Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 9 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 7

 

19 de dezembro, 04h34, CET

Roma, Itália

Com uma antiga pinça de relojoeiro na mão, o líder da Belial estava curvado sobre o espaço de trabalho na sua mesa. Segurava uma lente de ampliação num dos olhos. Com extrema perícia, enroscou cuidadosamente uma minúscula mola no interior de um mecanismo do tamanho de um polegar.

A mola retesou-se e prendeu.

Sorriu de satisfação e fechou as duas metades do mecanismo, formando o que aparentava ser a escultura metálica de um inseto, com seis patas articuladas e uma cabeça sem olhos. Esta última era guarnecida de uma probóscide de prata da espessura de uma agulha e coroada pelo suave movimento de um par de leves antenas de cobre.

Abençoado com mãos firmes, desviou-se para outro recanto da zona de trabalho e pegou com a pinça na asa anterior desarticulada de uma traça, pousada numa cama de seda branca. Levou a iridescente pétala ao feixe de halogénio da lâmpada de trabalho. As escamas de um verde prateado brilhavam, mal ocultando o delicado rendilhar da sua estrutura interna, característica do belo padrão da Actias luna, a borboleta lunar. Com uma envergadura total de asas de dez centímetros, era uma das maiores borboletas do mundo.

Com movimentos pacientes e astutos, fixou a frágil asa em minúsculos grampos, alinhados no tórax de cobre e prata da sua criação mecânica. Repetiu o mesmo com a outra asa anterior e mais duas asas posteriores. O mecanismo no interior do tórax continha centenas de engrenagens, rodas e molas, à espera para voltar a dar vida àquelas extraordinárias asas orgânicas.

Terminada a operação, os seus olhos demoraram-se em cada peça. Venerava a precisão das suas criações, o modo como cada peça se encaixava na outra, engrenadas num projeto maior. Durante anos, construíra relógios, precisando de ver o tempo medido num dispositivo, já que não era medido no seu próprio corpo. Desde então, desviara o seu interesse e engenho para a criação daqueles minúsculos autómatos – metade máquinas, metade criaturas vivas – condenados à eternidade segundo a sua vontade.

Normalmente, encontrava paz naquele trabalho minucioso, concentrando-se facilmente. Mas naquela noite, essa calma escapava-lhe. Nem mesmo o suave tilintar de uma fonte próxima conseguia sossegá-lo. O seu plano de séculos – tão intricado e delicado como qualquer dos seus mecanismos – estava em risco.

Enquando fazia uma pequena correção na sua última criação, a extremidade da pinça vacilou e rasgou a delicada asa anterior, espalhando iridescentes escamas esverdeadas sobre a seda branca. Proferiu uma praga que não era ouvida desde os dias da Roma antiga e largou a pinça no tampo de vidro da mesa.

Inspirou fundo, buscando de novo a paz.

Mas ela fugia-lhe.

Como se fosse de propósito, o telefone tocou na secretária.

Massajou as têmporas com os dedos, procurando alcançar calma a partir do exterior.

– Sì, Renate?

– O padre Leopold está lá em baixo na antecâmara, senhor.

O tom aborrecido da sua bela rececionista ecoou pelo altifalante. Ele resgatara-a de uma vida de escravidão sexual nas ruas da Turquia e ela retribuía-lhe com um serviço leal, embora indiferente. Em todos os anos que a conhecera, ela nunca expressara surpresa. Era um traço que ele apreciava.

– Faça-o subir.

Pondo-se de pé, esticou-se e caminhou até à fileira de janelas atrás da sua secretária. A sua empresa – a Argentum Corporation – detinha o arranha-céus mais alto de Roma e o seu gabinete ocupava o último piso. A penthouse contemplava a Cidade Eterna através de paredes de vidro à prova de bala. Sob os seus pés, o piso era de um mármore vermelho-violáceo, o pórfiro imperial, tão raro que se encontrava num único lugar do mundo, uma montanha egípcia a que os romanos chamaram Mons Porphyrites. Fora descoberto no tempo de vida de Cristo e tornara-se o mármore de reis, imperadores e deuses.

Cinquenta anos antes, ele desenhara e projetara aquele pináculo em conjunto com um arquiteto de renome mundial. Esse homem estava agora morto, evidentemente. Mas ele permanecia, inalterado.

Estudou o seu reflexo. No seu tempo de vida natural, marcas de um flagelo da infância tinham-lhe tomado o rosto, mas as imperfeições desapareceram quando enfrentou a maldição da eternidade. Agora, não se conseguia lembrar do lugar dessas marcas. Via apenas pele lisa e sem mácula, umas poucas rugas que nunca se adensavam em torno dos olhos cinzento-prateados, um rosto severo e anguloso, e uma massa de espesso cabelo grisalho.

Pensamentos amargos percorreram-no. Aquele rosto tivera muitos nomes ao longo dos séculos, vestira muitas identidades. Mas passados dois milénios, retornara àquele que a sua mãe lhe dera.

Judas Iscariotes.

Embora esse nome se tivesse tornado sinónimo de traição, ele percorrera o círculo completo desde a negação até à aceitação dessa verdade – sobretudo depois de descobrir o caminho para a sua própria redenção.

Séculos antes, descobrira finalmente porque Cristo o condenara à imortalidade.

Para que pudesse fazer o que tinha a fazer nos dias vindouros.

Assumindo essa responsabilidade, encostou a fronte ao vidro frio. Em tempos, tivera um administrador que tinha tanto medo de cair, que não se chegava a menos de dois metros das janelas.

Judas não tinha medo de cair. Ele caíra inúmeras vezes para o que deveria ter sido a sua morte.

Contemplou através do vidro a cidade lá em baixo, as resplandecentes ruas conhecidas pela sua decadência desde antes da era de Cristo. Roma sempre irradiara luz à noite, embora a intensa eletricidade branca tivesse há muito substituído o fogo quente e áureo de tochas e velas.

Se o seu plano resultasse, todas essas luzes se apagariam finalmente.

O brilho e o fogo eram características que os povos modernos achavam que lhes pertenciam, mas há muito que o homem iluminara o mundo também com a sua vontade. Por vezes, pelo progresso, outras por trivialidade.

Ali postado, recordou as festas fulgurantes a que assistira, séculos delas, e todos os frequentadores tão certos de terem atingido o auge do glamour. Com a sua aparência e riqueza, nunca lhe faltaram convites, nem companhia feminina, mas essas companhias exigiam frequentemente mais do que ele tinha para dar.

Vira tantas amantes envelhecerem e morrerem, extinguindo toda a esperança do amor eterno.

No final, nunca valera o preço a pagar.

Exceto uma vez.

Assistira a uma festa na Veneza medieval, onde uma mulher capturara o seu coração eterno e lhe mostrara que o amor valia qualquer preço. Olhou para as luzes coloridas da cidade lá em baixo, até se tornarem um borrão indistinto que o transportou para as suas memórias.

Judas deteve-se no limiar do salão de baile veneziano, deixando as cores rodopiarem diante dele. Vermelho-carmesim, dourados intensos, azuis que evocavam o mar ao entardecer, negros que devoravam a luz e o brilho pérola de ombros nus. Em nenhum outro lugar, as mulheres se vestiam tão vivamente e revelavam tanta pele como em Veneza.

O salão de baile parecia igual ao que fora cem anos antes. As únicas alterações eram os três novos quadros a óleo pendurados nas majestosas paredes. As pinturas retratavam membros austeros ou alegres daquela família veneziana, cada qual vestido com a elegância do seu tempo. Todos há muito falecidos. À sua direita, estava um retrato de Giuseppe, partido há trinta anos, o rosto imobilizado aos quarenta pelos óleos e talento de um pintor há muito falecido. Os olhos castanhos de Giuseppe, sempre prontos para a diversão, contrariavam a fronte rígida e postura fleumática. Judas conhecera-o bem, ou tão bem quanto era possível conhecer alguém em dez anos.

Era o tempo que Judas se permitia ficar numa cidade. Depois disso, as pessoas podiam perguntar-se porque não envelhecia. Um homem que não ganhava rugas nem morria seria apelidado de bruxo ou pior. Assim, viajava de norte a sul, de este a oeste, em círculos que se alargavam à medida que os limites da civilização se expandiam. Em algumas cidades, representava o solitário, noutras o artista, noutras ainda o errante. Vestia os papéis como capas. E cansava-se de todos eles.

As suas elegantes botas de cabedal preto cruzaram o soalho de madeira com um à-vontade estudado. Um criado mascarado surgiu com uma bandeja carregada de copos de vinho. Judas pegou num, recordando a excelência da adega do seu anfitrião de outra era. Bebeu um gole, deixando os aromas acariciarem-lhe a língua– felizmente, as caves de Giuseppe não tinham entrado em declínio com a sua morte. Judas esvaziou o copo e pegou noutro.

Na sua outra mão, escondida atrás das costas, o dedo apertava-se firmemente em torno de um minúsculo objeto negro.

Viera ali com um propósito maior que o baile.

Tinha vindo para fazer o luto.

Deslizou por entre os mascarados que dançavam enquanto se dirigia para a janela. O longo nariz da sua máscara retorcido para baixo como o bico de um corvo. O odor do couro bem trabalhado de que era feita invadia-lhe as narinas. Uma mulher passou por ele, a sua fragrância forte demorando-se no ar bem depois de ela e o seu acompanhante se terem afastado.

Judas conhecia aquelas danças e inúmeras outras. Mais tarde, depois de mais vinho, juntar-se-ia aos dançarinos. Escolheria uma jovem cortesã, talvez uma outra moura, se a conseguisse achar. Faria o seu melhor por se perder nesses passos familiares.

Cinquenta anos antes, na sua última passagem por Veneza, conheceu a mais encantadora mulher que alguma vez conhecera na sua longa vida. Também ela era moura – a pele morena, com uns luminosos olhos castanhos-escuros e tranças negras que lhe desciam pelos ombros nus até à cintura fina. Usava um vestido verde-esmeralda debruado a ouro, cingido na cintura como era moda, mas entre os seios, pendente de uma fina corrente dourada ao pescoço, repousava um fragmento de prata refulgente, como um pedaço de espelho partido, um adorno invulgar. Um aroma a flores de lótus, fragrância que não sentia desde a sua estadia no Oriente, pairava em redor dela.

Ele e a mulher misteriosa tinham dançado durante horas, nenhum deles necessitando de parceiro diferente. Quando ela falava, tinha um sotaque curioso que ele não conseguia localizar. Em breve esqueceu o sotaque, escutando apenas as suas palavras. Ela sabia mais do que qualquer outra que tivesse conhecido– história, filosofia e os mistérios do coração humano. A serenidade e a sabedoria habitavam a sua silhueta esguia, e ele queria captar a sua paz. Talvez através dela pudesse encontrar forma de recuperar os interesses comuns de homens mortais.

Depois do baile, naquela mesma janela, ela tirara a máscara para que ele lhe pudesse ver o resto do rosto e ele tirou a sua. Fitara-a num momento de silêncio mais íntimo do que alguma vez partilhara com alguém. Então, ela dera-lhe a sua máscara, desculpara-se e desaparecera por entre a multidão.

Só então se apercebeu de que não sabia o seu nome.

Ela nunca voltou. Durante mais de um ano, vasculhara Veneza à sua procura, pagara somas exorbitantes por informações incorretas. Era a neta de um doge. Era uma escrava do Oriente. Era uma judia que fugira do gueto por uma noite. Não era nenhuma delas.

Destroçado, fugira da cidade das máscaras e procurara esquecê-la nos braços de uma centena de diferentes mulheres– algumas de pele morena como mouras, outras de pele alva como a neve. Escutara milhares de histórias delas, favorecera algumas e abandonara outras. Nenhuma lhe tocara o coração e deixara-as a todas antes de se confrontar com a sua velhice e morte.

Mas, agora, voltava a Veneza para a banir dos seus pensamentos, cinquenta anos depois de dançar com ela por aquele soalho de madeira. Nesta altura, sabia-o, ela estaria provavelmente morta ou seria uma velha mulher encarquilhada e cega, há muito esquecida daquela noite mágica. Tudo o que ele próprio retinha dessa noite era a sua memória e a velha máscara de couro dela.

Revirava agora a máscara nas mãos. Negra e acetinada, era uma densa faixa lisa de couro, aberta na zona dos olhos, com uma pequena joia reluzente pregada no canto de cada olho. Um desenho ousado, a sua simplicidade destoando das elaboradas máscaras usadas pelas mulheres desse tempo.

Mas ela não precisara de mais adorno.

Ele regressara àquelas salas refulgentes para lançar a sua máscara ao canal naquela noite e expulsar esse fantasma para a biblioteca do seu passado. Apertando o velho couro, olhou pela janela aberta. Lá em baixo, um gondoleiro impelia a sua esguia embarcação pela água escura, a ondulação tornada prata pela luz do luar.

Pelas margens do canal, figuras apressavam-se, cruzando o pavimento de pedra ou atravessando as pontes. Pessoas em misteriosas demandas. Pessoas em demandas banais. Ele não sabia, não queria saber. Como tudo o mais, cansava-o. Por um único momento, acreditara que podia encontrar uma ligação, até que ela partiu.

Agora, relutante em separar-se dela, acariciou a máscara com o indicador. Repousara no fundo do seu baú durante anos, envolta na mais fina seda. De início, conseguira sentir a fragrância das flores de lótus, mas até isso se dissipara. Levou a máscara às narinas e aspirou – uma última vez – esperando inalar os odores do couro envelhecido e do cedro do baú.

Mas em vez disso, brotou dela o aroma a flores de lótus.

Voltou a cabeça, receoso de olhar, o movimento tão lento que não perturbaria nem mesmo um tímido pássaro. Sentia o coração martelar-lhe aos ouvidos, tão alto que achou que o som atrairia todos os olhares para si.

Ela estava diante dele, sem máscara e inalterada, o seu sorriso sereno igual ao de meio século antes. A máscara deslizou-lhe dos dedos para o chão. A sua respiração ficou suspensa na garganta. Os dançarinos rodopiavam em volta, mas ele permanecia imóvel.

Não podia ser.

Seria a filha daquela mesma mulher?

Descartou a possibilidade.

Não com tamanha semelhança.

Um pensamento mais sombrio insinuou-se. Tinha conhecimento das bestas ímpias que partilhavam a sua marcha pelo tempo, tão imortais quanto ele, mas com um cobarde desejo de sangue e loucura.

De novo, baniu a hipótese da sua mente.

Nunca esquecera o calor do seu corpo através do vestido de veludo quando dançou com ela.

Então, o que era ela? Amaldiçoada como ele? Imortal?

Milhares de questões dançavam na sua mente, por fim substituídas pela única que importava verdadeiramente, a questão que não colocara cinquenta anos antes.

– Qual é o seu nome? – sussurrou, receoso de quebrar o momento em estilhaços como aquele que ela carregava ao pescoço esguio.

– Esta noite é Anna. – A sua voz soou com o mesmo sotaque estranho.

– Mas não é o seu verdadeiro nome. Não o quer partilhar comigo?

– Se quiser.

Os seus luminosos olhos castanhos observaram longamente os dele, não seduzindo, mas avaliando o seu mérito. Lentamente, ele inclinou a cabeça em sinal de acordo, rezando para que ela o achasse digno.

– Arella – disse ela num tom sussurrado.

Ele repetiu-lhe o nome, reproduzindo a entoação sílaba a sílaba.

– Arella.

Ela sorriu. Provavelmente, não ouvia o seu nome dito em voz alta por outro há muitas vidas mortais. Os seus olhos procuraram os dele, exigindo o preço prometido pela revelação do seu nome verdadeiro.

Pela primeira vez, em mil anos, ele disse-o em voz alta, também.

– Judas.

– O filho amaldiçoado de Simão Iscariotes – concluiu ela, não parecendo surpreendida e esboçando um leve sorriso.

Estendeu-lhe uma mão.

– Quer dançar?

Com os segredos revelados, começara a sua relação.

Mas esses segredos escondiam outros, mais profundos e mais sombrios.

Segredos sem fim, a condizer com as suas vidas eternas.

As enormes portas abriram-se de rompante atrás dele, refletidas na janela, transportando-o da Veneza antiga para a Roma moderna. Judas martelou os dedos no frio vidro à prova de bala, perguntando-se o que os vidreiros venezianos dos tempos medievais pensariam daquilo.

No reflexo, viu Renate emoldurada pelo umbral. Vestia um fato formal tom de amora e um top de seda castanha. Embora tivesse passado de mulher jovem a madura ao seu serviço, achava-a atraente. Percebeu, subitamente, que era por lhe fazer lembrar Arella. A sua rececionista tinha a mesma pele morena e olhos escuros, a mesma calma.

Como não o percebi antes?

O monge louro entrou na sala atrás dela, exibindo um rosto bem mais jovem do que os seus anos. Nervoso, o sanguinista beliscou a haste dos seus pequenos óculos. A sua face redonda denotava traços de preocupação que pareciam deslocados em alguém de aparência tão jovem, traindo as décadas escondidas por detrás da pele macia.

Renate saiu e fechou a porta silenciosamente.

Judas gesticulou para que avançasse.

– Vem, irmão Leopold.

O monge lambeu os lábios, alisou o tecido da sua humilde túnica castanha com capuz e obedeceu. Passou a fonte e deteve-se diante da imponente secretária. Sabia bem que não devia sentar-se sem ser convidado.

– Conforme as suas instruções, apanhei o primeiro comboio vindo da Alemanha, Damnatus.

Leopold inclinou a cabeça, usando o antigo título que assinalava o passado de Judas. O latim traduzia-se vagamente como o condenado, o desventurado, o amaldiçoado. Embora outros pudessem tomar o título como um insulto, Judas usava-o com orgulho.

Fora Cristo quem lho dera.

Judas moveu uma cadeira atrás da secretária, voltando ao seu espaço de trabalho, e sentou-se. Manteve o monge à espera, enquanto focava de novo a atenção no projeto anterior. Com destreza e perícia, desprendeu a asa anterior que rasgara antes e deixou-a cair ao chão. Abriu a sua gaveta de espécimes e retirou outra Actias luna. Separou-lhe a asa anterior e usou-a para substituir a que tinha danificado, devolvendo à sua criação a mais absoluta perfeição.

Agora, tinha de reparar outra coisa arruinada.

– Tenho uma nova missão para ti, irmão Leopold.

O monge permanecia em silêncio à sua frente, com a quietude que só os sanguinistas conseguiam alcançar.

– Sim?

– Pelo que me é dado entender, a tua ordem está segura de que o padre Korza é o profetizado Cavaleiro de Cristo e esse soldado americano, Jordan Stone, é o Homem Guerreiro. Mas permanecem dúvidas quanto à identidade da terceira figura mencionada na profecia do Evangelho de Sangue. A Mulher Sábia. Devo entender que não é a professora Erin Granger, como se suspeitou inicialmente durante a busca pelo Evangelho perdido de Cristo?

Leopold baixou a cabeça, em desculpa.

– Ouvi tais dúvidas e penso serem legítimas.

– Se assim for, é preciso encontrar a verdadeira Mulher Sábia.

– Será feito.

Judas retirou uma lâmina de prata de outra gaveta e golpeou a ponta do seu dedo. Segurou-o sobre o inseto que construíra de metal e asas delicadas. Uma única e brilhante gota de sangue caiu sobre o dorso da sua criação, infiltrando-se por orifícios ao longo do tórax e desaparecendo.

O monge recuou.

– Receias o meu sangue.

Todos os strigoi o receavam.

Séculos antes, Judas aprendera que uma simples gota do seu sangue era fatal para qualquer uma dessas criaturas malditas, mesmo para os poucos que se tinham convertido ao serviço da Igreja como sanguinistas.

– O sangue encerra um grande poder, não é verdade, irmão Leopold?

– É verdade.

Os olhos do monge vacilavam inquietos. Devia ser perturbador para ele estar tão perto de algo que podia pôr termo à sua vida imortal.

Judas invejava-lhe esse medo. Condenado por Cristo à imortalidade, teria sacrificado muito para ter a escolha de morrer.

– Porque não me disseste, então, que essa trindade está agora ligada pelo sangue?

Judas fez deslizar dedos cuidadosos por baixo da sua criação. Esta ganhou vida na palma da sua mão, alimentada pelo seu próprio sangue. O zunir de minúsculas engrenagens vibrou, quase impercetível sob o gotejar da fonte. As asas ergueram-se e uniram-se sobre o dorso, e depois abriram-se na sua plenitude.

O monge estremeceu.

– Uma tão bela criatura da noite, a singela traça – disse Judas.

O autómato bateu as asas e elevou-se da palma da sua mão. Lentamente, circundou a mesa, as suas asas captando cada partícula de luz e irradiando-a de volta a cada batimento.

Leopold seguiu-lhe o curso, desejando claramente fugir, mas sabendo que não o devia fazer.

Judas ergueu a mão e a traça voltou, pousando na ponta do seu dedo estendido. As suas patas de metal eram leves como fio de aranha na sua pele.

– Tão delicada, porém imensamente poderosa.

Os olhos do monge mantinham-se fixos nas asas reluzentes, a sua voz trémula.

– Lamento. Não achei que tivesse importância que Rhun bebesse da arqueóloga. Achei... achei que ela não era a verdadeira Mulher Sábia.

– Contudo, o seu sangue corre pelas veias de Rhun Korza e, graças à tua imprudente transfusão, o sangue do sargento Jordan corre pelas veias dela. Não achas curioso tal acaso? Talvez mesmo significativo?

Obedecendo à vontade do seu criador, a traça ergueu-se de novo do dedo de Judas e esvoaçou pelo gabinete. Dançou pelas correntes de ar, tal como Judas dançara, outrora, pelos salões de baile do mundo.

O monge engoliu o seu terror.

– Talvez – prosseguiu Judas. – Talvez essa arqueóloga seja a Mulher Sábia, afinal.

– Lamento...

A traça desceu do ar e pousou no ombro esquerdo do monge, as suas minúsculas patas agarrando-se ao tecido grosseiro do seu hábito.

– Tentei matá-la esta noite. – Judas brincava com as pequenas engrenagens na sua mesa. – Com um blasphemare felino. Achas que uma simples mulher conseguiria escapar a tal besta?

– Não vejo como.

– Nem eu.

À mínima provocação, a traça trespassaria o monge com a sua probóscide afiada, libertando uma única gota de sangue e matando-o instantaneamente.

– Contudo, ela sobreviveu – concluiu Judas. – E está agora reunida com o Guerreiro, embora não ainda com o Cavaleiro. Sabes porque ainda não se reuniram com o padre Rhun Korza?

– Não.

O monge baixou os olhos para o seu rosário. Se morresse agora, em pecado e não em batalha sagrada, a sua alma ficaria amaldiçoada para toda a eternidade. Ele devia estar a pensar o mesmo.

Judas concedeu-lhe mais um instante para ponderar, depois explicou.

– Porque Rhun Korza está desaparecido.

– Desaparecido? – Pela primeira vez, o monge pareceu surpreendido.

– Poucos dias depois de Korza se ter alimentado dela, ele desapareceu de vista da Igreja. E de todos os outros.

As asas da traça estremeceram à passagem do ar.

– Agora, cadáveres juncam as ruas de Roma, enquanto um monstro ousa atacar nos limites da própria Cidade Sagrada. Não é nenhum strigoi sob o meu controlo ou sob o controlo deles. Eles receiam que seja o seu precioso Rhun Korza, retornado a um estado selvático.

O irmão Leopold olhou-o nos olhos.

– O que quer que eu faça? Que o mate?

– Como se pudesses... Não, meu caro irmão, essa missão caberá a outro. A tua missão é vigiar e informar. E não voltes a omitir-me nenhum detalhe.

Ergueu a mão e a traça levantou voo do ombro do monge e retornou à palma da mão estendida do seu criador.

– Se me falhares, falharás a Cristo.

O irmão Leopold fitou-o, os seus olhos expressando alívio e exultação.

– Não voltarei a falhar.