Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 42 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 40

 

 

20 de dezembro, 06h07, CET

Próximo de Nápoles, Itália

Elizabeth abraçava Tommy ao seu lado, sentindo-o estremecer a intervalos, provavelmente ainda visualizando o fogo e as explosões. Ela nunca presenciara tal batalha: dois adversários voando como falcões, o fumo sibilando para fora de canhões impossíveis na proa, estrondos que abalavam o próprio ar. O combate extasiara-a, impressionara-a, mas aterrorizara o rapaz.

Ele encostou-se ao ombro dela, procurando conforto.

Recordou o outro veículo a explodir e rolar sobre o mar, afundando-se como um navio naufragado. Imaginou Rhun desfeito em pedaços, mas estranhamente não achou satisfação nessa visão, apenas desilusão.

Ele devia ter morrido às minhas mãos.

Também não podia negar uma sensação de vazio pela sua perda. Explorava agora esse vazio, sabendo que não era dor, pelo menos não inteiramente. Era mais uma sensação de que o mundo era estéril sem ele. Rhun sempre preenchera a sua vida, mesmo no castelo, antes de ela ser convertida – com as suas frequentes visitas, as suas longas conversas, os seus longos silêncios fecundos. Depois daquela noite sangrenta, ele continuou a defini-la, tendo gerado a sua nova existência. E, desde então, sempre atormentara a sua sombra – até naquele mundo moderno.

Agora, ele tinha simplesmente desaparecido.

– Estamos quase lá – anunciou Iscariotes, gesticulando para o ecrã diante deles.

Ela concentrou a atenção em frente. O ecrã mostrava uma linha de costa escura, semeada de luzes brilhantes. Mais longe, a leste, notou que os céus começavam a empalidecer com a aproximação da madrugada. Ela sentia esse aproximar na lassitude que a oprimia, fazendo-a sentir-se mole.

O aparelho desviou-se subitamente da massa de luzes que assinalava a cidade de Nápoles. Virou em direção a uma extensão de costa sombria, encimada por um monte elevado, com uma esguia praia de areia na base. A crista do monte era escavada, assinalando-o como um dos muitos velhos vulcões que pontilhavam aquela região do sul da Itália, mas há muito que as suas encostas se tinham coberto de floresta densa, abrigando lagos profundos.

– Onde estamos? – perguntou Tommy, movendo-se ao seu lado.

– Cumas – respondeu Elizabeth, fitando Iscariotes para lá da cabeça do rapaz.

– Vamos visitar um velho amigo – acrescentou Iscariotes, ambiguamente.

Elizabeth tinha pouco interesse em alguém que Iscariotes considerasse amigo.

À medida que o aparelho se aproximava da costa, deslizou baixo sobre a praia de areia, agitando os grãos numa nuvem. Desceram de volta ao solo, com a areia a erguer-se em seu redor.

Sentiu Tommy retesar-se nos seus braços. Ele devia saber que o destino estava próximo, receando-o visivelmente. Ela recordou as instruções de Iscariotes, de que devia manter o rapaz calmo, ocupar-se dele.

Fortaleceu o seu abraço em torno dos magros ombros do rapaz – não porque fosse o seu dever, mas porque ele precisava desse consolo.

Por fim, o aparelho embateu no solo. A areia desceu e aquietou-se, descerrando a vista sobre o oceano de um lado e a encosta íngreme, do outro.

Iscariotes abriu a sua porta, deixando entrar o odor a sal e a óleo queimado.

Saíram todos.

Quando os pés de Elizabeth tocaram a areia, um outro odor impressionou-lhe os sentidos apurados.

Um bafo a enxofre.

Encarou os penhascos costeiros daquele antigo vulcão, sabendo o que se escondia bem nas suas profundezas, guardado por uma provecta sibila.

A entrada para o Hades.

Ao lado dela, Tommy olhava, entorpecido, para lá do mar obscuro, provavelmente imaginando as mortes atrás ocorridas e interrogando-se sobre o seu próprio destino. Ela pegou-lhe na mão e apertou-lhe os dedos de forma tranquilizadora. Desempenharia o seu papel conforme ordenado, até poder escapar.

Quando Elizabeth voltou o seu próprio olhar para além daquelas águas desabitadas, foi de novo atingida pelo vazio da perda. E não apenas de Rhun. Pensou nos seus bens, nos seus filhos, na sua família. Tudo desaparecido.

Estou só neste mundo.

Tommy encostou-se a ela. Ela apertou-o, por sua vez. Ele fitou-a, o luar refletido nos seus olhos, um olhar repleto de medo, mas também de gratidão por ela estar presente.

Ele precisava dela.

E eu preciso de ti, percebeu ela, repentinamente.

Iscariotes juntou-se a eles, avançando por entre um esvoaçar de asas cor de esmeralda, as traças libertadas de um porão na lateral da aeronave. Ela recusou deixar-se intimidar pela ameaça implícita e manteve a postura altiva.

– Está na hora – disse e agarrou os ombros de Tommy.

Voltou o rapaz para encarar os penhascos – e o seu destino.

 

06h12

Erin segurava a cabeça pesada de Christian no seu colo, enquanto Jordan conduzia lentamente o barco adernado em direção à obscura doca da plataforma petrolífera. Estavam os três sozinhos no barco. Rhun e Bernard tinham deslizado para dentro de água, a cerca de cem metros de distância, nadando até à doca. De longe, ela vira um breve tumulto entre sombras, um grito estrangulado – depois, Rhun fizera sinais de luz indicando que era seguro prosseguir até à doca.

Jordan impeliu o barco para diante.

Os dois sanguinistas tinham deixado claro que ela e Jordan deveriam manter-se afastados até o caminho estar desimpedido. Os sentidos apurados de Rhun e Bernard detetariam e eliminariam quaisquer ameaças.

– Mantém-te em baixo – avisou Jordan, quando penetraram na sombra da plataforma em cima. Ele tinha uma mão no volante, a outra numa espingarda, a arma largada por um dos homens que Bernard eliminara antes. Ela baixou a cabeça sobre Christian, observando Jordan.

Os olhos de Jordan vigiavam cada tirante e passadiço em cima, claramente não confiando por completo nos sanguinistas para garantir a sua segurança. A imponência da maciça estrutura parecia pesar sobre eles. Bem no alto, brilhavam luzes elétricas, mas a área inferior estava em grande parte mergulhada na escuridão, um mundo sombrio de pilares de betão, escadas de aço e um labirinto de rampas e pontes.

O Zodiac ultrapassou lentamente o vulto de um imenso hidrofólio de luxo, atracado num ancoradouro vizinho.

Jordan examinou-o atentamente – e talvez com alguma inveja.

– O tipo trata-se bem – murmurou, numa débil tentativa de leviandade.

Ela esboçou um breve sorriso, para lhe mostrar que tinha apreciado o gesto. Ele vigiou atentamente por mais uns longos minutos, depois fez-lhe sinal para se levantar.

Erin endireitou-se. Soube-lhe bem o vento salgado contra o rosto.

Jordan saltou para fora, colocando a arma ao ombro e amarrando rapidamente o barco. Depois acocorou-se junto dela no barco. Deviam aguardar pelo regresso de Rhun e Bernard.

Não demorou muito.

Uma sombra desprendeu-se de cima e aterrou silenciosamente no piso de aço da doca. Rhun juntou-se a eles, seguido instantes mais tarde por Bernard. Ambos tinham facas desembainhadas e sangrentas. Erin perguntou-se quantos homens teriam matado nessa noite.

Bernard guardou a sua lâmina e ajudou Erin a içar rapidamente Christian para fora do barco, e depois o cardeal carregou o corpo sozinho.

– O caminho até lá acima deve estar desimpedido – disse Rhun. – Mas temos de estar atentos ao chegarmos à estrutura no topo.

Conduziu-os a uma longa escada de metal, espiralada em torno de um pilar de betão próximo, em direção à plataforma lá em cima. Uma vez nas escadas, Rhun passou a Jordan uma pistola automática. Devia tê-la confiscado a um dos guardas.

Jordan voltou a colocar a espingarda ao ombro e empunhou a arma mais ágil.

– Não dispare a menos que seja necessário – aconselhou Rhun. – A minha lâmina é mais silenciosa.

Ele assentiu, como se falassem de tacos de golfe.

Enquanto subiam cada vez mais alto, Erin concentrava-se em agarrar firmemente o frio e escorregadio corrimão de metal. Os ventos atacavam-na com rajadas súbitas. Deparou-se com um patamar manchado de sangue e contornou cuidadosamente a mácula, procurando não imaginar a carnificina.

À sua frente, as botas de Jordan subiam com mais confiança. Atrás dela, o cardeal não parecia ter dificuldade em trepar, carregando Christian ao ombro.

Rhun desaparecera de novo mais adiante, mas a sua presença era evidente. Ela ouviu um baque surdo, algures acima da sua cabeça. Momentos depois, chegaram ao topo das serpenteantes escadas. As luzes elétricas pareciam demasiado intensas e gélidas, depois das sombras lá em baixo.

Rhun estava sobre o corpo de mais um guarda.

Jordan reuniu-se a ele, agachado, de pistola em riste.

Erin acotovelava-se com Bernard no topo das escadas, enquanto os outros dois faziam uma rápida prospeção da área imediata. Àquela altura, os ventos esmagavam-se contra ela, chicoteando-lhe o cabelo, mordendo-lhe o blusão de pele.

Por fim, Rhun e Jordan voltaram.

– O lugar está deserto – disse Jordan. – Devem manter aqui apenas um mínimo de pessoal.

Rhun apontou a superestrutura no alto.

– Há ali uma porta.

Cruzaram rapidamente, em grupo, o espaço aberto. A estrutura diante deles parecia uma réplica de um castelo de proa de veleiro antigo, com as suas janelas altas, cordames falsos e até mesmo o gurupés com uma figura de proa. Assemelhava-se a um navio irrompendo de um mar de aço.

Rhun conduziu-os a uma porta. Abriu-a com um rangido, revelando um longo corredor. Apressou-os a transpor o limiar, fechando a porta atrás de si, mas reteve-os à entrada.

Ergueu uma mão e trocou um olhar significativo com Bernard. Erin conjeturou que deviam ter ouvido algo, possivelmente um batimento cardíaco ou algum sinal de vida. Com um acenar de cabeça de Bernard, Rhun precipitou-se para diante como um cão solto sobre uma raposa. Desapareceu nas sombras. Ao longe, uma porta fechou-se com força, acompanhada de um estrondo do que pareciam ser tachos e panelas.

Rhun regressou um momento depois, deslizando da escuridão e fazendo-lhes sinal para avançarem.

Jordan olhou Rhun intensamente.

– Um cozinheiro. – Rhun ergueu o braço, revelando uma esverdeada garrafa de vinho. – E encontrei isto.

Bernard tomou-o rapidamente.

Erin sabia que o vinho podia ser consagrado e usado para ajudar Christian a sarar. Esperou que fosse suficiente.

– Não ouço mais nada – disse Rhun. – Nem um arrastar de pés, respirar ou pulsar.

Bernard concordou.

– Acho que estamos sozinhos.

– De qualquer forma, é melhor termos cuidado – alertou Jordan.

Enquanto avançavam pelo corredor, Erin percebeu o significado da ausência de qualquer presença viva.

– Isso significa que o Tommy não está aqui?

Ou Iscariotes ou Elizabeth.

Recordou o helicóptero que os atacara.

Estariam eles a bordo? Se sim, para onde se dirigiam?

– Temos de procurar minuciosamente, para termos a certeza – observou Rhun. – E se não estiverem aqui, temos de tentar descobrir para onde foram.

– E porque Judas arrebatou o Primeiro Anjo, antes de mais – acrescentou Bernard, ajustando o peso de Christian no seu ombro. – Em que é que o rapaz faz parte do seu plano?

O plano do Armagedão, recordou-se Erin.

A passagem terminava num imenso salão, delineado por estantes de livros de ambos os lados, com janelas arqueadas sobre o mar lá em baixo. Uma impressionante roda de leme erguia-se diante das janelas. Pelos expositores contendo antigos objetos náuticos, parecia um museu.

Rhun cruzou o espaço até à enorme lareira disposta entre as estantes, estendendo a mão.

– Ainda está quente.

– O chefe saiu claramente à pressa – comentou Jordan. – Devia estar naquele outro helicóptero.

Mas porquê?

– Vou tratar do Christian aqui – disse Bernard, carregando o corpo para junto da lareira e depositando-o num sofá. – Vejam o que conseguem descobrir.

Erin já estava em movimento, vislumbrando um par de portas de elevador à direita, emolduradas por um ornado gradeamento de bronze. Outras portas fechadas alinhavam-se pelas paredes, provavelmente conduzindo a um labirinto de quartos e corredores. Ignorando-as, avançou até à roda do leme. Esta marcava o posto simbólico do capitão daquele navio encerrado em aço. As altaneiras janelas ofereciam uma vista dominante sobre o mar, viradas a leste, na direção da costa distante, onde as estrelas tinham começado a desvanecer-se com a aproximação do novo dia.

Sentindo o tempo a esgotar-se, olhou para a direita, para a porta mais próxima. Talvez o capitão conservasse os seus espaços mais valiosos perto do seu posto de comando.

Dirigiu-se a essa porta e encontrou-a trancada.

Jordan notou a sua frustração, enquanto lutava para a abrir.

– Com licença – disse Jordan. – Eu tenho uma chave.

Ela voltou-se para ele. Como...?

Ele baixou a espingarda, apontou à fechadura e disparou.

A detonação fê-la saltar, mas o resultado arrancou-lhe um sorriso. A fechadura foi rebentada, deixando um buraco na porta.

Abriu-a facilmente, revelando um escritório privado forrado a lambris de nogueira num requintado estilo vitoriano, com um mural botânico intricadamente pintado na parede, representando realistas flores, folhas e tortuosas trepadeiras, misturadas com borboletas e abelhas. Parecia menos decorativo do que educativo, como algo que se encontraria num texto renascentista sobre Botânica.

Erin foi direta à imensa secretária, uma peça sólida com pernas trabalhadas e um tampo de couro juncado de papéis.

Jordan seguiu-a.

Rhun aproximou-se do limiar, atraído pela comoção.

– Cuidado – avisou ele. – Não sabemos...

Subitamente, as delicadas pinturas na parede ganharam vida. As folhas desprenderam-se dos ramos, as flores libertaram-se girando dos caules, uma dispersão de borboletas e abelhas saiu da parede.

Todo o motivo era uma colagem mortal.

Encheu o ar num atordoante caleidoscópio de movimento e cor.

E investiu sobre Rhun.