Corações na Atlântida

Stephen King · Capítulo 24 de 59

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Corações na Atlântida

Capítulo 13

Carol Gerber estava agora ao lado de Stokley. Nate, vestido em seus

pijamas de bengala doce, estava do outro lado.

– Nós queremos informação. – Carol disse.

– Vocês não terão. – eu respondi, no programa da TV, essa era sempre a resposta de Patrick McGoohan ao Número Dois.

Nate disse:

– Você deixou sua janela aberta, Pete. O quarto está frio, e seus papéis se espalharam por todos os lugares.

Eu não consegui achar uma resposta adequada para essa, então eu peguei

a mão com que estivera jogando e a abri. Treze cartas, e cada uma delas era a rainha de espadas. Cada uma delas era la femme noire. Cada uma delas era A Puta.

13

No Vietnã, a guerra estava indo bem (Lyndon Johnson disse isso através do

Pací ico Sul). Houve alguns poucos contratempos, entretanto. Os

vietcongues derrubaram três helicópteros americanos praticamente no

quintal do Saigon; um pouco longe do Grande S, um número estimado de

mil soldados vietcongues chutaram a bunda de pelo menos o dobro dos

vietnamitas sulistas regulares. Em Mekong Delta, navios de guerra

americanos afundaram centro e vinte barcos de patrulha vietcongues, que

por acaso continha (ooops) um grande número de crianças refugiadas.

América perdeu seu quadringentésimo avião da guerra naquele Outubro,

um F-105 Thunderchief. O piloto saltou de pára-quedas para segurança.

Em Manila, o Primeiro Ministro do Vietnã do Sul, Nguyen Cao Ky, insistiu que ele não era corrupto. Nem eram os membros de seu gabinete, ele

disse, e o fato de que uma dúzia, mais ou menos, de membros do gabinete

pediu demissão enquanto Ky estava nas Filipinas foi pura coincidência.

Em San Diego, Bob Hope fez um show pelos rapazes do Exército pelo país.

“Eu queria chamar Bing e mandá-lo para junto de você”. Bob disse, “mas

aquele maconheiro ilho de um canhão tirou seu número da lista”. Os

rapazes do exército urraram com risos.

Question Mark and the Mysterians mandavam na rádio. A canção deles,

“96 Tears”, foi um sucesso monstruoso. Eles nunca mais tiveram outro.

Em Honolulu garotas dançando ula-ula deram boas vindas ao Presidente

Johnson.

Nas Nações Unidas. O Secretário Geral U. Thant pedia juntamente com o

representativo Americano Arthur Goldberg para pararem, ao menos

temporariamente, o bombardeio ao Vietnã do Norte. Arthur Goldberg

conseguiu se comunicar com o Grande Pai Branco no Havaí para informá-

lo sobre o pedido de Thant. O Grande Pai Branco, talvez usando seu colar de lores, disse “não mesmo, nós vamos para quando os vietcongues

pararem, mas enquanto isso, eles vão chorar 96 lágrimas. Pelo menos 96.

(Johnson deu uma rebolada patética com as garotas do ula-ula, eu me lembro de ver isso no The Huntley-Brinkley Report e achar que ele dançava

exatamente igual a todos os outros caras brancos que eu conhecia. . que

eram, incidentalmente, todos os caras que eu conhecia).

Na Vila Greenwich uma marcha de paz foi quebrada pela polícia. As

marchas não eram permitidas, a polícia disse. Em São Francisco,

protestantes de guerra carregando caveiras de plástico em varas e usando

maquiagem branca como uma trupe de mímicos foram expulsos com gás

lacrimogêneo. Em Denver, a polícia rasgou milhares de cartazes

promovendo um encontro anti-guerra no Parque Chautauqua, em Boulder.

A polícia havia descoberto um estatuto que proibia a postagem de tais

papéis.

O estatuto não, disse o Chefe da polícia de Denver, proibia cartazes que promovessem

ilmes, roupas, festas dos Veteranos de Guerras

Estrangeiras, ou recompensas por informação que levasse à recuperação

de animais de estimação perdidos. Esses cartazes, o chefe explicou, não eram políticos.

Em nosso próprio pequeno trecho havia um protesto de pessoas sentadas

no Anexo Leste, onde a Coleman Chemicals estava recrutando

trabalhadores. Coleman, como Dow, produzia napalm. Acontece que a

Coleman também produzia o Agente Laranja, botulinum, e antrax, embora

ninguém soubesse disso até a companhia falir em 1980. Na revista

Maine Campus havia uma pequena foto dos protestantes sendo levados.

Uma grande foto mostrava um protestante sendo puxado do Anexo Leste

por um policial do campus enquanto outro policial estava de pé, segurando

as muletas (é claro que o protestante era Stoke Jones, usando seu casco com a pegada de passarinho nas costas). Os policias o estavam tratando

gentilmente, disso tenho certeza (naquele ponto, protestantes de guerra

ainda eram mais novidades do que um incômodo), mas a combinação do

grande policial e do garoto aleijado fez a foto ser assustadora de algum modo. Eu pensei nisso muitas vezes entre 1968 e 1971, anos quando, nas

palavras de Bob Dylan, “o jogo icou di ícil”. A maior foto daquela edição, a

única acima do invólucro, mostrava rapazes do CTOR de uniformes,

marchando no campo de futebol ensolarado enquanto uma multidão

assistia. MANOBRAS ATRAEM RECORDE DE PÚBLICO, dizia o título.

Ainda assim, mais perto de casa, um Peter Riley tirou um D em seu teste de Geologia, e um D+ no teste de Sociologia, dois dias depois. Na Sexta-Feira eu peguei de volta um ensaio de opinião de uma única folha que eu havia

rabiscado antes de entrar em Introdução ao Inglês (escrita) na Segunda-Feira de manhã. O assunto era Gravatas (que deveriam ou não) Ser

Requisitadas para Homens em Restaurantes. Eu havia escolhido “não

deveriam”. Este pequeno exercício expositivo havia sido marcado com um

grande e vermelho C, o primeiro que eu havia ganhado desde que chegara

à U do M com meus A’s irmes em Inglês no boletim do colégio, e meus 740

pontos no teste de aptidão verbal. Aquele gancho vermelho me chocou de

um modo que o teste que resultara em um D não havia, e me enfureceu

também. No topo, o Sr. Babcock havia escrito “Sua claridade comum é

presente, mas neste caso serve apenas para mostrar o quão cru é isto. Seu

humor, embora condescente, é desprovido de inteligência. O C é na

verdade um presente. Trabalho relaxado.”

Eu pensei em chegar nele depois da aula, mas rejeitei a idéia. O Sr.

Babcock, que usava gravata borboleta e grandes óculos de aro de

tartaruga, havia deixado claro que considerava os alunos com notas baixas

a forma de vida acadêmica mais inferior.

Além disso, era meio-dia. Se eu comesse rápido no Palácio das Planícies, eu

poderia estar de volta ao Chamberlain Três a uma da tarde. Todas as

mesas no salão (e todos os quatro cantos dele) estariam cheias às três

daquela tarde, mas de uma hora eu ainda poderia achar um assento. Eu já

tinha quase vinte dólares agora, e planejava passar meu último im de

semana lucrativo de Outubro enchendo os bolsos. Eu também estava

planejando dançar no Ginásio Lengyll na noite de Sábado. Carol

concordara em ir comigo. Os Cumberlands, um grupo popular do campus,

estava jogando. Em algum ponto (é mais certo dizer vários pontos) eles fariam sua versão de “96 Tears”.

A voz da consciência, já falando comigo com a voz de Nate Hoppenstand, sugeriu que eu deveria também passar parte do im de semana estudando.