amar, nem mesmo
Ted. Porque. .
– Quando você vai embora? – Bobby perguntou em voz baixa.
– Depois que sua mãe voltar. – Ted suspirou, olhou pela janela, e então olhou para as mãos, que repousavam em um dos joelhos. Ele não olhou
para Bobby, não ainda. – Provavelmente na manhã da Sexta-Feira. Eu não
posso coletar meu dinheiro até a noite de amanhã. Eu tenho quatro para
um em Albini; isso são dois mil dólares. Meu bom amigo Lennie terá o
telefone de Nova York para fazer a transferência.
Eles cruzaram a ponte do canal, e então o submundo icou para trás. Agora
estavam na parte da cidade em que Bobby andava com sua mãe. Os
homens nas ruas usavam casacos e gravatas. As mulheres usavam
moletons. Nenhum delas parecia com Alanna Files, e Bobby achou que não
haveria muitas cheirando à licor se izessem um sopro de silêncio. Não às quatro da tarde.
– Eu sei porque você não apostou em Patterson-Johansson. – Bobby disse.
– É porque você não sabe quem vai vencer.
– Eu acho que Patterson leva desta vez. – Ted disse. – Porque desta vez ele está preparado para Johansson. Eu posso apostar dois dólares em Floud
Patterson, mas quinhentos? Para apostar quinhentos ou você tem que
saber o resultado ou ser louco.
– A luta entre Albini e Haywood já está combinada, não é?
Ted assentiu.
– Eu soube quando você leu que Kleindienst estava envolvido, e eu
imaginei que Albini deveria ganhar.
– Você fez outras apostas em lutas de boxe onde o Sr. Kleindienst era o empresário.
Ted não disse nada por um momento, apenas olhou pela janela. No rádio,
alguém acertava uma bela tacada. Whitney Ford pegou a bola e jogou para
Moose Skowron na primeira base. Agora havia duas baixas no topo da
oitava. Então Ted disse:
“Poderia ter sido Haywood. Era di ícil ser, mas poderia. Então. . você viu o velho sentando lá? O que estava engraxando os sapatos?
– Claro, você deu uns tapinhas nas bochechas dele.
– Aquele é Arthur Girardi. Files o deixa por lá porque ele costumava ser uma conexão. É o que Files acha, que costumava ser. Agora ele é só um velho que vem para engraxar os sapatos e então esquece que fez isso e
volta para engraxar novamente às três horas. Files acha que ele é só um velho que não sabe de nada. Girardi o deixa pensar o que ele quer pensar.
Se Files disser que a lua é queijo verde, Girardi não vai dar um pio.
Velho Gee, ele entra por causa do ar condicionado. E ele ainda é uma
conexão.
– Conectado com Jimmy Gee.
– Com todos os tipos de caras.
– O Sr. Files não sabe que a luta foi combinada?
– Não, com certeza não. Eu achei que ele poderia.
– Mas o velho Gee sabia. E ele sabia qual deles deveria beijar a lona.
– Sim. Essa foi minha sorte. Hurricane Haywood cai no oitavo round. Então,
no ano seguinte as probabilidades melhoram, e o Hurricane ganha seu
pagamento.
– Você teria apostado se o Sr. Girardi não estivesse lá?
– Não. – Ted respondeu imediatamente.
– Então como você ganharia dinheiro? Quando for embora?
Ted pareceu deprimido com estas palavras, quando for embora. Ele teve intenção de pôr um braço ao redor dos ombros de Bobby, mas parou.
– Sempre há alguém que sabe alguma coisa. – ele disse.
Eles estavam na Avenida Asher agora, ainda em Bridgeport, mas apenas a
um quilômetro e meio mais ou menos de Harwich. Sabendo o que iria acontecer, Bobby pegou a grande e manchada mão de Ted.
Ted girou os joelhos na direção da porta, levando suas mãos com ele.
– É melhor não.
Bobby não perguntou por que. As pessoas colocavam placas que diziam
TINTA FRESCA NÃO TOQUE porque se você colocasse sua mão em algo
recém pintado, a coisa mancharia sua pele. Você poderia lavá-la, ou
descascaria por si mesma com o tempo, mas por um tempo ela ficaria lá.
– Para onde você vai?
– Eu não sei.
– Eu me sinto mal. – Bobby disse. Ele sentiu lágrimas começando a brotar
dos cantos dos olhos. – Se algo acontecer com você, é minha culpa. Eu vi coisas, as coisas que você me mandou procurar, mas eu não disse nada. Eu
não queria que você fosse.
Então eu disse a mim mesmo que você estava louco, não sobre tudo, mas
sobre os homens maus que te perseguiam, e eu não disse nada. Você me
deu um trabalho e eu falhei.
O braço de Ted foi atrás dos ombros de Bobby novamente. Ao invés disso,
ele o abaixou e deu um breve tapinha na perna de Bobby. No estádio dos
Yankees, Tony Kukeb acabara de dobrar dois home runs. O público ia à
loucura.
– Mas eu sabia. – Ted disse suavemente.
Bobby olhou para ele.
– O quê? Eu não te entendo.
– Eu os sinto se aproximarem. É por isso que meus transes têm sido tão freqüentes. Ainda assim, eu menti para mim mesmo, do mesmo modo que
você. Pelas mesmas razões também. Você acha que eu quero te deixar
agora, Bobby? Com sua mãe tão confusa e infeliz? Com toda a honestidade,
eu não me importo muito com ela, nós não nos damos bem, no primeiro segundo em que cruzamos os olhares, nós não nos demos bem, mas ela é
sua mãe, e. .
– O que há de errado com ela? – Bobby perguntou. Ele lembrou-se de
manter a voz baixa, mas ele tomou o braço de Ted e o sacudiu. – Diga-me!
Você sabe, eu sei que você sabe! É o Sr. Biderman? É algo sobre o Sr.
Biderman?
Ted olhou pela janela, os cenhos franzidos, os lábios apertados firmemente.
Finalmente ele suspirou, tirou um dos cigarros, e acendeu-o.
– Bobby. – Ele disse. – O Sr. Biderman não é um homem bom. Sua mãe sabe
disso, mas ela também sabe que às vezes precisamos estar com as pessoas
que não são boas. Junte-se para progredir, é o que ela pensa, e ela o fez.
Ela fez coisas pelo último ano de que ela não tem orgulho, mas ela tem sido
cuidadosa. De algumas formas ela teve que ser tão cuidadosa quanto eu, e
não importa se eu goste dela ou não, eu a admiro por isso.
– O que ela fez? O que ele a obrigou fazer? – Algo gelado perambulou pelo
peito de Bobby. – Por que o Sr. Biderman a levou para Providence?
– Para a conferência de corretagem.
– É só isso? Isso é tudo?
– Eu não sei. Ela não sabia. Ou talvez ela tenha acobertado o que ela sabia e o que ela temia com o que ela tinha esperança de acontecer. Eu não tenho
como dizer. Às vezes eu posso. . às vezes eu sei coisas muito diretamente e
claramente. No primeiro momento em que te vi, sabia que você queria uma
bicicleta, que ter uma era muito importante para você, e que você
pretendia ganhar dinheiro para comprar uma neste verão se pudesse. Eu
admirei sua determinação.
– Você me tocou de propósito, não foi?
– Deveras. Da primeira vez, ao menos. Eu te conhecia um pouco. Mas
amigos não espiam; a verdadeira amizade é sobre privacidade também.
Além disso, quando eu toco alguém, eu passo um tipo de. . bem, um tipo de
janela. Eu acho que você sabe disso. Da segunda vez que eu te toquei. .
tocar de verdade, te segurando, sabe o que quero dizer. . aquilo foi um engano, mas não um terrível; por um curto tempo você soube mais do que deveria, mas a coisa sumiu, não foi? Se eu tivesse continuando, entretanto. .
tocando e tocando, do jeito que as pessoas fazem quando são próximas. .
chegaria a um ponto onde as coisas mudariam. Onde a coisa não sumiria. –
ele levantou seu cigarro quase todo fumado e olhou para ele com aversão.
– Do mesmo modo como você fuma muitos desses e então ica preso a eles
por toda a vida.
– Minha mãe está bem agora? – Bobby perguntou, sabendo que Ted não
teria como responder; o dom de Ted, o que quer que fosse, não chegava
tão longe.
– Eu não sei. Eu. .
Ted subitamente enrijeceu. Ele estava olhando pela janela para algo à
frente. Ele esmagou seu cigarro no cinzeiro do carro, fazendo com força o su iciente para fazer faíscas voarem pelas costas de sua mão. Ele não
pareceu senti-las.
– Cristo. – ele disse. – Oh, Cristo, eles estão aqui.
Bobby inclinou-se sobre a barriga para ver pela janela, pensando na
traseira de sua mente no que Ted acabara de dizer, tocando e tocando, do
jeito que as pessoas fazem quando são próximas, mesmo enquanto espreitava pela Avenida Asher.
À frente havia uma interseção de três vias, a Avenida Asher, Avenida
Bridgeport, e Connecticut Pike, todas se juntando em um lugar conhecido
como a Praça dos Puritanos. Manchas de pneus brilharam ao sol da tarde;
caminhões de entrega buzinavam impacientemente para passar pela
aglomeração. Um policial suado com um apito na boca e luvas brancas nas
mãos dirigia o tráfego. À esquerda estava o Willian Penn Grille, um famoso
restaurante que supostamente teria os melhores bifes em Connecticut (o
Sr. Biderman havia levado para lá o escritório inteiro depois que a agência havia vendido a Mansão Waverley, e a mãe de Bobby havia voltado para
casa com uma dúzia de caixas de fósforos do Willian Penn Grille). Sua
maior razão de ser famoso, sua mãe havia dito uma vez para Bobby, era
que o bar estava na linha da cidade de Harwich, mas o próprio restaurante estava em Bridgeport.
Estacionado na frente, no im da Praça dos Puritanos, estava um automóvel
púrpura da marca DeSoto que Bobby nunca havia visto antes, que ele nem
mesmo havia suspeitado existir. A cor era tão brilhante que machucava seus olhos só de olhar para ela. Machucou sua cabeça inteira.
Seus carros serão como seus casacos amarelos e sapatos pontudos e o gel perfumado que eles usam para deixar os cabelos para trás: gritante e vulgar.
O carro púrpuro estava cheio de faróis de cromo e saias traseiras. O
ornamento do capô era enorme; a cabeça do Chief DeSoto brilhou na
nebulosa luz como uma jóia falsa. Os pneus eram gordas paredes brancas
e as calotas giravam. Havia uma antena na traseira. Em sua ponta estava pendurada uma cauda de guaxinim.
– Os homens maus. – Bobby sussurrou. De fato não havia questionamentos.
Era um DeSoto, mas ao mesmo tempo era como um carro que ele nunca
havia visto na vida, algo tão alienígena quanto um asteróide. Enquanto se aproximavam da interseção de três vias, Bobby viu que o estofamento era
da cor de um verde metálico, a cor quase uivou em contraste com a cor púrpura do carro. Havia couro branco ao redor do volante.
– Minha nossa, são eles!
– Você tem que levar sua mente para longe. – Ted disse. Ele pegou Bobby
pelos ombros (à frente os Yankees comemoravam, o motorista não
prestava atenção aos seus dois clientes no banco traseiro, muito obrigado a
Deus por tanto, pelo menos), e o sacudiu com força, antes de soltá-lo. –
Você tem que levar sua mente para longe, você entendeu?
Ele entendeu. George Sanders havia construído uma parede de tijolos para esconder seus pensamentos e planos para as Crianças. Bobby havia
pensado em Maury Wills uma vez, mas ele não achou que beisebol
pudesse funcionar desta vez. O que poderia?
Bobby podia ver a marquise do Asher Empire salientando-se pela calçada,
três ou quatro blocos além estava a Praça dos Puritanos, e de repente ele
podia ouvir o barulho das raquetes de Sully-John: paf-paf-paf. Se ela é um
lixo, S-J havia dito, eu adoraria ser o lixeiro.
O cartaz que haviam visto naquele dia preencheu a mente de Bobby:
Brigitte Bardot (a Felina Francesa do Sexo era como os jornais a
chamavam) vestida com apenas uma toalha e um sorriso. Ela parecia um
pouco com a mulher saindo de um carro em um dos calendários do Canto
do Bolso, aquele em que a saia estava arreganhada e a cinta-liga aparecia.
Porém Brigitte Bardot era mais bonita. E ela era real. Ela era velha demais para tipos como Bobby Garfield, é claro.
( Eu sou tão jovem, e você é tão velha, Paul Anka cantava de milhares de rádios, isto, minha querida, foi o que me disseram) mas ainda assim ela era linda, e um gato poderia olhar para uma rainha, sua mãe sempre dizia
também: um gato poderia olhar para uma rainha. Bobby a viu cada vez
mais claramente e se ajeitou no assento, seus olhos tomando aquele olhar
lutuante e perdido de Ted quando ele apagava; Bobby a viu com os
cabelos loiros, úmidos do banho, o declive de seus seios dentro da toalha, suas longas coxas, suas unhas pintadas em cima das palavras Apenas para
Adultos, É Obrigatório Carteira de Motorista ou Certi icado de Nascimento.
Ele poderia sentir o cheiro do sabonete, algo suave e lorido. Ele poderia sentir o cheiro da ( Nuit em Paris)
fragrância de seu perfume e ele podia ouvir o rádio na sala ao lado. Era Freddy Cannon, que tocava um jazz do verão do Savin Rock: “She's dancin’
to the drag, the cha-cha raga-mop, she's stompin’ to the shag, rocks the bunny hop…”
Ele tinha consciência, fracamente, longe, em outro mundo ao longo do
redemoinho de um pião, que o táxi em que eles estavam andando havia
parado bem perto do Willian Penn Grille, bem próximo àquele DeSoto
púrpura, Bobby quase podia ouvir o carro em sua cabeça; se ele tivesse
uma voz teria gritado Atirem em mim, eu sou púrpura demais! Atirem em mim, eu sou púrpura demais! E não muito além, ele conseguia senti-los. Eles estavam no restaurante, comendo um bife. Ambos comiam do mesmo tipo,
mal passado. Antes de irem embora, eles colocarão um cartaz de animal
perdido em um poste telefônico ou deixar um cartão escrito à mão de
CARRO À VENDA PELO PROPRIETÁRIO; de cabeça para baixo, é claro. Eles
estavam lá dentro, homens maus em casacos amarelos e sapatos brancos
bebendo martinis entre as dentadas de seus bifes quase crus, e se eles
direcionassem suas mentes nesta direção. .
Vapor saia do chuveiro. B.B. levantou-se na ponta de seus pés pintados e abriu sua toalha, transformando-as em breves asas antes de deixá-la cair.
E o que Bobby viu não era Brigitte Bardot a inal de contas. Era Carol
Gerber. Você tem que ser corajoso para deixar as pessoas olharem para você vestindo apenas uma toalha, ela havia dito, e agora ela mesma havia deixado a toalha cair. Ele a via como ela deveria parecer daqui a oito ou dez anos.
Bobby olhou para ela, sem poder olhar para outro lado, perdido de amor, perdido nos aromas do sabonete e de seu perfume, o som do rádio
(Freddy Cannon havia dado lugar aos The Platters, heavenly shades of night
are falling), a visão de suas pequenas unhas pintadas. Seu coração girou tanto quanto um pião, com suas linhas subindo e desaparecendo em outros
mundos. Outros mundos além deste.
O táxi começou a se arrastar para frente. O horror púrpuro de quatro
portas estacionado próximo ao restaurante (estacionado em uma zona de
carregamento, Bobby viu, mas o que importava para eles?) começou a deslizar na retaguarda. O carro parou novamente e o motorista xingou suavemente enquanto um carro atravessava a Praça dos Puritanos à toda
velocidade. O DeSoto estava atrás deles agora, mas o re lexo do cromo
encheu o táxi com uma errática dança de ios de luz. E de repente Bobby sentiu uma selvagem coceira atacar a parte de trás de seus olhos. Isto foi seguido por uma queda de manchas negras entrelaçadas em seu campo de
visão. Ele conseguiu se segurar a Carol, mas agora ele parecia olhar para ela através de um campo de interferência.
Eles nos sentem. . ou sentem alguma coisa. Por favor, Deus, nos tire daqui.
Por favor, nos tire daqui.
O motorista do táxi viu uma brecha no tráfego e meteu-se lá. Um momento
depois eles estavam indo para a Avenida Asher a uma boa velocidade. A
sensação de coceira na parte de trás dos olhos de Bobby começou a cessar.
As manchas negras em seu campo interior de visão foram clareadas, e
quando aconteceu ele viu que a garota nua não era Carol (não mais, pelo menos), nem mesmo Brigitte Bardot, mas apenas uma garota de calendário
do Canto do Bolso, com suas roupas tiradas pela imaginação de Bobby. A
música do rádio se fora. O cheiro do sabonete e do perfume também. A vida havia saído dela, ela era apenas uma. . uma. .
– Uma igura pintada em uma parede de tijolos. – Bobby disse. Ele sentou-
se.
– O que disse, garoto? – o motorista perguntou, e desligou o rádio. O jogo havia terminado, Mel Alien estava anunciando cigarros.
– Nada. – Bobby disse.
– Acho que você cochilou, hein? Trânsito lento, dia quente. . isso sempre acontece, como Hatlo diz. Parece que seu amigo ainda está apagado.
– Não. – disse Ted, icando ereto. – O doutor está de volta. – Ele endireitou
as costas e estremeceu quando houve um estalo. – Eu cochilei um pouco
mesmo. –Ele olhou pela janela, mas o William Penn Grille estava fora de vista agora. – Os Yankees ganharam, eu suponho?
– Malditos índios, eles detonaram. – o motorista disse, e riu. – Não vejo como você poderia dormir com os Yankees jogando.
Eles viraram na Broad Street; dois minutos depois o carro estacionou na
frente do número 149. Bobby olhou para ele como se esperasse ver um
tipo diferente de pintura ou talvez uma asa adicionada. Ele sentiu como se
houvesse estado fora por dez anos. De certo modo ele supôs que houvesse,
ele não havia visto Carol Gerber crescida?
Eu vou casar com ela, Bobby decidiu enquanto saiam do táxi. Na Colony Street, o cão da Sra. O’Hara latiu continuamente, como se negando isto e todas as aspirações humanas: ouf-ouf-ouf.
Ted inclinou-se na janela do motorista com sua carteira à mão. Tirou duas
notas, pensou mais um pouco, e tirou uma terceira.
– Fique com o troco.
– Você é muito legal. – o motorista disse.
– Ele é um apostador. – Bobby corrigiu, e sorriu enquanto o táxi seguia em
frente.
– Vamos entrar. – Ted disse. – Não é mais seguro para mim aqui.
Subiram a varanda e Bobby usou sua chave para abrir a porta da sala de
estar.
Ele continuou a pensar sobre aquela estranha coceira na parte de trás dos
olhos, e as manchas negras. As manchas haviam sido particularmente
horríveis, como se ele estivesse para ficar cego.
– Eles nos viram, Ted? Ou nos sentiram, ou fizeram qualquer coisa assim?
– Você sabe que sim. . mas eu não acho que eles sabiam o quão perto nós
estávamos. – Enquanto entraram no apartamento dos Gar ield, Ted tirou
seus óculos de sol e os en iou no bolso da camisa. – Você deve ter se camuflado bem. Uou! Como está quente aqui!
– O que faz você pensar que eles não sabiam que estávamos próximos?
Ted parou enquanto abria a janela, dando a Bobby um olhar por cima de
seus ombros.
– Se soubessem, o carro púrpuro estaria bem atrás de nós quando
encostamos aqui.
– Não era um carro. – Bobby disse, começando a abrir as janelas também.
Não ajudou muito; o ar entrou, levantando as cortinas em apáticos abanos,
pareceu tão quente quanto o ar preso dentro do apartamento o dia todo. –
Eu não sei o que era, mas apenas parecia com um carro. E o que eu senti deles. . – Mesmo no calor, Bobby tremeu.
Ted pegou seu ventilador, o passou pela janela pela prateleira de enfeites
de Liz, e o colocou peitoril.
– Eles se camu lam o melhor que podem, mas ainda assim os sentimos.
Mesmo as pessoas que não sabem o que eles são os sentem. Um pouco do
que está sob a camu lagem escapa, e o que está lá embaixo é feio. Torço para que você nunca saiba o quão feio.
Bobby também torceu para isso.
– De onde eles vêm, Ted?
– De um lugar negro.
Ted ajoelhou-se, colocou o plugue na tomada, e ligou o ventilador. O ar que
ele empurrou para a sala era um pouco frio, mas não tanto quanto o do Canto do Bolso, ou o Criterion.
– É em outro mundo, como em O Anel ao Redor do Sol? É, não é?
Ted ainda estava de joelhos ao lado da tomada. Ele parecia estar rezando.
Para Bobby ele pareceu exausto, acabado, quase morto. Como ele
conseguia fugir dos homens maus? Ele não parecia ser capaz de chegar tão
longe quanto a Loja de Variedades do Spicer sem tropeçar.
– Sim. – ele disse. – Eles vêm de outro mundo. Outro onde e outro quando.