Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 44 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 42

 

20 de dezembro, 06h48, CET

Cumas, Itália

Tommy estacou no limiar do obscuro túnel na face do penhasco, recusando-se a entrar. O ténue fedor a ovos apodrecidos emanava da escuridão, como um mau hálito. Atrás de si, estendia-se a macia e melíflua areia da praia. Lá no alto, o céu estava escuro, cintilando de estrelas e umas poucas nuvens levemente argênteas, aclarado com a promessa da manhã.

Um vento frio penetrava-lhe o cabelo, mas não conseguia dissimular o odor do sal e das algas do mar.

Não quero entrar aí.

Uma traça alada cor de esmeralda estava pousada num dos brutamontes, tremulando as asas na sua direção. Elizabeth estava junto aos seus ombros, de olhos postos noutras traças vogando ao vento, os seus movimentos delicados dissimulando a ameaça.

Um dos homens de confiança de Iscariotes dobrou o vulto, ultrapassando Tommy, e entrou no túnel, acendendo uma lanterna. Paredes vulcânicas negras, matizadas de ocre, estendiam-se para lá do alcance do feixe de luz.

A palma de uma mão empurrou-lhe o meio das costas, não lhe permitindo outra escolha.

– Segue o Henrik – ordenou Iscariotes.

Elizabeth pegou-lhe firmemente na mão.

– Vamos juntos.

Tommy inspirou fundo para se acalmar, assentiu e deu um passo em frente, depois outro. Era como se ultrapassavam os tempos difíceis: seguindo em frente.

Atrás dele, Iscariotes falou ao strigoi que pilotara o helicóptero.

– Os outros que estejam atentos. Eles que vigiem os túneis atrás de nós. Não devemos ser perturbados.

Com essa ordem final, Iscariotes prosseguiu, com o segundo guarda-costas no seu encalço. Tommy apercebeu-se de que nunca soubera o nome desse outro, não que isso provavelmente importasse. Pressentia que não voltaria a ver o céu.

Uma vez a uma distância razoável dentro do estreito túnel, Elizabeth retirou o véu e as luvas e puxou para trás o capuz do seu manto. Uma das traças flutuou-lhe para o cabelo, enleando as suas minúsculas patas por um instante, depois afastou-se de novo.

Ela não pareceu importar-se.

Mas Tommy importava-se, reconhecendo a ameaça implícita do captor.

Para se acalmar e distrair, contou as traças, observando as subtis diferenças entre elas. Algumas eram mais pequenas, uma tinha uma longa cauda, uma outra tinha partículas de ouro fundidas com o tom de esmeralda.

... nove, dez... onze...

Havia provavelmente uma dúzia, embora não encontrasse a última para chegar a esse número certo.

Elizabeth fazia correr os dedos pela parede, os seus olhos estudando as passagens laterais que entrecruzavam o caminho seguido e as cavernas cegas que se abriam, a intervalos. Era um labirinto subterrâneo. Tommy lera sobre o mito de Teseu na escola, sobre o seu duelo contra o Minotauro no labirinto de Creta.

Que monstros se esconderiam ali?

Elizabeth devia estar a pensar numa história diferente. Ela fitou Iscariotes, mais atrás.

– Na Eneida de Virgílio, o herói Eneias vem a Cumas e fala com a sibila, que o conduz ao mundo dos mortos. O caminho por onde seguimos, agora, assemelha-se bastante ao descrito nesse livro.

Iscariotes moveu o braço num gesto circular, como que abarcando todo o monte vulcânico.

– Ele cita, igualmente, uma centena de caminhos em direção a esse poço, o que tendo em conta este monte picado e escavado e túneis, é provavelmente verdade.

Ela encolheu os ombros, mudando de tom como se declamasse um poema:

– «Suave é a descida até ao Inferno; toda a noite, todo o dia, as portas do escuro Hades estão abertas; mas para refazer esse caminho, para voltar ao doce ar do Céu, impõe-se uma luta, impõe-se um fardo.»

Iscariotes bateu palmas.

– É verdadeiramente a Mulher Sábia.

Apesar do elogio, a inquietação ensombrava os olhos argênteos de Elizabeth. Uma cintilante traça cinzento-esverdeada pousou de novo no seu cabelo negro e Tommy estendeu a mão para a afastar.

– Não – advertiu ela. – Deixa-a estar.

Ele retirou a mão.

Enquanto continuavam, cada vez mais fundo, a ramificação de túneis diminuiu, até alcançarem uma longa passagem íngreme, tão empestada de enxofre que Tommy teve de tapar a boca e respirar através da manga. A temperatura também aqueceu, as paredes tornaram-se húmidas. Tommy ouviu o eco de água a correr.

Por fim, a passagem terminou, desembocando num largo rio subterrâneo. Borbulhava e fumegava, uma fonte geotérmica quente. Os olhos de Tommy ardiam do enxofre, as suas faces queimavam do calor.

– Parece que chegámos ao rio Aqueronte... ou talvez ao Estige... ou outro dos inúmeros nomes na história do homem – comentou Elizabeth. – Mas, ao que parece, aqui não é necessário barqueiro.

– Efetivamente – confirmou Iscariotes.

Um arco de rocha transpunha o rio, conduzindo, do outro lado, a uma caverna escura.

Tommy fitou Elizabeth, subitamente aterrorizado com a perspetiva de atravessar. Os pelos dos braços arrepiaram-se, o coração martelando-lhe aos ouvidos.

Henrik agarrou-lhe bruscamente o braço na base da ponte, preparado para o arrastar para o outro lado, se necessário.

Elizabeth empurrou o corpulento homem para trás, como se fosse um mosquito.

– Não permitirei que o rapaz seja maltratado.

Os olhos de Henrik dardejaram de fúria, mas manteve-se recuado, ao obter um aceno de confirmação Iscariotes para obedecer.

Uma outra traça pousou em Elizabeth, desta vez no ombro, as suas asas roçando-lhe a orelha. Ela recusou reconhecê-lo, mas Tommy entendeu a mensagem.

Ou atravesso ou ele mata Elizabeth.

Engolindo o terror, Tommy encaminhou-se pela ponte, flanqueado de um lado por Henrik, do outro por Elizabeth. Deslocava-se lentamente pela ponte de pedra escorregadia do vapor, tossindo do enxofre, semicerrando os olhos do calor. Água negra, semelhante a petróleo, borbulhava e rebentava, revolta e agitada.

Elizabeth seguia ao seu lado, como se passeasse por um jardim, a postura ereta, o queixo erguido. Ele tentou emular-lhe a confiança, a fria elegância, sem conseguir. Assim que avistou o outro lado da ponte, apressou-se para diante, feliz por escapar ao rio ardente.

Por momentos, estava sozinho, todos os outros para trás, mesmo Henrik com a sua lanterna. À sua frente, o espaço negro como breu cheirava estranhamente a flores, o seu perfume penetrando o fedor sulfúreo.

Curioso, foi mais longe, querendo descobrir a fonte.

Henrik e os outros apanharam-no, finalmente. O corpulento homem dirigiu a sua lanterna para cima, revelando um teto arqueado de rocha vulcânica, densamente coberto de fuligem. As paredes continham diversos suportes de ferro segurando frescos feixes de junco. Alguém preparara o lugar.

– Acendam as tochas – ordenou Iscariotes.

Henrik e o comparsa começaram a incendiar os feixes embebidos em alcatrão, cada qual partindo numa direção, revelando gradualmente mais da vasta caverna. Outros túneis partiam dali.

Tommy recordou a descrição de Iscariotes dos cem caminhos para o Inferno.

No centro da câmara havia uma imponente pedra negra, ligeiramente enviesada mas polida, disposta como um olho negro a fitá-lo de volta. Tinha dificuldade em encará-la, pressentindo algo de malévolo nela.

O seu olhar deslizou para lá da pedra até ao lado mais distante, à medida que as últimas tochas eram incendiadas.

O que descobriu aí, atado a uma argola de ferro na parede, foi uma mulher envergando uma túnica branca. A sua pele era morena e macia, os ossos malares salientes. Longo cabelo negro derramava-se sobre os arredondados ombros desnudos. A luz das tochas refletia-se de um fragmento de metal, suspenso em torno do seu pescoço.

Ao contrário da pedra negra, os olhos de Tommy não se conseguiam desviar dela. Mesmo do outro lado da câmara, o olhar dela fixava-o, atraindo-o para mais perto, cativando-o, como um sussurrar do seu próprio nome pronunciado com todo o amor do mundo.

Iscariotes deteve-o, com um toque no ombro. Passou adiante de Tommy, para encarar a mulher do outro lado do fosso da câmara, mas a tristeza na sua voz fez o abismo soar mais infinito e impossível de transpor.

– Arella.

 

06h58

Judas estacou junto da pedra de altar, incapaz de se aproximar mais dela. Tinham passado séculos desde que a vira pela última vez em carne e osso. Por um instante, considerou esquecer tudo e correr para ela, implorando o seu perdão.

Ela ofereceu-lhe essa via, agora.

– Meu amor, ainda há tempo para impedir tudo isto.

Uma traça esvoaçou diante dos olhos dele, quebrando o poço de olhar escuro com asas de esmeralda. Ele recuou um passo.

– Não...

– Todos os séculos desperdiçados, em que podíamos ter estado juntos. Tudo para servir este obscuro destino.

– Depois do regresso de Cristo, podemos passar a eternidade juntos.

Ela fitou-o tristemente.

– Aconteça o que acontecer, nunca será assim. O que fazes está errado.

– Como pode ser? Nos séculos que se passaram, após a tua revelação do meu desígnio, recolhi pedaços e fragmentos de outras profecias para compreender o que devia fazer, como trazer ao mundo o Armagedão. Procurei áugures de todas as idades e cada um deles confirmou o meu destino. Contudo, só quando soube do rapaz, deste imortal tão semelhante, porém tão diferente de mim, recordei algo que tu me mostraste, meu amor. Uma das primeiras predições, antes de fugires do meu lado. Eu tinha-o esquecido, considerara-o de pouca importância.

Ele voltou-se para o Primeiro Anjo.

– Depois, veio este rapaz prodigioso.

– Tu vês as sombras que eu lanço e pronuncia-las como reais – contrapôs ela. – Elas são apenas um caminho, uma sombra de possibilidade. Nada mais. São as tuas ações obscuras que lhes dão corpo, que as imbuem de significado e peso.

– Está certo que o faça, mesmo pela mais ínfima possibilidade de trazer Cristo de volta.

– No entanto, construíste tudo isso na tua mente apenas, baseando todos esses atos nas profecias que roubaste de mim. Como poderia algo de bom advir de tal quebra de confiança?

– Por outras palavras, um ato de traição. – Ele sorriu, quase vacilando com as primeiras palavras dela, mas agora libertado. – Pois eu sou o Traidor, não vês? O meu primeiro pecado levou ao perdão de todos os pecados, com a morte de Cristo na cruz. Agora, pecarei de novo para O trazer de volta.

Ela fraquejou contra a parede, desnudando as correntes que a prendiam, claramente reconhecendo a determinação nele.

– Então, porque me prendeste aqui? Só para me atormentar, forçando-me a assistir?

Por fim, Iscariotes encontrou forças para chegar até ela. Inspirou a fragrância do lótus, da pele que outrora beijara e acariciara. Estendeu a mão e tocou-lhe a clavícula nua, ousando tal violação com apenas um dedo.

Ela inclinou-se para ele, como que para o persuadir com o corpo, onde as palavras tinham falhado.

Em vez disso, ele deslizou o dedo para a volta do seu colar de ouro e fechou o punho em torno dele, fazendo oscilar o fragmento de prata entre os seus seios perfeitos.

Os olhos dela dardejaram, inundados de entendimento e horror. Ela afastou-se, comprimindo as costas contra a parede.

– Não.

Ele puxou com força e quebrou a corrente. Recuou com o prémio, deixando o ouro deslizar por entre os dedos, até segurar apenas o fragmento de prata.

– Com esta lâmina, posso matar anjos e revolver os próprios céus.

Ela voltou-se para Tommy, mas as suas palavras eram para Judas.

– Meu amor, tu não sabes nada. Moves-te na escuridão e chamas-lhe dia.

Às palavras dela, Judas virou costas e caminhou para o rapaz, preparado para cumprir o seu destino.

Por fim.

 

07h04

Elizabeth viu Iscariotes agarrar Tommy por um braço e arrastá-lo bruscamente para a pedra negra, no centro da câmara. Ela sentia o manto de malignidade em torno do altar negro, tão denso que mesmo o chão de pedra por baixo parecia incapaz de suportar o seu peso sacrílego, abrindo-se numa dispersão de pequenas fendas.

Tommy gritou, não se querendo aproximar.

O seu apelo incendiou algo dentro dela. Lançou-se para diante, disposta a libertá-lo.

Antes que pudesse dar dois passos, ouviu uma ordem sussurrada a ecoar dos escuros túneis que desembocavam ali, apontando para mais uma aranha naquela teia obscura, alguém mantido oculto até ao momento. A voz pareceu-lhe familiar, mas antes que o pudesse ponderar, quatro figuras – duas de cada túnel de ambos os lados – irromperam diante dela, revelando as presas.

Strigoi.

Eram bestas imponentes, de peito nu e tatuado com blasfémias. Exibiam cicatrizes e pedaços de metal voluntariamente espetados na carne. Formaram uma parede entre ela e Tommy.

Para lá deles, Iscariotes arrastava o rapaz para a pedra negra. A sua superfície enviesada estava polida dos muitos corpos aí sacrificados. Uma ligeira concavidade fora cavada junto da base, onde milhares de cabeças tinham repousado, descobrindo as gargantas ao teto.

Impelido pelo terror, Tommy arrancou-se ao aperto de Iscariotes. Sabia o que lhe ia ser exigido. O rapaz não era ingénuo.

– Não. Não me obrigue a fazer isto.

Iscariotes manteve-se afastado e ergueu os braços, o pedaço de prata cintilando à luz das tochas.

– Eu não te posso obrigar. Tens de fazer este sacrifício de tua livre vontade.

– Então, escolho não o fazer.

Elizabeth sorriu perante a sua tenacidade.

– Deixa-me persuadir-te – disse Iscariotes.

As restantes traças caíram sobre Elizabeth, na face, na prega do pescoço, várias nos braços e ombros.

– Num segundo, matá-la-ão – asseverou Iscariotes. – O seu sangue ferverá. Ela morrerá em agonia. É isso que escolhes?

Elizabeth compreendeu, repentinamente, que Iscariotes não lhe pedira para cuidar do rapaz para o manter calmo, mas para conquistar o seu coração, de modo a que a pudesse usar como arma. Para seu horror, percebeu quão bem se encaixara na armadilha.

Os olhos de Tommy encontraram os seus.

– Não o faças por mim – disse, friamente. – Não significas nada para mim, Thomas Bolar. Nada além de diversão, algo com que brincar antes de devorar.

Ela mostrou-lhe as presas.

Tommy encolheu-se com as suas palavras, ao ver os dentes. Porém, os olhos nunca se desviaram dos dela. Manteve o olhar fixo nela por um longo momento, depois voltou-se para Iscariotes.

– O que quer que eu faça? – perguntou Tommy.

Maldito sejas, rapaz.

Ela semicerrou os olhos sobre a parede de strigoi diante de si, calculando a sua força jovem contra a dela. Pesou quanto tempo levariam os ferrões a matá-la. Conseguiria libertar Tommy a tempo? Os seus ouvidos apurados detetaram um arrastar de passos do lado do rio ardente, atrás de si.

Mais strigoi espreitavam nos túneis do outro lado.

Tommy nunca conseguiria escapar para o exterior sozinho.

– Deita-te nesta pedra – disse Iscariotes. – É tudo o que tens de fazer. Eu farei o resto e ela viverá. Prometo-te isso.

Quando o rapaz avançava, ela gritou-lhe de novo:

– Tommy, podemos não sair deste lugar com vida, mas isso não significa que tenhamos de nos submeter à vontade dele.

Iscariotes riu, um riso vindo do fundo.

– Vocês, mulheres Bathory! Se alguma coisa aprendi, foi que as vossas alianças são tão volúveis como o vento.

– Então, o meu sangue é verdadeiro!

Elizabeth girou para o lado, o seu vulto um borrão. Rasgou a garganta de Henrik, antes que ele a pudesse ver. Os outros strigoi atiraram-se a ela, o mais próximo agarrando-lhe o braço. Ela arrancou-lhe o membro do encaixe, atirando-o para o lado. Dois outros saltaram alto e esmagaram-na contra o chão. Ela lançou-se contra eles, conseguindo repeli-los um passo, mas outras bestas irromperam dos túneis vizinhos e prenderam-lhe os braços e as pernas.

Ela debateu-se, mas sabia que era inútil.

Falhara – não apenas por não libertar Tommy, como também por não morrer. Com a sua morte, Iscariotes não teria mais domínio emocional sobre Tommy. O rapaz poderia recusar-se.

Iscariotes devia ter adivinhado a intenção dela.

Observou uma traça arrastar-se pela sua face, depois erguer-se suavemente nas delicadas asas e afastar-se.

Ele precisava dela viva.

 

07h10

– Chega! – gritou Tommy, encarando Iscariotes. As lágrimas caíam-lhe pelo rosto. – Faça o que tem a fazer!

– Sobe à pedra – foi-lhe ordenado. – De costas. A cabeça na extremidade mais baixa da laje.

Tommy avançou para a pedra negra, cada célula do seu corpo gritando-lhe para fugir, mas subiu à rocha e torceu-se para se deitar de costas, o pescoço repousando numa concavidade na base do altar – e soube que era um altar.

Abaixo da cabeça, uma larga fenda negra exalava um cheiro a enxofre, mais intenso do que o próprio rio. Os pulmões comprimiram-se em revolta. Lágrimas quentes corriam nas suas faces. Virou a cabeça o suficiente para encontrar Elizabeth.

Ele sabia que ela não compreendia. Ele vira o pai e a mãe morrerem nos seus braços, o sangue jorrando-lhes da vista – enquanto ele sobrevivera, curado do cancro. Não podia permitir que outro morresse novamente em agonia, em seu lugar. Nem mesmo para salvar o mundo.

Ela fitou-o, uma lágrima solitária rolando-lhe dos olhos furiosos.

Também ela não conhecia a bondade no seu íntimo. Ele reconhecia que ela era um monstro como aqueles que a prendiam, mas algures lá no fundo, algo mais radioso ainda existia. Embora ela ainda não o visse.

Iscariotes ajoelhou-se ao lado dele e lançou uma rede de corda sobre o seu corpo, segura nas pontas por pesadas pedras. Prendeu as extremidades a anéis de ferro cravados no chão. Feito isso, Tommy já não se podia mexer, com apenas a cabeça liberta.

Inclinado com as pernas para cima, o sangue escorria para baixo, tornando-lhe o rosto mais rubro.

Iscariotes colocou uma mão fresca sobre a sua face.

– Fica em paz. O teu ato é um ato bom. O teu valioso sacrifício proclamará o regresso de Cristo.

Tommy tentou encolher os ombros.

– Sou judeu. Que me importa? Acabe com isso.

Quis soar corajoso, desafiante, mas as palavras saíram-lhe num sussurro forçado. Um relampejar feriu-lhe os olhos, quando o fragmento de prata, roubado da mulher, foi levantado alto. A luz das tochas refulgiu ao longo da borda afiada. Tudo o resto na caverna se desvaneceu, à exceção da pequena lâmina.

Iscariotes inclinou-se sobre o seu ouvido.

– Isto pode doer e...

Espetou a lâmina no pescoço de Tommy, antes mesmo que este se pudesse preparar para isso. Embora talvez fosse esse o objetivo, para lhe poupar dor.

Falhara.

Tommy gritou, enquanto o fogo o lancetava, irradiando por todo o seu corpo. O sangue escorria-lhe para a garganta, derramando-se escaldante como magma. Contorceu-se e arqueou-se debaixo da rede, com fúria suficiente para arrancar uma das extremidades. Torceu a cabeça e viu o seu sangue derramar-se pela pedra, pela borda e cair na fenda escura em baixo.

Gemeu de uma dor que se recusava a abrandar.

A visão estreitou-se ao seu redor, a escuridão inundando os cantos. Ele queria esse esquecimento, escapar àquela pira de agonia. Debaixo das costas, sentiu a pedra estremecer. O chão de pedra estalou.

Ao longe, Iscariotes exaltou em voz retumbante:

– Os portões foram abertos! Tal como predito!

A mulher aprisionada retorquiu, a sua própria voz repelindo uma ponta da sua dor:

– Ainda há tempo de mostrares misericórdia. Podes pôr termo a isto!

– É tarde demais. Quando todo o seu sangue tiver sido derramado nas profundezas, ninguém lhe poderá pôr termo.

Tommy sentiu-se afundar na escuridão – até perceber que a escuridão se erguia para o reclamar. Uma bruma negra brotava da fenda em baixo, envolvendo-o no seu abraço escuro, rodopiando à sua volta como uma criatura viva. A cada gota vertida do seu sangue, mais escuridão se erguia e fluía para o mundo.

Ele fitou a fonte, vendo a fenda debaixo de si rasgar-se. Recuou para a câmara em Massada, para uma outra fenda rasgando a terra, para outro fumo a erguer-se das profundezas.

Não... outra vez, não...

Depois, o chão estremeceu – tal como antes – sacudido por grandes abalos, com violência suficiente para derrubar montanhas. O rio fervente jorrou das margens numa imensa fonte, lançando-se alto e voltando a esmagar-se no fundo. Durante tudo isso, um tremendo troar foi subindo cada vez mais de intensidade, cobrindo o mundo e explodindo.

Tommy deixou que se derramasse sobre ele – até restar apenas silêncio e escuridão.

Depois, partiu.