Sangue Inocente
Capítulo 29
19 de dezembro, 22h11, CET
Cumas, Itália
Leopold encontrava-se nas margens de um lago azul no sul de Itália, com o luar a refletir-se nas águas tranquilas. Inspirou fundo, preparando-se para o que teria de vir. Notou os vestígios de enxofre no ar, o odor demasiado ténue para ser detetado por sentidos mortais, mas ainda presente, revelando a natureza vulcânica do lago Averno. Densa vegetação erguia-se ao longo das margens íngremes da antiga cratera. Do outro lado da água, a dispersão de luzes assinalava herdades e quintas distantes e, bem mais ao longe, a cidade de Nápoles cintilava no horizonte.
No passado, o lago fumegara intensamente de gases vulcânicos, de tal forma que as aves que passassem por cima cairiam dos céus. O próprio nome avernus significava sem aves. Os antigos romanos acreditavam que a entrada para o Inferno se encontrava perto daquele lago.
Como estavam certos...
Examinou as imperturbadas águas de anil, imaginando aquele lugar tranquilo nascido do fogo, criado de lava explodida aos céus, queimando a terra, matando qualquer criatura que rastejasse, caminhasse ou voasse. Agora, tornara-se um vale sossegado, oferecendo abrigo a aves, peixes, veados e coelhos. Os pinheiros e arbustos em redor abundavam de nova vida.
Tomou a lição a peito.
Por vezes, o fogo era necessário para purgar, para garantir uma paz duradoura.
Essa era a esperança de Leopold: trazer a salvação ao mundo através do fogo do Armagedão.
Fitou o lago, interrompendo a sua tarefa de agradecimento a Deus por poupar a vida daqueles que seguiam no comboio. Ligara ao Damnatus, depois de ver o seu próprio caixão em Castel Gandolfo, ficando a saber que os outros tinham sobrevivido e que o Damnatus fizera um pacto com o monge russo para os emboscar em Estocolmo.
Resolvido a fazer o que tinha de ser feito, virou costas ao lago. As suas sandálias de couro roçavam o solo vulcânico avermelhado, enquanto ele seguia o caminho que conduzia à Grotta di Cocceio. Era um antigo túnel romano, de um quilómetro de comprimento, construído antes do nascimento de Cristo, estendendo-se desde o lago até às ruínas da antiga Cumas, no lado distante da vertente da cratera. Danificado durante a Segunda Guerra Mundial, o túnel fora fechado ao público, sendo agora um local perfeito para ocultar segredos.
Leopold alcançou a entrada, uma arcada de pedra escura selada por um portão de ferro.
Exigiu-lhe pouca força arrombar a fechadura e penetrar no interior. Uma vez lá dentro, teve de rastejar e atravessar uma desolada paisagem rochosa, até chegar ao túnel principal. Com o caminho agora desimpedido, apressou-se pela escuridão, não se dando ao trabalho de dissimular a sua velocidade sobrenatural. Ninguém o veria ali.
Os seus passos abrandaram quando se aproximou do extremo oposto, onde o túnel abria para um complexo de ruínas no exterior da cratera. Saiu para a brisa fresca do mar vizinho. Mais acima, empoleirado na crista do vale, erguia-se um templo a Apolo, um antigo emaranhado de pilares partidos, anfiteatros de pedra destruídos e fundações esboroadas de estruturas há muito desaparecidas. Mas não era esse o seu destino. À saída do túnel, virou à direita, mergulhando num outro túnel. A passagem aqui fora aberta na rocha ocre, escavada em forma trapezoidal, estreita na base com as paredes a inclinar para fora.
Era a entrada da gruta da Sibila de Cumas, a intemporal profetisa mencionada por Virgílio, cuja imagem estava pintada na Capela Sistina, assinalando-a como um dos cinco áugures que previram o nascimento de Cristo.
Leopold recebera instruções precisas sobre o que tinha de fazer a partir dali. Por essa altura, o Damnatus já devia ter capturado o Primeiro Anjo. Leopold devia fazer o mesmo com o outro. Um arrepio percorreu-lhe a pele fria, quase o levando a retroceder.
Como posso ousar atacar tal outro?
Mas recordou o lago Averno, onde a paz e a graça tinham nascido do fogo e do enxofre. Ele não podia falhar quando o objetivo estava tão próximo.
A passagem estendia-se uma centena de metros pelas profundezas abaixo da cratera. Segundo Virgílio, o caminho para a sibila era cêntuplo, aludindo ao labirinto enterrado sob aquelas ruínas. O que era visível aos turistas era uma ínfima fração do verdadeiro covil da profetisa.
No entanto, chegou ao fundo do túnel e arrastou-se pelo que era considerado o santuário privado da sibila. Estacando no limiar, examinou as arcadas esculpidas e os bancos de pedra vazios. Outrora fora grandioso, cheio de frescos e flores. Belas ofertas teriam coberto as paredes. Botões teriam exalado a sua fragrância pelo ar subterrâneo. Frutos teriam amadurecido e apodrecido ali.
Do lado oposto, erguia-se o trono entalhado, um simples assento de pedra.
Visualizou a Sibila de Cumas a entoar ali as suas profecias, imaginando o agitar de folhas que se dizia acompanhar tais predições, folhas em que ela registava as suas visões do futuro.
Apesar dos relatos antigos, Leopold sabia que o verdadeiro poder não residia naquele espaço, mas bastante mais fundo. A sibila escolhera aquele lugar por causa do que se escondia no coração da sua cova, algo que ela protegia do mundo em geral.
Antes que perdesse a coragem, apressou-se a atravessar a sala até ao trono, até à arcada por detrás dele. Abeirando-se da parede do fundo, estudou o padrão das pedras aí dispostas. Seguindo as diretrizes transmitidas pelo Damnatus, pressionou para dentro uma série de pedras, formando o símbolo grosseiro de uma taça, o antigo ícone que representava aquela sibila.
Quando empurrou a última pedra, ouviu um estalar e desenharam-se linhas escuras, libertando poeira e assinalando uma porta. Sabia que existiam outros acessos secretos ao labirinto profundo, mas o Damnatus tinha deixado claro que ele tinha de se dirigir a ela por aquela via. O Damnatus conhecia-a de uma outra vida, aprendera sobre aquele santuário. Ao longo dos séculos, ele seguira-lhe os passos pela Terra, sabia que ela residia aí agora, provavelmente aguardando-os.
Leopold empurrou a porta, abrindo-a com um raspar de pedra, mas permaneceu no limiar. Não ousava entrar no domínio dela sem permissão. Recuou até diante do trono e ajoelhou-se.
Sacou de uma faca e golpeou o pulso.
Sangue escuro brotou para fora, deixando transparecer a bênção de Cristo.
– Ouvi a minha prece, ó Sibila! – entoou. – É chegada a hora de a vossa profecia final se tornar realidade.
Esperou, de joelhos, pelo que lhe pareceram horas, mas foram provavelmente minutos.
Por fim, ao seu ouvido apurado, chegou o som abafado de pés descalços sobre a pedra.
Olhou para lá do trono, para o limiar escurecido.
Um pedaço de sombra dissolveu-se, tornando-se visível, revelando a bela perfeição de uma mulher de pele escura. Envergava uma simples túnica de linho. As únicas peças de adorno eram uma pulseira de ouro na parte superior do braço e um fragmento de prata, pendente de uma corrente áurea. Não que precisasse de tais acessórios. A beleza escura da mulher cativou toda a sua imaginação, instigando mesmo pensamentos pecaminosos. Como podia um homem resistir-lhe? Ela era mãe, amante, filha, a encarnação absoluta da natureza da mulher.
Mas não era nenhuma mulher.
Ele não lhe ouviu o pulsar do coração, quando ela se aproximou e se sentou no trono.
Ela era algo bem mais grandioso.
Baixou o rosto perante tal beleza.
– Perdoai-me, ó Divina.
Ele sabia o seu nome – Arella –, mas não ousava proferi-lo, sentindo-se indigno.
– O meu perdão não aliviará os teus fardos – disse ela, suavemente. – Tens de te despir deles por tua própria vontade.
– Sabeis que não o posso fazer.
– E ele enviou-te em seu lugar, incapaz de vir ele próprio.
Ele ergueu o rosto, reconhecendo a profundeza da mágoa nos seus olhos.
– Lamento, abençoada Senhora.
Ela riu docemente, um simples som que prometia ventura e paz.
– Estou além das tuas bênçãos, padre. Estarás tu além das minhas? Ainda podes pôr de parte essa missão de que ele te incumbiu. Não é tarde demais.
– Não posso. Do fogo surgirá a paz duradoura.
Ela suspirou, como que repreendendo uma criança.
– Do fogo surge apenas a ruína. Só o amor pode trazer a paz. Não o aprendeste Daquele que abençoa o próprio sangue que derramaste à minha entrada?
– Tudo o que procuramos é trazer o Seu amor de volta a este mundo.
– Destruindo-o?
Ele permaneceu em silêncio, resoluto.
O Damnatus incumbira-o daquela missão – e de uma outra. Sentiu o peso da pedra esmeralda no bolso interior da sua veste. Teria de esperar. Antes de mais, tinha de concluir o primeiro dever, por muito que lhe custasse.
Encarou a sibila.
Ela terá lido a sua inabalável determinação. Com um olhar de profunda tristeza, limitou-se a estender os pulsos.
– Então, que se inicie. Não interferirei. As crianças devem cometer os seus próprios erros. Mesmo tu.
Odiando-se, Leopold levantou-se e atou-lhe os pulsos com suaves tiras de couro. Ao contrário dele, ela não possuía força sobrenatural para resistir, para lutar. A fragrância de botões de lótus desprendeu-se da sua pele, enquanto se pôs delicadamente de pé. Ele segurou a tira ligada às suas mãos atadas e guiou-a, as pernas tremendo-lhe da impertinência, de volta ao limiar obscurecido.
Quando o transpôs à frente dela, um manto de enxofre e vapores sulfúreos varreu o suave aroma do lótus. Impedindo-se de o engolir, desceu para a escuridão, rumo a um destino de fogo e caos.